Castelo de Amieira do Tejo (Nisa) (**)

Castelo de Amieira do Tejo (Nisa) (**)

O castelo de Amieira do Tejo foi outrora um relevante reduto militar e um núcleo urbano de considerável importância, uma vez que tinha um porto no rio Tejo que ligava por barca o Alto Alentejo à Beira Baixa.

O castelo da Amieira do Tejo, faz parte da linha de defesa do rio Tejo com as suas várias fortalezas e que são: os Castelos de Belver ou Almourol ou ainda as torres de vigia de Cardigo ou do Rei Wamba, esta nas Portas de Rodão.

Fundado no reinado de D. Afonso IV (1325-1357), a sua edificação é atribuída a Álvaro Gonçalves Pereira, prior da Ordem do Hospital, e pai do futuro Condestável, D. Nuno Álvares Pereira e constitui um caso ímpar no panorama da arquitetura militar portuguesa pela exemplaridade, regularidade do seu traçado (sendo um dos castelos com planta praticamente regular) e pela sua localização, bem no meio da aldeia e num ponto não elevado.

A fundação do castelo

A construção do castelo de Amieira do Tejo está ligada à história da Ordem do Hospital em Portugal e à doação de 1194, por D. Sancho I, da Herdade de Guidimtesta, que abrangia um vasto território, cujos limites compreendiam, as povoações de Sertã, Pedrógão Pequeno, Oleiros, Belver (que ainda não existia), a norte do Tejo e, a sul, as de Gavião, Tolosa e o sítio de Amieira, que posteriormente se expandiu ao Crato. Apesar da vocação primordialmente assistencial desta Ordem, contrariamente à propensão marcadamente militar dos templários, a deslocação dos hospitalários para sul e a sua participação na conquista de Silves, em 1189, parece assinalar uma viragem nessa tendência e a doação da Herdade de Guidimtesta por D. Sancho I, com a menção expressa de aí edificarem um castelo (de Belver) regista as preocupações régias na defesa e povoamento do território.

A responsabilidade pela edificação de um castelo no território de Amieira – cujo valor estratégico, devido à proximidade do Tejo e ao facto de se tratar de um ponto de passagem importante, é por de mais evidente – cabe ao prior da Ordem dos Hospitalários, Álvaro Gonçalves Pereira, após a transferência, em 1356, da sede da ordem de Leça do Bailio para o mosteiro vizinho de Flor da Rosa.

Amieira do Tejo, tinha então uma localização privilegiada porque estava apenas a 3km do porto de passagem da Barca no rio Tejo. Da especial importância viária desta localização, vale a pena referir as Memórias Paroquiais de 1759;, aí se referem as ótimas condições de navegabilidade das águas e a qualidade do seu porto de passagem fluvial, na Barca da Amieira (*),pela ligação que faz da Beira Baixa com o Alto Alentejo e justificando a ausência de acidentes “[…] a milagres que faz a Rainha Sancta Izabel por ter no dito Porto passado o seu santo corpo quando da villa de Estremos foi sepultado a Cidade de Coimbra, […], tendo a Rainha Santa morrido em 1336.

A importância da Barca da Amieira como zona de passagem e via comercial parece reportar-se, pelo menos, ao período da fundação do castelo de Amieira do Tejo e manteve-se, em grande parte, até final da década de 60 do século XX, altura em que a construção da barragem do Fratel provocou um forte decréscimo no movimento comercial, acentuado, nos anos 80, pela construção do IP 2.

Em 1359, já era prior Pedro Pereira, e o castelo de Amieira do Tejo, entre Belver e o Crato, encontrar-se-ia assim praticamente concluído: de planta quadrangular, dotado de quatro torres nos cantos (menagem, Sanguinho, Pandeirinhos e São João Batista) assumindo a maior as funções de torre de menagem e simultaneamente de residência do alcaide, com pátio retangular e cisterna central e inteiramente rodeado por uma extensa barbacã.

Adotado pelo fundador, Álvaro Gonçalves Pereira, pai de Nuno Alvares Pereira, como refúgio durante os seus últimos anos de vida, a capacidade defensiva do monumento não terá sido duramente posta à prova durante os períodos vindouros. Palco de alguns conflitos ao tempo da crise dinástica de 1383-1385. Durante a Crise de 1383-1385, o então Prior do Hospital, D. Pedro Pereira, no início de 1384 reconheceu a autoridade de D. Beatriz, filha de D. Fernando, e, como tal, herdeira legítima do trono português. O Castelo da Amieira, juntamente com outros da Ordem, prestou obediência à Rainha, situação modificada poucos meses mais tarde, por influência do Condestável D. Nuno Álvares Pereira, irmão do Prior, tendo este partido para Castela.

O único episódio militar em que o castelo de Amieira do Tejo esteve envolvido ocorreu em 1440. Tendo D. Leonor de Aragão, se desentendido com o infante D. Pedro, retirou-se, com a cumplicidade do prior, D. Nuno de Góis, para o Crato, tendo invocado em seu auxílio as forças de Castela, que cercaram a Amieira. Diante dessa insubordinação, D. Pedro determinou a ocupação dos castelos do priorado do Hospital nessa região fronteiriça, ordenando ao conde de Abranches, acometer o castelo de Amieira do Tejo. Sem oferecer resistência os castelos renderam-se, o prior do Crato e D. Leonor puseram-se em fuga para Castela e a paz foi restabelecida.
Os primeiros trabalhos de reparação documentados datam do tempo de D. João II, prosseguidos no reinado seguinte, altura em que foram realizadas obras em 1515.

É a partir do século XVI que se regista, gradualmente, uma situação de abandono e de degradação, fruto da inatividade bélica e da falta de manutenção, situação que a documentação de 1759 expressa, quando refere que as quatro torres não têm já “sobrados nem telhados e a sala principal entre as duas primeiras torres está arruinada”. Acabou por ser a polémica transferência – ocorrida após a lei de 1846 – dos enterramentos da igreja para o interior do recinto do castelo, que garantiu algum cuidado na manutenção daquele espaço. Já então o castelo estaria desafetado das habitações que o ocuparam durante largos anos, e que se encontrariam semidestruídas.

Nos alvores do século XX, o Castelo de Amieira, destituído das construções mais nobres que o adornavam outrora e ocupado por “casebres de moradia, estábulos e pocilgas” encontrava-se, à semelhança de muitos dos seus congéneres um pouco por todo o País, votado ao abandono – apesar da robustez das suas paredes principais, que permaneciam intactas – era utilizado como curral e abrigo de pastores e o pátio central fora transformado em cemitério. Este estado de incúria não impede que, em 1922, seja classificado como Monumento Nacional, sendo nessa qualidade que recebe, em 1950, extensas obras de restauro da responsabilidade da Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais. Antes, porém, em 1933, por iniciativa de um benemérito local, haviam já sido restauradas as quatro torres.

As obras levadas a cabo tiveram uma componente de demolição (remoção dos jazigos e muretes do cemitério, derrube das construções que ocupavam o terreno entre a barbacã e a muralha e dos edifícios exteriores adossados à barbacã), numa clara preocupação em devolver o monumento às suas origens e à sua dignidade. Foi reconstruída a barbacã, mantendo as linhas do seu traçado, assim como a reconstituição do adarve e a execução de pisos, coberturas e escadas interiores de acesso às quatro torres.

Recentemente foram executadas obras centradas na torre de menagem com possibilidade da sua fruição para exposições.

castelo de Amieira do Tejo

castelo de Amieira do Tejo

A pintura mural das Torres do Sanguinho e dos Pandeirinhos

No caso da Torre do Sanguinho, os revestimentos murários se encontram semicobertos por um “filme” de cal aplicado posteriormente, dificultando a sua leitura; o mesmo não se verifica na denominada Torre dos Pandeirinhos, cuja designação deriva justamente da representação pictórica de duas figuras geométricas associadas a adufes ou pandeiros. Tem ainda como decoração “fingidos”, a ornamentação/proteção das juntas, e ainda hoje patente em vários dos paramentos de alvenaria e em linha fina feita com um instrumento de incisão, um pássaro, um cavaleiro e uma barca, entre outros motivos de difícil interpretação e pior leitura.

A totalidade das paredes da Torre do Sanguinho, encontra-se grafitada desde o nível do atual pavimento grafitada até à cobertura.  Vê-se a figura, nítida, de um cavaleiro, um calvário (?), figuras barbadas ou jovens (?) cruzes e lanças (??) e ainda, junto a um dos cachorros da cobertura, vestígios de uma inscrição, por enquanto ilegível.

Estas pinturas são anteriores ao século XVI; para esta hipótese convergem tanto a análise dos rebocos de acabamento do interior das torres – de grande qualidade e que poderão ser contemporâneos da Olivença, datados por uma inscrição feita pelo próprio artista, de 1332) e a figura do “cavaleiro” que aponta, pelas proporções e indumentária, para uma filiação medieval.

Imperdível os esgrafitos da Capela de São João Batista

A maravilhosa Capela de São João Baptista, erigida na face leste da barbacã datada de 1566, traduz a conhecida devoção da ordem a este santo e a decadência das funções defensivas do castelo.

Merece destaque o trabalho em esgrafito, a preto e branco, que reveste a totalidade da abóbada da nave da Capela de São João Baptista pela extensão e originalidade do seu programa decorativo, já que se trata da aplicação de uma técnica que mais frequentemente encontramos, no nosso país, na decoração de pequenas superfícies como frisos, vãos ou cunhais de edifícios.

O modelo para este trabalho reside na cobertura da capela-mor da Igreja matriz do Crato, executada segundo a mesma técnica.

A erudita capela de S. João Baptista do Castelo de Amieira do Tejo apresenta um interior muito simples, com uma planta retangular.O programa decorativo da sua abóbada de canhão é muito bela, com doze caixotões, preenchidos por grotescos maneiristas, com motivos vegetalistas, animais fantásticos, geométricos, antropomórficos e híbridos e onde não faltam órgãos sexuais masculinos.  Na figura ao centro, dentro de um círculo, está representada uma mulher e rodeada de pénis. Como escapou esta imagem a censura da Igreja Católica?

Mais dois motivos de interesse em Amieira do Tejo
Amieira do Tejo tem mais dois motivos de interesse que não pode perder: Ir até ao Rio Tejo ao lugar das Barcas da Amieira (*) e à capela do Calvário (*) que tem um raro retábulo barroco, construído não em madeira, mas em granito.

Referências adicionais:

Botto, Margarida Donas- Adaptação do artigo- “O Castelo de Amieira do Tejo –enquadramento histórico e razões de uma intervenção”, Estudos – Património, 10, 2007, pp. 125-132 | pdf

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