Wednesday, February 8, 2012

Aldeia Histórica de Castelo Mendo (Almeida) (**)-Ainda garbosamente resistente e bela

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Aldeia Histórica de Castelo Mendo (Almeida)

Se deseja conhecer uma antiga vila medieval fortificada, bem preservada deve dirigir-se a Castelo Mendo. Está situada numa região ignota de Portugal. No entanto situa-se junto a principal via- na A25- que nos liga a Espanha, mas estranhamente é pouco visitada.
Assente num esporão rochoso, sabe-se que foi um povoado proto-histórico romanizado antes de ser vila medieval.
Castelo Mendo tem dois núcleos distintos, ambos muralhados. O mais antigo é formado pelo castelejo com a igreja de Santa Maria, a cisterna e a casa da Câmara (que foi também tribunal, cadeia e é actualmente o museu local).
A muralha (Monumento Nacional) mais externa foi mandada fazer pelo Rei Dom Dinis e é de estilo gótico, aqui está implementado o núcleo habitacional mais recente, com um traçado irregular, ruas medievas, com as habitações repartidas em torno das Igrejas de São Pedro e São Vicente.
Das seis portas da cerca, ainda existem quatro- Sol, Falsa (entaipada), da Guarda, e da Vila. Não fique espantado com a reduzida dimensão de Castelo Mendo, hoje é aldeia, mas na Idade Média tinha dimensão suficiente para ser uma vila importante.
Antes de entrar na Aldeia pela porta principal, repare na paisagem e no minguado amoreiral, que tem muito que se lhe diga. A Porta da Vila é gótica, flanqueada por duas torres quadrangulares, que tem base dois monumentos da cultura pré-romana.
Os Berrões mágico-religisosos da idade do Ferro
É um admirável casal de zoomórfos graníticos (porcos ou javalis), figuras religiosas pagãs, com curiosas “covinhas mágicas”, datados de IV aC.; reparai que os seus “focinhos estão cortados “por se atemorizarem as bestas que nelas faziam reparo”. Também nas arribas de Santo André, no concelho de Figueira de Castelo Rodrigo (*) existem outros dois “berrões” e  na região transmontana ou ainda em inúmeras localidades castelhanas; os berrões são típicos da cultura do povo Vetão, vizinhos dos Lusitanos. Não se sabe ao certo quando se inicia a ocupação de Castelo Mendo, mas é certo que lá esteve este povo da idade do Ferro. Que deuses e rituais seriam estes? Que símbolos materializavam estes zomórficos, teriam significado tutelar? Castelo Mendo foi posteriormente um povoamento romanizado.

Castelo Mendo 300x246 Aldeia Histórica de Castelo Mendo (Almeida) (**) Ainda garbosamente resistente e belaHistória da Castelo Mendo do foral até a distinção de Aldeia Histórica
O foral de D. Sancho II foi lançado em 15 de Março de 1229. As terras pertenceriam a Mendo Mendes, que seria um importante Senhor; o mesmo não só assina esta carta de foro, como vem a ser o seu primeiro alcaide. A vila foi considerada couto de homiziados, o que significa que aqui se poderiam estabelecer livremente os perseguidos da justiça, desde que cumprissem determinadas regras.

Neste mesmo foral Dom Sancho II, manda ocupar o topo do cabeço com os homens mais importantes, o que se depreende que já existiria uma povoação um pouco mais abaixo. Mais uma vez aqui existe a lenda de que povo de baixo teria fugido para um local mais alto devido a um ataque de formigas- quantas vezes é que ouvimos esta lenda, em diversas localidades do País? Qual o seu significado? Porque estes insectos não seriam capazes de tal feito! Não seriam povos atacantes que vistos de longe e do alto pareceriam formigas? Mas adiante que o texto já vai longo e Castelo Mendo tem muito para ler, ou melhor, para contemplar.
Dom Dinis também foi importante para Castelo Mendo, renovo-lhe o foral e reconstruiu as muralhas que foram ampliadas com o perímetro que lhe conhecemos hoje e instituiu uma Feira Franca anual na Devessa. A estrutura fortificada que hoje vemos é essencialmente do século XIII, no entanto foi sendo sucessivamente actualizada até ao século XV.

castelo mendo 2 300x196 Aldeia Histórica de Castelo Mendo (Almeida) (**) Ainda garbosamente resistente e belaRelembro-lhe que do outro lado do rio Côa, e até à assinatura do tratado de Alcanices em 1297, habitavam os inimigos leoneses e por isso Castelo Mendo ocupava uma posição estratégica na fronteira de Portugal.
Castelo Mendo deixou  de ser sede de concelho em 1855, com a reforma liberal e a partir desta data, decaiu. Mas se pensarmos bem, a decadência já era anterior; deste modo se pode explicar que Massena, importante general de Napoleão Bonaparte, teve que enfrentar uma  feroz guarnição de 19 homens sitiados na aldeia- uma farturinha de gente!
Ao abrigo do programa das Aldeias Históricas, Castelo Mendo foi relativamente bem restaurado, apesar de ainda existirem alguns pontos degradados (a Porta do Sol, a Porta Falsa entaipada, a calçada medieval ou romana, alguns trechos da muralha e a Casa do Fidalgo).
Intra-muros vai encontrar diversos valores arquitecturais medievos, edifícios dos séculos XVI e XVII, o antigo hospital da Santa Casa da Misericórdia, marcas da peregrinação a Santiago de Compostela, casas de cristãos novos, pelourinho- o mais alto das beiras- um pequeno museu local, que foi o antigo tribunal, cadeia e câmara (tem algumas peças romanas -moedas, moinhos, fíbulas, pontas de projécteis, o jogo do moinho, a Menda e o Mendo…), três igrejas (duas delas com restos de tectos mudéjares), para além de alguns apontamentos interessantes do reduto defensivo (muralhas, torres, portas e o castelejo) e recantos castiços espalhados por ruas medievais com  belos panoramas em pano de fundo. Entre agora na muralha mais interna de Castelo Mendo, e pare ao pé do museu e antes de passar pela antiga porta de Dom Sancho II repare na Menda e no Mendo.
A Paixão de Menda e Mendo
São duas figuras lendárias, talvez enamorada e petrificadas, por qualquer castigo cometido. O Mendo está incrustado na parede do museu e a segunda num edifício em frente. Ninguém sabe a sua origem. Mas que o seu amor é quase eterno, lá isso é.
Agora está dentro da muralha interna, com as ruínas da Igreja de Santa Maria, com uma capela com tecto mudéjar, com as ruínas da cidadela, repare-se na cisterna, na porta do Castelinho e na paisagem.
Porque morreu Miguel Augusto de Sousa Mendonça Corte Real?
Dentro da muralha interna, apenas pode escutar o som do silêncio, do vento ou da passarada. No chão pedregoso ergue-se, entre malmequeres e papoilas, o túmulo de Miguel Augusto de Sousa Mendonça Corte Real, oficial assassinado pelos seus homens no dia 12 de Setembro de 1840. Qual a razão de tão trágico destino? Mas ao menos, está num lugar onde todos nós desejaríamos repousar.
Devessa de Castelo Mendo
Mas os encantos não terminam quando saímos de novo pela Porta dos Berrões, pois devemos reparar neste belo prado que se espraia a nossa frente. Devessa é o local de pastagem dos animais, que assim não entrariam nas localidades.

Na Devessa, ainda hoje se pode ver o Alpendre da Feira e vários chafarizes que prestavam apoio à Feira e aos habitantes da povoação. A Fonte Nova foi mandada construir pelo rei Dom Dinis e as Memórias Paroquiais de 1758 referiam as suas águas como medicinais; encontra-se semi-encerrada e selada. Para além dos fontanários, a Devessa tem também um pombal, o calvário, a capela do cemitério e várias amoreiras centenárias.
Sericicultura-uma importante indústria medieval na região de Castelo Mendo
Trata-se de um comovente amoreiral primitivo e talvez a sua plantação remonte ao ano de 1472 no reinado de Dom Afonso V; pois este pediu a todas as comarcas que plantassem 20 pés de amoreira ou eventualmente as enxertassem em pé de figueira
Esta região com as localidades de Castelo Mendo, Amoreira, Pinhel, Almeida, Vila Nova de Foz Côa e Castelo Rodrigo  foi um dos três principais centros produtores de seda de Portugal.
Durante algum tempo as mulheres cuidavam dos ovos do bicho-da-seda como se fossem filhos. Colocavam-nos em sacos de camurça e usavam-nos ao peito até as crisálidas nascerem e o fio da seda era extraído dos casulos.
O “fio de luxo” nascia assim numa região agreste. Para os produtores locais ficava a seda de qualidade inferior, chamada “maranhos”, resultado dos casulos rasgados pelas crisálidas.
Gostaria de ver criado um museu nacional da sericicultura na devoluta Casa do Fidalgo- inclusive com produção artesanal de seda e tecido; mas aqui falta gente, restaurante, alojamento, loja de artesanato. Gostaria ainda, que mais amoreiras fossem plantadas nas ruas, pracetas e jardins das localidades da região.
Antes de abalar, estacione o automóvel no alto da estrada e não deixe de observar a beleza solitária de Castelo Mendo, no seu todo, e parta com a impressão que a localidade merece o seu regresso. É uma das pérolas esquecidas de Portugal e estranhamente junto a maior fronteira terrestre portuguesa e que poderia ser o cartão-de-visita de Portugal, mas em Castelo Mendo, quase só existe silêncio, recordações e beleza.
Boa Viagem !
Agradecimentos: ao Rui Meca pela maravilhosa fotografia.

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