Capela dos Ferreiros (Oliveira do Hospital) (*)- O Mistério do Cavaleiro de Pedra

3 Razões para visitar a Capela dos Ferreiros

 

1-A capela dos Ferreiros é uma das mais belas capelas góticas de Portugal
2- Tem algumas das mais importantes realizações do Mestre Pêro
3-Para conhecer uma das mais importantes estátuas equestres com um cavaleiro gótico

“Quem quiser ver a Idade Média ao natural venha aqui a esta espantosa capela dos Ferreiros. A cavalaria, a religião e o amor, tudo na sua pureza natural”.
Miguel Torga, Diários

“Adossada à barroca igreja matriz de Oliveira do Hospital, a capela dos Ferreiros é um dos mais importantes espaços funerários góticos nacionais, pela relevância das obras que encerra, mas também por ser das poucas capelas sepulcrais baixo-medievais de iniciativa privada que se conservou até aos dias de hoje” (IGESPAR). (Pode continuar aqui a ler mais).
Da igreja barroca branca, salta a vista a anexa parede exterior constituída de granito, escura, com dois óculos quadrilobados e que é uma face lateral da capela dos Ferreiros.
Ignoremos, por enquanto, a igreja e viremos o olhar para a porta gótica e entremos na capela que continha uma lápide atualmente desaparecida que se encontrava na parte de exterior da Capela e que dizia: «No nome de Deus e da Virgem Santa Maria sua Madre, Domingos Joannes, Cavaleiro de Oliveira, fez esta Capella para si e para sua mulher na era de 1279». Domingos Joannes foi um importante fidalgo da região, cavaleiro da Ordem de São João de Jerusalém.
De pequenas dimensões, com 6,5×3,5m, ao penetrar sente-se um ambiente profundamente medievo, realçado pela luz nimbada de penumbra penetrada através dos óculos. O interior da Capela dos Ferreiros é coberto por abóbadas de berço, sem arcos de reforço devido a sua pequenez. Do recheio consta três peças realizadas pelo mestre Pêro: os dois túmulos do casal, uma estátua equestre dum cavaleiro medieval e um retábulo gótico.
Mestre Pêro e a Capela dos Ferreiros

Mestre Pêro, proveniente de Aragão ou da Catalunha foi o mais importante escultor gótico em Portugal. Contudo, ignoramos o momento da sua chegada ao reino e a quem se deve a iniciativa de tal deslocação. A estreita ligação aos meios palacianos portugueses, nomeadamente à rainha D. Isabel de Aragão e a D. Vataça, sua dama de companhia, sugere que a sua vinda se pode dever à própria Rainha, conhecedora do panorama artístico ciente do seu avanço técnico e estilístico, terá mandado vir o escultor para realizar o seu moimento funerário. A chegada deste mestre a Portugal marca uma viragem decisiva no panorama escultórico nacional, quer na escultura funerária, quer na devocional.
A sua escultura materializa-se por um estilo mais naturalista que a tradição escultórica românica já estabelecida na minha cidade. O Mestre utilizou como pedra preferencial o famoso Calcário do Jurássico Médio de Ançã-Portunhos, branco e facilmente moldável.

capela dos ferreiros Oliveira do Hopsital

Capela dos ferreiros Oliveira do Hospital

As obras mais importante do mestre Pêro e da sua oficina Coimbrã são o túmulo do arcebispo D. Gonçalo Pereira (*),na Sé de Braga (**), o túmulo da Rainha Santa (*), situado no Mosteiro de Santa Clara a Nova (**) em Coimbra, ou o mausoléu da dama de companhia da rainha D. Isabel de Aragão – a princesa bizantina Vataça Lascaris – que se encontra na Sé Velha de Coimbra (***) e as magníficas dezenas de virgens, muitas das quais se encontram no Museu Nacional de Arte Antiga em Lisboa (****). Do mestre Pêro existe uma secção com alguma estatuária importante no Museu Machado de Castro (***) em Coimbra.
Em Oliveira do Hospital encontra-se na capela dos Ferreiros o mais importante acervo do Mestre. O conjunto é constituído por dois túmulos jacentes, pelo célebre Cavaleiro de Oliveira (uma das raras esculturas medievais que não pertence a escultura funerária nem à escultura devocional), pelo Retábulo composto por cinco imagens em alto-relevo e uma bela estátua, de vulto, da Virgem com o Menino ao colo.
Todas as peças da capela dos Ferreiros são construídas em Calcário proveniente de Portunhos e foram transportadas em blocos para serem esculpidas em Oliveira do Hospital.

O Retábulo Gótico e as duas Virgens na Capela dos Ferreiros (*)

O altar da Capela dos Ferreiros assenta sobre uma mesa de granito, que tem sob si painel de azulejos hispano-árabes, elaborados em Sevilha.
Por cima da mesa está assente o retábulo gótico. O fundo do retábulo tem uma Lua e um Sol, que ladeiam a Virgem. Alinham-se então cinco imagens: ao centro a Virgem com o Menino, ladeada por um homem e uma mulher de mãos em prece e que provavelmente seriam os donatários da capela e dois anjos incensando. Todo o conjunto apresenta sinas de policromia grafitada e legendas identificando as imagens ou glorificando Cristo.
Por cima do retábulo e dentro de um nicho com restos de frescos, encontramos uma bela Virgem com Menino, de proporção maior do que as imagens do retábulo. É singular esta duplicação da Virgem com o Menino!

O Cavaleiro medieval de Oliveira de Hospital

Esta é uma das mais admiráveis e mais raras esculturas de todo o panorama artístico do gótico português. Tem 72 cm de altura e assenta na peanha, e representa um cavaleiro com armadura (com cota de malha), elmo, sapatos de bico com polainas, escudo com as suas armas: a cruz de Santo André e quatro flores de lises, espada embainhada e maça de armas na mão, montando um cavalo albardado com larga gualdrapa para combate ou torneio.

Vinda para uma exposição no Museu Machado de Castro (***), em 1911, a estátua foi trazida para Coimbra, sendo feita uma réplica brilhante pelo estatuário João Machado, por incumbência de António Augusto Gonçalves e enviada para Oliveira do Hospital. Esta, a da capela, deve ser a réplica; mas quem o confirmará?
O Cavaleiro é o símbolo de Oliveira do Hospital e tem uma interpretação modernista executada pelo escultor António Duarte em meados do século XX, situada numa rotunda da cidade.
Arcas tumulares de Domingos e Domingas
Os dois moimentos são lisos, e assentem em leões e sobre as tampas encontram-se as figuras jacentes do fundador e da sua mulher, com cães a seus. São esculturas calcárias, Domingos está vestido de túnica e manto da ordem dos cavaleiros de São João de Jerusalém, segurando a espada com a direita e luvas com a outra. A Domingas está vestida com grande afetação. Domingos Joannes, que segundo se diz chegou a ser Condestável em França teve uma vida venturosa, e segundo José Hermano Saraiva era um impostor; Domingas de Sabaché, tinha origem francesa. Mas desta história nada sei! As tampas dos sarcófagos têm alguns letreiros góticos insculpidos. Encontram-se relativamente degradadas porque durante décadas os meninos de Oliveira de Hospital aqui brincaram.
“Pena é que tão bela maravilha não seja facilmente visitada, uma vez que por ter sido vandalizada por alguns visitantes, o espaço encontra-se fechado, devendo quem o queira apreciar, solicitar previamente a abertura do templo ao pároco local. A falta de promoção do espaço e de uma estratégia para a sua recuperação inviabilizam a contemplação e preservação do seu interior” (frase retirada do site da Junta de Freguesia de Oliveira do Hospital).
Antes de sair aprecie as pinturas do teto com perspetivas arquitetónicas e a representação da adoração do Cordeiro do século XVIII, talvez de Pascoal Parente. Do recheio do templo fazem ainda diversas imagens do século XIV em Pedra de Ançã. Quem sabe se algumas não saíram do cinzel do Mestre Pêro com a pedra que sobrou para a imaginária da capela?

À frente da capela dos Ferreiros encontra-se uma magnífica Tília com 4 metros de perímetro de tronco e mais de 25 metros de altura. Está classificada de Interesse Público. Em frente a Câmara está o pelourinho manuelino de granito. É elegante com fuste com quatro toros helicoidais que termina em capitel decorado com quadrifólios.
A quem diga que este pelourinho foi retirado do antigo concelho extinto do Ervedal da Beira; se assim é, será que os canteiros de Santa Ovaia não poderiam elaborar um réplica perfeita para o recolocar de novo na espaço primitivo?
A capela dos Ferreiros é uma das mais significativas capelas medievais do nosso País e está classificada como Monumento Nacional.

Dúvidas a quem de direito e ao viajante atento

Qual é a estátua original do Cavaleiro, a da Capela dos Ferreiros ou a do Museu Machado de Castro? Qual foi a verdadeira desdita de Domingos Joannes?

5 Locais notáveis próximos da Capela do Ferreiro

-Palheiras dos Fiais (*)
-Conjunto romano da Bobadela (**)
-Antiga Estalagem de Santa Bárbara do Arquiteto Manuel Tainha (*)
-Igreja Moçárabe de São Pedro de Lourosa (**)
-Vale do Rio Alva (*)
Boa Viagem!
Nota final: Enquanto não tenho fotografias apesar de ser uma dos monumentos que eu mais visitei, talvez por isso se diga que santos da casa não fazem milagres, vou usar a fotografia retirada flickriver retirada do projeto imagens do centro.


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3 comentários Capela dos Ferreiros (Oliveira do Hospital) (*)- O Mistério do Cavaleiro de Pedra

  1. Luis Santos says:

    Como Tabuense que sou, tenho aqui uma grande lacuna!
    Muito Obrigado pelo artigo, pois vou guarda-lo e colocar na minha agenda de locais a visitar!

  2. Maria Teresa Loureiro says:

    Felicito, por dar a público um artigo, com um assunto tão polémico…Cavaleiro de Oliveira-verdadeiro ou falso?- Há um ano e tal que troco correspondência com a Câmara de Oliveira do Hospital (com fracos resultads),com o Museu Machado de Castro (sem resposta alguma)…Mas não desisto.
    Gostava de saber a que fontes recorreu, para escrever o seu artigo,principalmente no que respeita às afirmações sobre João Machado e António Augusto Gonçalves.
    Sou natural de Oliveira do Hospital, tenho casa lá,mas resido no Porto.
    Há mais de um ano fui visitar o remodelado Museu Machado de Castro e espantei-me,quando constatei que o dito Museu adotou o dito Cavaleiro Medieval, como seu…Aconselho-o a ler a obra do Padre Laurindo, publicada pela Junta de Freguesia de Oliveira do Hospital
    Obrigada .
    Maria Teresa loureiro

    • Castela says:

      Boa noite, esta associação com o estatuário João Machado, surgiu naturalmente, depois de analisar algumas das suas peças em Sintra, por exemplo no Palácio da pena, na Regaleira, no Buçaco, em cemitérios, e em que revivalismo românico, gótico e Manuelino estava tão em voga. Infelizmente este ótimo escultor que trabalhava em Pedra de Ancã, pouco criava e muito recriava devido a incumbências várias; mais tarde coloque esta hipótese e a um famoso historiador da arte que disse sem certeza que provavelmente teria sido assim. Obrigado pelas amáveis palavras.

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