Torre e ponte gótica de Ucanha (Tarouca) (***)-A mais bela ponte de Portugal
Março 9, 2011 por Castela
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É uma região que recomendo vivamente num passeio sereno com bons monumentos, bons pitéus e melhores paisagens. É nessa região que fica a mais impressiva ponte de Portugal: a Torre e Ponte gótica de Ucanha. Lá iremos.
Fiquemo-nos por ora com o texto de José Saramago sobre o vale do rio Varosa.
“O sítio é de uma beleza suavíssima, sucedem-se as cortinas de árvores, por toda a parte se esgueiram estreitos caminhos, é como se a paisagem fosse feita de sucessivas transparências, em todo este percurso de pé-coxinho que o levará a Ucanha, a Salzedas, a Tarouca e a São João de Tarouca, sem dúvida alguma uma das mais belas regiões que o viajante tem encontrado, por todo um equilíbrio raro, de espaço e cultivo, de habitação de homens e morada natural”.
O escritor foi assim conhecer de acordo com a ordem apontada no texto anterior os seguintes locais notáveis: igreja matriz de Ferreirim (antiga igreja do mosteiro) (**), a Ponte de Ucanha (***), o convento de Salzedas (*), a igreja matriz de Tarouca (*) e o mosteiro de São João de Tarouca (**). À excepção da igreja de Ferreirim que se situa no concelho de Lamego, os restantes locais notáveis assentam no concelho de Tarouca.
A mais bela ponte medieval de Portugal
Se na idade média muitas pontes com torres fortificadas foram erguidas, quase todas desapareceram; no entanto em Portugal ainda existe a ponte de Ucanha que está em óptimo estado de conservação e a ponte de Sequeiros (*), já aqui descrita, situada no concelho do Sabugal cuja torre apenas pouco mais tem que o assentamento. A Torre e Ponte de Ucanha são uma jóia única do Património Nacional e é a mais bela ponte medieval de Portugal.
Um pouco de História da Ponte de Ucanha
O Clérigo D. Fernando, 12º abade do mosteiro de Salzedas, filho bastardo de um irmão de D. Nuno Álvares Pereira, mandou erguer, em 1465, a ponte e a torre sobre o rio Varosa. Mas muito provavelmente o abade apenas reedificou uma construção anterior. Para seu gáudio e perpétua glória, que a vaidade a tanto obriga mandou fazer uma cartela com a inscrição gótica que ainda lá está: “Esta obra mandou fazer Dõ Fedo Abble de Salzedas e DM M / III.º L X V «era domini».
A ponte situa-se a entrada do antigo couto de Salzedas, que tem um muito famoso e degradado mosteiro. Em quase todos os textos que lemos sobre a ponte aparece-nos sempre o dito do filho mais ilustre de Ucanha-José Leite de Vasconcelos, que refere que a edificação desta ponte prende-se com três razões: defensivas, já que protegia a entrada do couto monástico; simbólicas, pois constituía uma evidente demonstração do poder senhorial dos abades de Salzedas; e económicas, pois permitia assegurar uma eficaz cobrança de direitos de portagem. Nos alvores do século XVI, foram extintos, por determinação geral de D. Manuel, os direitos de portagem.
A Torre de Ucanha
A torre é um paralelepípedo com 20 m de altura e 10 m em cada lado da base, divide-se em três andares. O primeiro com frestas; no segundo em duas faces abrem-se duas graciosas janelas geminadas em arco ogival; o terceiro que seria de atalaia (Vigia) tem 4 matacães, apoiados em 3 modilhões.
Por debaixo da torre recorta-se um arco formando um túnel abobado por onde circulavam as pessoas e as suas mercadorias.
Do lado da povoação, o arco tem encimado um nicho com a imagem da Nossa Senhora
Ao longo dos anos a torre deve ter tido várias funções: arrecadação das portagens, serviu de defesa, como se verifica pelas características do terceiro piso, foi talvez mansão senhorial, castelo solarengo e pode ter sido utilizado como celeiro conventual. Hoje está transformado num pequeno núcleo museológico local.
A Ponte de Ucanha
A ponte apresenta um tabuleiro em cavalete, resguardado por alto parapeito formado por silhares bem aparelhados. Assenta em 5 arcos ogivais, robustecidos a montante por talha-mares. O arco central, muito mais amplo que os restantes tem um vão de grande dimensão.
As pedras deste tão belo monumento estão quase todas sigladas, o que lhe confere autenticidade e nos faz a absorver a imaginação em relação aos traços dos canteiros medievais.
Outros aspectos de nada despicientes de Ucanha
Ucanha vale também a sua visitação, não apenas pela ponte que só por si, é o maior motivo, mas também por outras razões: pela povoação com carácter que se organiza linearmente ao longo da via que parte da ponte, numa estrutura urbanística que denuncia a sua origem; pelo rio Varosa que ainda caudaloso neste sector permite a existência de moinhos de água, dois deles junto à ponte, pela bela praia fluvial e pelo belo cenário de original formosura, sob um pano de fundo fresco, colorido e verdejante; pela sua igreja matriz, que construída na primeira metade do século XVII e se exteriormente pouco tem de ver, o seu interior é muito belo com a sua nave coberta por caixotões pintados com cenas bíblicas e pelo seu retábulo principal, em artística talha dourada trabalhada, já no estilo barroco-a igreja matriz deveria ser classificada; e por Ucanha ser a localidade onde nasceu José Leito de Vasconcelos, um dos maiores vultos culturais de todos os tempos em Portugal, e que se norteava pelo rigor, sossego, grandeza e rectidão.
“Formado em medicina, consagrou-se integralmente às ciências sociais, com tese defendida na Universidade de Paris, França. Bibliografia imensa (mais de 1.200 títulos), seus estudos, que abrangem a história e a arqueologia, a epigrafia e a numismática, na Etnografia ou na Filosofia assinalam rumos, conformam a pedra angular e constituem o alicerce da ciência moderna em Portugal. Fundador da Revista Lusitana e do Museu Etnológico português (digo eu, hoje Museu Nacional de Arqueologia (****) em Lisboa), conferencista, pesquisador, pela investigação teórica ou nos trabalhos de campo sua enorme capacidade e autoridade moral acenderam, de forma imorredoura, a luz da contemporaneidade em sua pátria”2.
A sua obra imortal, para além do museu, talvez seja As religiões da Lusitânia, de uma actualidade que surpreende pela capacidade genial do seu autor.
Bom turismo cultural, amigo leitor!
Fontes:
1- Viagem a Portugal- José Saramago
2-http://www.thesaurus.com.br/livro-na-rua/acervo/jose-leite-de-vasconcelos/




