CASTELO DE ALTER DO CHÃO (*)-Episódios da idade Média

CASTELO DE ALTER DO CHÃO (*)-Episódios da idade Média

Gostamos muito de visitar os castelos alentejanos, porque encontramos sempre pessoas simpáticas e hospitaleiras e nos vários encontros castelejos já nos aconteceu tudo de bom, no Castelo de Alter do Chão, vimo-nos rodeados por bons homens, com sorrisos e conversas de circunstância e quase jogávamos uma cartada. A Rita bem queria ali ficar, talvez para sempre quem sabe, mas enfim tínhamos que continuar o nosso caminho guiada pela responsável do Turismo de Alter do Chão, Maria Durão e seguir para a notável Quinta do Álamo.

História do Castelo de Alter do Chão

Eis um pouco da história do Castelo de Castelo de Alter do Chão, situado no centro da vila, ou pelo menos aquilo que pensamos ser o mais interessante para viajantes. Sabe-se que aqui viveram romanos, sendo que por aí passava uma das três estradas que ligavam Lisboa (Olissipo) a Mérida (Emérita Augusta), onde se edificou a mais bela ponte do império em Portugal, a de Vila Formosa (ler aqui). A localidade recebeu o nome de Abeleterium. Ao longo da muralha existe na base do castelo pedra romana ou muçulmana. Nesta altura, a vila de Alter do Chão devia ser um posto de defesa e organização do al-Andaluz.

Alter+do+Chão+-+Vista+Aérea+do+Castelo

No contexto da Reconquista cristã da península Ibérica, esta região foi ocupada pelas forças de Portugal desde a segunda década do século XIII: D. Afonso II ordena o seu repovoamento. Ainda visando incrementar o seu povoamento, o rei D. Afonso III e Dom Dinis dão-lhe e renovam o foral à povoação. Em 1359, o foral da vila foi reformulado por D. Pedro I, tendo este rei, mandado construir o castelo, (é de supor que no mesmo local existisse uma fortificação arruinada), conforme pode ser comprovado pela placa epigráfica de mármore que encima o portão principal, mencionando a data de 22 de setembro de 1357. Devido a essa reformulação do foral, na segunda metade do século XIV, o rei D. Fernando I deu os domínios da vila ao Condestável D. Nuno Álvares Pereira. Mais tarde, o castelo de Alter do Chão passaria para a filha de D. Nuno Álvares Pereira, que se casou com o duque de Bragança, de modo que, o Castelo de Alter do Chão passou a pertencer aos domínios desta casa.

castelo de alter do chão vista da torre de menagem

Com a subida ao trono de D. João II em 1481, que com os seus desejos de fortalecer o poder real e as providências que tomava contra as excessivas regalias das classes privilegiadas, levaram o Duque de Bragança, Dom Fernando II, a fazer um protesto envolvendo alcaides das suas fortalezas, declarando-a lesiva da sua dignidade e excessivamente rigorosa, sendo, nesta atitude, acompanhado dos irmãos e do Duque de Viseu (futuro rei dom Manuel I), o castelo de Alter do Chão, foi um dos que mais protestou. Mais tarde, este argumento viria a ser usado contra si, ao ser acusado de rebeldia e conspiração, o que levou a que fosse condenado à morte, em 1483 pelo rei Dom João II. A vila e seu castelo foram conquistados e ocupados por tropas espanholas sob o comando de D. João de Áustria (1662) mas rapidamente passaram para domínio português. Em 1910, o Castelo de Alter do Chão foi classificado como Monumento Nacional, tendo mudado novamente de mãos, até que, por fim, viria a ser adquirido pela Fundação da Casa de Bragança, que o manteve em sua posse até aos nossos dias. Atualmente, o Castelo de Alter do Chão encontra-se em bom estado de conservação e é um monumento digno de ser visitado.

cimo da torre de menagem castelo de alter do chão

Teve inicialmente funções residenciais, mais tarde alcaidaria e prisão, sendo utilizada no séc. XX como loja de ferrador, oficina de carpintaria, celeiro, cavalariças, lagar de azeite e lixeira. No âmbito de um projeto de recuperação e valorização, levado a efeito pela Câmara Municipal de Alter do Chão, foram criados um centro interpretativo e salas de exposições.

A Estrutura do Castelo de Alter do Chão

Este é um puro castelo gótico com seis torres, quatro quadrangulares e duas cilíndricas. O adarve percorre o alto das muralhas, protegido por ameias, tem ainda nas torres merlões quadrangulares com seteiras. A torre de menagem está em posição recuada na praça de armas, num ângulo, com planta quadrangular, eleva-se a 44 metros de altura, com o parapeito coroado por ameias tronco-piramidais. Internamente, divide-se em dois pavimentos. À torre de menagem só é possível aceder por meio do adarve que percorre todo o recinto, o que mostra o quão importante era a torre, no caso de uma possível invasão do 1º piso.

epigrafe da fundação od castelo de alter do chão

Também esbelta é o torreão quadrangular, que protege a entrada do recinto do castelo. Aqui o portão do castelo, em arco ogival, como já se disse é encimado pelo escudo real  com uma inscrição epigráfica: ERAMILÉSSIMA: CCC E NOVENTA V ANOS XXII DIAS DE SETEMBRO O MUI NOBRE REI DOM PEDRO MANDOU FAZER ESTE SEU CASTELO D’ALTER DO CHÃO Por esse portão se acede à praça de armas na qual se abrem o poço e a cisterna. Esta interessante torre de entrada, pouco bélica, não permitia o flanqueamento da porta a partir das torres, mas apenas a possibilidade de tiro vertical para neutralizar a entrada.

fundação do castelo de alter do chão

Contígua à Torre de Menagem do castelo de Alter do Chão, encontra-se a fachada da antiga alcaidaria e de outras dependências, que demonstram ter tido este castelo a função residencial. Sobre a porta da alcaidaria, encontra-se outra inscrição epigráfica, que reza: ESTA OBRA MANDOU FAZER FERNÃO RODRIGUES VEEDOR DE DOM FERNANDO NETO DEL REI E CONDE D’ ARRAIOLOS ERA DO MUNDO DE MIL jjjjc e X ANOS”. O ano na inscrição corresponde a 1372.

alter do chão

Função do Castelo de Alter do Chão

O castelo de Alter do Chão hoje encontra-se cercado pela vila de mesmo nome, que cresceu em seu redor. Este local destaca-se numa envolvente de relevos pouco acentuados, as elevações mais marcantes situam-se a norte de Alter. Aliás para Norte, Nordeste e Este os terrenos envolventes apresentam cotas mais elevadas que aquela em que se desenvolve Alter do Chão. Para Sul e Oeste abre-se uma zona mais plana, onde se desenvolve a Ribeira de Alter. A este de Alter do Chão está o castelo de Alter Pedroso. Assim, o controlo da envolvente seria limitado, dado às maiores altitudes para Norte. O castelo de Alter do Chão era um castelo de ocupação local, e não um castelo de conflito de fronteira. A sua principal preocupação seria o de proteger, defender e assegurar o território, mas não era destinado a conflitos intensos. O edifício da alcaidaria estaria integrado na conceção do projeto inicial, o que desde o início, torna este castelo um castelo-residência. O castelo de Alter do Chão é um local de encantamento. As suas proporções e o seu interior tornam-no um local aprazível. Facilmente nos imaginamos aqui a residir. Tem um toque dos castelos do sul, um certo romantismo, mas onde a história se revelou com episódios sangrentos, que em pequena escala repercutem aquilo que mau ainda existe em Portugal no século XXI.

panorama castelo de alter do chão

Os 12 Melhores de Alter

Todos sabemos que o nosso território tem sido palco ao longo dos milénios de um duelo constante, ora amainado, ora intenso, entre os desfavorecidos (o povo) e os oligarcas, associados ao poder, seja ele régio ou republicano.

Na idade Média portuguesa este foi um facto marcante e para entender a nossa História, teremos que de modo simplificado, nos remeter aquela dualidade, de um lado o povo plebeu, do outro a Nobreza e o Clero. Alguns reis favoreceram o povo, como Dom Afonso III, Dom João I ou o Dom João II, muitos dos outros a nobrecia. As guerras civis medievais envolviam quase sempre esta dualidade, como é o caso da crise de 1383-85 em que os plebeus venceram.

patio interior do castelo de alter do chão

“Quem for a Alter do Chão e estiver atento à toponímia não poderá deixar de verificar a alusão aos 12 melhores de Alter. Nos dias de hoje, soa de uma forma estranha a referências aos 12 melhores, mas na idade média era uma designação comum para os mais importantes membros dos concelhos, sede do poder popular. Geralmente eram Lavradores, ou seja detentores de terrenos agrícolas, que empregavam os chamados jornaleiros, que trabalhavam à jorna (ao dia), pagando um imposto ao Rei pela posse das propriedades. Este fenómeno apenas podia existir numa terra que não tivesse senhor, porque nas terras com senhor, seja uma Ordem religiosa ou um fidalgo, toda a população trabalhava nas suas propriedades, pagando uma pensão em géneros ao seu proprietário. Esta relação não era isenta de atritos, como comprova os inúmeros levantamentos populares contra os senhores, motivado pelos abusos constantes a que eram submetidos. Neste contexto, a aspiração das populações seria, naturalmente, verem-se livres do poder senhorial, organizando-se em Concelhos que dependiam apenas do Rei, e como tal gozando de muito maior autonomia e prosperidade, por comparação com as terras que o Rei dava a algum fidalgo (geralmente para recompensá-lo dos seus serviços) ou a um Ordem religiosa – grandes proprietários até à revolução liberal, com destaque para a de Cister, Cristo, Santiago, Aviz ou Santa Cruz de Coimbra.

torre de menagem do castelo de alter do chão

O documento que fixava as relações entre as populações e os detentores da terra eram os forais. Um dos deveres habitualmente consagrados nos forais que mais incomodava os Concelhos era o Direito de Aposentadoria. Como não existiam hotéis, quando os nobres se deslocavam a determinado lugar e precisavam de descansar, o povo tinha a obrigação de os acolher, geralmente na casa dos Lavradores mais importantes, o que era uma fonte permanente de conflitos pela sobranceria com que os fidalgos tratavam os donos da casa. Não eram só os nobres que ficavam hospedados, era também o seu numeroso séquito, cometendo habitualmente uma série de abusos: roubavam as adegas, humilhavam os proprietários, abusavam das filhas…, enfim uma série de situações que muito incomodava os povos.

torreao no castelo de alter do chão

Até Dom João I Alter o Castelo de Alter do Chão não teve dono. O Rei de Boa Memória  para recompensar os serviços de Condestável D. Nuno Alvares Pereira incluiu no seu vastíssimo património Alter, e por esta via entra na posse do morgado da casa de Bragança, que a partir de 1640 são os Reis de Portugal. No entanto, o episódio dos 12 melhores de Alter é muito anterior a essa doação, numa altura em que vigorava o foral concedido por Dom Diniz, e onde se estipulava que a terra estava isenta de prestar aposentadoria. Sucede que um fidalgote de Évora, ou por desconhecimento ou por jactância, pretendeu fazer tábua rasa desse direito e aposentar-se na Vila. As forças municipais, evocando o foral da terra, opuseram-se à vontade do fidalgo e este muito melindrado foi até Lisboa fazer queixa ao Rei. Isto passou-se ou no reinado de D. Afonso IV ou do seu filho Pedro o Cruel, (as fontes não nos permitem identificar ao certo) e o monarca, depois de mandar consultar os documentos, confirmou que a pretensão do fidalgo não tinha fundamento, dando razão ao concelho de Alter. O fidalgo não se conformou com a decisão. Juntou o seu séquito e dirigiu-se a Alter, onde manda matar os Homens Bons da terra, que lhe haviam feito tamanha afronta. Os Homens bons, ou os “melhores”, como ficaram conhecidos, seriam as pessoas mais importantes da terra, que dirigiam o Concelho em nome do bem comum, ousando inclusivamente afrontar quem não respeitasse o Direito dos Povos. Os 12 melhores perderam a vida, mas o poder dos concelhos não cessou de aumentar até à crise de 1383/85, onde estes tomam as rédeas do poder ao lado do mestre de Aviz. Paradoxalmente, o mesmo Rei que viria a desferir um ataque brutal ao poder municipal ao doar meio país ao seu Condestável, bens esses que mais tarde dariam lugar à poderosa Casa de Bragança”. E assim nos vem a mente a frase de único romance, de Giuseppe Tomasi di Lampedusa, O Leopardo, quando este diz que “Para que as coisas permaneçam iguais, é preciso que tudo mude”. E onde é que já vimos isto?! É fácil, basta ver o BPN, BPP, BES, privatizações que levaram ao desmantelamento da PT, as parcerias público-privadas…e que são umas das maiores causas da nossa decadência, as excessivas regalias das classes privilegiadas financeiras em desfavor do povo.

castle Alter_do_Chao

A Forçada do Castelo de Alter do Chão

Outra história que se relaciona com loucura ou crueldade tem como ator principal, Dom Pedro I, o tal da Inês de Castro. Mas atenção, esta história apesar de se encontrar nas crónicas de Fernão Lopes, não garante que se tenha passado em Alter do chão.
Soube o rei que aqui existia uma mulher chamada de “forçada”. Intrigou-se o rei e logo mandou chamar a mulher à sua presença, que lhe disse que quando era mais nova tinha sido “forçada” (violada) por um homem com quem depois casou e teve filhos. De imediato o rei quis fazer Justiça e condenou o homem à forca. Bem chorava a mulher dizendo que gostava muito do marido, que el-Rei não se comoveu e mandou executar a sentença. O que atesta também um tema ainda muito atual, o poder do Homem sobre a Mulher, com violência doméstica e ainda a impiedade dos poderosos para com os súbitos. O que faria o leitor se estivesse no local do rei Dom Pedro, o Cru? Não julgue sem primeiro vir ao belo Castelo de Alter do Chão e aqui muito calmo, terá todo o tempo do mundo para pensar naquilo que somos como nação.

Referências adicionais: Aqui se narra a estória dos 12 Alter de onde retiramos a parte do texto que se relaciona com o sucedido.

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