A “rentrée” no Cabo Espichel (Sesimbra) (**)

E nós também tentaremos lá estar no dia 10 de Setembro, porque realmente o Cabo Espichel em Sesimbra é um espaço magnífico. Antigo promontório Barbárico, terminal da serra da Arrábida, foi provavelmente atraído por cultos religiosos ancestrais e ainda hoje é alvo de verdadeiras romarias turísticas, infelizmente o poder central tem desleixado este ex-libris do nosso património. Eis o notável artigo de Maria Lurdes do Valle publicado no Diário de Notícias.
“Não percebo esta mania de os líderes partidários escolherem locais sem interesse para, na chamada rentrée política, enviarem recados uns aos outros. Não tenho nada contra Mangualde nem Matosinhos, nem contra o Pontal, mas proponho alguma inovação. Que tal uma aposta nos monumentos nacionais que estão abandonados e que por falta de atenção do Estado apodrecem a olhos vistos? Que tal um grande comício ao ar livre num dos poucos parques naturais que ainda temos intactos para sensibilizar os cidadãos e quem nos governa de que é necessário mais prevenção contra os fogos e uma maior protecção da fauna e da flora? E porque não um grande convívio numa qualquer aldeia do interior em que os seus poucos habitantes têm de se deslocar uma ou duas horas para ir a um centro de saúde ou à escola? Se os grandes gurus da criatividade em política não pensaram nisto, deviam ser despedidos porque já ninguém tem paciência para ameaças de crise por causa do Orçamento do Estado e de acusações de irresponsabilidade de quem é responsável por apresentar as contas bem feitinhas e de aplicar como deve ser o dinheiro de todos nós, que somos os contribuintes. Os que realmente se interessam pelo País afastam-se dos discursos em circuito fechado e agem para resolver os problemas da melhor forma que podem.

Por isso, a “nossa” rentrée vai ser no cabo Espichel. No dia 10 de Setembro, a partir das 18.00, vamos honrar um dos mais belos monumentos que a natureza deu a este país e cujo património arquitectónico está em avançado estado de degradação há várias décadas. A iniciativa partiu de um cidadão que foi juntando voluntários para a sua causa e que conseguiu organizar, com a colaboração de algumas entidades, um festival de música com vários grupos que aceitaram tocar sem receber um euro. O objectivo é simples: olhem para este local e vejam aquilo que aqui poderia ser feito se existisse boa vontade do Estado em reabilitar os sítios com história e com enorme potencial de atracção turística.
Como essa boa vontade não existe, o cabo Espichel é um local abandonado e triste. Dá pena ir àquele belo promontório sobre o Atlântico, envolto em neblina e lendas, marcado por patas de dinossauros, que tem uma ermida do século XV com painéis de azulejos semidestruídos, uma igreja do século XVII (a única recuperada), duas alas de pequenas casas encerradas a cimento que outrora funcionavam como hospedarias dos romeiros, uma mãe-d’água com uma fonte em estilo rocaille da qual já pouco resta, uma casa da ópera que é uma latrina a céu aberto e um aqueduto em ruínas que serve de esconderijo a morcegos e corujas.
Dá pena, mas lá estaremos”.

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