Cabo Sardão (Odemira) (***)-O apelo do abismo

Cabo Sardão (Odemira) -O apelo do abismo

Sabia que…o Cabo Sardão localizado entre as praias de Almograve e Zambujeira do Mar é uma das mais belas finisterras de Portugal?
Depois de eu ter sentido no Algarve a síndrome de Dorothy (que descobriu no Feiticeiro de Oz as saudades do lar) decidimos regressar a Coimbra, rumando para Norte, sempre vamos descobrindo um ou outro local notável; para além da paragem no Cabo Sardão, detivemo-nos ainda na Praia do Carvalhal (**).
Em relação ao Cabo Sardão li no site do município de Odemira que “Não é possível ficar indiferente perante as imponentes escarpas cavadas a pique em direcção a um mar possante e ao mesmo tempo sereno, ou confrontado com um horizonte de planícies infindáveis, cobertas por uma vegetação rasteira e verdejante.
Aqui, o mundo abranda até quase parar. A brisa diurna faz esquecer preocupações, correrias e más disposições. Aqui tudo é relativo. Só importa a comunhão dos sentidos. A beleza esmagadora e a paz inebriante vão “obrigá-lo” a uma introspecção, a um abandono do supérfluo, a uma demanda fácil da felicidade. Esqueça o tempo. Faça tudo ao ritmo do voo planado de uma ave, do ar ameno, do andar mole e relaxado dos habitantes.”


As palavras, embora bonitas, não traduzem a grandiosidade do Cabo Sardão que é uma das finisterras portuguesas mais belas.
Diga-se antes de prosseguirmos com a descrição do Cabo Sardão, que Portugal tem vários pontos notáveis plasmados nos seus cabos e finisterras; são locais cuja imensidão do mar, a grandiosa geologia, a biodiversidade e a implantação de cultos que se vão sobrepondo e reconvertendo à medida que uma e outra cultura foram dominando o enclave são um verdadeiro assombro, de medo, de mito, de beleza, de história e de valor científico.
Já aqui descrevemos o Monte figo (***) em Olhão, mas em breve iremos descrever outras finisterras Portuguesas como:
Cabo Mondego (**) (Figueira da Foz)
Sítio da Nazaré (***)
Cabo da Roca (***) (Sintra)
Cabo Espichel (***) (Sesimbra)
Cabo de São Vicente (**) (Vila do Bispo)
Cabo de Sagres (****) (Vila do Bispo)
A Geologia do Cabo Sardão
O Cabo Sardão é um importante geomonumento, nem tanto na sua litologia que corresponde a uma espessa sequência monótona com repetições de pelitos e grauvaques (turbiditos) com mais ou menos 320 milhões de anos (Carbónico inferior) mas mais pela sua tectónica que aqui se torna tão evidente, naquelas camadas que tanto se inclinam para um lado como para o outro; mas num dos pequenos promontórios do cabo Sardão pode ver, com grande didactismo, uma dobra anticlinal que revira a orientação das bancadas xistosas.

As camadas sedimentares foram formadas com sedimentação serena de areias e xistos, perto da costa marítima em plataforma litoral; a tranquila deposição de sedimentos, era por vezes intercalada por deposição frenética de escorregamentos por gravidade (turbiditos). As camadas horizontais foram dobradas na orogenia hercínica ou varisca (340 aos 270 Ma.) que em grande escala traduziu na união dos continentes num super-continente chamado Pangea provocando uma deformação com grandes alinhamantos montanhosos que que afectou as rochas da Costa Vicentina de forma magnífica.

O Cabo Sardão é uma das mais belas finisterras de Portugal

Cabo Sardão

O Reino da Cegonha-branca
Mas falemos agora de bichos, não tanto de homens, porque para além do farol e da proximidade da aldeia de Cavaleiro pertencente a freguesia de São Teotónio e dos muitos turistas que aqui afluem de muitas nacionalidades, não existem vestígios de aqui existir um passado humano proeminente: templos pagãos ou cristãos, edifícios civis ou militares nem vê-los. Talvez devido à escassez humana, algumas espertas cegonhas, escolheram aqui o seu local de nidificação em penhascos isolados- é caso único pelo menos em Portugal. Sem dúvida que são pássaros espertos, que se afastam e protegem do mais competitivo bicho da Terra. Quem aqui vier se tiver sapiência, capacidade ocular e sorte, também poderá ver falcões-peregrinos, gralhas-de-bico-vermelho e mais excepcionalmente gansos-patolas.

Em relação ao Cabo Sardão também merece algum destaque o seu farol construído em 1915, com uma torre de 17 metros de altura, quadrangular de alvenaria e com lanterna cilíndrica vermelha e que atinge 23 milhas de alcance (no ótimo blog Milhas Náuticas pode ler um resumo de algumas das suas características).
Milan Kundera e o abismo
No admirável romance “A Insustentável Leveza do Ser”, este autor surpreende-nos com uma frase que nos arriba a memória quando nos aproximamos de um abismo: “Aquele que deseja continuamente elevar-se deve esperar um dia pela vertigem. O que é a vertigem? O medo de cair? Mas por que sentimos vertigem num mirante cercado por uma balaustrada? A vertigem não é o medo de cair, é outra coisa. E a voz do vazio debaixo de nós, que nos atrai e nos envolve, é o desejo da queda do qual logo nos defendemos aterrorizados. “
Somos viajantes destemidos, mas confessamos que perante as falésias do Cabo Sardão (também conhecida como Ponta do Cavaleiro), sem qualquer resguardo e a cairem a pique sobre o abismo do mar, dinamicamente monstruoso e de uma beleza suprema, sentimos medo, principalmente de nós mesmos, apesar de termos vida tão simpática, mas é preciso aqui vir para entender o acerto das palavras de Kundera.
Partamos então depressa que o Sol já se foi e a mesa em Vila Nova de Milfontes espera por nós porque nem sempre foge quem retira acabadinhos de ver um dos grandes marcos paiagísticos do Parque Natural da Costa Vicentina e Sudoeste Alentejano.
Créditos fotográficos: A segunda fotografia foi retirada do  blog Portugal Fotografia Áerea.

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