Anta das Alcobertas (Rio Maior) (**)-Um dos mais importantes megalitos europeus

Anta das Alcobertas (Rio Maior) (**)-Um dos mais importantes megalitos europeus

Sabia que…a Anta das Alcobertas é um dos mais importantes monumentos megalíticos na Península Ibérica?
O ser humano desde que se conhece exige para si a existência do sagrado e criou espaços destinados a união entre as divindades (com os seus avatares) e os seres humanos. Estes são locais de conhecimento (ou esquecimento), de esperança na resolução dos nossos inevitáveis problemas, de renascimento (quer em vida, quer em morte), de ligação aos entes queridos desaparecidos, de pedidos de votos aos deuses e de organização ética e moral (individual e coletiva).

Anta Capela das Alcobertas

Anta Capela das Alcobertas

As antas eram tudo isto, construídas no Neolítico, para além de recolherem os defuntos amados, eram também estes espaços sagrados de união a deuses, que nos são completamente inacessíveis no século XXI.
Alguns movimentos do cristianismo, por exemplo o liderado pelo “suevo” são Martinho de Dume, arrasou ou substituiu estes locais pagãos cristianizando-os. No entanto foi achado conveniente, em alguns casos, adaptar-se as estruturas antigas ao novo culto. É o caso das antas-capelas.
Em Portugal conhecem-se 19 antas-capelas e capelas contíguas, como por exemplo a Anta-capela da Senhora do Monte (Penedono) (**), a anta de são Brissos ou a Anta de Pavia. Um dos casos mais espetaculares é anta-capela das Alcobertas (Rio Maior).

Esteios da Anta capela das alcobertas 1

Esteios da Anta capela das alcobertas 1

Pode aqui ler:

Anta-capela da Senhora do Monte (Penedono)

Anta de Pavia (*) (Mora)

Anta de são Brissos (*) (Montemor o Novo)
A Anta de Alcobertas, também raridade por ser em calcário, é uma das maiores da Península Ibérica. Data dos finais do Neolítico Final (4000 a 350 a. C.). Do dólmen nasceu uma ermida no século XVI e que depois foi reformulada nos séculos seguintes até a atual igreja matriz, mantendo-se o dólmen como capela lateral.
Estranha lenda de Perpetuação de Maria Madalena na Anta das Alcobertas
O templo está ligado  duas lendas com o protagonismo a ser dado a Santa Maria Madalena. A primeira diz-nos que foi Santa Maria Madalena que fez nascer e crescer os esteios da anta que dão forma.

A outra diz-nos que por o povo sentir que ali se cultuavam deuses pagãos tentou destruir a anta por também ser inoportuna em templo católico, no entanto a Maria Madalena, com poderes milagrosos e de intercessão divina, reconstituia a anta, e tantas vezes foi desmontada, e as mesmas vezes remontada pela Santa. O povo desistiu e assim foi decidido construir a igreja, preservando o monumento.

A lenda plasma assim permanência de culto ancestral pagão, desde a fundura dos tempos, que mais tarde é substituído pelo culto católico, mas neste caso a santa Maria Madalena seria a salvadora do monumento.

 A Anta-capela das Alcobertas e Santa Maria Madalena
Entra-se na vulgar igreja e no lado do evangelho,  vemos um arco seiscentista que dá acesso ao corredor e ao interior da grande anta…e é como se entrássemos numa misteriosa caverna calcária. Incrível! É um monumento impressionante, tocando fundo quem o visita. Quando aqui estive em Março de 2009, um senhor croata, que entrou  comigo derreteu-se em lágrimas.
A anta, que é a capela de Santa Maria da Madalena, é constituída pelo corredor de que restam dois esteios e uma laje de cobertura e por uma câmara poligonal com sete esteios com cerca de 5 metros de altura.

Em Lucas 8:2, faz-se menção, pela primeira vez, de “Maria, chamada Madalena, da qual saíram sete demônios”. Não há qualquer fundamento bíblico para considerá-la como a prostituta pesarosa dos pecados que pediu perdão a Cristo.

Dolmen Igreja S Maria Madalena Alcobertas (9A) Dolmen Igreja S Maria Madalena Alcobertas (9)

Os esteios estão cheios de intrigantes fossetes (covinhas mágicas). A laje da cobertura da câmara da anta foi substituída por um simples telhado.
São três as representações de Santa Maria Madalena ali presentes: num painel de azulejos por cima do arco da entrada (a santa reza aos pés de Cristo), num painel de azulejo no frontal do altar com a figuração de Maria Madalena meio desnudada (enquanto iníqua) e uma escultura quinhentista de barro policromado com um livro ao colo, que provavelmente é a Santa Ana, que deve ter substituído uma outra estátua da  Santa Maria Madalena.
Por caminhos ínvios, mas que decorrem de uma permanente e prolongada tradição, anta foi cristianizada através da invocação de um santo “pecador” e depois “arrependida”. A santa será assim um avatar da Deusa-Mãe?
O que são as Covinhas (fossetes, cazoletes)?
São antes de mais um enigma e um dos motivos mais comuns de toda a chamada arte pré-histórica. Existindo em grande quantidade, são pequenas depressões circulares presentes em antas, menires e penedos sacralizados. Também existem naturalmente em granitos provocados pela erosão-os tafoni. Por vezes não é fácil distinguir os naturais dos artificiais.
Qual seria a função das covinhas artificias? Pode haver várias explicações e algumas delas podem ser cumulativas:
a) Eram recetáculos para libações rituais sobre as rochas- aqui poder-se-ia usar sangue humano ou de animais, o que explicaria os pequenos regos que unem umas as outras, mas lembro que os regos são quase sempre, um fenómeno erosivo natural usual, situados nos esteios das antas e dos menires poderiam ser usados como recipientes antes das pedras serem alteadas.
b) Poderiam ser usadas para ritual após o soerguimento das pedras dos monumentos megalíticos.
c) Seriam o resultado da obtenção de pó de pedra do monumento em que se encontram, para fins rituais, medicinais (esta prática ainda hoje é efetuada).
d) Poderiam fazer parte, em alguns casos, de desenhos simbólicos, da arte megalítica.
e) Eram sinais relacionados com a passagem do tempo.
f) Constituíam representações de objetos celestes, procurando reproduzir a sua disposição no céu enquanto elementos de mapas celestes. O círculo poderia por si só simbolizar o céu cósmico, na sua relação com os deuses e com os Homens. A divindade espreita na pedra, pelo circulo, a sua criação, cuja vida produz e controla.
g) O círculo é também um dos símbolos milenares da proteção assegurada nos seus limites e ainda hoje tem este significado. Tem-se medo da derrota, dos inimigos, do regresso das almas errantes, dos demónios, de nós mesmos… Vem na Ilíada, de Homero, da idade do Bronze e convêm ler a magnifica tradução de Frederico Lourenço, que os lutadores traçam um círculo em volta do corpo antes de combaterem. Terá este ato de proteção uma materialização na rocha?
Todas estas explicações podem estar incorretas, e poderiam ter uma daquelas explicações ou mais do que uma cumulativamente. O certo é que as fossetes, que teve que ter em si, o culto litolátrico, são um dos maiores enigmas da arqueologia mundial.

Ainda hoje é normal nas pessoas as pessoas quando visionam as fossetes afagarem-nas num estranho rito, misto de sensualidade, de captação de energia, em fase placebo.

Mais importante do que os credos, as crenças e os cultos, neste espaço o que verdadeiramente importa é a ligação, numa recuperação evidente e simultaneamente sublime, da significação mais profunda da própria palavra ‘Religião’ – Religare – que aqui assume uma intensidade peculiar:

-religa-se a vida utilitária, mesquinha, com a sublimação da transcendência;

-une-se a vida a morte, neste abençoado “útero” de pedra;

-o mundo subterrâneo, à certeza do solo e a leveza do ar;

-um culto pagão ao cristianismo;

Mas é a perenidade, que transmite a quem a visita uma sensação de profundo conforto espiritual, que compõe a ligação quase umbilical que dá corpo à máxima de Jesus e que Maria Madalena carrega como estigma ao longo da sua vida da Terra e que perdura como laivo de memória ao longo dos tempos: a de que somos todos irmãos e que esta mensagem profundamente vanguardista e científica, ainda está a dar os seus primeiros passos.

Misto de mistério profundo e de sonho onírico, a anta-capela das Alcobertas, classificado como Monumento Nacional, é um dos mais eloquentes monumentos de Portugal.

Vá o leitor a anta das Alcobertas  e aposto que não mais esquecera o sítio até ao último dia da sua vida.
Boa Viagem!

Referencias adicionais: algumas fotografias são do excelente blog de João Aníbal Henriques

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5 comentários Anta das Alcobertas (Rio Maior) (**)-Um dos mais importantes megalitos europeus

  1. CSRestauro says:

    Gostei do que li…
    e ajudou-me no projecto que estou a fazer sobre este magnifico monumento..
    obrigado
    boa continuação do bom trabalho

  2. Parabéns por este extraordinário espaço.
    Gostei muito de ler este texto sobre um dos lugares míticos da minha terra, Rio Maior.
    Saudações
    pcc

  3. Luis Bento says:

    Primeiro que nada, para responder ao senhor que fez um comentário antes de mim, isto não e rio maior, é ALCOBERTAS!!!

  4. daniela says:

    poderiam indicar me a bibliografia utilizada por favor ?? obrigado

  5. Rogério Cardoso says:

    O interior é de uma beleza encantadora é magnifico.
    Relativamente á obra de restauro do seu exterior, infelizmente não tenho a
    mesma opinião. É de mau gosto, não é obra de especialista
    Havia certamente melhor forma de restaurar, e preservar esta relíquia.

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