Conjunto de edifícios pombalinos de Vila Real de Santo António (*)- Obra do iluminismo português
Outubro 25, 2010 por Castela
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“Fundada entre 1774 e 1776 por expressa vontade do Marquês de Pombal para centro das Reais Pescarias do Algarve, Vila Real de Santo António é uma jóia representativa da arquitectura pombalina do século XVIII português(1).
Criada, a partir do zero, Vila Real de Santo António surge-nos como uma urbe nascida do alto, por vontade e artifício do poder.
Antes do lançamento da primeira pedra tudo era um ermo. Os treze mil e quinhentos metros cúbicos de aterros para escoamento das águas pluviais irão calibrar o terreno onde a futura povoação se há-de erigir, no local denominado Barranco.
Santo António de Arenilha, uma bem provável póvoa marítima medieval que D. Manuel I promovera a vila por volta de 1513, já havia sido tragada pelas águas do oceano ao finalizar a centúria de seiscentos, deixando um vazio populacional ainda maior face a Espanha.
Cacela, anterior sede do concelho, despovoara-se paulatinamente, habitando os seus moradores por quintas e fazendas.
Monte Gordo, entretanto, atraíra grande número de catalães, maiorquinos, andaluzes e outros estrangeiros que, exercendo aí uma sazonal mas desenfreada actividade piscatória, haviam-se apropriado das riquezas dos seus mares, fugindo ao fisco quanto podiam.
Castro Marim, após as Guerras da Restauração, perde a importância militar e “desactiva” o estatuto de principal praça-forte do Algarve. Este é o cenário à entrada do último quartel do Século das Luzes.
E, se a ele aduzirmos o marasmo a que chegara a actividade agrícola, o incipiente comércio efectuado por nacionais agora na completa dependência de súbditos ingleses, e a impossibilidade de obstaculizar o desmedido contrabando que esta zona fronteiriça albergava, numa época em que as remessas de ouro do Brasil se contraiam cada vez mais, teremos focado os principais motivos que impeliram Sebastião José de Carvalho e Melo a mandar edificar a nova Vila Real.
Importante obra Iluminista do Marquês de Pombal
A razão principal da construção da urbe é, assim, a erecção da Alfândega (então retirada a Castro Marim). Ela é símbolo da poder de Pombal. Aqui começava terra portuguesa, logo aqui se cobrariam os réditos do pescado retirado às águas de Monte Gordo.
A traça urbanística, que tem a sua expressão máxima na antiga Praça Real (que hoje leva o nome do Marquês) e nas ruas circundantes, faz de Vila Real de Santo António um paradigma do urbanismo e arquitectura do período iluminista”. (2).
O objectivo do levantamento da Vila foi o de controlar o comércio neste importante ponto de fronteira e desenvolver as pescas, que mais tarde fariam surgir a indústria conserveira na região. Apesar de actualmente a localidade ser caótica e disforme, o seu centro histórico não deixa de ser notável, com o traçado geométrico a lembrar a baixa lisboeta. Ao todo são 190 edifícios da época pombalina, alguns ainda originais, todos eles executados com grande elegância e mestria. Pressente-se aqui o sentido do espírito iluminista.
O delineamento da praça, o centro nevrálgico da obra pombalina, deve-se ao arquitecto principal da corte, o capitão Reinaldo dos Santos. O imponente obelisco, referente ao Rei Dom José, tem a data do ano de 1775, mas só foi exposto ao público a 13 de Maio de 1776.
Todo o conjunto pombalino “…exibe ainda hoje o sereno equilíbrio do seu formulário clássico. Centrado na praça de dimensões quadradas (72,60 X 72,60 m), que inclui a Câmara Municipal e a igreja Matriz, com o pavimento irradiante convergindo no obelisco central, e moldurado pelos 4 torreões nos seus extremos. Igualmente a frente marginal deste conjunto, deitando sobre o Guadiana, apresenta a série de frentes de quarteirão de coberturas simples amansardadas, com uma construção elementar mas de uma monumentalidade obtida pelo conjunto, que remata em dois torreões, a norte e a sul, ligeira e subtilmente sobrelevados, de cobertura tipo pombalina (duas águas desiguais). O torreão Sul, recuperado recentemente, alberga o arquivo histórico”. (3)
De traçado quadrangular esta praça é calcetada a portuguesa, com um motivo radial em preto e branco, tendo como centro o obelisco referido.
A doca de recreio, virada para o rio Guadiana, com as embarcações garridas, apesar de nos turvar a paisagem, não deixa de ser uma obra importante para a região, e só por isso compreensível.
O espírito construtivo dos portugueses é notável, quando bem presididos e se tivéssemos tido um ror de bons dirigentes recentes, Portugal estaria mais próspero e menos injusto. Citando o nosso maior poeta ” um fraco rei, faz fraca a forte gente” mas dêem-me autorização para adaptar a frase ao meu conceito de mundo – um forte Rei torna forte a fraca gente.
As palavras do obelisco fazem-nos compreender o sentimento do rei absoluto para com os seus vassalos e lembrar aos políticos actuais que o objectivo final de uma boa governação é o da “felicidade pública”, presente e futura.
O Marques ficaria aterrado com a cidade, em que se transformou Vila Real de Santo António. Lembremos as palavras do primeiro viajante atento e aplicamo-las às obras do Marquês: “Que as obras dos Homens e os seus feitos memoráveis não caiam nunca no esquecimento”; assim escreveu Heródoto no preâmbulo das suas (nossas) histórias.
A EL REY D JOSÉ I
AUGUSTO INVICTO PIO
RESTAURADOR
DOS ARTISTAS DAS LETRAS
DO COMMERCIO DA AGRICULTURA
REPARADOR
DA GLORIA E FELICIDADES PUBLICA
CLEMENTISSIMO PAI DOS SEUS VASSALOS
PROTECTOR DA INNOCENCIA
VINGADOR SUPREMO DA OPPRESSAÕ
CONSERVADOR DA PAZ PUBLICA
E INIMIGO DA DISCORDIA
O COMMERCIO DAS PESCARIAS
DESTA VILLA REAL DE S. ANTONIO
LEVANTADA EM CINCO MEZES PELAS
SUAS REAES PROVIDENCIAS E DECRETOS
QUE COM TODO OZELLO EXECUTOU
O MARQUEZ DE POMBAL,
DA INUNDAÇAÕ DO OCEANO EMQUE
SECULOS ANTES ESTEVE SUBMERGIDAERIGIO ESTE OBELISCO
PARA PERPETUO PADRAÕ DOSEU
HUMILDE E IMMORTAL RECONHECIM
ANNO DE 1775
Nota – Citação do obelisco da Praça do Marquês de Pombal em Vila Real de Santo António.
(1)- A par do da Baixa pombalina de Lisboa (**)
(2)-Texto integral do site Minha Terra
(3)-Fernandes, José Manuel; Janeiro, Ana- Arquitectura no Algarve dos primórdios à actualidade, uma leitura de síntese, CCDRAlg, 2005





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