CASTELO MENDO (***) (Almeida), Já visitou esta fantástica Aldeia Histórica?

CASTELO MENDO (***) (Almeida), Já visitou esta fantástica Aldeia Histórica?

A descrição feita por José Saramago em «Viagem a Portugal» em 1981 de Castelo Mendo é muito fiel: «A primeira paragem do dia é em Castelo Mendo. Vista de lado é uma fortaleza, vila toda rodeada de muralhas, com dois torreões na entrada principal. Vista de perto é tudo isto ainda, mais um grande abandono, uma melancolia de cidade morta.

Vila, cidade, aldeia. Não se sabe bem como classificar uma povoação que tudo isto tem e conserva.
O viajante deu uma rápida volta, foi ao antigo tribunal, que na altura estava em restauro e só para mostrar as barrigudas colunas do alpendre, entrou na igreja e saiu, viu o alto pelourinho, e desta vez não foi capaz de dirigir palavra a alguém. Havia velhas sentadas às portas, mas em tão grande tristeza que o viajante deu em sentir embaraços de consciência. Retirou-se, olhou os arruinados berrões que guardam a entrada grande da muralha, e seguiu caminho.»
´Castelo Mendo vista geral
Se o leitor deseja conhecer uma antiga vila medieval fortificada bem preservada deve dirigir-se a Castelo Mendo. Está situada numa região ignota de Portugal, na margem esquerda do rio Côa, no entanto situa-se junto a principal autoestrada que nos liga a Espanha, mas misteriosamente é pouco visitada.
Assente numa colina granítica, sabe-se que foi um povoado proto-histórico romanizado antes de ser vila medieval.
Todo o conjunto está classificado como Imóvel de Interesse Público e é uma das doze Aldeias Históricas de Portugal (região centro).
Castelo Mendo tem dois núcleos distintos, ambos muralhados. O mais antigo é formado pelo castelejo com a igreja de Santa Maria, a cisterna e a casa da Câmara (que foi também tribunal, cadeia e é o museu local). Castelo Mendo foi mandada edificar no tempo de Dom Sancho II. Curiosamente as pedras desta muralha não são sigladas.

castela castelo mendo
A muralha mais externa, siglada, foi mandada fazer pelo rei dom Dinis e é de estilo gótico, no seu seio está implementado o núcleo habitacional mais recente, com um traçado irregular, ruas medievais, com as habitações repartidas em torno das Igrejas de São Pedro e São Vicente.
Das seis portas da cerca, ainda existem quatro- Sol, Falsa (entaipada), da Guarda e da Vila.

Não fique o amigo espantado com a reduzida dimensão de Castelo Mendo, hoje é aldeia, mas na Idade Média tinha dimensão suficiente para ser uma vila importante.
Antes de entrar na aldeia pela porta principal, repare na paisagem e no minguado amoreiral, que tem muito que se lhe diga como lerá mais a frente.

 Os Berrões mágico-religiosos da idade do Ferro

Os berrões (verracos) são um admirável casal de zoomorfos graníticos (porcos ou javalis),localizados a entrada da Porta da Vila. São figuras religiosas pagãs, com curiosas “covinhas mágicas”, datados da idade do Ferro, reparai que os seus “focinhos estão cortados “por se atemorizarem as bestas que nelas faziam reparo”, embora exista aqui um cunho de apagamento religioso de uma região pré-cristã, a semelhança do que hoje acontece com as destruições religiosas do Estado Islâmico.

82032552Próximo nas arribas de Santo André, no concelho de Figueira de Castelo Rodrigo (*) existem outros dois verracos, que com os de Castelo Mendo, são os únicos a sul do rio Douro em Portugal. Os verracos encontram-se amplamente distribuídos na região portuguesa transmontana (Ex Pelourinho da torre Donda Chama, Pelourinho de Bragança ou na Porca de Murça) na região de Castela e Leão em Espanha.

Os berrões são figuras religiosas típicos da cultura do povo Vetão, vizinhos dos Lusitanos e que se encontravam colocados a entrada dos povoados (ainda não se tem a certeza de tal afirmação).

Não se sabe ao certo quando se inicia a ocupação de Castelo Mendo pelos romanos, mas é certo que era ocupado na idade do Ferro devido aos seus berrões; não é de todo despiciente consideramos Castelo Mendo como um povoado romanizado. Que deuses e rituais seriam estes? Que símbolos materializavam estes zomórficos, teriam significado tutelar? Castelo Mendo foi posteriormente um povoamento romanizado como se prova pelos seus achados.

Dos povos romanos, sabe-se que aqui estiveram, como atestam os objetos expostos no museu. Dos suevos, visigodos ou habitantes da cultura muçulmana nada se sabe.

ines em castelo em castelo mendoHistória da Castelo Mendo do foral até a distinção de Aldeia Histórica

Para os reis da primeira dinastia tornava-se imperioso ter toda a raia povoada e fortificada. Para o conseguir os monarcas decretaram todo o tipo de privilégios para atrair habitantes. A concessão do foral foi, neste contexto, um dos instrumentos legais mais eficazes.
O foral de D. Sancho II foi lançado em 15 de Março de 1229. As terras pertenceriam a Mendo Mendes (daqui se depreende a origem do seu nome); este mesmo não só assina esta carta de foro, como vem a ser o seu primeiro alcaide.

A vila foi considerada couto de homiziados, o que significa que aqui se poderiam estabelecer livremente os perseguidos da justiça, desde que cumprissem determinadas regras.

Neste mesmo foral Dom Sancho II, manda ocupar o topo do cabeço com os homens mais importantes, o que se depreende que já existiria uma povoação um pouco mais abaixo. Mais uma vez aqui existe a lenda de que povo de baixo teria fugido para um local mais alto devido a um ataque de formigas- quantas vezes é que ouvimos esta lenda, em diversas localidades do País? Qual o seu significado? Porque estes insetos não seriam capazes de tal feito! Não seriam povos atacantes que vistos de longe e do alto pareceriam formigas? Esta lenda é arquétipa e ocorre em vários locais que foram antigos povoados de altura romanizados.
Dom Dinis também foi importante para Castelo Mendo, renovo-lhe o foral e fez uma nova linha de muralhas que foram ampliadas com o perímetro que lhe conhecemos hoje e instituiu uma Feira Franca anual na Devessa. A estrutura fortificada que hoje vemos é essencialmente do século XIII, no entanto foi sendo sucessivamente atualizada até ao século XV.
Pelo mesmo foral, é criada uma feira franca em Castelo Mendo, que se realizaria três vezes por ano. Na Páscoa, na festa de S. João e na de S. Miguel. Cada uma iria durar oito dias e os seus participantes beneficiariam da proteção real durante a sua realização, fossem “credores ou homicidas”. Foi a primeira vez que na documentação oficial surgiram referências a feiras, já que anteriormente eram comuns alusões a mercados locais.
O rio Côa era a fronteira de Portugal, e até à assinatura do tratado de Alcanices em 1297, na outra margem habitavam os inimigos leoneses e por isso Castelo Mendo ocupava uma posição estratégica na fronteira de Portugal defronte a aldeia leonesa de Castelo Bom.
Castelo Mendo ocupava assim a primeira linha de defesa do reino com Pinhel, Vila do Touro e Sortelha, dominando um dos pontos de passagem entre os dois reinos, o porto de São Miguel.
Castelo Mendo deixou de ser sede de concelho em 1855, com a reforma liberal e a partir desta data, decaiu. Mas a decadência já era anterior; deste modo se pode explicar que Massena, importante general de Napoleão Bonaparte, teve que enfrentar uma feroz guarnição de 19 homens sitiados na aldeia- uma farturinha de gente!
Ao abrigo do programa das Aldeias Históricas de Portugal, Castelo Mendo foi relativamente bem restaurado, apesar de ainda existirem alguns pontos degradados (a Porta do Sol, a Porta Falsa entaipada, a calçada medieval ou romana, alguns trechos da muralha e a Casa do Fidalgo).

Pelourinho de castelo Mendo
Intra-muros vai encontrar diversos valores arquiteturais medievos, edifícios dos séculos XVI e XVII, o magnífico Aaron na casa que se diz era o “antigo hospital da Santa Casa da Misericórdia”, marcas da peregrinação a Santiago de Compostela, casas de cristãos novos, pelourinho- o mais alto das beiras- um pequeno museu local, que foi o antigo tribunal, cadeia e câmara (com algumas peças romanas -moedas, moinhos, fíbulas, pontas de projéteis, o jogo do moinho, a Menda e o Mendo…), três igrejas (duas delas com restos de tetos mudéjares), para além de alguns apontamentos interessantes do reduto defensivo (muralhas, torres, portas e o castelejo) e recantos castiços espalhados por ruas medievais com  belos panoramas em pano de fundo.
Entre agora na muralha mais interna de Castelo Mendo, e pare ao pé do museu e antes de passar pela antiga porta de Dom Sancho II repare na Menda e no Mendo eternos namorados.

menda

mendoA Paixão de Menda e Mendo
São duas figuras lendárias, que o povo diz enamoradas. O Mendo está incrustado na parede do museu e a segunda num edifício em frente. Ninguém sabe a sua origem, mas que o seu amor é quase eterno, lá isso é.
Agora está dentro da muralha interna, com as ruínas da Igreja de Santa Maria, com uma capela com teto mudéjar, com as ruínas da cidadela, repare-se na cisterna, na porta do Castelinho e na paisagem.

Porque morreu Miguel Augusto de Sousa Mendonça Corte Real?
Dentro da muralha interna, apenas pode escutar o som do silêncio, do vento ou da passarada. No chão pedregoso ergue-se, entre malmequeres e papoilas, o túmulo de Miguel Augusto de Sousa Mendonça Corte Real, oficial assassinado pelos seus homens no dia 12 de Setembro de 1840. Qual a razão de tão trágico destino? Mas ao menos, está num lugar onde todos nós desejaríamos repousar.

rita e castela em castelo mendo

Aron de Castelo Mendo

Próximo da porta medieval da “Guarda” na muralha dionisiana, encontramos um belo edifício da segunda metade do século XVI que a população diz ser o antigo hospital da Misericórdia.

O edifício tem vários apontamentos interessantes como a vieira de Santiago no canto, ou duas cartelas renascentistas e em que numa delas se pode ler Speas Mea Deus ou seja a “Minha esperança é Deus”.
Mas é no interior da casa no segundo andar que encontramos um armário em pedra embutido na parede, com duas prateleiras. O armário tem gravado motivos vários da renascença nas suas pilastras, com destaque para um dragão com expressão agressiva e a cauda com escamas. A esquerda ligeiramente separada do armário temos uma mísula.
O armário é valioso e raro. Na realidade o armário pétreo é um aron, ou seja o armário sagrado dos judeus. Onde era guardada a Torah (manuscrito em forma de rolo contendo a transcrição do antigo testamento) numa prateleira e na outra a lâmpada (ner tamid). O armário não tinha portas porque era fechado com uma cortina. Ao lado na mísula é colocado o candelabro de 7 braços (o Memorah).

aaron de castelo mendo
Este Aaron tem semelhanças muito grandes com o da sinagoga de Castelo de Vide. Sabe-se da existência de judiarias por toda a beira, após o êxodo do reino espanhol, do outro lado da Porta da Guarda, está uma casa mais humilde com um símbolo de Cristão-novo. No entanto a cronologia do Aaron de Castelo Mendo é surpreendente porque o edifico pertence ao tempo do reino de Dom João III, em que os judeus e o Judaísmo eram malditos no nosso território. Este Aaron, era portanto da pertença de uma família abastada criptojudaica, a fazerem culto privado e clandestino, num inédito testemunho de resistência a destruição da cultura judaica no nosso território. Ganha assim a inscrição na cartela exterior novo sentido, porque poderia a adaptar-se as duas religiões. O edifício também se localiza numa zona, junto a muralha, propícia a instalação de uma judiaria.
Não cremos que o edifício fosse uma sinagoga, devido a exiguidade da povoação, mas quase de certeza que era um edifício em que a população judaica se reunia para praticar os seus ritos.

O Amoreiral e a Devessa de Castelo Mendo
Mas os encantos não terminam quando saímos de novo pela Porta dos Berrões, pois devemos reparar neste belo prado que se espraia a nossa frente. Devessa é o local de pastagem dos animais, que não entrariam nas localidades por razões sanitárias.
Na Devessa, ainda hoje se pode ver o Alpendre da Feira e vários chafarizes que prestavam apoio à Feira e aos habitantes da povoação. A Fonte Nova foi mandada construir pelo rei Dom Dinis e as Memórias Paroquiais de 1758 referiam as suas águas como medicinais; encontra-se semi-encerrada e selada. Para além dos fontanários, a Devessa tem também um pombal, o calvário, a capela do cemitério e várias amoreiras centenárias.
A sericicultura foi uma importante proto-industria medieval na região de Castelo Mendo
Trata-se de um comovente amoreiral, a relembrar que no ano de 1472 no reinado de Dom Afonso V este pediu a todas as comarcas que plantassem 20 pés de amoreira ou eventualmente as enxertassem em pé de figueira.
Esta região em conjunto com as localidades de Castelo Mendo, Amoreira, Pinhel, Almeida, Vila Nova de Foz Côa e Castelo Rodrigo, foi um dos três principais centros produtores de seda de Portugal.

Castela em Castelo mendo
Durante algum tempo as mulheres cuidavam dos ovos do bicho-da-seda como se fossem filhos. Colocavam-nos em sacos de camurça e usavam-nos ao peito até as crisálidas nascerem e o fio da seda era extraído dos casulos.
O “fio de luxo” nascia assim numa região agreste. Para os produtores locais ficava a seda de qualidade inferior, chamada “maranhos”, resultado dos casulos rasgados pelas crisálidas.
Gostaria de ver criado um museu nacional da sericicultura na devoluta Casa do Fidalgo- inclusive com produção artesanal de seda e tecido; mas aqui falta gente, restaurante, alojamento, loja de artesanato. Gostaria ainda, que mais amoreiras fossem plantadas nas ruas, pracetas e jardins das localidades da região porque elas são simplesmente deliciosas.
Antes de abalar, estacione o automóvel no alto da estrada e não deixe de observar a beleza solitária de Castelo Mendo, no seu todo, e parta com a impressão que a localidade merece o seu regresso. É uma das pérolas esquecidas de Portugal e estranhamente junto a mais importante fronteira terrestre portuguesa e que poderia ser o cartão-de-visita de Portugal, mas em Castelo Mendo, quase só existe silêncio, recordações e beleza.

ROSTOS

Muitas senhoras descansam o corpo à porta, algumas delas são conhecidas, quando aqui trabalhei, aproveitando os últimos raios de sol.
De início parecem tristes e desesperançadas, mas basta sentirem o meu interesse para lhes brilhar e encontrarem um sentido maior para aquele momento. O de terem encontrado alguém com quem podem, com indisfarçável orgulho falam das glórias passadas, das curiosidades, da família que têm em Lisboa, na Amadora ou em Setúbal. Com displicência minimizam as mazelas que os afligem a eles ou a outros membros da família e prontificam-se a ser os cicerones do seu reino. Gostam de saber coisas, de onde vimos, o que fazemos e o que achamos da terra. Divertem-se com a nossa ignorância citadina e pasmam com o nosso interesse no Aaron.

Quando se despedem, sentimos que ficaram contentes com a nossa presença.
Deveria ser obrigação de todo o turista fazer das localidade notáveis que conhece como suas e sempre que de lá sairia, teria que que dar algo a povoação; alegria, conhecimento, sorriso, bondade, simplicidade e humildade e até mesmo bem materiais. É uma boa sensação para os sãos viajantes.
Referências adicionais:

Agradecimentos: ao Rui Meca pela maravilhosa fotografia.-Magnifico é também o artigo sobre o Aron de Castelo Mendo, de Mário Barroca (aqui)

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