Aldeia Histórica de Castelo Rodrigo (**)- Cristovão de Moura herói ou traidor?

Aldeia Histórica de Castelo Rodrigo (**)- Cristovão de Moura herói ou traidor?

Ao entardecer, a aldeia histórica de  Castelo Rodrigo, vista do topo da serra da Marofa, é belíssima destacada num colina boleado, com a sua cerca defensiva e torres circulares a reflectirem tons doirados, vermelhos, castanhos e amarelos; e em seu redor, campos que na primavera são de um verde húmido, muito fértil.

Um pouco da história de Castelo Rodrigo

O documento mais antigo, de doação de Dona Flâmula Rodrigues referência um castelo nesta região. Depois esta região vai caindo sucessivamente para o lado mouro ou cristão, até que em 1055, o rei de Leão Fernando Magno, conquista o castelo aos Muçulmanos.

A ocupação moura está representada com um  raro e esbelto, poço-cisterna com duas portas, com um arco gótico mais recente e outro mourisco e uma estranha inscrição islâmica numa habitação. Este poço cisterna é o monumento mais a norte do nosso território com origem muçulmana. Também existem inúmeros topónimos muçulmanos na região como Algodres, Almendra, Almofala, serra da Marofa  e cabeço da Mesquita. Alguns autores defendem que D. Afonso Henriques conquista Castelo Rodrigo aos muçulmanos em 1170, ano em que funda o convento de Santa Maria de Aguiar, mas volta a perder a praça pouco depois. É certo que não passa de lenda porque não existe qualquer documento que o ateste. As muralhas foram provavelmente reconstruídas por Afonso IX, rei de Leão, em 1209. Castelo Rodrigo deve o seu topónimo ao conde Rodrigo Gonzalez Giron, que repovoou a região neste reinado.

Castelo_Rodrigo e cisterna

Cisterna de Castelo Rodrigo

Em 1296 Dom Dinis toma Castelo Rodrigo reedifica-a, repovoa-a e atribui-lhe foral e com a assinatura em 1297 do tratado de Alcanices, Castelo Rodrigo foi definitivamente integrado no território português. Dom Dinis mandou reconstruir o castelo e repovoar a vila, concedendo regalias aos seus moradores no intuito de fixar a povoação neste local.

Dom Dinis para além das muralhas a envolver o casario mandou erguer possante castelo de muralhas ameadas, torreões, grande torre de menagem, fossos e barbacã galgando rochedos. Todas estas estruturas são ainda visíveis na bela gravura de Duarte de Armas, mas o tempo, e principalmente a atividade humana desgastou todo este conjunto.

Castelo Rodrigo constitui um bom exemplar de uma fortificação medieval peninsular. Atualmente, a fortificação apresenta extensos panos da antiga muralha, treze torreões semi circulares e três portas (a Porta do Sol, a Porta da Alverca, esta desaparecida e a Porta da Traição).

Sabe-se que o alcaide de castelo rodrigo, tomou o partido por Castela na crise de 1383-85, sendo a muralha danificada. Pelo apoio que o alcaide deu a causa de Dona Beatriz e ao reino de Castela, o brasão de armas de Castelo Rodrigo é invertido e a localidade perde a sua jurisdição para Pinhel.

Dom Manuel I promove a reedificação do castelo e , em 1508, atribui foral novo. Em 1510 Duarte de Armas representa a povoação e o seu castelo no “Livro das Fortalezas”.

Durante o domínio filipino foi cabeça do condado instituído por Filipe I ao seu melhor e fiel amigo, Cristóvão de Moura, figura singular da nossa história, como leremos mais tarde, como adiante sublinharemos.

 Castelo Rodrigo ainda mantém algumas portas da cerca, vários cubelos semicirculares, vários imóveis dos séculos XV e XVI, a Igreja de Nossa Senhora de Rocamadour (fundada em 1192, para assistência dos peregrinos que se dirigiam para Santiago de Compostela) com os tetos classificados como Imóvel de Interesse Público, o cruzeiro da Independência, o pelourinho em gaiola (sendo a gaiola, a simular talvez a estrutura idêntica de tortura medieval) , o já referido poço-cisterna ou ainda as ruínas do palácio de Cristóvão Moura.

A Judiaria localizava-se dentro das muralhas da antiga vila nas zonas atualmente correspondentes às ruas da Sinagoga e do Páteo do Concelho bem como ao Largo de S. João Baptista. Ainda existem na localidade vivências judaicas; na rua da Sinagoga existem  símbolos mágico-religiosos de Cristãos Novos nas ombreiras das habitações.

“Castelo Rodrigo teve, em relação ao seu tamanho, uma importante colónia judia e, quando os Reis católicos expulsaram os Judeus dos seus domínios, o rei português Dom João II – (foto à esquerda) assinalou Castelo Rodrigo como um dos cinco pontos para permitir a sua entrada em Portugal, juntamente com Olivença, Arronches, Bragança e Melgaço, devendo pagar cada judeu oito cruzados. Nessa altura a população de Castelo Rodrigo andava por volta das 300 pessoas.

Milhares de Judeus súbditos dos reinos de Espanha refugiaram-se em Portugal, assentando muitos deles nas principais judiarias da zona: Castelo Rodrigo, Guarda, Trancoso e Sabugal. Em consequência, a próspera comunidade judaica de Castelo Rodrigo, viu-se incrementada. Porém, muitos dos seus membros converter-se-iam em cristãos-novos por causa da expulsão decretada pelo rei português Dom Manuel I em 1496 e que deu lugar aos chamados “batizados em pé”1

“No tempo da Inquisição cerca de 200 processos foram feitos contra figueirenses sendo a povoação de Escalhão vítima de mais de metade das acusações. Escarigo, junto à fronteira de Espanha, com 25% desses processos foi igualmente muito perseguida.

Durante o séc. XX existiam ainda inúmeros habitantes praticantes e herdeiros do criptojudaísmo em várias povoações do concelho de Figueira de Castelo Rodrigo.

Um Judeu famoso de Castelo Rodrigo retratado por Rembrandt

Efraim  Bueno, nascido em 1599 em Castelo Rodrigo com o nome de Martim Alvares, formou-se em medicina em Bordéus e tornou-se emigrante medico e escritor em Amsterdão. Ficou célebre pelas pinturas/retrato que o seu amigo Rembrandt legou à história da arte. A sua lapide funerária, existente no cemitério português de Ouderkerk ( Amsterdão ) e uma homenagem à diáspora lusitana e aos que tiveram de fugir por força da Inquisição; esta escrita em português e apenas a data do falecimento, 1665, se encontra colocada segundo o calendário hebraico.

Castelo Rodrigo e Ephraim_bueno

Retrato de Rembrand de Um Judeu de Castelo Rodrigo (Ephraim_Bueno)

Em defesa de Cristóvão Moura o filho mais ilustre de Castelo Rodrigo

Cristóvão Moura era filho do alcaide de Castelo Rodrigo e foi criado na corte de espanhola, como aio da princesa Joana, mãe do futuro rei Dom Sebastião e tornou-se o secretário íntimo do jovem rei Filipe I de Castela sendo por isso grande obreiro da coroação do seu amigo como rei de Portugal, através da diplomacia e pela compra de favores da Nobreza portuguesa ou seja usando a corrupção. Se para alguns foi um traidor, para outros- e onde eu me incluo- foi um salvador da nosso modo de estar, perpetuando-se através da sua diplomacia, muito da nossa independência (a moeda, as cortes, a bandeira…e acima de tudo a paz; porque é óbvio que o Império Castelhano tomaria pelas armas o nosso reino enfraquecido pela desaire na batalha de Alcácer Quibir). O Rei Filipe, agora I de Portugal, ofereceu-lhe Castelo Rodrigo, como cabeça de Condado e depois Marquesado. Cristóvão de Moura foi ainda Vice-rei de Portugal e construiu um imponente palácio maneirista, sobre o castelejo da povoação, e que o furor popular destroçou na restauração da Independência, como acto de revolta contra este amigo íntimo do rei usurpador, já muito depois da morte do herói Cristóvão de Moura. Agora que o leitor amigo se sentou no seio do paço derruído de Cristóvão de Moura que tire a sua própria conclusão, mas também não deixe de reparar na beleza da paisagem, e de alguns locais notáveis que o reclamam.

Pedro Jacques de Magalhães

Tenho ainda que o lembrar na vitória de Pedro Jacques e de Castelo Rodrigo na Batalha das Salgadelas em 1644. Castelo Rodrigo, devido à sua posição estratégica, esteve sempre no cerne da disputa entre Espanha e Portugal. Mais um exemplo é dado por um facto que ocorreu em 1664. A povoação foi cercada pelo duque de Osuna e conta lenda que Pedro Jacques, herói e militar proeminente, chefe da guarnição de Almeida, pediu que os poucos homens de Castelo Rodrigo, saíssem das suas muralhas e com apenas 150 homens atacassem mais de quatro mil, bastou assusta e o recuo, para a sorrelfa os militares causassem uma humilhante derrota aos castelhanos, obrigando de seguida o Duque de Osuna a fugir mascarado de frade, diz-se.

Com o fim das guerras da restauração, Castelo Rodrigo começou a perder importância. Situada sobre um outeiro, hoje constitui um notável testemunho para estudar a realidade de uma povoação dos séculos XV e XVI, já que com o seu declínio, ao perder importância como praça militar e fortaleza, os seus habitantes, a partir do século XVI, foram abandonando o recinto murado na procura de uma maior comodidade e foram-se assentando no que seria a nova cidade, localizada na zona plana e fértil: Figueira de Castelo Rodrigo. Isto fez com que a velha cidade amuralhada tenha permanecido praticamente conservada desde então. Em 1836, a rainha D. Maria II passaria a sede de concelho para Figueira de Castelo Rodrigo.

Hoje Castelo Rodrigo é uma aldeia histórica classificada e o ponto de atração turística mais importante nesta região. Observe agora a magnífica paisagem (*), com o campo de batalha das Salgadelas, o Mosteiro de Santa Maria de Aguiar (*), a albufeira (*) do mesmo nome e no pequeno outeiro a norte, a Torre de Amofala (*), vestígio pagão do templo romano dedicado a Júpiter da civitas de Cobelcorum ou no lado oposto a crista quartzítica da Marofa e os vales do rio Douro e Águeda. Mas antes de sair atravesse de novo as vielas sinuosa, cheias de carácter e observará que aparte alguns cães a deambular, não se vê vivalma. E, no entanto, a quietude não é agigantada e não se instala, antes permite a ideia de paz e de que Castelo Rodrigo é um santuário ao ar livre de bem-estar. Créditos fotográficos: Leonel Santos Lopes

Artigos Relacionados

Deixar uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Pode usar estas etiquetas HTML e atributos: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>