Cascata Pedra da Ferida (Penela) (*)- A chaga de beleza singular
Março 10, 2011 por Castela
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Apesar de Portugal Continental ser território de contrastes morfológicos não temos muitas cascatas notáveis. Lembremo-nos num repente das seguintes: Pêgo do Inferno (Tavira) (*), Pulo do Lobo (Mértola) (*), Fraga da Pena (Arganil) (*), Cabreia (Sever do Vouga) (*), Frecha da Misarela (**), Arado (Terras do Bouro) (*), Fisgas de Ermelo (Mondim de Basto) (*), outras ainda há que merecem a nossa estrelinha, mas dediquemo-nos a mais bela cascata do distrito de Coimbra- a Cascata da Pedra da Ferida na freguesia do Espinhal no concelho de Penela, na ribeira da Azenha, cuja visita é sempre para nós um motivo de gáudio.
A origem da Cascata Pedra da Ferida
A cascata da Pedra da Ferida deve a sua origem ao relevo de dureza causado pela existência de rochas corneanas (rocha mais dura) a montante em relação a rochas xistosas (rocha mais branda) a jusante. Esta diferença de dureza litológica originou um conjunto de pequenas cascatas que materializam o declive brusco da ribeira da Azenha neste sector. Apenas mais duas notas antes de mudarmos de parágrafo: as corneanas existem devido ao pequeno corpo granítico que intruiu na região (granito de Vila Nova) e que originou uma aureola de metamorfismo; que a cascata maior, não é assim tão minorca, porque atinge os 25 metros.
A partir da vila do Espinhal existe sinalizção de como lá chegar, depois de abandonar a estrada alcatroada vai passar por um sobreiro de grande porte e vai seguindo a margem direita da ribeira da Azenha, continue de carro, o caminho vira a esquerda e suba a encosta de carro devagarinho, se não desejar amolgar o seu carrinho deixei-o cá em baixo, eu sigo sempre porque tenho pés de chumbo, e zás, passando a curva mais apertada, atingimos um pequeno largo, a partir daqui a estrada de terra batida dá lugar a um caminho pedestre húmido e sinuoso.
Comecemos agora a caminhar a pé e repare que a flora é exuberante e rica, por momentos pensamos que estamos na Mata da Albergaria (***), no Geres: são amieiros, salgueiros, ulmeiros (estes ameaçados de extinção), carvalho-negral, castanheiros, azevinhos, fetos-reais, hipericão do Geres e principalmente loureiros…- talvez até a imagem de uma levada na ilha da Madeira, seja mais correcta do que a imagem das matas do serra do Gerês, mas adiantemos porque se faz tarde. Também o homem aqui fez várias azenhas e pisões de água e aqui e além espalhados encontram-se as duras mós; as azenhas abandonadas são sempre para nós lugares românticos e lembram-nos a antiga labuta do moleiro, fundamentais no provecto ciclo do pão, quando o Homem ainda interagia positivamente com a natureza.
Ao fim de algumas centenas de metros, passamos a ribeira da Azenha por uma ponte recente em madeira e começamos a subir por uma tosca escadaria e assim atingiremos as primeiras quedas de água mais pequenas e por fim a maior, a cascata da Pedra da Ferida emerge imponente e sedutora, misto de respeito e admiração, que tomba arrebatada, da altura de 25 metros, tendo construído um enorme poço e edificando outro mais pequeno a jusante daquele – atenção amigos a humidade permanente torna a caminhada muito escorregadia, mas paciência e cuidado, tendo em conta que as melhores coisas são aquelas que são mais difíceis de alcançar.
A cascata está associada a alguns devaneios de juventude que aqui não cabe contar, porque está reservado aos íntimos e porque o leitor me acharia demente; posso até parecer, mas é infundado tal pensamento, porque que sou um quase doido com juízo, enfim carvalho não dá morcela.
Na estrada nacional 347 entre o Espinhal e Castanheira de Pêra existe um miradouro que ajuda a contemplar esta dádiva ainda incólume da natureza.
Um dia voltaremos mais uma vez, recorremos sempre, a “Pedra da Ferida, cascata/Mistério de água pura/ A água nunca lá seca/ A ferida nunca se cura”, trauteiam os espinhalenses com fundamento.




