Castelo de Leiria (**)- a majestade medieval no centro de Portugal

Castelo de Leiria (**)- a majestade medieval no centro de Portugal

Quem viaja entre Coimbra e Leiria, pela EN1 ou IC2, visiona dois castelos com grande impacte paisagístico, o de Pombal e o castelo de Leiria, mas cuidado não se distraia porque o trânsito é muito e não se de o caso de se despistar ou pelo menos ser autuado, como eu já fui, bem como quase todo o português que usualmente faz aquela rota, mas adiante passemos depressa ao texto sobre o castelo de Leiria, antes que o leitor demande em busca de outros prazeres mais fugazes.

O castelo de Leiria edificado em posição dominante a norte sobre o rio Lis, é o “ex-libris” da cidade, recebendo, anualmente, entre 50 e 70 mil visitantes. No castelo de Leiria destaca-se:

-Paço Real, de construção gótica e cuja “loggia” domina visualmente a cidade;

-a notável capela da Pena, construída no tempo do rei Dom João I de uma só nave e capela-mor com abside poligonal;

-e a Torre de Menagem, prismática, rematada por merlões e encimada por terraço.

Para além destes três espaços o castelo de Leiria tem outras atracões arquitetónicas, históricas e arqueológicas. Aquando do início da sua edificação constituía um forte obstáculo a penetração sarracena. Por isso, o Castelo de Leiria surge como uma construção com significado associado a um ideal que representa a soberania de Portugal e cuja reconstrução, no séc. XX, lhe devolveu a imponência que se acredita ter tido antes da sua ruína.

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Antecedentes do Castelo de Leiria

Não existem informações seguras acerca da primitiva ocupação humana do sítio do castelo, embora a região de Leiria seja rica em testemunhos arqueológicos pré-históricos e romanos. No castelo de Leiria existem várias pedras romanas com inscrições da cidade romana de Collippo (esta situava-se no sítio da Golpilheira, situada entre os concelhos de Leiria e da Batalha e referida por Plínio na sua História Natural).

Ao longo dos tempos, o topo do monte garantiu controlo sobre a paisagem do maciço calcário estremenho e acesso a dois rios navegáveis, o Lis e o Lena. Na colina os arqueólogos já descobriram pontas de seta em sílex, taças de cerâmica esférica e campaniforme, vidro romano, moedas. Indícios que apontam para diferentes estilos de vida. Foram identificados vestígios de ocupação sucessiva na Idade do Bronze e na Idade do Ferro, na época romana, no período islâmico e nos séculos posteriores à reconquista cristã. No entanto não existe qualquer prova da existência de um povoado anterior a ocupação imediata por Dom Afonso Henriques.

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O castelo medieval

Ao firmar o seu governo a partir de 1128, o moço D. Afonso Henriques (1112-1185), projectou ampliar os seus domínios, então limitados a norte pelo rio Minho a sudoeste pela serra da Estrela e a sul pelo rio Mondego. Para esse fim, a partir de 1130, invadiu por diversas vezes o território vizinho da Galiza a norte, ao mesmo tempo que se mantinha atento à fronteira sul, constantemente atacada pelos muçulmanos.

Para defesa desta região sul, estrategicamente fez erguer, de raiz, um novo castelo entre Coimbra e Santarém (1135), no alto de uma elevação rochosa, um domo magmático (dolerito com idade entre 201 e 205 milhões de anos), um pouco ao sul da confluência do rio Lis com o rio Lena.

O recinto muralhado, que mais tarde daria origem ao castelo de Leiria foi construindo na primeira metade do século XII. Ao certo sabe-se da existência da primeira igreja intramuros, fundada entre 1144 e 1147. O morro fortificado estaria na posse do rei D. Henriques já em 1137 quando é tomado pelos mouros Depois, em 1139 estaria de novo sob controlo do mesmo rei, pois havia alcaide nomeado. O castelo é novamente cercado por sarracenos em 1140. Em 1143 voltaria definitivamente para controlo português. Com a conquista da Linha do Tejo, em 1147, o termo de Leiria ganha maior segurança. Leiria cresce, sob o domínio dos Cónegos Regrantes de Santa Cruz de Coimbra, com representação na Igreja da Pena, assim denominada pela sua localização no morro, junto à penha. Em 1195 D. Sancho atribui a Leiria o primeiro foral, de modo a incentivar ainda mais o povoamento e fixação da população, devendo-se-lhe a construção da cerca da Vila Velha ligada e imediatamente abaixo do primeiro recinto amuralhado do castelo. Essa cerca envolvia a meseta a meia encosta entre o ponto mais alto do morro e o rio. Nessa altura ressurge a ameaça muçulmana sob o domínio almóada. A cerca da Vila Velha tinha duas portas principais, ainda hoje existentes: porta a norte conhecida como “Porta dos Castelinhos” e a porta a sul, conhecida como “Porta do Sol”, virada para a zona baixa da cidade e que foi muito modificada no século XVIII. Em 1300 D. Dinis passa a posse da vila e castelo para a Rainha Santa Isabel, tendo sido feitos importantes modificações, melhoramentos e embelezamentos. No último ano do reinado de D. Dinis, em 1324, ordena-se a construção da torre de menagem, que só é terminada no reinado de D. Afonso IV, como informa inscrição na dita torre. A nova torre terá vindo a substituir a anterior torre dos primeiros reinados. Sobre a construção dos Paços do Castelo e reconstrução da Igreja da Pena existe controvérsia sobre a autoria, tendo havido defensores da tese dionisiana (D. Dinis) e da tese joanina (D. João I) Da autoria de D. Dinis e da Rainha Santa Isabel são sem dúvida os Paços de São Simão, junto à igreja de São Pedro, e onde hoje se situa a PSP de Leiria, dentro do cerca da vila e próximos da Porta do Sol. É muito provável que os Paços do Castelo tenham tido várias fases de construção, como todo o complexo do castelo, pelo que deverá haver partes diferentes atribuídas a ambos os monarcas.

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Teria sido então D. João I que, a partir da base edificada por Isabel, mandou levantado a parte superior dos Paços do Castelo, tendo-os modificado profundamente numa verdadeira reconstrução?

Em 1475 o monarca faz doação do senhorio de Leiria aos Condes de Vila Real, alienando a vila e todo o castelo. Após a restauração da independência, em 1641, o Marquês de Vila Real e seu filho são executados por traição à pátria, passando o senhorio de Leiria para a coroa e os bens incorporados na Casa do Infantado.

D. Manuel I (1495-1521) concedeu Foral Novo a Leiria (1510), alçada, em 1545, à condição de cidade por D. João III (1521-1557).

Um nota importante foi em 1245 que se deram as Cortes de 1254, convocadas por D. Afonso III, as primeiras cortes onde foram chamados representantes da nobreza, clero e povo. Desde então o local foi muita vez escolhido para a realização de Cortes, a origem do parlamento português.

Neste castelo de Leiria o rei D. Dinis (1279-1325), que ali residiu por diversas ocasiões, vindo a doar, em Julho de 1300, à rainha Santa Isabel, a vila e o seu castelo, foi escolhido para a criação de seu herdeiro, o príncipe D. Afonso (nesta altura os Paços localizavam-se no antigo seminário, hoje sede da polícia).

D. João I (1385-1433), aqui celebrou, em 1401, o casamento de seu filho D. Afonso (futuro conde de Barcelos e duque de Bragança).

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Da Restauração da independência aos nossos dias

Ao raiar a Restauração da Independência (1640), o Castelo de Leiria foi uma das primeiras fortificações a erguer o pendão de Portugal. Sem valor militar, entretanto, mergulharia progressivamente no abandono, vindo a se arruinar.

No contexto da Guerra Peninsular, no início do século XIX, as tropas francesas provocaram extensos danos à cidade e aos seus monumentos, nomeadamente a Sé e ao castelo. O castelo, em ruínas, perdeu o seu valor militar e fora dotado ao abandono.

Já no final do século XIX, por iniciativa da Liga dos Amigos do Castelo o arquiteto Ernesto Korrodi elaborou um projeto de restauro das ruínas do castelo que foram classificadas como Monumento Nacional por Decreto publicado em 1910. Finalmente, em 1915, a Liga iniciou as obras de restauro, com fundos próprios e o auxílio do poder público. O seu trabalho de Korrodi desenvolveu-se até 1934, quando ele sai do projeto. As obras, porém, prosseguiram na década de 1930, com base nos seus desenhos. As campanhas de recuperação foram retomadas pela DGEMN em meados da década de 1950, prosseguindo nas duas décadas seguintes. Em 1955 a igreja da Pena é recuperada, e do projeto também faz parte a reconstrução dos Paços Novos. Novas campanhas se sucederam a partir de meados da década de 1980, prosseguindo pela década de 1990.

Assim, a reconstrução do Castelo de Leiria deve-se bastante a korrodi, mas a maioria e maior volume de trabalhos foram realizados posteriormente pela DGEMN em pleno Estado Novo.

O castelo encontra-se aberto aos visitantes, tendo na torre, um espaço museológico, onde podem ser apreciados artefactos arqueológicos encontrados no local e armaria medieval.

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A origem do Brasão de Leiria

O imaginário popular refere também que D. Afonso Henriques se preparava para atacar a fortaleza inimiga quando apareceram diversos corvos a esvoaçar com alegria sobre o exército. Um momento entendido como bom presságio, que teria antecedido o sucesso na batalha. Dois corvos integram o brasão da cidade de Leiria.

Características do Castelo de Leiria

No castelo de Leiria encontram-se quatro grandes períodos construtivos:

-o Românico do século XII;

-o Gótico dionisino, da primeira metade do século XIV;

-o Gótico joanino, de inícios do século XV, e

-as correntes restauradoras de finais do século XIX e primeira metade do século XX.

As muralhas do castelo são rematadas por merlões quadrangulares, estando reforçadas no seu trecho mais vulnerável (onde o declive do terreno não é tão acentuado) por uma barbacã (pode aqui ver a planta do castelo e restante cerca), seguida por uma cerca avançada, a norte e a leste, reforçada por torreões de planta quadrangular. Pelo lado oeste, rasga-se a chamada Porta da Traição, em arco quebrado. O reduto interno, envolvido por cinta de muralhas, encontra-se disposto numa plataforma mais elevada a noroeste, e é dominado pela Torre de Menagem.

Nesta cerca se rasgam-se duas portas: a Porta do Sol, a sul, onde hoje está a torre sineira da Sé, e a Porta dos Castelinhos, a norte, flanqueada por duas torres.

Ultrapassando-se a Porta do Sol ingressa-se em um largo onde se encontram algumas edificações, o antigo Paço Episcopal (hoje sede da PSP), Capela românica de São Pedro e o Museu do MIMO (os antigos Celeiros da Mitra). Subindo por uma rampa, acede-se à entrada do castelo, pela Porta da Albacara, em arco de volta redonda sob uma torre rematada por merlões chanfrados e rasgada por frestões, que funcionou como torre sineira da vizinha Igreja de Nossa Senhora da Pena.

As principais estruturas do castelo podem ser descritas sucintamente:

Porta da Albacara (recolha de gado, em árabe), em estilo românico, em cotovelo conforme o uso muçulmano. No embasamento das torres que a defendem, encontram-se algumas lápides com inscrições romanas, oriundas da antiga “civitas” de Colipo, que existiu a perto da Barreira.

Casa da Guarda, pequeno e pitoresco edifício feito em em 1915, com projeto de Korrodi. No seu alpendre figuram algumas colunas e mísulas tardo-góticas oriundas do claustro do antigo Convento de Santa Ana de Leiria, das monjas da Ordem de São Domingos e onde situa agora o Mercado de Santana.

Torre dos Sinos, porta de acesso ao primitivo recinto fortificado, de forma pentagonal e com arcadas românicas e aduelas contendo sinais cruciformes orbiculares ou templários. No século XIII foi adaptada como torre sineira da vizinha Igreja de Santa Maria da Pena, quando foram rasgadas novas janelas em estilo gótico. Foi também denominada, à época medieval, como Torre da Buçaqueira, o que pode indicar que nela se abrigariam os falcões usados pela realeza em suas caçadas.

Igreja de Santa Maria da Pena (*), um portal, uma nave e uma abside e ideia romântica da ruína edificam aqui uma joia pura da arquitetura gótica feita talvez ao mesmo tempo que o Mosteiro da Batalha, com ela partilha o mesmo tipo de calcário. Tem uma única nave retangular, acedida lateralmente por um portal ogival de cinco arquivoltas apoiadas em colunas lisas. A abside poligonal revela cobertura de abóbadas nervuradas. Os panos laterais da capela-mor são rasgados por belas frestas ogivais. Foi utilizada como capela palaciana pela Dinastia de Avis. No coro podemos mesmo ver uma pedra romana de Collipo, dedicada ao imperador Antonino Augusto Pio, e saindo pela sacristia manuelina temos acesso às ruínas.

Pode ainda ver um bonito arco manuelino, policêntrico, que terá sido retirado da ermida de Santo António do Carrascal e aqui posto nos anos 40 do século passado.

O mistério do Y

Nas pedras da Igreja de Nº Sra da Pena encontra-se repetidas vezes gravada a letra Y qual o seu significado?

Ruínas da Colegiada dos cónegos e clérigos crúzios de Leiria. Local de interesse arqueológico, aqui existiam sala de audiências, celas e dormitórios, refeitório, cozinha, pátio, e cisterna que atendiam aos religiosos e serviam a Igreja da Pena.

Paços Novos, Paços do Castelo, ou Paços Reais, com planta quadrangular, nas dimensões de 33 m x 21 m. É constituído por torres laterais de 4 pisos e um corpo central de 3. No pavimento inferior, encontra-se um amplo salão com três robustos arcos góticos (Salão dos Arcos), enquanto no segundo piso dois salões menores serviam ao dia-a-dia do palácio (cozinha, adega, dormitório). No terceiro pavimento, os quartos régios situam-se nos extremos, divididos pelo Salão Nobre (Salão das Audiências) que abria para uma galeria ou loggia de arcaria gótica de onde se pode usufruir de uma bela paisagem sobre a cidade. Esta galeria é vista de muitos pontos da cidade e é talvez a principal imagem de marca deste castelo, desconfio que são poucos os portugueses que aqui não vieram. Dois corpos que o flanqueiam constituem um quarto piso, que tinha o seu interior repartido por, à época, luxuosas instalações sanitárias.

Pátio Interior, de interesse histórico e arquitetónico é testemunho das políticas de restauro do monumento no século XX, com destaque para as opções pela falsa ruína e pelo trabalho intencionalmente inacabado.

Celeiros Medievais, conjunto de três celeiros datáveis do século XIII, abobadados em alvenaria, que deveriam ser primitivamente rematados por construção em madeira e taipa, hoje desaparecida.

Porta da Traição e Falsas Ruínas, rasgada num pano da muralha a oeste quase que integralmente restaurado na década de 1930, assinala o sítio da porta original. Observam-se também falsas ruínas características das opções de restauro do monumento entre a década de 1930 e a de 1950.

Torre de Menagem, como Dom Dinis e a Rainha Santa Isabel escolheram Leiria como uma das terras de permanência, este monarca procedeu ao reforço do castelo, com construção da torre de menagem de planta prismática, elevando-se a 17 metros de altura (divide-se internamente em três pavimentos encimados por terraço e coroada por merlões quadrangulares. Mandada executar sobre os alicerces de uma torre anterior, uma lápide epigráfica gótica, com os brasões reais inscritos, assinala tal facto no lado esquerdo junto à porta. Foi utilizada como prisão régia desde meados do século XIV, estando ativa, ainda, na segunda metade do século XVIII. No recinto, persistem vestígios arruinados de obras do século XV. Atualmente está patente um núcleo museológico no seu interior.

Ainda relacionado com a cerca da barbacã temos a Torre Sineira da Sé, local do romance ficcionado do “Crime do Padre Amaro” e as Portas do Norte, ou dos Castelinhos barbacã em cujo pórtico se inscreve um dos brasões mais antigos do concelho de Leiria (século XIV), no qual se observa, em torno de um castelo, dois pinheiros encimados por corvos, simbolizando a lenda da fundação de Leiria por D. Afonso Henriques.

Na cidade de Leiria, o Castelo é um farol indicador de muitos factos históricos, funcionando ao mesmo tempo como miradouro sobranceiro à cidade e permitindo conhecê-la praticamente de um só ponto.

O Castelo de Leiria é um monumento emblemático da história da cidade e do país e que está a espera da sua visita.

Referência adicionais:

-A Wikipedia acerta muitas vezes, eis um caso em que esta descrição se baseia. Este texto tem correção e boa escrita e assim o nosso trabalho fica facilitado.

-Com a BREVE INTRODUÇÃO À HISTÓRIA DO VANDALISMO DO CASTELO DE LEIRIA, 2011, na tese de mestrado de Micael de Sousa, são indicados pertinentes sobre a história do Castelo de Leiria.Ver aqui.

 

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