Conjunto patrimonial e paisagístico de Cacela Velha (Vila Real de Santo António) (***)

Conjunto patrimonial e paisagístico de Cacela Velha (Vila Real de Santo António) (***)

Cacela velha

Acreditai amigo leitor que ainda existe no Algarve um local bem preservado, em que o homem e a natureza se conjugam em harmonia perfeita. Aqui, até os agnósticos suspeitam da existência de um Deus generoso. Eis Cacela Velha!
Cacela Velha está implantada numa falésia gresosa de idade miocénica, com 26 m de cota; cortada a poente, pela ribeira de Cacela velha com afloramentos fossíliferos; tem na sua frente a “ria”, separada do mar por uma península de areia, que materializa uma praia maravilhosa e que corresponde ao início, a nascente, do Parque Natural da Ria Formosa (***). O mar é maravilhoso de tonalidades verde-azuladas e águas serenas e cálidas. Cacela velha representa um dos últimos lugares da orla marítima algarvia que sobrevive a um processo dissoluto de urbanização.
A História de Cacela Velha
Tem fundação muito remota por ter sido local estratégico de vigilância da Costa Algarvia onde passavam os barcos que demandavam a foz do rio Gilão, porque o cordão de ilhas, que hoje, constitui o Parque Natural da Ria Formosa (***), durante séculos, era aberto, algures entre Cacela e Manta Rota. Por aqui habitaram cúneos, fenícios, celtas, romanos (com importante base militar) e muçulmanos. A geometria da costa em Cacela tem sido diferente ao longo do tempo em função das correntes marítimas, das tempestades, dos sismos e da acção do Homem. Cacela Velha já esteve alteradamente, dentro e fora da ria Formosa, tendo tido à sua frente, em diferentes épocas, ilhas-barreira mais ou menos extensas, barras ou vastos areias. Por exemplo, no início do século XX, a barra de Cacela era o ponto terminal da ria, nela desembocando o canal de Tavira (**)- via marítima de acesso àquela cidade.
Escavações arqueológicas no largo da fortaleza de Cacela Velha, em 2007, resultaram na descoberta da medina do século X. Identificaram-se sete silos, cinco dos quais de grandes dimensões. Os silos, eram utilizados para o armazenamento de cereais e outros produtos agrícolas, nestes estavam aterrados inúmeros artefactos islâmicos. O seu nome seria Hisn-Kastala, Qastallat Dararsh, Cacetalate ou Cacila (prado ou pastagem de gado), donde derivaria o nome actual. Neste século, estava sob o controle da família berbere dos Banu Daraj. Aqui nasceu Abú Omar Ibn Darrag em 958 d.C. que foi secretário da chancelaria de Córdova e famoso poeta da corte de Almançor.
Entre 1998 e 2000 foi encontrado um bairro islâmico junto à ribeira de Cacela Velha, na parte inferior da localidade, no caminho de acesso à restinga, junto a muralha em taipa. As características encontradas revelaram tratar-se de habitações de agricultores e pescadores. Aqui descobriu-se uma pia de abluções e dois candis de bronze que se encontram no Museu Nacional de Arqueologia (****) em Lisboa.
Al Idrisi refere-se a Cacela Velha como sendo ”uma fortaleza construída a beira-mar. Está bem povoada e há nela muitas hortas e campos de figueiras”.

Dom Sancho conquistou-a em 1240 e perdeu-a logo de seguida, tal era o apego, que os muçulmanos lhe tinham. Mas, dois anos depois, Paio Peres Correia retomo-a definitivamente para Portugal e passaria a pertencer a ordem de Santiago Por essa altura seria construída a primeira igreja na povoação. A igreja que hoje existe, tem raiz medieval, mas foi reedificada no século XVI. Dom Dinis deu-lhe foral e a partir do século XV, entrou em declínio.

Cacela Velha

Muito danificada com o terramoto de 1755 ainda existiam em 1758, 821 habitantes. A fortaleza que hoje subsiste foi iniciada em 1770, por ordem do Governador do Algarve (encontra-se fechada ao publico, por pertencer a brigada fiscal da GNR). O concelho foi extinto por ordem do Marquês de Pombal em 1775, unindo-se ao recém-criado concelho de Vila Real de Santo António.
Cacela Velha fui um ponto-chave na guerra entre absolutistas e liberais
Em 24 de Junho de 1833, os liberais entraram no Algarve por Cacela, não propriamente na povoação, mas no limite da freguesia, na Torre Velha (Sítio do Alto). A esquadra  era comandada pelo 1º marquês de Vila Flor, mais tarde 1º duque da Terceira, com cerca de 2500 homens. Não encontraram aqui resistência significativa, uma vez que a tarefa foi facilitada por um sem número de manobras de diversão, orquestradas com o objectivo de fazer sair as forças absolutistas do sul do país. Rapidamente o Algarve foi conquistado e passado um mês chegaram os liberais a Lisboa. Deveria existir um padrão, tal como acontece com o Padrão comemorativo do desembarque do Mindelo, que contasse e relembrasse esta importantíssima página da história portuguesa.

Cacela Velha é um espaço único no nosso litoral, de uma beleza indescritível, que ao longo dos séculos tem cativado o olhar (e a estadia humana) e o sentimento dos poetas. Sobre ela diz Sofia.
“As praças-fortes foram conquistadas
Por seu poder e foram sitiadas
As cidades do mar pela riqueza
Porém Cacela
Foi desejada só pela beleza”.
Sofia de Melo Breyner

16 razões para amar Cacela velha
Sentimo-nos bem em Cacela Velha:
-pela paisagem divina que se avista, a imensidão do mar e pelo cordão dunar que nos reclama;
-pela ressonância imemorial dos poetas árabes, lúbricos, amorosos de carne, eternidade e plenitude- para sempre Ibn Darrag;
-pela presença constante de Sofia, a deusa do mar, que espero sempre ver surgir pela nesga de uma esquina caiada de azul, com a sua voz a ecoar poemas incandescentes;

-pelas camadas de arqueologia e história, soterradas em areias eólicas, histórias de sangue, sobrevivência e amor, haverá mais alguma gesta?
-pelas bravas figueiras da Índia, que nos acarreiam para o deserto magrebino;
-pelo pórtico renascentista da igreja, de Pilarte, com as pilastras laterais ornadas de machados, carrancas, tridentes, cabeças de anjo, arcos e aljavas e em relevo os bustos de São Pedro e São Paulo;
-pela zona lagunar entre o morro de Cacela, Miocénico, e a fímbria do cordão dunar; é aqui que eu gosto de vaguear, só, ou a brincar com a minha filha, por entre viveiros de marisco, a auscultar, com atenção o lento deslizar  dos ligueirões e das conquilhas, que deixam uma um rasto indelével na húmida vasa siltosa, e todo aquele verde escuro, orgânico, de flora do mar;
-pela praça, defronte à entrada da fortaleza, com panorama até a Isla Cristina e onde gosto de descansar/estar/dormir, à sombra destas cinco palmeiras das Canárias; e zéfiro aqui torna-se uma bênção, uma cálida brisa, no seio do estio do Barlavento Algarvio, talvez por ter de viajar tão pouco, e estar amainado; como está perto o Mons Zephyrus (***)!
-por eu ter o nome da antiga povoação muçulmana (Castella) e aqui me sentir em casa;
-pela arquitectura tradicional, constituído por casas térreas, muitas com açoteias, com platibandas, chaminés, de base quadrangular e terminação piramidal, lágrimas nos cunhais, quase todas com decoração algarvia;
-pela muralha de taipa, construída nos séculos XVI e XVII, uma raridade que apenas encontramos no castelo de Paderne (*) e em raros troços do castelo de Silves (***)- a taipa era uma argamassa de terra, água, cal e areia que foi muito usada pelos povos islâmicos nesta região, e ainda hoje é utilizada por aqueles povos nas distantes regiões do oriente e no Norte de África; ainda hoje em Cacela nas construções rurais ainda é possível ver argamassa de taipa;
-pela notável conjugação interior, que aqui obtemos, e para o quais, os oito pilares, que nos suportam e defendemos, aqui são realçados e entrelaçados;
-por ser aqui, que compreendemos, que somos com como Fernando Pessoa – somos muitos, em todo o lado, sendo um, e não termos  medo de o afirmar – “A própria luta para atingir os píncaros basta para encher um coração de homem. É preciso imaginar Sísifo feliz.”1
-pelas noites, ao luar, as vezes só, outras vezes em tertúlia, nestas magníficas noites algarvias aqui repercute o vibrante silêncio da noite, som animal e marinho e aéreo;

-outras vezes no Bar Azul com os seus chás frios, doces ou tartes de figo, alfarroba e amêndoa de tão ditoso deleite;
– pela paradisíaca praia da Fábrica, temos de atravessar a laguna, às vezes a pé, outras vezes de barco, outras ainda a nado (aconteceu apenas uma vez) e é aqui que desejo um dia ficar e esquecer-me de tudo e ser Mersault; “a melancolia acompanha toda grandeza” como eu desejo nadar até ao limite do meu cansaço, até a derradeira liberdade.2
E do novo o poeta de Cacela, IBN DARRAG Al-QASTALII(958-1030)
“Quando a aurora chega, dorme e guarda como avaro o seu perfume.
Quando cai a Noite, espalha-o e exala-o”.
1-Camus, Albert. O Mito de Sísifo, ensaio sobre o absurdo. Lisboa, Livros do Brasil.
2-Camus, Albert. Morte Feliz (1971). Livros do Brasil


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Um comentário Conjunto patrimonial e paisagístico de Cacela Velha (Vila Real de Santo António) (***)

  1. Olá!
    Antes de mais, deixe que me apresente: sou a nova colaboradora do aldeia da minha vida
    Queria felicita-lo pelo post sobre Cacela velha. Fui pela 1ª vez ao Algarve em Junho e pernoitei em Vila Nova de Cacela e visitei a Manta Rota e Cacela Velha. Simplesmente adorei! Lindo,lindo e muito rica em História.
    Por fim, convido-o a dar uma vista de olhos no evento na nossa aldeia.
    Cumprimentos
    Lena

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