Anta Grande do Zambujeiro (Évora) (***)- A catedral do Neolítico Degradada

Anta Grande do Zambujeiro (Évora) (***)- A catedral do Neolítico Degradada

A anta Grande do Zambujeiro é a maior anta portuguesa e uma das mais monumentais da Europa. As suas dimensões colossais e o seu simbolismo colocam-na entre uma das mais notáveis peças megalíticas mundiais.
Situa-se próximo da aldeia de “Valverde (Évora)”. Foi construída entre 4.000 e 3.500 a.C. .
A anta Grande do Zambujeiro tem corredor e câmara poligonal de sete esteios com cerca de 6 metros, encostados entre si em cunha e coberta por uma gigantesca tampa de pedra deslocada quando foi escavada pouco depois da sua descoberta.

O corredor definido por esteios e ainda com 3 pedras de cobertura possui cerca de 15 metros de comprimento e possibilita que nele se circule de pé.
Mais perto da câmara o corredor encontra-se dividido a meio, o que corresponde a uma complexificação da tipologia dos corredores. Uma imponente pedra menírica ajuda a sustentar a imponente pedra que fecha a câmara na entrada.
A mamoa que envolvia o dólmen é igualmente gigantesca, com mais de 50 metros de diâmetro e encontra-se formada por coroas espaçadas de pedra de modo a manter a consistência da mesma, tendo sido infelizmente esventrada quando das escavações realizadas nos anos 60. Estes trabalhos foram efetivamente mal efetuados e degradaram imenso o magnífico monumento.

Anta Grande do Zambujeiro Monumento descoberto, monumento degradado
A arqueóloga alemã Philine Kalb descreve na obra Sternstunden der Archäologie, Funde in Portugal como foi descoberto e esburacado este a anta Grande do Zambujeiro.
“O mestre de escola Henrique Pina foi chamado de Montemor-o-Novo; Pina tinha alguma experiência em antas, mas não era arqueólogo profissional. O dólmen estava envolvido por uma gigantesca mamoa. A tampa que estava debaixo da mamoa de 6 metros de altura foi retirada, partindo. Por aí entraram os trabalhadores, tirando placas de xisto e restos de cerâmica do interior da cripta funerária.
Demorou de 1965 a 1969 para pôr a descoberto a enorme anta. A cripta estava bloqueada por um dos esteios pesando toneladas; esta pedra já tinha caído em tempos pré-históricos. Este esteio selava a cripta, também foi retirado.
“Hoje sabemos que a pedra enorme tombada à esquerda do corredor,  uma estela menir, foi transportada do seu sítio de origem distante de mais de 8 km.”2

anta grande zambujeiro

Anta Grande do Zambujeiro Degradada

Não valeu de muito a classificação como Monumento Nacional; o dólmen, bem acessível ao público, tem sido continuamente vandalizado, as paredes estão cheias de graffittis; xâmanes «New Age» que têm acendido vários chamas pseudo rituais no interior da cripta. Recentemente, a entrada foi barrada com uma porta … de madeira. A anta Grande do Zambujeiro está provisoriamente protegida por um pavoroso telhado de chapa de zinco.
O espólio encontrado é notável com placas de ídolo, cerâmicas, pontas de seta em sílex, instrumentos de cobre e colares de contas verdes que se encontram no Museu Nacional de Évora (***). Este impressionante monumento ilustra a capacidade técnica e a complexidade da organização social das populações neolíticas que o construíram.
O exterior da anta também é única com a existência de um átrio (uma zona livre a entrada do corredor) ladeada por uma laje deitada, talvez uma estela-menir entretanto caída ou nunca levantada e com uma outra estela-menir, mais distante da mamoa, atualmente tombada e cravejada de fossetes e, ao que se crê outrora pigmentada. O próprio dólmen terá possuído, decoração pintada no seu interior num dos esteios da câmara.
A anta Grande do Zambujeiro era um verdadeiro santuário podendo servir de epicentro a um outro conjunto de megálitos que se situam numa grande área em redor e que foram utilizados entre cerca de 3550 a.C e 2900 a.C.

A anta Grande do Zambujeiro situa-se a este e muito próxima do Cromleque e menir dos Almendres e a oeste da cidade de Évora.

Anta Grande do Zambujeiro e o futuro Parque Arqueológico do Megalitismo Alentejano
É importante para Portugal estudar, restaurar e colocar a disposição do turismo o nosso património notável, isto possibilitará o aumento da nossa auto-estima nacional que é essencial para o crescimento de uma nação e cada ponto notável é uma mais-valia financeira que valerá a pena rentabilizar ainda muito mais, é um recurso insubstituível.
Assim é de tal jeito a riqueza megalítica desta região alentejana que me parece oportuno expressar três desejos.
– que a anta Grande do Zambujeiro seja restaurada e valorizada condignamente, pelo menos como estava nos anos 60 antes das suas desajeitados desentulhos pseudo-arqueológicas;
– Que seja criado um parque arqueológico megalítico, a semelhança do que existe no Parque Arqueológico do Côa, com a vantagem daquele poder receber mais visitantes, dada a proximidade de Lisboa e da principal via de acesso da fronteira portuguesa; obviamente que aqui se incluiria uma larga dezena de monumentos megalíticos. Eis alguns exemplares notáveis que poderiam fazer parte do percurso do parque: o Cromeleque dos Almendres (***), as antas capela de Pavia (*) e São Brissos (*), as grutas do Escoural (***), a Anta Grande da Comenda da Igreja, a Anta do Silval (*), a Anta da herdade do Paço das Vinhas 1(*), o cromeleque de Portela dos Mogos e do vale Maria do Meio (*) ou o Conjunto megalítico de Vale Rodrigo (*).
– Que o futuro parque seja alvo de uma candidatura a Património Mundial da Humanidade- Unesco dada a elevada densidade megalítica, numa monumentalização neolítica da paisagem, a semelhança do conjunto arqueológico de Bend of Boyne (a 50 km a norte de Dublin) já classificado pela UNESCO e onde se concentram os megálitos de Newgrange, Knowth e Dowth e respetivos megálitos satélites.

Mas enquanto pouco se faz para rentabilizar o nosso património arqueológico aconselhámos vivamente um passeio pelos montes alentejanos, que o conduza da anta do Grande do Zambujeiro isto porque há muita beleza e mistério em tudo o que nos rodeia e o síndrome de Stendhal poderá assolá-lo perante a estética, a ciência e o mistério do megalitismo e dos magníficos campos alentejanos.
Referências adicionais:
Livro:

1-Lugares Mágicos de Portugal-Paisagens Arcaicas de Paulo Pereira Círculo de Leitores, 2004), livro que faz parte de uma coleção magnífica que descreve os lugares, monumentos e paisagens relacionados com a história sagrada, lendária e mágica do nosso território. Neste título, o primeiro da coleção Lugares Mágicos de Portugal, ficará a conhecer os testemunhos deixados pelos homens pré-históricos no território português, entre os quais o vale do Côa, a gruta do Escoural, as grandes antas alentejanas como a anta grande do zambujeiro, os dólmens pintados, os cromeleques, os grandes menires, a Pedra Escrita de Serrazes, o Castelo Velho de Freixo de Numão, as estelas e os vales do Tejo e do Guadiana.

2-Sternstunden der Archäologie 12, Göttingen-Zürich, 29-4 5, Kalb, Philine (1993):

Site: http://uevora.academia.edu/LeonorRocha/Papers/152565/Parque_do_Megalitismo_de_Evora_uma_utopia_alentejana-Leonor Rocha, a quem a arqueologia portuguesa devido a suae demanda do megalitismo Alentejano defende neste artigo a criação de um Parque Arqueológico ( a não perder).

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5 comentários Anta Grande do Zambujeiro (Évora) (***)- A catedral do Neolítico Degradada

  1. valdecy Alves says:

    TIVE O PRAZER DEPOIS DE ALGUNS ANOS DE PESQUISA E ESTUDO DE FAZER UM VERDADEIRO ACHADO ARQUEOLÓGICO QUE COM CERTEZA TEM GRANDE IMPORTÂNCIA HISTÓRICA PARA TODO BRASIL – JÁ ENVIE FOTOS E IMAGENS PARA MÍDIA E ESTUDIOSOS – PARTILHO COM VCS ESSE ACHADO QUE É UM VERDADEIRO TESOURO HISTÓRICO DE IMPORTÂNCIA UNIVERSAL: http://valdecyalves.blogspot.com.br/2012/09/anuncio-ao-brasil-e-ao-mundo-um-local.html

  2. Vitruvius says:

    Já visitei este monumento, mais do que uma vêz nos últimos anos.
    Cada vêz que a visito, sinto-me: pequenino, insignificante, incompetente, esmagado pela imponência do seu conjunto.
    A enorme catedral, a mamoa, a sua catedral, a cúpula partida a dinamite e adoçada ao monumento.
    O menir ou pedra de ara à entrada sobre o lado direito, que eu medi … a palmo e que depois de fazer umas contas sumárias encontrei um peso de 15 a 16 toneladas.
    Pensava eu que era um grande arquiteto, mas … sou um insigificante!…

    Disse, Vitruvius

  3. Castela says:

    Obrigado caro Valdecy Alves pela sua indicação preciosa sobre o megalitismo brasileiro.
    Caro Vituvius, em relação ao menir de entrada pesar 15 a 16 toneladas é realmente colossal, obrigado pela informação.

    Castela

  4. Jude Irwin says:

    I am confused by the rather garbled writing. What, for example, do you mean by a “tapir”? It seems to be conflated with meaning a dolmen, but I have only ever known this word to mean a South American mammal. Please explain!

  5. Carlos Castela says:

    Obrigado pelas suas palavras, porque desta forma o “mundo pula e avança” de forma positiva.
    Apesar de não ser arqueólogo sou um individuo da ciência, que também lida com rochas e menos com pedras e vou fazer alguns esclarecimentos sobre as suas observações:
    1-A Anta Grande do Zambujeiro (AGZ) está num estado calamitoso e gostaria muito que já estivessem a ser tomadas algumas medidas para a sua reabilitação.Cabe-nos a nós de boa vontade tentar reabilitar a AGZ,que na situação em que se encontra é uma vergonha para o valoroso património português.A indignação como cidadãos deve essencialmente estar no objeto em si e menos no que se escreve acerca dele, mesmo que esteja eivado de erros.
    2-na arqueologia contemporânea é impensável, colocar-se em risco o objeto patrimonial, para obter dados científicos.Primeiro que tudo está a segurança e a sustentabilidade do objeto edificado e apenas depois está a análise científica. Um exemplo, recentemente surgiu a hipótese de se analisar as ossadas dos dois primeiros reis de Portugal, no mosteiro de Santa Cruz em Coimbra, o que traria de certeza uma mais valia para a nossa história medieval, no entanto tal não foi efetuado, apesar de muitas diligências, por se considerar que existiria apenas 0,5% de hipótese de este ser estragado.
    3- Defendo ainda que a AGZ, seria um dos objetos mais importantes para a criação de um parque arqueológico megalítico na região, que abrangeria vários concelhos (Évora, Mora, Montemor o Novo, Arraiolos…)
    4-Quanto a dinamitizaçãoda AGZ as palavras não são minhas mas da insigne arqueóloga alemã, citada na bibliografia. O certo é que a laje está partida, deslocada, a mamoa esventrada o que acelera a sua meteorização e erosão, sem arranjo paisagístico, instabilidade dos elementos pétreos, enfim e aquele estrutura metálica parecem os andaimes de umas obras abandonadas tudo isto é muito triste e lamentável.
    5-Mais uma vez agradeço o seu contacto e espero que quando vier a Coimbra ou eu me deslocar a belíssima Évora, possamos continuar o nosso diálogo.
    Com amizade Carlos Castela

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