Castelo de Castro Marim (**)-Na senda dos mistérios templários

“A pesquisa arqueológica indica que a primitiva ocupação humana do monte do Castelo de Castro Marim de data do final da Idade do Bronze. Desde então não houve interrupção da ocupação da foz do rio Guadiana, sempre ligada à actividade comercial marítima, sucessivamente por navegadores Fenícios, Gregos 1 e Cartagineses (final do século IV a.C.) até ser destruído por um forte abalo sísmico antes da chegada dos Romanos.
O mais antigo muro defensivo identificado no recinto do actual castelo remonta ao século VIII a.C., tendo sido acrescido por outras estruturas nos séculos seguintes, em particular entre os séculos V a III a.C., quando o comércio com as cidades gregas se intensificou.
À época da Invasão romana da Península Ibérica, o rio Guadiana serviu de fronteira entre as províncias da Bética e da Lusitânia. A povoação foi reocupada e a sua fortificação reconstruída, transformando-se em importante centro político e económico regional. Daqui partiam as movimentadas estradas que ligava Baesuris 2 (Castro Marim) a Mértola (a norte), a Ossonoba (Faro) e Balsa, pela costa (a oeste) e Huelva (a leste).
Posteriormente, mantendo a sua importância, foi ocupada por Vândalos e por Muçulmanos 3, alguns autores atribuindo a estes últimos a edificação do primitivo castelo, de planta quadrada, com torres semi-circulares nos vértices.

À época da Reconquista cristã da Península Ibérica, a região foi atingida pelas forças portuguesas na década de 1230. D. Sancho II de Portugal alcançou a foz do rio Guadiana onde conquistou Mértola e Ayamonte (1238). A conquista de Castro Marim deu-se a seguir, sob o comando do Mestre da Ordem de Santiago, D. Paio Peres Correia (1242). A partir de então, a coroa promoveu o repovoamento do Algarve, a cargo das Ordens Militares. Castro Marim recebeu Carta de Foral passada por D. Afonso III de Portugal em 1277, com a determinação para a reconstrução de sua defesa.
Sob o reinado de D. Dinis de Portugal (1279-1325), foi iniciada a reconstrução da porta do castelo, conforme inscrição epigráfica (1 de Julho de 1279). O soberano confirma e amplia o foral da vila (1 de Maio de 1282). Posteriormente, em virtude da negociação e assinatura do Tratado de Alcanices (12 de Setembro de 1297), quando Portugal desistiu dos domínios de Aroche, Ayamonte, Aracena e outros, recebendo em troca os de Campo Maior, Olivença e outros na região, o soberano determinou o reforço do Castelo de Castro Marim (1303) e a construção de uma barbacã. Essas estruturas ficaram conhecidas respectivamente como “Castelo Velho” e “Muralha (ou castelo) de Fora”.

Castelo de Castro Marim foi a primeira sede da Ordem de Cristo
Ainda no reinado deste soberano, diante da extinção da Ordem do Templo, por Bula do Papa João XXII (14 de Março de 1319), Castro Marim foi doada à recém-criada Ordem de Cristo que ali estabeleceu a sua primeira sede, de 1319 a 1356 4”.
Com a transferência da sede para Tomar, por ordem de D. Pedro I de Portugal (1357-1367), a importância estratégica da vila diminuiu, começando a despovoar-se”.5
Mas ainda no reinado de Dom Afonso IV, o castelo de Castro Marim seria atacado por “dez mil de cavalo e fora outras muy gentesde pè para danificar Portugal…e esteve sobre elle alguns dias e por combates e afrontas q`lhe deu trabalhos para a pollar, e não pode porque avia dentro homens de vergonha e bons defensores portugueses, que com muita força, e ousadia a defenderam…”6
O Infante D. Henrique (1395-1460), nomeado Mestre da Ordem, residiu neste castelo. Posteriormente, sob o reinado de D. Manuel I (1495-1521), a vila recebeu o Foral Novo, momento em que o soberano ordena a reparação das suas defesas, inclusive as muralhas do castelo. Estes trabalhos encontram-se registados por Duarte de Armas no seu Livro das Fortalezas (c. 1509). Com o início da expansão marítima portuguesa, a região do Algarve revestiu-se de nova importância estratégica, pela sua proximidade com as praças do Norte d’África. Estas obras atendiam um duplo objectivo: o suporte logístico às praças africanas e o de vigilância diante da acção de corsários, activos na região. Outras praças algarvias, entretanto, modernizaram-se ao longo do século XVI, o que não se registrou em Castro Marim.
Durante a crise de sucessão de 1580, levantando-se o partido do Prior do Crato, os integrantes da Junta de Defesa do Reino, estabelecida após o falecimento do Cardeal D. Henrique, fogem para Castro Marim, de onde passam a Ayamonte, na Espanha. Ali protegidos, lavram e assinam uma declaração em que reconhecem os direitos de Filipe II de Espanha ao trono de Portugal, proscrevendo D. António.
Com a Guerra da Restauração da independência portuguesa, a defesa lindeira de Castro Marim foi remodelada, adquirindo modernas linhas abaluartadas. Estas obras só estarão concluídas no reinado de D. Afonso VI de Portugal (1656-1667), complementadas pelo Forte de São Sebastião e pelo Forte de Santo António. Dentro deste sistema defensivo mandou o soberano erguer uma nova ermida dedicada a Santo António na qual um altar era consagrado ao mártir São Sebastião.

Durante o terramoto de 1755 o núcleo medieval da vila sofreu extensos danos, particularmente sentidos na Igreja de São Tiago. Por essa razão, D. José I (1750-1777) determinou a recuperação das defesas da vila.
No início do século XX, o Castelo de Castro Marim foi classificado como Monumento Nacional em 1910.
Estrutura do Castelo de Castro Marim
Em posição dominante sobre um monte, o castelo medieval (também denominado Castelo Velho ou simplesmente Castelejo) apresenta planta quadrangular irregular, com quatro cubelos cilíndricos nos vértices dos muros, percorrido por adarve, onde se rasgam duas portas, uma a norte e outra a sul, uma das quais encimada por pedra de armas e inscrição epigráfica. No interior da praça de armas, erguem-se edifícios de dois pavimentos adossados aos muros oeste e norte; do lado leste, as ruínas da primitiva alcáçova. Externamente, identificam-se os restos da torre de menagem e de um baluarte que a ladeava.
Ao abrigo da barbacã, de planta triangular, percorrida por adarve, erguem-se a Igreja de São Tiago, a Igreja de Santa Maria, Igreja da Misericórdia e um núcleo museológico, com testemunhos arqueológicos da ocupação da região. No vértice sul ergue-se uma plataforma para artilharia, nos vértices leste e oeste, dois torreões de planta quadrangular, cobertos por terraços nos quais se rasgam portas em arco pleno. Encimando a porta do torreão oeste, uma pedra de armas e uma inscrição epigráfica, do tempo de Dom Dinis”. 5
A paisagem do castelo de Castro Marim
Pensemos agora simplesmente na beleza do lugar, nesta imensidão de água, no vasto sapal nele, as salinas assemelhando-se a espelhos de mosaicos, brilhando e reflectindo a claridade. Ao seu lado e acompanhar o perfil dos incansáveis marnotos, erguem-se pirâmides brancas imaculadas.
As frases esvoaçam em redor, deixo-as vir e ir com o vento. “O Tempo é a substância da qual sou feito. O Tempo é um rio que me leva na sua corrente, mas eu sou o rio; é um tigre que me devora, mas eu sou o tigre; é um fogo que me consome, mas eu sou o fogo.”7, também estas pedras do castelo, estas lagaretas que servem de piso no adarve, esta singela vila luminosa, ainda bem preservada, a foz do rio Guadiana, a grandiosa Ponte Internacional, aqueles montes pardacentos e taciturnos, onde se pressente a desertificação, estes montículos de pedra escalavrados, aqueles mergulhões que esvoaçam sobre o sapal e a linguagem única de outros pássaros que não conheço, e as igrejas moribundas, esqueléticas dentro da fortaleza, e este camaleão, que saltita, em prece ao disco rei, e até este, feito de tempo, de hélio e hidrogénio, e até aquela criança bonita, tão feliz como se o tempo não contasse, pura excelência na paisagem; corre, corre que não conheces a Lei de Gompertz! E é isto no que creio, na felicidade fugaz, que agora aqui experimento e que o leitor também pode ter se aqui vier.
Notas:
1-Ler as Cerâmicas Áticas do Castelo de Castro Marim de Ana Margarida Arruda.
2-Civitas de alguma dimensão uma vez que aqui foi cunhada moeda; também deste período se encontrou altar num larário.
3- Castro Marim, seria em época islâmica, um pequeno povoado fortificado com funções de entreposto marítimo as ruínas de fortificações de diferentes. A planta quadrangular do recinto amuralhado do Castelo Velho, “com torres de canto semi-cilíndricas”, foi já considerada como volumetricamente decorrente da tradição “bizantina-emiral” (TORRES, 1997, p.440), embora pareçam mais fortes os indícios de se tratar de uma fortaleza costeira manuelina.
4-Dom Dinis usou o argumento, dos ataques mouros, para colocar a Ordem neste ponto estratégico para a preservar. Porque em Castro Marim havia “ um Castelo muito forte, a que a disposição do lugar fez muito defensável, na fronteira dos ditos inimigos”.
Esta fortificação terá assim desempenhado um papel fundamental no desfecho do “processo dos Templários” em contexto nacional e europeu. Aqui desembarcarem inúmeros cavaleiros foragidos de França, para integrarem a Nova Ordem de Cristo.
5-Texto retirado integralmente da wikipedia. Parabéns ao autor.
6- Crónicas de Ruy de Pina.
7- Jorge Luís Borges, O Aleph, 1949

Um comentário Castelo de Castro Marim (**)-Na senda dos mistérios templários

  1. Fernanda Durão says:

    Muito interessante!
    Sobretudo a parte em que informa que “aqui desembarcaram inúmeros cavaleiros franceses foragidos de França para integrarem a nova Ordem de Cristo”. – pergunto: é possível saber a fonte de que serviu para dar esta informação?

    é importante saber…
    aguardo a vossa resposta
    f.d.

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