Sunday, August 31, 2014

Castelo de Soure (*)-que é um exemplo da incompetência ignorante de quem constrói mamarrachos que abafam os nossos monumentos nacionais

Usualmente os castelos, encontram-se nos sítios mais elevados duma região, dominadores das terras em redor, mas este castelo de Soure não, porque não é elevada esta pequena colina de aluviões conglomeráticos, onde assenta, perto da confluência dos rios Arunca e Anços. Apesar de escasso de monumentalidade, incompleto e degradado, foi aqui que segundo documento de Dona Teresa de 19 de Março de 1128, que os templários edificaram a sua primeira sede.
O início do Castelo de Soure
Pedras de construções romanas e suevo-visigóticas, mais tarde aproveitadas na construção do castelo, testemunham aqui a existência de uma população. Nas fundações da igreja da igreja da Finisterra, ao lado do castelo de Soure, foi encontrado um sarcófago romano proveniente de um mausoléu. Mas é na Reconquista Cristã entre cristãos e mouros, que se toma conhecimento da existência de Soure e da sua fortaleza. Quem a construiu, Dom Sisnando, o Conde Dom Henrique ou outro qualquer?
Sabe-se que integrou a linha de defesa avançada de Coimbra, a par de outros castelos ou simples torres, como os de Penela (**), Jerumelo (*), Santiago da Guarda (**), Arouce (**) ou Pombal (*).
O Castelo era pequeno, mas robusto, do tipo castelo-alcaçova e esteve várias vezes nas mãos quer de cristãos quer de mouros.
É sabido que em 1111 o conde Dom Henrique repovoou a vila, apesar de volvidos apenas seis anos os mouros terem forçado os habitantes do castelo de Soure a abandonar o lugar.

castelo de soure 300x204 Castelo de Soure (*) que é um exemplo da incompetência ignorante de quem constrói mamarrachos que abafam os nossos monumentos nacionaisNo ano de 1122, o castelo de Soure, Santa Eulália e Quiaios passam, por troca de Dona Teresa, para o seu amicíssimo -conde Fernão Peres de Trava, que o reconstruiu; este por sua vez cedeu o castelo da bonita localidade de Avô (*). Os templários entraram em Portugal em 1126 com a doação de Fonte Arcada em Penafiel.
Soure foi a primeira sede da ordem dos Templários em Portugal
Pouco tempo depois, com visível urgência, em 19 de Março de 1128, o castelo de Soure foi doado aos Templários, bem como vastas terras entre Coimbra e Leiria. É aqui que instituem a sua sede, efectuando ali diversas obras: a adição de duas torres quadradas de canto, de que apenas uma sobrevive e a Torre de Menagem, dotada de alambor- inovação templária na tecnologia da arquitectura militar.
Em 1144, uma arremetida muçulmana, comandada pelo Vizir de Santarém, arrasou o Castelo de Soure; alguns Templários (que aqui sofreriam uma das maiores derrotas no nosso solo pátrio) que haviam conseguido fugir, juntaram-se, em 1147, às tropas de D. Afonso Henriques na conquista de Santarém e a sede da Ordem passaria para o Convento de Cristo em Tomar em 1160 (*****).
Após a extinção da ordem dos templários e como diz príncipe Lampedusa «é preciso que alguma coisa mude para que tudo fique na mesma», o castelo passou para os cavaleiros da Ordem de Cristo por bula papal em 14 de Março de 1319, constituindo-se como cabeça de comenda. 
Obras posteriores são efectuadas entre os séculos XVI e XVI, e aqui já o castelo de Soure perdera a sua função estratégica militar e assumiu funções residenciais.
Infelizmente, o castelo passou também por um processo de desmantelamento, verificado no século XIX. Em 1834, pouco depois de extintas as ordens religiosas, duas torres foram vendidas ao Conde de Verride e, em 1880, os moradores dinamitaram a torre Sudoeste, por ela ameaçar ruir. Hoje em dia tenta-se salvar o que se pode.

castelo de soure visigotico 300x206 Castelo de Soure (*) que é um exemplo da incompetência ignorante de quem constrói mamarrachos que abafam os nossos monumentos nacionais
O que hoje vemos no Castelo de Soure
O Castelo de Soure, ou o que resta dele, é de pequenas dimensões, com planta rectangular em aparelho de alvenaria em calcário.
Primitivamente contava quatro torres e ainda existem duas. A torre Norte, que ainda existe, seria a mais forte, provavelmente com a função de Torre de Menagem, com janela rasgada a pleno centro no segundo registo, reconstruída, nos séculos XV ou XVI, a avaliar pela feição das ameias. Nesta ainda existem vestígios de alambor.
Acede-se ao pátio de armas do castelo por um portão em arco rasgado junto à torre Nordeste. A torre Sudoeste tem uma esbelta janela- um vão ajimez- com decoração de videiras de provável origem visigótica.
Perto da entrada, junto a Torre Norte, tem ainda outra elegante janela geminada moçarabe, com arcos ultrapassado e pequeno mainel central, provavelmente do tempo de Dom Sesnando.
No pavimento do terreiro, situado frente ao castelo encontram-se os restos arqueológicos das fundações da igreja da nossa Senhora de Finisterra.
Um reparo sobre o mamarracho de Soure
Até há pouco tempo, o castelo da vila ficava à vista de qualquer visitante para quem passava na estrada, agora fizeram aquela indecência em betão que esconde o castelo, com a aprovação do antigo IPPAR. Decide quem não devia. Não haveria em Soure outro espaço livre? Assim o castelo já de si pequeno esconde-se e amplia a sua pequenez. E eu confesso desde já que senão tivesse sido sede da ordem dos templários não seria notável (*).   
Um conselho
Soure é povoação com carácter e depois de visitar o castelo, vá passear e repare nas fachadas oitocentistas de velhas casas apalaçadas, nas Igrejas de S. Tiago e da Misericórdia, e o no idílico Parque da Várzea, margem do rio Arunca e aqui acabará o seu passeio, em beleza. Mas aquele edifício pespegado ao castelo não me deixa terminar este artigo em paz. Haja paciência que já me começa a faltar.