Praça-forte de Almeida (Aldeia Histórica de Portugal) (***)
Junho 27, 2010 por Castela
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Praça-forte de Almeida (Aldeia Histórica de Portugal)
Sabia que…a fortaleza de Almeida é uma lição em pedra da arquitectura militar barroca e é também um espaço de imensa evocação histórica?
Esta fortaleza é a mais monumental das nossas praças de armas abaluartadas. Outras praças-fortes notáveis de Portugal, na mesma tipologia e que se encontram candidatas a Património Mundial da Humanidade são: Valença do Minho (**) e de Elvas (***).
Indico apenas alguns números impressivos, para que não cesse o seu desejo de aqui vir e testemunhar uma das mais pungentes e melhor conservadas relíquias militares da Península Ibérica. A profundidade do fosso alcança doze metros com a largura mínima de 10 m, e máxima de 62 m. A área total da Praça é de 650000 metros quadrados e o seu perímetro é de 2500 m.
A fortaleza de Almeida é uma magnífica obra-prima da Engenharia Militar barroca
A praça-forte de Almeida em vista área é uma estrela monumental com doze recortes (seis baluartes e seis revelins), não muito simétricos.
“Como em todas as praças do tipo Vauban, o polígono é geometricamente recortado em reentrâncias e saliências angulares agudas, que obedeciam aos princípios estabelecidos de enfiamento e cruzamento de tiro de táctica do século XVII e XVIII. Os taludes de terra assentam em muros aparelhados de granito, de leve inclinação.
Cada ângulo do polígono remete para o exterior, em forma de lança, o baluarte e que em Almeida são 6: São Pedro, Bandeira, do Trem, de Santa Bárbara, de São João de Deus e de São Francisco. Em face das cortinas e entre cada par de baluartes, erguem-se como pequenos fortins insulares, acessíveis pelo fosso, os revelins (da Cruz, da Brecha, de Santo António, do Paiol, Doble e dos Amores)”1.
O acesso da Praça faz-se, por duas portas duplas (São Francisco e Santo António), colocadas em revelins, abertas em túnel, com abóbadas à prova de bomba e que ostentam as armas reais. Apesar de terem uma austeridade castrense não estão isentas de beleza.
Nos relvados delicados do fosso entre revelins e baluartes, pastam pequenos rebanhos e brincam os rapazitos da vila. A toda a volta o planalto indefinido, que a norte encontra a muralha quartzítica da Marofa (*). É uma paisagem tranquila e rica de encantos, principalmente na Primavera, quando as searas ondulam. Aquela serena amplidão verde, contrasta com as cruéis batalhas do passado que avassalaram Almeida.
Um pouco de história de Almeida
A colina de Almeida terá sido provavelmente um povoado proto-histórico romanizado com ocupação constante até aos nossos dias.
A povoação árabe chamava-se Talmeyda, que significava mesa, exprimindo bem a topografia da sua implantação, em constaste com a altaneira Marofa, ao fundo, que nessa mesma língua significava “guia”.
Fadada para sofrer guerras, passou várias vezes de mão sarracenas a cristãs, e vice-versa. E mesmo nas mãos de cristãos as compitas continuaram, desta vez entre leoneses e portugueses. O inevitável Dom Dinis assegurou a sua posse definitiva em 1297 pelo tratado de Alcanices.
Dom Manuel I ordenou novas ampliações na fortaleza e a remodelação do castelo manuelino, arrasado por uma explosão em 1810. As escavações arqueológicas, puseram em evidência as suas ruínas, com o seu enorme fosso. O castelo era belíssimo, como se pode constatar pelos desenhos de Duarte de Armas e esteve envolvido na sua reforma o genial arquitecto do Mosteiro da Batalha (*****), Mateus Fernandes.
Mas foi a partir da Guerra da Restauração que a praça foi sendo (re) construída até aos finais do século XVIII.

Quem quiser conhecer uma praça fortaleza, tem tudo aqui e quase intacto: Baluartes, revelins, fossos, monumentais muralhas, hospital de sangue, canhoerias, plataformas, flancos de bastião, túneis abobadados, portas à prova de Bomba, quartéis, paióis, depósitos, forjas, oficinas, casamatas, edifícios de Estado-Maior…
A terrível explosão de Almeida em 26 de Agosto de 1810
Foi constante a participação da Praça-Forte de Almeida, nas campanhas da Restauração seiscentistas e nas guerras napoleónicas.
Aqui está uma pequena história como exemplo. Massena quis iniciar a 3ª invasão francesa com vitória prestigiosa e veio assaltar Almeida. Estabeleceu cerco e na madrugada de 26 de Agosto de 1810 abriu fogo. Ao fim da tarde, dois projécteis caíram no velho Castelo sobre pólvora deixada no chão, que serviu de rastilho. A terrível explosão arrasou parte da vila, a igreja matriz e o Castelo medieval e matou cerca de 500 pessoas e abriu várias brechas na muralha. Ainda prosseguiria a resistência até à tarde do dia seguinte, mas por fim a praça capitulou.
No século XIX, durante o período das lutas liberais (1832-1834), mais uma vez a localidade é palco de confrontos pela posse desta Praça. Esta transitou entre Absolutistas e Liberais, servindo as Casamatas de prisão para 1500 presos políticos. Só em 1927 a fortaleza deixou definitivamente de ter funções militares.
Já não se ouvem agora rufares de tambores, ritmos de marchas de parada, gritos feéricos ou o ribombar dos canhões, mas os baluartes de Almeida são ainda um bastião da nossa nacionalidade, que nos deve recordar de sobremaneira para aquilo que não podemos perder – o orgulho de sermos portugueses…E “Alma até Almeida”.
Almeida é uma das doze Aldeias Históricas de Portugal e pretende candidatar-se a Património Mundial da Humanidade, numa candidatura transfronteiriça conjuntamente com outras praças-forte do tipo Vauban. A candidatura simboliza a recente fraternidade entre os dois povos e faria acrescer o fluxo turístico.
Candidatura das Aldeias Históricas de Portugal (região centro) a Património Mundial da Humanidade
A candidatura simboliza a recente fraternidade entre os dois povos e faria acrescer o fluxo turístico espanhol a Almeida.
Uma outra hipótese que me ocorre, será candidatar todo o conjunto das doze Aldeias Históricas beirãs, incluindo Almeida, a Património Mundial da UNESCO, e relacioná-las com uma das mais antigas fronteiras entre nações da humanidade. Seria uma enorme mais-valia para todo o interior de Portugal; a candidatura teria à força de um todo nacional. O turismo é uma das tábuas de salvação de toda esta belíssima região.
A Vila de Almeida
O conjunto inserido dentro do sistema de fortificações, é uma estrutura ordenada e mesmo regular de ruas direitas e largos bem abertos e definidos. É um vasto conjunto harmónico de edifícios do século XIX com influência castrense, na sua rígida geometria de formas e que tem sido muito bem restaurado ao abrigo do programa das Aldeias Históricas. Entre os edifícios intramuros destaco: o Quartel das Esquadras, os alicerces do antigo castelo manuelino, a Pousada, a Casa da Roda, o Picadeiro de El´Rei e os edifícios dos Paços do Concelho (Antigo Quartel da Artilharia). Nas casamatas foi inaugurado recentemente um Museu Histórico-Militar.
A literatura e Almeida
Entre os muitos romances relacionados com Almeida aconselho dois: Lillias Fraser de Hélia Correia, provavelmente o melhor ou as aventuras de Sharpe no quinto volume, “SHARPE E O OURO. A Destruição de Almeida.1810”, óptimas aventuras de literatura ligeira de Bernard Cornwell.
Antes de terminar, quero dizer aos leitores que já elegi o meu lugar para meditar em Almeida, e no meu caderno de viajante, tirei alguns apontamentos que me serão úteis nestas humildes “entradas”.
É no baluarte de Santa Bárbara, também conhecido como Praça Alta; pequena plataforma lajeada de uma bateria com algumas árvores que me fazem sombra. Escuto algumas aves, a primavera está próxima. Medito sobre a condição humana e diálogo com o falecido John Beresford nas batalhas napoleónicas de 1812.
- Como explicas caro tenente, que toda a arquitectura militar, exerça sobre mim, o mais pacífico e pacifista cidadão, tão estranho fascínio?
Respondes-me por intermédio de Lord Byron, teu conterrâneo- “Depois do sofrimento e horror, que culminou na minha morte, a beleza renasceu e envolveu-nos”.
Créditos fotográficos: Um agradecimento especial ao amigo José Luís Mendes por me ter cedido a fotografia a preto e branco.


Caro amigo Carlos.
Tal como te disse consultei o teu trabalho de investigação à borla. Estás de parabéns. Espero que continues a divulgar as belezas do nosso interior – afinal também somos Portugal. Saudações fraternas.
BALTAZAR
Excelente artigo sobre uma fortaleza notável.
Parabéns
Gostei muito da forma como o senhor escreveu sobre Almeida visto que é uma vila histórica muito bonita; porém creio que devia ter falado de outras belezas da nossa vila, como, o picadeiro D’El Rey, um dos “monumentos” mais bonitos de Portugal. Poderia também ter falado da Quinta da Barca, é uma propriedade privada mas se de certo que se falasse com o Sr. António de Sousa Junior (proprietário), ele não se importaria de lhe contar um pouco da história do antigo convento dos frades (actual Quinta da Barca).
Com os melhores agradecimentos,
Teresa
Parabéns, Carlos por retratar Almeida.
O texto e as fotos enaltecem a grandiosidade da aldeia. Obrigado tb por contribuir para a divulgação do Interior que bem precisa, pois é recheado de beleza e história.
O blog da Aldeia andou por terras de Idanha. Venha lá espreitar. E aproveite para tomar um cálice de vinho do Porto ou ler histórias das vindimas.
Cumprimentos
Lena
Amigo Angel o seu magnífico blog é de visita obrigatória. Obrigado pelas palavras.
Amigas Lena e Teresa Diniz obrigado pelas palavras. Já visitei várias vezes os vossos blogs e até o da aldeiadaminhavida já tem um artigo nosso sobre Cidadelhe.
Amiga Teresa a correcção já foi efectuada. Obrigado pela informação.