Castelo de Ansiães, Igreja de São Salvador e panorama (Carrazeda de Ansiães) – História e paisagem num espaço singular (II parte) (***)

Ansiães

A antiga vila medieval de Ansiães de que restam muros e ruínas românticas tem uma dupla estrutura defensiva grandiosa de pedra granítica.
A muralha exterior de Ansiães
A muralha mais externa da vila de Ansiães tem uma extensão superior a 600 metros e três torres quadrangulares. em traçado algo sinuoso dando origem a um espaço interno de grande dimensão mas com um perímetro bastante irregular.
Desta planta geral emerge uma organização urbana assente em dois eixos estruturantes que acompanham a rota dos pontos cardinais. Um primeiro eixo de ligação interna arranca a Norte, junto da porta de S. Francisco e dirige-se para Sul, culminando na porta de Fonte de Vedra.
O segundo, parte da Porta da Vila, a Oriente, e vem culminar no outro extremo Ocidental, junto da porta de São João Baptista. A partir destas linhas estruturantes partem depois pequenas ruas, vielas e arruamentos que organizam o intrincado da malha urbana.


Nesta organização espacial, ressalta em posição destacada a igreja de S. Salvador de Ansiães que é um dos mais belos templos românicos de Trás-os-Montes e quiçá de Portugal e que se ergue imponentemente na zona mais alta da área habitacional- mas lá iremos senhores. O templo é rodeado por um largo que integra a antiga necrópole medieval.
A muralha Interna de Ansiães
A sudeste abre-se a porta de S. Salvador junto a igreja com o mesmo nome que permite o acesso ao interior deste recinto através de um caminho que liga diretamente à torre de menagem. Esta porta, com arco de volta perfeita, é flanqueada por dois dos torreões que integram o complexo estrutural desta primeira muralha, constituindo o único ponto de acesso ao interior do reduto onde se centra a “infra-estrutura” vital do povoado, como é o caso de uma profunda cisterna com grande capacidade para o armazenamento de água.
Na cota mais elevada desse morro organiza-se uma primeira plataforma de configuração aproximadamente oval, que é definida a partir do traçado de uma pequena muralha que se reforça por cinco torreões quadrangulares.
A igreja de São Salvador de Ansiães (**)
Mas mais fantástica é esta igreja românica de São Salvador de Ansiães com uma escultura românica excepcional pelo seu simbolismo iconográfico.
Outros edifícios românicos subsistem no distrito de Bragança que são notáveis e que merecem o respeito e a visita de todos os amantes do românico europeu e que são:
-Igreja românica de Santa Maria Azinhoso (Mogadouro) (**)
-Igreja românica de Algosinho (Mogadouro) (**)
-Igreja românica de Adeganha (Torre de Moncorvo) (**)
-Cabeceira da Igreja de Castro de Avelães (Bragança) (*)
-Domus Municipalis de Bragança (***)
“A igreja de invocação a S. Salvador, em Carrazeda de Ansiães, é um testemunho de valor excecional do Românico nordestino. Destaca-se pelas suas proporções, harmonia e decoração escultórica. A arquitetura da igreja denota uma grande qualidade conceptual, desconhecendo-se, no entanto, o responsável do risco e realização da obra. A igreja, de pedra granítica aparelhada, ergue-se junto à porta do castelo, não se sabendo, em rigor, a data da sua fundação. A filiação estilística do templo na arte românica não significa que não seja posterior, dado o apego que persistiu no Norte de Portugal a esta corrente estilística. Pelas lápides que se encontram no terreiro, como letras e armas gravadas de ordens militares, é plausível aceitar que aqui se encontram enterrados os cavaleiros que lutaram contra Castela, numa batalha desenrolada num ribeiro próximo, e que para a vitória muito contribuíram os Sampaio, senhores da vila de Ansiães. A fachada da igreja é marcada por dependência medieval em ruínas, possivelmente a casa do padre, que se encosta ao alçado no ângulo direito.”1
O Leitor sabe o que é um Pantocrator?
A igreja de São Salvador de Ansiães tem no seu portal principal, ou seja no seu tímpano, um objeto único, um “Pantocrator do Juízo Final” ou seja um  “Cristo em Majestade” que é um dos mais bonitos no país.
Um Pantocrator normalmente é colocado no tímpano de um templo românico, acolitado por evangelistas, profetas, santos e com frequentes figurações alusivas ao castigo e a salvação da alma com frequência barbado, justo mas atemorizador, que domina claramente-pela escala central majestática- as cenas enquadradas, procurando levar pelo bom caminho os crentes que a contemplam-pelo exemplo do verbo revelado através do programa iconográfico mas também pelo temor que a sua visão suscita.
Em substituição de Cristo surge, por vezes com o mesmo sentido teofânico-de manifestação de Deus- o Agnus Dei ou Cordeiro Místico simbolizando cristo da Paixão, morto para salvação dos homens.
Conhecemos 5 Pantocratores em Portugal: Igreja de São Pedro de Rates (Póvoa do Varzim) (***), Igreja de São Salvador de Bravães (Ponte da barca) (***), igreja de São Cristovão de rio Mau (***) (Vila do Conde), igreja de São pedro de Rubiães (Paredes de Coura) (**) e este Pantocrator de Ansiães
O Pantocrator de Ansiães está rodeado pelo tetramorfo com os símbolos dos evangelistas nas posições hierarquicamente corretas, com o anjo de São Mateus e a aguia de acima do touro de São Lucas e do leão de São Marcos, ou seja as entidades aladas sobre as terrestres.
Um raro Cristo imberbe encontra-se sentado com a mão esquerda segurando um livro sobre a perna esquerda e a mão direita em bênção.
Na última aduela do lado sul onde se esculpiu, numa escala consideravelmente maior que as restantes figuras, a figura de Moisés com as tábuas da Lei o primeiro passo para a salvação da humanidade.
Pela sua ornamentação, é considerado um portal de excepção. Envolvem as arquivoltas variadíssimas temáticas decorativas: fitomórficas, de perfis salientes, simbólicas, figuras antropomórficas, zoomórficas, etc.
No segundo arco interior, aparecem-nos representados S. Pedro, S. Paulo e mais sete figuras: umas ostentando livros e uma outra um pequeno macaco. As arquivoltas seguintes mostram-nos vários tipos de animais e distorcidas cabeças humanas, uma sereia…
Para tornar ainda mais misterioso o portal, aparece gravado neste um grande número de siglas. Estas repetem-se pelas paredes da igreja, sendo algumas de grande beleza.
A magnífica a igreja com os seus em capitéis profusamente decorados com a imaginária simbólica medieval é realmente admirável e poderíamos aqui construir várias páginas a meditar sobre o significado de todo aquele conjunto.
As fachadas laterais são animadas pelos singelos modilhões dos beirais e por duas portas também excelentemente ornamentadas.
Mas o românico não se fica por aqui, pois antes de chegarmos a linha de muralhas pode encontrar aqui a singela igreja de São João Baptista, cuja origem se perde no tempo e com um portal que estranhamente não se volta Ocidente, porventura devido a uma reestruturação posterior.

O Panorama do Castelo de Ansiães (*)

A vista que se colhe do cimo das muralhas sobre definida largueza circundante impressiona.
Com a planalto Transmontano aqui a ceder para os escavados vales do rio Douro e do Tua vêem-se as velhas aldeias de Selores e Lavadeira. Para Norte do rio Douro, descobrem-se as linhas de relevo que permitem avistar territórios de São João da Pesqueira, de Penedono e ainda consegue-se avistar o castelo de Numão (**), o Povoado do castelo Velho de Freixo de Numão (**) e parece-me descortinar a Aldeia Histórica de Marialva (***). Todo este conjunto é um assombramento e um dos locais mais notáveis do Reino Maravilhoso Transmontano.
1-Texto retirado da Infopedia.
2-Recomendo vivamente e a leitura do site dedicado ao conjunto patrimonial de  Ansiães

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