A Barragem do rio Sabor-Vale a pena a sua construção?

A Barragem do rio Sabor-Vale a pena a sua construção?

Já passaram muitos anos e era eu ainda um mero aprendiz de feiticeiro quando fiz a disciplina de Geologia de Campo II nas margens do rio Sabor no concelho de Macedo de Cavaleiros. Para além da complexidade das rochas provenientes das funduras do tempo do Maciço de Morais, relembro a beleza da região, tendo sempre como pano de fundo o belíssimo corredor ripícola do rio, nem sequer sei se a albufeira atingirá esta zona, mas o certo é que alterar ou submergir o rio Sabor, será um crime de lesa pátria.
“O rio Sabor é considerado o último rio selvagem de Portugal devido à ausência de barragens ao longo dos mais de 120 km do seu percurso através de Trás-os-Montes, ao isolamento do seu vale e à grande diversidade de habitats naturais e espécies que aí ocorrem. Contudo, paira sobre este santuário natural o peso da possível decisão de construção de uma grande barragem no seu troço inferior, que submergirá cerca de 50% da extensão nacional do rio.
As razões para impedirmos este verdadeira catástrofe ambiental são:
1 – O Baixo Sabor possui um valor ecológico único e insubstituível. Nesta área ocorre uma flora e vegetação de características ímpares em Portugal, onde se destacam as particulares comunidades associadas aos leitos de cheias. No vale do Sabor surgem também os mais extensos e bem conservados azinhais e sobreirais de Trás-os-Montes, e a presença de substratos calcários e ultrabásicos permite a ocorrência de um elevado número de endemismos. Esta área apresenta ainda uma elevada diversidade de habitats (20 incluídos na Directiva Habitats, dos quais 3 são considerados de conservação prioritária). A importância desta área é atestada pela qualificação de parte do seu troço na Rede Natura 2000.
Ao longo do rio Sabor ocorre uma importante comunidade de aves rupícolas, donde se destaca a presença de espécies como a águia de Bonelli, a águia-real, o abutre do Egipto e a cegonha-preta, facto que motivou a sua inclusão numa Zona de Protecção Especial (ZPE) e numa IBA (Important Bird Area, BirdLife International).
O Vale do Sabor constitui um importante refúgio e corredor ecológico para uma comunidade faunística muito diversificada, onde se salientam espécies como o lobo, o corço, o gato-bravo, a toupeira-de-água e a lontra, e representa o principal local de desova e alevinagem da comunidade piscícola de uma vasta área (desde o Sabor até à albufeira da Valeira no Douro).
O rio Sabor é um dos últimos rios não represados e é provavelmente aquele que se encontra mais próximo do estado natural em Portugal, constituindo o último reduto de um território outrora fértil em rios e paisagens notáveis.

2 – As grandes barragens apresentam impactos demasiado elevados e irreversíveis (e.g. destruição de ecossistemas de grande valor, extinção e redução substancial de espécies de peixes migradores e residentes, respectivamente, contaminação das reservas de água, retenção de sedimentos e nutrientes, etc.), e têm um tempo de vida útil baixo (em média entre 50 e 70 anos), pelo que devem ser evitadas a todo o custo.
3 – Deve ser urgententemente definido e implementado um plano energético nacional que identifique as necessidades do país e proponha um conjunto abrangente de alternativas de produção e gestão energética a médio prazo, abandonando de vez a opção por obras de carácter pontual e pouco relevantes no contexto nacional (a energia produzida por esta barragem contribuiria – na melhor das expectativas – apenas com 0,6% da energia consumida em Portugal!).
Deve ser dada prioridade total à implantação de políticas de incentivo à eficiência energética (Portugal é um dos países com menor eficiência energética de toda a União Europeia!) e às energias renováveis que não contemplem grandes obras hidroeléctricas. É também necessário começar a actuar ao nível da gestão procura de energia, abandonando-se a denominada gestão da oferta, uma vez que aquela é reconhecidamente a que melhor se enquadra numa lógica de desenvolvimento sustentável.
4 – Uma genuína adopção dos princípios subjacentes ao protocolo de Quioto exige que a diminuição da emissão de CO2 em Portugal seja conseguida através da adopção de um conjunto de medidas custo-eficazes já estudadas ao nível da indústria, transportes e habitação, do incentivo às energias renováveis (nomeadamente solar e eólica), à economia de energia e à expansão da rede eléctrica, evitando-se recorrer à construção de novas grandes barragens.



5 – A importância natural do vale do rio Sabor justifica amplamente a sua classificação como área protegida de interesse nacional. Além disso, numa conjuntura internacional cada vez mais favorável a um desenvolvimento local e regional integrado, respeitando e valorizando todas as valências do território, as paisagens únicas deste vale, a sua rica fauna e flora, as excelentes condições do rio para a prática de desportos de águas bravas e o património histórico e cultural associado, constituem recursos valiosos para um turismo de contacto com a natureza e para uma aposta inovadora e inteligente no desenvolvimento sustentável.
Pelo contrário, a construção da barragem do Baixo Sabor significa a destruição irreversível de culturas prioritárias, como o vale de Felgar – uma das zonas mais férteis de toda a província de Trás-os-Montes – onde se produz anualmente cerca de 60.000 litros de azeite de elevada qualidade, e importantes valores naturais e culturais da região, promovendo o abandono progressivo dos territórios rurais, bem exemplificado na vizinha barragem do Pocinho, cuja povoação se encontra em estado de quase abandono e bastante deteriorada.
Texto Publicado no Blog dos Bichos a 5-3-2010

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2 comentários A Barragem do rio Sabor-Vale a pena a sua construção?

  1. Eurico Cardoso says:

    Não se trata aqui de produzir Energia ou não, esta barragem terá um papel de controlo da bacia hidográfica de um conjunto de barragens a ser construido na zona. O impacto da barragem no vale será então aínda pior do que uma barragem normal pois a sua cota sofrerá semanalmente oscilações de vários metros, ou seja, nem pra turismo serve.
    Em relação relação ao curto tempo de duração da barragem, é um problema de segundo plano se pensarmos no controlo que a EDP ganha na região em termos de território, tratam-se de terrenos livres de indeminizações e serão valiosos para o património da EDP. Assistimos assim a uma situação idêntica ao que se passou na Barragem da Aguieira e a toda a polémica posterior.
    O mais chocante é controlo de informação a que a barragem do Baixo sabor está sujeita. vi um programa da Biosfera sobre as consequencias da barragem á 2 anos atrás e mais nada. em contra partida a EDP ataca com “greenwash” acerca da sua produção verde de Energia, patrocina concertos nas barragens, pagam grandes Reportagens dos principais canais para divulgar os benefícios da construção da barragem do Sabor em termos de emprego, enfim, estão dispostos a não deixar acontecer no Sabor o que aconteceu na Foz do Côa.
    R.I.P.
    Sabor Livre

    Eurico

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