Aldeia Histórica de Sortelha (Sabugal) (***)
Junho 3, 2010 por Castela
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A 760 metros de altitude, eis Sortelha, uma das mais belas aldeias de Portugal, passando a Porta da Vila, a que o povo chama de entrada, viajamos no tempo e detemo-nos num pequeno povoado de traçado medieval, empoleirado num cerro. Sortelha é uma emoção aos sentidos e é indiscutivelmente uma das aldeias mais belas de Portugal.
O granito serviu de apoio para todas as suas construções: casas, igrejas, castelo, cerca defensiva, passando pelo empedrado das ruas estreitas, aqui e ali rasgadas na rocha, em permanente desnível. Toda a povoação se encontra rodeada de uma duradoura muralha medieval e a malha urbana adapta-se maravilhosamente à irregularidade do relevo.
Desconhece-se a origem do topónimo, havendo polémica em redor de quatro hipóteses- escolha o leitor a que mais lhe apraz.
Primeira: a denominação deriva de um anel, Sortija ou Sortela, utilizado num jogo medieval, no qual os cavaleiros tentavam enfiar a sua lança.
Segunda: Segundo Viterbo, linguista, sortel é um anel de pedras com poderes especiais usado por feiticeiras e magos.
Terceira: O aglomerado urbano fortificado tem traçado oval.
Quarta: Para Marcos Osório, o topónimo poderá derivar da palavra medieval Sorte, pequena parcela agrícola.
Breve Historial de Sortelha
A origem de Sortelha é dúbia e perde-se na voragem do tempo. Curiosas são as intrigantes fossetes, provavelmente antropogénicas, na pedra altaneira que suporta o campanário. Também a Cabeça de Velha, belo monólito ciclópico e as “Pedras do Beijo”, aparecem com inúmeras marcas a relembrar a litolatria de outros tempos.

Na freguesia encontram-se vários vestígios das idades do Bronze e do Ferro bem como materiais romanos. A peça mais conhecida é a ara romana dedicada a Vordio Talaconio-uma divindade, teónimo de Sortelha, consagrada por um M(arcus) C(ornelius) O(?) ou M(arcus) C(aecilius) O(ptatus) (Osório, 1999) descoberta num muro da Igreja da Nossa Senhora das Neves.
Em 1181 o Rei Dom Sancho I, povoou o espaço e em 1228, o seu neto, Dom Sancho II, dá-lhe o primeiro foral que é reconfirmado pelo rei Lavrador, mas a sua obra mais importante foi o castelo.
Dom Sancho II promove ainda a construção do castelo de Sortelha, imprescindível não só para a defesa da Vila, mas sobretudo para defender a fronteira com Castela, que se situava no rio Côa.
É no tempo do rei Venturoso que é renovado a carta de foral e beneficiado o Castelo, é edificado pelourinho, a casa da Câmara e cadeia. Dom João III, eleva a vila medieval a condado em favor de Luís da Silveira, Guarda-mor do Rei, cujo corpo repousa na Igreja matriz de Góis num notável túmulo da renascença (*); o condado é extinto em 1617; no reinado deste ridículo Rei, dá-se a transferência e construção intra-muros da igreja matriz, sob a invocação da Nossa Senhora das Neves substituindo antiga igreja matriz de São João, situada extra-muros. A muralha e o castelo voltaram a ser reconstruídos durante a Guerra da restauração. Em 1855 o Concelho foi extinto, passando para a vila do Sabugal. Em 1910 o seu Castelo é considerado Monumento Nacional. Em 1991, depois de esquecida e quase moribunda, foi considerada Aldeia Histórica e depois recuperada ao abrigo daquele programa.
O Castelo de Sortelha é Monumento Nacional (*)
Quando em Portugal, queremos referenciar um dos paradigmas de vila medieval fortificada, de imediato nos aparece Sortelha. Poderá ter sido a volta do seu Castelo, que cresceu o povoado que se protegeu com uma cerca e algumas torres que, nalguns casos, protegem entradas flanqueando-as.
A cidadela que é construída no século XIII é belíssima, com a sua espectacular torre de menagem assenta em afloramentos graníticos ciclópicos a uma altura de 800 metros.
Acede-se ao seu recinto interior através de uma porta fortemente protegida por um belo balcão de matacães (Varanda de Pilatos ou do Juiz, na designação popular), por onde se lançava o que era possível e eficaz sobre os assaltantes. No interior, deste típico castelo roqueiro do século XIII, tudo é didactismo medievo: a pura Cisterna, a inacessível Torre de Menagem, com entrada elevada, as seteiras, a porta falsa, o afeiçoamento das muralhas aos barrocos…
Apenas nos séculos seguinte se constrói a cerca da vila, com os moradores a alijarem-se dentro dela. O eixo principal é a rua da Fonte, que começa no largo do Curro (onde se faziam touradas a vara) e que continuando depois pela rua Direita, une a Porta Nascente ou Porta do Sol à Porta Poente, virada para a Serra da Estrela e por onde segue uma bem conservada calçada medieval, na sua ombreira encontram-se gravadas as medidas do comprimento (vara e côvado) utilizados pelos mercadores medievais. No exterior desta entrada distendem-se vestígios de antigos monumentos desmantelados (Igreja de São João da Cruz, Hospital da Misericórdia). Outros imóveis de valor são: o pelourinho com esfera armilar, a Casa da Câmara e a igreja matriz (com tecto mudéjar) que estruturam um povoado com pequenos largos ao longo da rua axial referida.
A paisagem então é um deslumbramento comovente: granítica, selvática, rude…distante
A beleza de Sortelha é muita, nos seus singelos edifícios graníticos, no seu castelo pequeno, esbelto e incorrompido, na miríade de pormenores aos sentidos e as vistas abrangentes de formas empolgantes. Esta Aldeia Histórica de Portugal é um estímulo a contemplação e meditação.
Texto de Júlio Gil, retirado do livro “As Mais Belas Vilas e Aldeias de Portugal”-Editorial Verbo
“Ao redor a pedra granítica domina a paisagem, dando pouco lugar a limitadas manchas de centeio e pequenos soutos apertados por barrocos. Lá para baixo os, os verdes do vale estreito. Sobre uma escarpa vertical, dominador, romântico, o castelo.
Pela única encosta praticável foi crescendo Sortelha, com o seu solar e casas graníticas (e alguma de cara mais moderna, menos típica). É o “povo” como chamam a este bairro extramuros. Para cima, seguindo a estrada romana (que é medieval -nota do autor) aqui e ali ainda bem identificável, entra-se pela muralha na “vila”, zona primitiva de sabor medieval, protegida, agarrada ao castelo.
Aqui não há grandes casas- mesmo as brasonadas são de dimensão modesta e tocante simplicidade, perfeitamente integradas num conjunto de excepcional valor decorativo devido ao indiscutível valor desta gente. Em cada momento se encontram motivos de graça e espírito – uma porta, uma pequena escada, um brasão, um altar, o Pelourinho…Da praça entramos directamente no castelo, numa sequência de identidades que não permite entender-se quem inspirou a quem, tal a harmónica integração de formas.
À beira do Pelourinho- com um arco no capitel, relacionado talvez com o topónimo Sortelha, que significaria “anel”-ergue-se um sino sobre o beirado da Junta de Freguesia, velha casa da Câmara, deliciosa e sóbria arquitectura de reduzidas dimensões, parapeito lajeado na varanda de entrada, lojas semienterradas, miúdas vidraças nas janelas de guilhotina. Domina o encantador largo para o qual também se volta outra antiga fachada de idêntico carácter. A austeridade arquitectural da igreja matriz contrasta com o seu precioso tecto múdejar e mais com o decorativismo barroco do altar-mor 1.
Aqui não admira que o primeiro conde de Sortelha, Luís da Silveira, guarda-mor de Dom João III, tenha sido militar intrépido, mas também poeta do Cancioneiro Geral (e está sepultado num notável moimento renascentista (*) em Góis- dizemos nós).
Se tudo na povoação é espantosamente sóbrio e severo, acrescentando ainda por mais sobriedade e severidades neste cerco de fragas mulltiformes – onde nem faltam perfis que estimulam a identificações, caprichos graníticos -, tudo é também paradoxalmente terno, acolhedor, lírico”.
Texto de José Saramago- Viagem a Portugal – Editorial Caminho, 1981
“De Belmonte (**) vai o viajante a Sortelha por estradas que não são boas e paisagens que são de admirar. Entrar em Sortelha é entrar na Idade Média, e quando isto o viajante declara não é naquele sentido que o faria dizer o mesmo entrando, por exemplo, na Igreja de Belmonte (2), donde vem. O que dá carácter medieval a este aglomerado é a enormidade das muralhas que o rodeiam.
A espessura delas, e também a dureza da calçada, as ruas íngremes, e, empoleirada sobre pedras gigantescas, a cidadela, último refúgio de sitiados, derradeira e talvez inútil esperança. Se alguém venceu as ciclópicas muralhas de fora, não há-de ter sido rendido por este castelinho que parece de brincar”.
Texto de Alexandre Herculano-Apontamento de Viagem, 28 de Agosto de 1853- Círculo de Leitores.
“Visita à vila contida dentro da cerca. Calçada que sobe por entre ela do arrabalde:à direita rochedos enormes sobrepostos uns aos outros; à esquerda despenhadeiros para um valeiro profundíssimo, entra-se a porta da cerca: à esquerda fica o castelo edificado sobre picos de rocha: é um pequeno recinto de forma oblonga: a vila fica em anfiteatro para a direita numa altura superior ao castelo: o muro que a cerca é torreado e vem prender com o do castelo: o agregado de penedias sobrepostas umas à outras em que este assenta é semelhante a um pão de açúcar: tem penedos de mais de três braças de alto. Sobre a porta um balcão com um buraco para lançar matérias inflamáveis, etc. Ficamos no arrabalde: à noite tomo notas. Na ombreira de uma das portas da cerca a medida de vara e côvado”.
Notas minhas:
1- Infelizmente a igreja encontra-se fechada ao público. Das duas (ou três vezes) que estive em Sortelha nunca tive ocasião de visitar o interior do templo.
2- Refere-se à Igreja de Santiago, panteão dos Cabrais (**)
Créditos Fotográgicos: As fotografias foram amavelmente cedidas pelo excelente site de fotografia: matarbustosfotografias




