Aldeia Histórica de Castelo Rodrigo (**)- Cristovão de Moura herói ou traidor?
Outubro 21, 2010 por Castela
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Ao entardecer, Castelo Rodrigo, vista do topo da serra da Marofa é uma povoação muito bela, situada num monte destacado boleado, com a cerca defensiva com as suas torres circulares a reflectirem tons doirados, vermelhos, castanhos e amarelos; e em seu redor, campos que na primavera são eivados de um verde húmido, muito fértil.
É uma povoação classificada como Aldeia Histórica e que foi requalificada recentemente.
Um bocadinho da história de Castelo Rodrigo, apenas espero que não enfade
D. Afonso Henriques conquista Castelo Rodrigo aos muçulmanos em 1170, ano em que funda o convento de Santa Maria de Aguiar, mas volta a perder a praça pouco depois.
As muralhas foram provavelmente reconstruídas por Afonso IX, rei de Leão, em 1209, quando cria o concelho a partir de um provável castro romanizado. Castelo Rodrigo deve, hipoteticamente o seu topónimo ao conde Rodrigo Gonzalez Giron, que repovoou a região antes do início da nacionalidade.
Teve também ocupação moura, como atesta, o raro e esbelto, poço-cisterna com um arco gótico e outro mourisco e uma estranha inscrição islâmica numa habitação ou ainda nos torreõs semicirculares (que alguns autores julgam ser trabalho muçulmano).
A cerca defensiva de Castelo Rodrigo constitui um dos mais exemplares sistemas fortificados medievais peninsulares, remontando as torres cilíndricas ao período de vigência do gótico. Actualmente, a fortificação apresenta extensos panos da antiga muralha, treze torreões e três portas (a Porta do Sol, a Porta da Alverca e a Porta da Traição
A povoação só foi integrada, de forma definitiva, no território português após o tratado de Alcanices em 1297. Dom Dinis mandou levantar grossas muralhas envolvendo o casario e erguer possante castelo de muralhas ameadas, torreões, grande torre de menagem, fossos e barbacã galgando rochedos. Todas estas estruturas são ainda visíveis na bela gravura de Duarte de Armas, mas o tempo, e principalmente a actividade humana desgastou todo este conjunto.
Apesar de degradada, Castelo Rodrigo ainda mantém algumas portas da cerca, vários cubelos semicirculares, vários imóveis dos séculos XV e XVI, a Igreja de Nossa Senhora de Rocamadour (fundada em 1192, para assistência dos peregrinos que se dirigiam para Santiago de Compostela) com os tectos classificados como Imóvel de Interesse Público, o cruzeiro da Independência, o pelourinho, o já referido poço-cisterna ou ainda as ruínas do palácio de Cristóvão Moura.
Pelo apoio que o alcaide deu a causa de Dona Beatriz e ao reino de Castela, o brasão de armas de Castelo Rodrigo é invertido e a localidade perde a sua jurisdição para Pinhel.
Deste tempo existem na localidade vivências judaicas; na rua da Sinagoga existem inúmeros símbolos mágico-religiosos de Cristãos Novos. Castelo Rodrigo foi um dos postos de entrada dos judeus expulsos pelos reis Católicos.
D. Manuel I mandou reedificar o castelo em 1500, concedendo foral a Castelo Rodrigo em 1508
Em defesa de Cristóvão Moura o filho mais ilustre de Castelo Rodrigo
Cristovão Moura era filho do alcaide de Castelo Rodrigo e foi criado na corte de espanhola, tornou-se o secretário íntimo do jovem rei Filipe II de Castela e foi grande obreiro da coroação do seu amigo como rei de Portugal.
Se para alguns foi um traidor, para outros- e onde eu me incluo- foi um salvador da nosso modo de estar, perpetuando-se através da sua diplomacia, muito da nossa independência (a moeda, as cortes, a bandeira…e acima de tudo a paz; porque é óbvio que o Império Castelhano tomaria pelas armas o nosso reino enfraquecido pela desaire na batalha de Alcácer Quibir).
O Rei Filipe, agora I de Portugal, ofereceu-lhe Castelo Rodrigo, como cabeça de Condado e depois Marquesado. Cristóvão de Moura foi ainda Vice-rei de Portugal e construiu um imponente palácio maneirista, sobre o castelejo da povoação, e que o furor popular destroçou na restauração da Independência, como acto de revolta contra este amigo íntimo do rei usurpador. Actualmente por toda a banda estou rodeado de potenciais Cristóvãos de Moura, admiradores do reino de Espanha – inclusive familiares e eles não deixam de ser boas pessoas!
Agora que o leitor amigo se sentou no seio do paço derruído de Cristóvão de Moura que tire a sua própria conclusão. Mas também não deixe de reparar na beleza da paisagem, e de alguns locais notáveis que o reclamam. Tenho ainda que o lembrar na vitória de Pedro Jacques e de Castelo Rodrigo na Batalha das Salgadelas em 1644.
Castelo Rodrigo, devido à sua posição estratégica, esteve sempre no cerne da disputa entre Espanha e Portugal. Mais um exemplo é dado por um facto que ocorreu em 1664: a povoação foi cercada pelo duque de Osuna e conta lenda que apenas 150 homens contra mais de quatro mil aguentaram a guarnição até à chegada de auxílio, obrigando de seguida o Duque de Osuna a fugir mascarado de frade.
Com o fim das guerras da restauração, Castelo Rodrigo começou a perder importância. Em 1836, a rainha D. Maria II passaria a sede de concelho para Figueira de Castelo Rodrigo.
Observe agora a magnífica paisagem (*), com o campo de batalha das Salgadelas, o Mosteiro de Santa Maria de Aguiar (*), a albufeira (*) do mesmo nome e no pequeno outeiro a norte, a Torre de Amofala (*), vestígio pagão do templo romano dedicado a Júpiter da civitas de Cobelcorum ou no lado oposto a crista quartzítica da Marofa.
Mas antes de sair atravesse de novo as vielas sinuosa, cheias de carácter e observará que aparte alguns cães a deambular, não se vê vivalma. E, no entanto, a quietude não é agigantada e não se instala, antes permite a ideia de paz e de que Castelo Rodrigo é um santuário ao ar livre de bem-estar.
Créditos fotográficos: Leonel Santos Lopes

