Capela do Senhor da Pedra (Vila Nova de Gaia) (**)

Capela do Senhor da Pedra (Vila Nova de Gaia) (**)

O pequeno templo votivo do senhor da Pedra está construído sobre um afloramento rochoso com cerca de 280 milhões de anos na praia de Miramar. As populações das localidades do Douro Litoral aqui afluem em Maio ou Junho, no domingo da santíssima trindade e transformam o areal num enorme terreiro de festa. Este culto ao Senhor da Pedra, neste caso Jesus Cristo, é a maior manifestação de religiosidade e da espiritualidade desta região. No Inverno é um local solitário e, com as marés vivas, transforma-se num leixão batido pela espuma das ondas.
São muitos os mistérios que envolvem esta construção. Vejamos alguns.
Quem construiu a Capela do Senhor da Pedra?
A data da construção da Capela do Senhor da Pedra não é consensual. Na sua fachada encontra-se um painel de azulejos que indica como ano de edificação o de 1686, não existindo todavia qualquer documento que justifique a adoção desta data.
Segundo Costa (1983), no arquivo paroquial de Gulpilhares, existe um documento datado de 1794, onde é possível ler o seguinte: Diz Francisco Caetano de Sousa Sacramento abade de Golpilhares de Gaya, que há 40 anos foi ereta pelo abade Jose Barbosa Pereira seu antecessor, a capela do milagroso Senhor da Pedra junto ao mar daquela freguesia com o produto das esmolas dos fiéis”. De acordo com o documento citado, a data de construção da capela da segunda metade e não de 1686, o que não deixa de estar em perfeita sintonia com o estilo arquitetónico e ainda com a talha rococó dos retábulos do interior da capela.(1)

No interior da Capela do Senhor da Pedra, existem três retábulos em talha de estilo Rococó, o qual fez escola em Portugal entre os anos de 1750 e 1800, no entanto estes retábulos podem ter sido colocados posteriormente aos retábulos primitivos, podendo, inclusive, datar de finais do seculo XIX, uma vez que, em finais do seculo XIX e inícios do seculo XX, a arte decorativa portuguesa respirava um ambiente revivalista; quem nunca viu nas nossas cidades ou cemitérios o neo-manuelino, neo-românico, neo-gótico e neo-renacentista?

Capela do Senhor da Pedra vila Nova de Gaia

Capela do Senhor da Pedra em Vila Nova de Gaia

Além disso, não se conhece qualquer prova documental que a capela existisse antes da segunda metade do seculo XVIII. Segundo o Catalogo dos Bispos do Porto, editado em 1742, na sua relação das paróquias e respetivas igrejas paroquiais e capelas da diocese portucalense, não se faz qualquer referência a capela do Senhor da Pedra. Vamos portanto classificar como sendo construída em 1754 no tempo do rei de Dom João V.
“O contexto histórico e estético da época não foi certamente alheio a este projeto. Vivia-se então o barroco, período caracterizado por um grande ritmo de construções e reconstruções religiosas, ao qual não era indiferente a abundância de riquezas, incluindo ouro, que chegava do Brasil. Por outro lado, o barroco foi também uma corrente estética da qual a Igreja Católica se serviu como reação ao Protestantismo. Através de grandes obras, belas, ricas e opulentas, pretendia-se captar a atenção e efetiva fidelidade dos fiéis. O barroco é também, por isso mesmo, uma arte cénica por excelência, á qual se associa um grande desenvolvimento das procissões, das romarias, do fausto dos atos religiosos, da exuberância e riqueza das alfaias litúrgicas envergadas pelos padres… um momento também para a construção de igrejas e capelas de grande impacto cenográfico. Em ermidas, nos sacro-montes (de que o exemplo mais paradigmático no Norte de Portugal é o “Bom Jesus” de Braga), e também no litoral…como é o caso do “Senhor da Pedra”.(2)
Lendas e mistérios na origem da Capela do Senhor da Pedra
O porquê da construção da capela neste local permanece incerto e são várias as histórias peculiares e as lendas em torno do pequeno monumento, alimentadas, ainda mais pela inscrição num azulejo que refere ter sido um altar pagão, não existindo nenhum vestígio material ou documental de tal afirmação, antes de ser convertido em espaço de devoção católica.
1ª Lenda da origem da Capela do Senhor da Pedra
A capela foi edificada em forma de agradecimento, na sequência de um milagre que salvara um grupo de pescadores em risco de naufrágio (ou era apenas um pescador como li em outros artigos).
O que terá levado o pároco daquela freguesia gaiense a reunir esmolas entre os seus paroquianos para construir tal edifício religioso? Esta a lenda do Senhor da Pedra poderia ter sido verdade. Não são assim tão raros os monumentos, alminhas ou capelas que, no litoral, foram mandados edificar em cumprimento de promessas feitas, em momentos de aflição, no alto-mar e o pároco teria executado a vontade dos náufragos.
2ª Lenda da origem da Capela do Senhor da Pedra
A segunda lenda diz-nos que quando as populações começaram com as construções em terra aparecia frequentemente uma luz a volatear sobre os afloramentos. Os habitantes interpretaram esse clarão como um sinal de Deus e, por isso, decidiram construir a ermida nos rochedos, e não no espaço inicialmente pensado.
Curioso e interessante é que muito próximo existe uma capela singela a que o povo chama de Capela do Senhor da Pedra pequenina, instalada numa ilha artificial, que substitui ao culto quando a capela do Senhor da Pedra fica rodeada por mar.
3ª Lenda da origem da Capela do Senhor da Pedra
A imagem de Cristo foi parar à capela através do mar. Segundo o povo existe uma gravada num rochedo pertence a um boi bento – o animal que aquecia o menino Jesus na manjedoura – que por lá passou.
Onde se encontra esta pegada que eu tive dificuldades em discernir? Será o afloramento no setor poente? São várias visíveis alguma marmitas marinhas naturais.
Não podemos descartar, no entanto, a possibilidade de, com esta capela, o pároco de Gulpilhares ter querido também cristianizar ancestrais tradições e cultos pagãos associados a estes rochedos.
Existe um fenómeno litolátrico na Capela do Senhor da Pedra?
“Alguns afloramentos litorais estão associados, provavelmente desde épocas muito remotas, a um fundo mágico, místico e religioso. Não é caso único. Bem pelo contrário. É muito comum a associação deste tipo de atributos a grandes rochedos marítimos que de destacam na paisagem. Porque se erguem, isolados, na imensidão dos areais, ou porque se destacam dos que os circundam pelas suas formas ou pela sua coloração e/ou formação geológica distintiva.
É famoso, na vizinha Galiza, o caso do grande rochedo que se ergue, isolado, no vasto areal da praia de Corrobedo, identificado como um castelo mouro que uma maldição petrificou, aí aprisionando uma bela princesa moura que continua à espera de quem quebre tal esconjuro.
Bem mais próximo eram igualmente famosos os enormes rochedos que, partindo da praia de Matosinhos, se estendiam e se erguia, ao largo da foz do rio Leça, constituindo durante séculos um porto de abrigo natural. Estes rochedos – os “leixões” – serviriam de resto, nos finais do século XIX, para o assentamento dos gigantescos molhes que transformaram este porto natural no porto artificial que lhes tomou o nome.
Mas os leixões, para lá das suas características geo-morfológicas, sempre tiveram também, pelo destaque que possuíam na paisagem, uma dimensão mágica e religiosa. Não é por acaso que, segundo a tradição, a Imagem do Bom Jesus de Matosinhos apareceu entre estes rochedos…
Ora, a devoção ao Senhor da Pedra enquadrar-se-á, portanto, neste fundo ancestral de cultos litolátricos.
E a verdade é que, pese embora toda a devoção e fervor católicos que a este templo fez ocorrer muita gente, na realidade esta capela e estes rochedos continuam, ainda nos nossos dias, a suscitar e a captar imensas práticas de magia e feitiçaria, e evidentes fenómenos de sincretismo religioso.
E para muitos dos que de deslocam até ao alto destes rochedos é tão importante entrar no interior da capela para observar a imagem de Nosso Senhor quanto perscrutar entre os afloramentos as “intrigantes” (ou mágicas?) marcas que eles ostentam. Entre elas há, no entanto, duas que, pelas suas dimensões, localização paralela e formas arredondadas, se têm salientado ao longo dos tempos. Várias explicações populares, cristianizadas, explicam a origem destas “pegadas”. Para uns trata-se das marcas deixadas pelo Boi Bento (esse mesmo: o que afagava o Menino Jesus na manjedoura do presépio) que por aqui passou numa clara associação á devoção a Nosso Senhor. para outros, no entanto, estas marcas são o resultado da passagem por este rochedo da burrinha de Nossa Senhora, com o Menino, durante a fuga para o Egipto.
Para mais alguns, contudo, estas pegadas pertencem nada mais, nada menos do que ao cavalo do “Desejado”. Segundo esta versão, há muitos, muitos anos, numa manhã de nevoeiro, D. Sebastião assomou mesmo às costas portuguesas. Foi aqui: no Senhor da Pedra! O seu cavalo cravou e gravou as patas no rochedo. Mas nem por isso D. Sebastião por aqui se quedou.”
Atualmente, ainda se vê, com alguma frequência, pessoas a realizarem rituais. Rituais esses que são vistos como “bruxaria” ou “feitiçaria”, ou seja fenómenos de ou então outros cultos religiosos ao fé cristão.
A capela do Senhor da Pedra é um local geológico proeminente
Num espaço tão pequeno afloram rochas granitoides com cerca de 280 milhões de anos com filões e massas aplito-pegmatiticas aspetos típicos de estruturas de fluxo magmático definindo alinhamentos caracterizados ou pela alternância de bandas escuras de biotite com bandas mais claras Este facto pode ser explicado pela cristalização mais ou menos simultânea de dois magmas imiscíveis e com diferentes viscosidades e diferente composição química. Para quem gosta de geologia é realmente espetacular, será que esta espetacularidade não terá influenciado o ser humano a estabelecer aqui um fenómeno sincrético de litolatria?
A atual capela do Senhor da Pedra
A capela do estilo barroco, situada a uma cota entre os seis e os sete metros acima do nível medio das águas do mar é enquadrada por escadaria e foi construída em granito.
A planimetria centrada de forma hexagonal da capela tem suscitado o aparecimento de diversas opiniões, umas mais fantasiosas que outras. A adoção de uma planta centrada na execução de um qualquer edifício visa, sobretudo, atingir objetivos estritamente utilitários como a defesa, neste caso o corte, dos ventos ou mesmo evitar a acumulação de areias em redor do edifício.
A localização da própria capela, assente sobre um rochedo, numa praia onde os ventos fortes são provenientes do Norte, parece justificar a planta da capela sob o ponto de vista pragmático.
Outra característica para defesa dos ventos deve ser a localização da sua porta voltada de costas para o mar e que dizem ser única em Portugal. Também a localização da porta protegia o interior da capela das inundações das marés e do embate das ondas.
A entrada principal com porta de madeira, onde estão gravados símbolos iconográficos da Paixão de Cristo é ladeada pelos dois painéis de azulejo já referidos. Todo este conjunto encontra-se enquadrado por uma galilé  simples.
O interior da capela, pavimentado com placas de granito apresenta um coro alto e, na sua continuidade, um púlpito simples, de madeira acessíveis por uma escadaria espiralada.
No interior da capela destacam-se três retábulos em talha dourada e policroma, imitando o mármore. No retábulo central, destaca-se a imagem de Cristo Crucificado, o Senhor da Pedra.

Hoje é um local situado numa praia de veraneio de excelente qualidade, muito próximo da foz de uma ribeira, com um enquadramento paisagístico magnífico e visitado por inúmeras pessoas, meros turistas, muitos mais namorado felizes, aqui contei em pouco mais de uma hora, ao entardecer e já com frio 7 casais felizes e aos beijos, como se fizesse parte de um ritual já instituído no inconsciente coletivo, porque estes locais tornam as pessoas mais felizes e a felicidade acompanhada é amiga das brancas paixões.
A religiosidade popular, por vezes bastante ambígua pede ajuda as forças misteriosas quer do bem quer do mal, na cura de problema, quase sempre de saúde ou até de outra índole, como fertilidade humana e de agricultura, em troca de oferendas aos deuses. Eis mais um exemplo nesta Capela do Senhor da Pedra, pois segundo o senhor José Bernardo, dono do café em frente, diz que aqui se curam os cravos da pele. Mas atenção caros leitores, normalmente a cura dos cravos está associada ao culto de São Bento, como no caso do São Bento da Porta Aberta e porque é que a cura dos cravos é assim tão importante para ocupar o ocupado São Bento? E onde está São Bento na Capela do Senhor da Pedra? não percebo!

Aqui o culto do senhor da Pedra,como em todos os locais deste género, além das festas litúrgicas, caracteriza-se pelas romarias e promessas, maneira religiosa de «pagar» ou satisfazer as promessas cumprindo-se duas necessidades básicas do ser humano: a alegria e cura de problemas de saúde.

A capela do Senhor da Pedra tem uma irmandade que cuida dela.

O Primeiro Banho do Ano
O que começou por ser uma brincadeira de amigos, há 46 anos, que, “depois do jantar de fim de ano”, decidiram “dar um mergulho no mar” quando a festa começa a esmorecer e o tédio a entrelaçar-se nas orações destes homens, é hoje uma tradição. Quem o diz é José Bernardo, dono do café em frente, que foi uma das 22 pessoas a participar no primeiro mergulho. Desde essa altura, celebrou sempre até muito recentemente.
O senhor José, “agora, isto é uma romaria”. E nesta romaria o abastardamento indumentário é total com homens a – fio dental e meias de ligas.
Depois de conversar como o senhor José Bernardo, fiquei com vontade de ir passar o final do ano ao Senhor da Pedra, mas como tenho as pernas, apesar de bonitas, peludas não irei vestido de senhora banhista.
Também existe um banho do ano na praia de Carcavelos na região de Lisboa.
Referências adicionais:
1-Viaje Comigo
2-SNPCultura

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