Anta Capela de São Brissos (Montemor-o-Novo) (*)- Senhora do Livramento, senhora das águas

Anta Capela de São Brissos (Montemor-o-Novo) (*)- Senhora do Livramento, senhora das águas

Neste artigo e no próximo que se segue vamos apresentar duas antas capelas notáveis que situam nos concelhos de Montemor-o-Novo e Mora, o viajante leitor dedicado a estas coisas vetustas e notáveis já reparou que falamos, respetivamente da Anta capela de São Brissos e da Anta-Capela de Pavia. Estaremos assim completos no que diz respeito as antas capelas notáveis em Portugal e cujos artigos devem ser lidos integralmente para entender melhor o seu mágico significado. Se tiver algum tempo disponível aconselho-o a ler sobre:

Anta Capela do Senhor do Monte (Penedono) (**)

Anta capela das Alcobertas (Rio Maior) (**)

Anta-capela de Pavia (Mora) (*)

A anta capela de São Brissos, situada perto da aldeia com este nome na freguesia de Santiago do Escoural (esta encerra em ainda em si a famosa gruta do Escoural (***)), materializa-se no aproveitamento e consequente cristianização de uma das antas neolíticas da necrópole de São Brissos. A anta capela de São Brissos foi erigida entre meados do IV e meados do III milénio a.C, enquadrando-se cronologicamente no tipo do “Megalitismo eborense”, cujo exemplo notável é a “Anta Grande da Comenda da Igreja” (Montemor-o-Novo) (***). A anta capela de São Brissos é dedicada ao culto cristão da Nossa Senhora do Livramento sendo assim também conhecida; nome assaz interessante como o leitor paciente atentará um pouco mais adiante. A anta  capela de São Brissos serve de galilé a uma singela capela que lhe foi acrescentada no século XVII e que constitui a pequena capela de Nossa Senhora do Livramento, dotada de altar no qual se expões a imagem e diversos ex-votos.

Da anta capela de São Brissos restam cinco esteios com cerca de 3 metros de altura e o chapéu. Encontra-se totalmente caiada e rebocada de branca a exceção de uma faixa azul na base como é usual nesta região. Um dos esteios encontra-se prostrado no exterior do edifício e que foi retirado para abrir a entrada da capela. Se observarmos com atenção é ainda visível parte da mamoa que envolvia a anta capela de São Brissos. As antas-capelas atestam a forma como Cristianismo teve que assimilar as antigas tradições pagãs que assim conseguiram perdurar embora sub-repticiamente.

O culto popular da Senhora do Livramento na anta capela de São Brissos

Em território riquíssimo sob o ponto de vista arqueológico (com inúmeras antas, cromeleques e menires) registe-se a devoção da Anta capela de São Brissos a “senhora do Livramento”, à qual se associa uma componente de assistencialismo e de ajuda aos partos, convocando por isso cultos de fertilidade tão presentes no megalitismo.

Quem é São Brissos?

São Brissos é um santo português semi-lendário, cultuado na região de Beja. Nascido em Mértola, terá sido o segundo bispo de Évora, sendo martirizado pelos romanos em 312. O seu culto está presente no Alentejo, sendo orago com várias povoações (São Brissos, no concelho de Beja, ou ainda a nossa aldeia que visitamos).

A Senhora das águas

Em relação a anta Capela de São Brissos era costume, na 2.ª Feira de Páscoa, aqui se vir comer o assado de borrego. Também na quinta-feira da ascensão, depois da colheita da espiga, aqui se juntavam grupos de pessoas da região para merendarem pela tarde fora. Ah, e era uma espécie de senhora das águas. Apesar de não estar ligado a estas coisas do foro religioso gosto sempre de estar de bem com elas, não se vá dar o caso da na remotíssima hipótese elas existirem, e sabendo que a esta senhora se efetuavam procissões a pedir chuva, em anos de seca, eu mesmo o fiz sem jeito e em remoque porque as nuvens estavam muito negras; talvez eivado pelo espírito mágico alentejano a senhora disse que sim e caiu uma bátega de água de meter medo ao bicho, eu então tive que maldizer a bondosa senhora por causar suficiente transtorno a mira destes viajantes, porque assim não nos pusemos ao caminho de imediato e não visitamos a gruta do Escoural. Como esta Senhora do Livramento não me deixou ir a gruta, vingo-me dela porque na aldeia de São Brissos, uma anciã me disse que é estranha santa, porque teve uma afinidade muito intima com o Bispo Brissos e que dai resultou um filho, mas esta foi traída com a Senhora das Neves…como Senhora das Neves? E a minha interlocutora apenas encolheu os ombros a pergunta…bem mas continuo com a sua narrativa. Em anos de seca, os locais transportam a imagem de Nossa Senhora do Livramento para a Igreja de São Brissos colocando-a de costas voltadas para o Santo, seu ex-amor, deixando o seu filho na capela. São as lágrimas que verte por estar longe do seu filho, e perto de quem já não mais ama, que fazem com que chova. Mas que raios e coriscos faziam agora chorar esta senhora? Mas como vês tu foste daninha para mim e eu fui calhandreiro de ti, estamos quites. Deixemo-nos de delitos amorosos entre santidades e redigimos em mote de chave de ouro que a anta capela de São Brissos está inserida na belíssima paisagem alentejana (esperai pela primavera amigos) e constitui um local onde a morte (o megálito), o desejo do vivente por uma melhor esperança de vida saudável e a fertilidade (nascimento), o amor entre os santos e a reza da chuva se enlaçam numa poesia incomum. A minha homenagem ao povo de Santiago do Escoural e de São Brissos por terem no seu território a anta capela de São Brissos que tão amorosamente respeitam e defendem.

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Um comentário Anta Capela de São Brissos (Montemor-o-Novo) (*)- Senhora do Livramento, senhora das águas

  1. las artes says:

    A anta-capela de S. Brissos, ou de Nossa Senhora do Livramento, no Concelho de Montemor-o-Novo, constitui um curioso exemplo da adaptação, no século XVII, de um monumento megalítico (anta) a uma capela de culto Cristão. Até há bem pouco tempo, esta capela continuava a ser lugar de encontro e de romarias. Fruto da magnífica paisagem envolvente, era costume, na 2.ª Feira de Páscoa, aqui se vir comer o assado de borrego. Também na quinta-feira da ascensão, depois da colheita da espiga, aqui se juntavam grupos de pessoas de S. Brissos, Escoural e Casa Branca para merendarem pela tarde fora. Em anos de seca faziam-se procissões à Senhora do Livramento a pedir chuva. Segundo uma lenda, a Nossa senhora do Livramento e S. Brissos tiveram um filho, mas o santo traiu-a com a Senhora das Neves. Quando as populações querem chuva vão buscar a Senhora do Livramento, ou Senhora da anta, à capela deixando lá o seu filho. Trazem-na para a Igreja de S. Brissos onde é colocada de costas para o Santo. São as lágrimas que verte por estar longe do filho e perto do santo que fazem com que chova.As antas-capelas testemunham, no fundo, a forma como Cristianismo nas zonas rurais teve que assimilar as antigas tradições populares que assim conseguiram sobreviver embora com outros nomes e formas. Aconselho uma visita à anta-capela de S. Brissos nos meses de Abril, Maio. A paisagem é sempre magnífica, mas nesses meses, e em anos normais, as flores invadem totalmente a paisagem, com campos salpicados de cor, a perder de vista.

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