Capela-mor da Igreja da Misericórdia de Freixo de Espada-a-Cinta (*)

Situada na praça Jorge Alvares, em frente a Igreja Matriz de Freixo de Espada-a-Cinta (**), a igreja da Misericórdia do século XVI, é um dos mais belos monumentos manuelinos de Trás-os-Montes. A sua fachada desornamentada, com um grande portal de aduelas largas à moda de Castela, é o oposto do seu interior magnificamente trabalhado.
A nave é estreita, mas bastante alta e alongada. A capela-mor abobadada é notável (*), quer pelo sumptuoso retábulo de talha dourada barroca, com colunas salomónicas e tribuna em dossel, mas principalmente pela belíssima abóbada polinervada de granito concluída apenas em 1555. O tecto é policromado em abóbadas de nervuras, curvas e densas, que partem das mísulas trabalhadas e fecham em botões de flores e cabeças de anjos. Em dois fechos singulares aparecem um escudo dourado com as cinco chagas de Cristo e um brasão de armas. As chaves, heráldicas e decorativas, são preciosas, já de recorte renascentista Subsistem nas paredes laterais vestígios de pinturas a fresco. O exterior da capela-mor tem no friso interessantes gárgulas com gravuras grotescas.
Um dos mestres do Convento de Cristo, João de Castilho, trabalhou em Freixo de Espada a Cinta?
Alguns autores julgam ter havido na construção desta capela-mor a influência do arquitecto asturiano João de Castilho, uma inspiração à solta por terras lusas, que depois de ter estudado em Itália, veio para Portugal em 1517. Trabalhou no Convento de Cristo em Tomar (*****), na Sé de Viseu (**), Mosteiro de Alcobaça (****) e Mosteiro dos Jerónimos (******), tendo casado em Freixo de Espada-a-Cinta com a filha de outro refugiado espanhol nobre, cuja família esteve ligada à fundação desta Misericórdia. O risco do reticulado não poderia sair da mão de um mestre pedreiro provinciano; é possível que estejamos a ver uma obra saída da inspiração de João Castilho ou de um seu valoroso discípulo.  

Quem passar pela vila, é imperdível ver esta jóia manuelina; aquando da sua construção ainda se respirava a honra e o orgulho dos descobrimentos, enquanto ao longe, o Império se desmoronava. A frase do nosso Camões, adaptada por mim, corresponde à nossa maior lacuna: fracos líderes tornam fracas as fortes gentes.
Peça as chaves ao lado no Lar da Misericórdia.

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