Castro de Jarmelo (Guarda) (*)-O drama de Pedro e Inês na A25?

Quem passa na Auto-estrada 25 observará um cabeço que se destaca de todo o planalto circunvizinho com cota de 942 m- é o castro de Jarmelo. Daqui desfruta-se um óptimo panorama, dominando toda a zona raiana da Beira Interior, a crista quartzítica da Serra da Marofa (**), a cidade da Guarda (**), o Cabeço de Fráguas (*) e a Serra da Estrela (****).

No Jarmelo existiu um castro lusitano da idade do bronze Final/Ferro (?) (é muito abundante a existência de escórias de ferro espalhadas pelo terreno – o que não significa que seja necessariamente daquele período, mas que testemunham a actividade da fundição e ferraria que ainda se mantém na região); também abunda tegulae, vestígios de cerâmica grosseira e já se descobriram moedas romanas e uma visigótica, posteriormente foi povoado medieval com alguma importância. Tinha honras de couto com muitos privilégios no tempo de D. Afonso Henriques, que lhe deu foral em Coimbra após o início do seu reinado (Livro Preto da Catedral de Coimbra). Aqui também se realizava uma das primeiras feiras medievais de Portugal. D. Manuel deu-lhe novo foral em 1510.
O Drama de Pedro e Inês em Jarmelo
Jarmelo está relacionado com drama de Pedro e Inês (a nossa mais célebre história de amor). Era em Jarmelo que um dos executores da bela Inês- “colo de garça”, que Pêro Coelho (ou seria Diogo Lopes Pacheco?) tinha solar  (na Quinta do Silva?), e que por isso foi mandada arrasar por Pedro, o Cru, quando subiu ao trono – salgando-se o terreno – num gesto decisivo de maldição e extermínio.

Diz a tradição que foi no Jarmelo que D.Pedro I conheceu Inês de Castro quando integrava o cortejo de D. Contança, que casou com o monarca, vindo de Espanha. Uma pedra é tida como o local onde a “aia” Inês subia ao cavalo e, ao longo dos tempos, manteve-se a tradição de as noivas pagarem uma tença ao casarem, pelo que se mantém na região da Guarda a quadra “Adeus Vila do Jarmelo/Adeus Pedra de Montar/Enquanto o Mundo for Mundo/Dinheiro Hás-de Ganhar”.  
O abandono definitivo do Castro de Jarmelo deu-se com as invasões napoleónicas
Foi reconstruída e repovoada pelo seu filho, Dom Fernando, após o que prosperou por vários séculos, chegando a ser sede de Concelho. Durante a quarta invasão napoleónica foi assaltada, o que levou os habitantes enfraquecidos a enjeitarem-na. Nunca mais se recompôs.
O que é hoje Jarmelo?
Aqui não se sente vivalma, apenas muros e duas linhas de muralhas desmoronadas; duas ou três, porque o olhar arguto de Perestelo (1) identifica uma possível muralha no interior do recinto medieval que provavelmente estará relacionada com a ocupação romana em redor do posto de vigia florestal. A primeira linha fortificada é bem visível sendo constituída por pedra de dimensão irregular, de grande espessura e que a Norte ainda tem alguns degraus de acesso ao  adarve.


O acesso ao interior do  recinto muralhado faz-se por uma calçada romana/medieval que termina numa das portas da antiga povoação. No interior temos restos das antigas cisternas, de muros, de casas de habitação e da “praça”.

A segunda linha fortificada abrange uma área maior e o seu traçado não se encontra bem definido, apenas subsistindo alguns muros e alicerces a Este e a Oeste.
Na entrada da primeira muralha, temos 2 sepulturas antropomórficas a Igreja de São Pedro, uma capela e a antiga casa da Câmara, que também serviu de cadeia, brasonada, com as armas reais e campanário exterior. Ao lado deste edifício foi colocado um conjunto escultórico com a cena histórica da morte de Dona Inês de Castro em ferro- recreando o quadro de Columbano Bordalo Pinheiro executado no inicio do século. A obra, muito bela, e que valoriza o local, foi executada por Rui Miragaia, natural da freguesia; o conjunto tem sete peças figurativas, representa o rei D. Afonso IV, Inês de Castro com seus dois filhos e os conselheiros do monarca: Pêro Coelho, Diogo Lopes Pacheco e Álvaro Gonçalves. A inauguração do conjunto escultórico ocorreu em 2006, para assinalar o 650º aniversário do crime.
Mais abaixo encontramos a Igreja de São Miguel, duas fontes de mergulho (romanas/românicas?), um forno comunitário, alicerces de construções e restos de uma calçada romana(?).
A área deverá ser alvo de requalificação paisagística e arquitectónica, à semelhança do que acontecerá com a Torre de Menagem da Guarda (*) e os sítios arqueológicos do Mileu (*) e Tintinolho (*) através do Programa Operacional da Cultura no âmbito da candidatura Patrimonium – Estudo e Valorização do Património da Guarda.
Do marco geodésico, o “Pinoco”, observemos com atenção recolhida (estranhamos o trânsito na A25), a “grande solidão da Beira”, que se sente por toda a banda nestes lugarejos moribundos.
Nota: A magnífica fotografia é de Leonel Brás e do Blog da Associação Culural e Desportiva de Jarmelo
(1) O povoamento romano na bacia média do rio Côa e na bacia da ribeira de Massueime Perestrelo, Manuel Sabino-Tese de Mestrado-2003

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Um comentário Castro de Jarmelo (Guarda) (*)-O drama de Pedro e Inês na A25?

  1. José Ferreira says:

    Já visitei este local duas vezes e gostei imenso da explicação histórica que me foi dado no local em apreço. Parabéns

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