Friday, November 21, 2014

Estação Arqueológica da Póvoa do Mileu (Guarda) (*)-um enigma na cidade da Guarda

Janeiro 20, 2011 Por  
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Muitos egitanenses, que passam apressados, não reparam, e provavelmente alguns nunca visitaram a Estação Arqueológica da Póvoa do Mileu constituído por um espaço romano e por uma singela igreja românica. Do primeiro não se sabe concretamente a sua funcionalidade e a segunda, apesar de pequena e de não ter a majestade de outros monumentos deste estilo no nosso País, sobretudo se pensarmos nas formas que encontramos a Norte do rio Douro, não deixa de ser o melhor exemplar de toda a Beira Interior a par da Igreja de Santiago de Belmonte (**).
A Estação Arqueológica da Póvoa do Mileu
A estação arqueológica foi descoberta em 1951, na sequência da abertura da estrada que segue para a Guarda Gare, tendo então sido identificado o que parecia ser uma villa romana com um conjunto termal. O início da ocupação permanece incógnito, tendo-se no entanto encontrado uma bracelete- uma viria em bronze (da Idade do Bronze ou do Ferro), e que inesperadamente servia de argola na porta.

Mileu 300x225 Estação Arqueológica da Póvoa do Mileu (Guarda) (*) um enigma na cidade da GuardaA Estação Arqueológica da Póvoa do Mileu e o Bairro dos Castelos Velhos
O morro adjacente tem a toponímia de Castelos Velhos e terá sido ocupado na Idade do Ferro e na época romana. De que modo é que a  estação arqueológica do Mileu, poderá estar relacionada com a colina adjacente?
Recentemente foi descoberta nos Castelos velhos uma moeda visigótica de Égica (Rei dos Visigodos no século VII), o que poderá supor uma continuada ocupação pelo menos até finais do século VIII. O espaço tem sido ocupado por um complexo habitacional que poderá fazer desaparecer alguns vestígios arqueológicos. O grande achado no bairro dos Castelos Velhos foi divulgado neste ano de 2009.
Altar Votivo dedicado ao Deus Banda Brialeacus na Estação Arqueológica da Póvoa do Mileu
Foi descoberto um Altar Votivo, do I d.C., dedicado aos Deuses Banda Brialeacus. Apenas existe um outro local dedicado a este Deus. Fica no Castro de Orjais (na capela da Nossa Senhora da Cabeça) (*) no concelho da Covilhã. A descoberta desta peça na Guarda ganha ainda mais relevância tendo em conta que ainda não se conhece, a nível internacional, outra descoberta com a especificidade Brialeacus. Nos Castelos Velhos existiu assim uma população indígena romanizada. A peça epigrafada encontra-se no Museu Municipal da Guarda.
A estação arqueológica, que continua ainda a ser alvo de prospecção, é constituída por objectos e restos de edifícios romanos.

igreja e vila romana do mileu guarda 300x225 Estação Arqueológica da Póvoa do Mileu (Guarda) (*) um enigma na cidade da GuardaDa área escavada a Sul da capela destaca-se: um salão tripartido com abside voltada a Norte, comunicando com várias estruturas, a existência de um hipocausto e restos de salas, pátios, corredores. Entre o espólio resgatado, contam-se restos de colunas e de silhares aparelhados, moedas do século II a IV, uma inscrição de dedicada aos deuses manes e séries cerâmicas de sigillata e comuns, lucernas e frisos em mármore. Sob a capela, encontraram-se dois fragmentos de estátuas em mármore, entre elas um torso imperial. Parte do material encontra-se depositado no Museu Municipal da Guarda. O que seria tudo isto? Uma simples villa, um pequeno povoamento, um espaço religioso ou tudo isto espaçado no tempo?
As termas, segundo Jorge Alarcão, poderão ser públicas, e não privadas, como se pode observar pela espessura dos muors e pela estátua loricata aí achada e atribuível à época de Trajano.
A Capela Românica de Nossa Senhora da Póvoa do Mileu
O templo românico foi construído na Baixa Idade Média, provavelmente após a transferência da cabeça diocesana da Egitânia (actual Idanha-a-Velha) (**), para a Guarda, por mando de D. Sancho I.

mileu 3 300x206 Estação Arqueológica da Póvoa do Mileu (Guarda) (*) um enigma na cidade da GuardaÉ uma obra singela de arquitectura românica típica, atarracada e densa na sua massa inercial, de pequenas proporções e características arcaizantes. Compõe-se de dois corpos justapostos: nave reduzida e capela-mor quadrangular, mais baixa e estreita. A fachada principal é muito simples, sem qualquer imaginária, no entanto a rosácea embeleza-a, com feição ligeiramente mudéjar. As faces laterais são também rudimentares.
Mas o que mais fascina é o conjunto iconográfico dos modilhões nas fachadas laterais: com figuração geométrica (meias esferas, Cruz de Santo André, cartelas, pirâmides, palmetas, rosetas…), vegetalista e zoomórfica (pássaros, cabeça de lobos? e estranhas cabeças humanas). No interior os capitéis do arco triunfal são decorados: o do lado Norte com uma cabeça humana feminina, da qual se aproxima um animal feroz e, diversos elementos vegetalistas; o do lado Sul, com duas aves afrontadas, em torno de uma estilizada Árvore da Vida e outras tantas pequenas cabeças demoníacas nos ângulos. Daqui se conclui que o programa escultórico revela interesse, que devia ser melhor divulgado. Apesar do templo ser do estilo românico, tem ainda componentes que atestam a sua transição para o gótico, tais como o arco triunfal da capela-mor.
A plasticidade arcaica esculpida no granito desta e doutras igrejas românicas, principalmente, quando a imperfeição e a dúvida persistem, são tónicos dirigidos à nossa imaginação, mas também ao intelecto e à generalidade dos sentidos; por isso gostamos tanto deste estilo!
A devoção e romaria à nossa Senhora do Mileu, provavelmente já existiria nos fins do século XIII e é, por enquanto impossível, dizer qual a origem da actual capela e da invocação da referida Senhora; a capelinha poderá ter sido ermida de passagem (para Santiago de Compostela). Aqui está um link para uma das lendas da capela.
O conjunto inclui ainda o amplo terreiro, (que deve segredos nos reservará o seu subsolo?) e uma vernácula habitação. Peço aos egitanenses que descubram e valorizem este espaço. Recomendo a continuação do seu estudo, a retirada urgente das execráveis bombas de gasolina, a construção de um pequeno jardim, com evocação de todo este conjunto notável e ignorado, se possível ligando-o à urbanização do morro do Castelo Velho.

Castro de Jarmelo (Guarda) (*)-O drama de Pedro e Inês na A25?

Quem passa na Auto-estrada 25 observará um cabeço que se destaca de todo o planalto circunvizinho com cota de 942 m- é o castro de Jarmelo. Daqui desfruta-se um óptimo panorama, dominando toda a zona raiana da Beira Interior, a crista quartzítica da Serra da Marofa (**), a cidade da Guarda (**), o Cabeço de Fráguas (*) e a Serra da Estrela (****).

No Jarmelo existiu um castro lusitano da idade do bronze Final/Ferro (?) (é muito abundante a existência de escórias de ferro espalhadas pelo terreno – o que não significa que seja necessariamente daquele período, mas que testemunham a actividade da fundição e ferraria que ainda se mantém na região); também abunda tegulae, vestígios de cerâmica grosseira e já se descobriram moedas romanas e uma visigótica, posteriormente foi povoado medieval com alguma importância. Tinha honras de couto com muitos privilégios no tempo de D. Afonso Henriques, que lhe deu foral em Coimbra após o início do seu reinado (Livro Preto da Catedral de Coimbra). Aqui também se realizava uma das primeiras feiras medievais de Portugal. D. Manuel deu-lhe novo foral em 1510.
O Drama de Pedro e Inês em Jarmelo
Jarmelo está relacionado com drama de Pedro e Inês (a nossa mais célebre história de amor). Era em Jarmelo que um dos executores da bela Inês- “colo de garça”, que Pêro Coelho (ou seria Diogo Lopes Pacheco?) tinha solar  (na Quinta do Silva?), e que por isso foi mandada arrasar por Pedro, o Cru, quando subiu ao trono – salgando-se o terreno – num gesto decisivo de maldição e extermínio.

Jarmelo 300x285 Castro de Jarmelo (Guarda) (*) O drama de Pedro e Inês na A25?Diz a tradição que foi no Jarmelo que D.Pedro I conheceu Inês de Castro quando integrava o cortejo de D. Contança, que casou com o monarca, vindo de Espanha. Uma pedra é tida como o local onde a “aia” Inês subia ao cavalo e, ao longo dos tempos, manteve-se a tradição de as noivas pagarem uma tença ao casarem, pelo que se mantém na região da Guarda a quadra “Adeus Vila do Jarmelo/Adeus Pedra de Montar/Enquanto o Mundo for Mundo/Dinheiro Hás-de Ganhar”.  
O abandono definitivo do Castro de Jarmelo deu-se com as invasões napoleónicas
Foi reconstruída e repovoada pelo seu filho, Dom Fernando, após o que prosperou por vários séculos, chegando a ser sede de Concelho. Durante a quarta invasão napoleónica foi assaltada, o que levou os habitantes enfraquecidos a enjeitarem-na. Nunca mais se recompôs.
O que é hoje Jarmelo?
Aqui não se sente vivalma, apenas muros e duas linhas de muralhas desmoronadas; duas ou três, porque o olhar arguto de Perestelo (1) identifica uma possível muralha no interior do recinto medieval que provavelmente estará relacionada com a ocupação romana em redor do posto de vigia florestal. A primeira linha fortificada é bem visível sendo constituída por pedra de dimensão irregular, de grande espessura e que a Norte ainda tem alguns degraus de acesso ao  adarve.

Jarmelo 1 300x76 Castro de Jarmelo (Guarda) (*) O drama de Pedro e Inês na A25?
O acesso ao interior do  recinto muralhado faz-se por uma calçada romana/medieval que termina numa das portas da antiga povoação. No interior temos restos das antigas cisternas, de muros, de casas de habitação e da “praça”.

A segunda linha fortificada abrange uma área maior e o seu traçado não se encontra bem definido, apenas subsistindo alguns muros e alicerces a Este e a Oeste.
Na entrada da primeira muralha, temos 2 sepulturas antropomórficas a Igreja de São Pedro, uma capela e a antiga casa da Câmara, que também serviu de cadeia, brasonada, com as armas reais e campanário exterior. Ao lado deste edifício foi colocado um conjunto escultórico com a cena histórica da morte de Dona Inês de Castro em ferro- recreando o quadro de Columbano Bordalo Pinheiro executado no inicio do século. A obra, muito bela, e que valoriza o local, foi executada por Rui Miragaia, natural da freguesia; o conjunto tem sete peças figurativas, representa o rei D. Afonso IV, Inês de Castro com seus dois filhos e os conselheiros do monarca: Pêro Coelho, Diogo Lopes Pacheco e Álvaro Gonçalves. A inauguração do conjunto escultórico ocorreu em 2006, para assinalar o 650º aniversário do crime.
Mais abaixo encontramos a Igreja de São Miguel, duas fontes de mergulho (romanas/românicas?), um forno comunitário, alicerces de construções e restos de uma calçada romana(?).
A área deverá ser alvo de requalificação paisagística e arquitectónica, à semelhança do que acontecerá com a Torre de Menagem da Guarda (*) e os sítios arqueológicos do Mileu (*) e Tintinolho (*) através do Programa Operacional da Cultura no âmbito da candidatura Patrimonium – Estudo e Valorização do Património da Guarda.
Do marco geodésico, o “Pinoco”, observemos com atenção recolhida (estranhamos o trânsito na A25), a “grande solidão da Beira”, que se sente por toda a banda nestes lugarejos moribundos.
Nota: A magnífica fotografia é de Leonel Brás e do Blog da Associação Culural e Desportiva de Jarmelo
(1) O povoamento romano na bacia média do rio Côa e na bacia da ribeira de Massueime Perestrelo, Manuel Sabino-Tese de Mestrado-2003

Panorama da Torre Velha da Guarda (*)-É o ponto mais alto das cidades portuguesas

Sentado nestes degraus, à espera de Godot, na sombra desta sólida Torre Velha da Guarda. É o ponto mais alto de todas as cidades portuguesas, mais precisamente a 1056 metros de cota.
A brisa suave embala remansosamente o corpo e a alma. Água (chuvisca) e vento são fortes motivos de revivescências interiores. É o espaço. É a noção do tempo. É a consciência do fim.
O panorama da Torre Velha da Guarda
Horizontes largos de onde se abrange uma vasta região: a Norte a crista da Marofa e Pinhel; a Este a tristonha faixa raiana, com as suas velhas praças de guerra de granito carcomido- Vilar Maior (*), Vila do Touro, Alfaiates, o castelo do Sabugal (**), o monte-ilha de Belmonte (**); aos nossos pés espraia-se a  Guarda, a sua parte medieva está em grande parte arrebatada pela mole imensa da (**), que vista daqui é agigantada.

panorama torre velha da guarda 300x181 Panorama da Torre Velha da Guarda (*) É o ponto mais alto das cidades portuguesasA vernácula torre românica é a mais antiga estrutura do sistema fortificado da cidade da Guarda e encontra-se isolada, no topo de maior elevação; aqui seria provavelmente o sul do centro medieval da povoação e esta bem poderia ser a torre de menagem da primitiva alcáçova românica. Alguns autores datam a sua construção de 1187, enquanto outros situam-na por volta de 1290. Eu inclino-me para a primeira hipótese.
É de secção pentagonal, de plano irregular, construída em aparelho isódomo (pedra da mesma dimensão). A fachada Este integra portal  de lintel recto resultante de uma reformulação moderna. Na fachada Norte tem um portal de elevado em arco de volta perfeita.
Em boa hora o município fez da torre e da área em redor  uma das salas de visita da cidade com a sua requalificação paisagística e arquitectónica da área; com construção de um centro de recepção de visitantes que pretende fazer uma ligação aos sítios arqueológicos do concelho e ao centro histórico da cidade. O espaço já foi remodelado, mas depois disso, ainda não recebeu a nossa visita. Fica para breve.

torre velha guarda 300x227 Panorama da Torre Velha da Guarda (*) É o ponto mais alto das cidades portuguesasSilêncio impassível…quietude. Fechemos os olhos e escutemos o clamor da cidade, com o seu bulício de província; é o eco contínuo, por vezes entrecortado pelos gritos dos jovens da escola Básica 2,3 de Santa Clara- também eu, tal como eles, me julguei eterno; mas aqui observo, imerso no silêncio do meu mundo interior, dois adolescentes que se aproximam, namorados, mas talvez no futuro sejam algo aproximado ao casal; pedem-me que lhes tire uma fotografia. Agora a rapariga, tão feliz,tanto como podemos ser quando nos sentimos enamorados, pergunta se aquele monte é o Jarmelo, sim, é o local de lenda associado a Pedro e Inês. Acrescento que aquele outro é o Cabeço das Fráguas (*), famoso santuário pagão com uma inscrição da língua lusitana dedicado a várias divindades lusitanas (Trebaruna, Trebopala, Reve, Laebo e o Ícone Luminoso). Para oeste, atrás do parque eólico, num nível inferior está o Castro do Tintonolho (*). Bem, o rapaz começa aos bocejos, é melhor calar-me, despedem-se, não os censuro, é melhor namorar- o sentimento da minha eterna juventude a fenecer. A vida resume-se a um caminho pelo bosque, onde, de vez em quando, debatemo-nos com bifurcações, nos quais temos de decidir o nosso destino. O que fazer? Nada…a não ser esperar! Peço a Iccona Loiminna uma boa decisão; ele(a) pode ser farol e luz para despertar a minha consciência efervescente adormecida pela cor e ruído do transitório.
Ah, e o panorama daqui é maravilhoso.
“Pertenço, porém, àquela espécie de homens que estão sempre na margem daquilo a que pertencem, nem vêem só a multidão de que são, senão também os grandes espaços que há ao lado.”
Fernando Pessoa- O livro do Desassossego. 29-3-1930

Centro Histórico da Guarda (**)

“E é Penalva inteira, ó cidade escura, negra de Inverno e velhice”.
Estrela Polar de Vergílio Ferreira
Ao longo do tempo a cidade da Guarda tem sido menosprezada na sua beleza: não quero aqui escalpelizar com rigor a razão do erro, mas à desdita vou tentar convencer-vos do contrário; é o F de feia que deve ser substituído por F de formosa.
Sabemos que é cidade de uma beleza muito peculiar, porque para além da evidência da Sé da Guarda (**), esconde apontamentos de vária ordem que deleita quem gosta de arte e de história, mas que escapa aos olhares desatentos.
Um pouco de história da Cidade da Guarda
Da fundação da cidade sabe-se muito pouco. Certo é que a área do bairro de Castelos Velhos terá sido ocupada na Idade do Ferro, na época romana e no período visigótico. Os Castelos Velhos parecem articular-se com os importantes vestígios romanos da Póvoa do Mileu (*).
Na zona do centro histórico, anterior ao foral atribuído por D. Sancho I à Guarda, já deveria existir um povoado. A localidade poderá ter sido fundada por um Dominus Milelmius, pai de um D. Estêvão que, em 1181, dotou a igreja do mosteiro de Caridad, perto de Ciudad Rodrigo.
É a partir do foral atribuído em 1199 que a Guarda passa a ser povoação de alguma importância, sendo pólo importante de toda a região. Deve esse privilégio real a Dom Sancho I (como lhe assenta bem o cognome de Povoador) que para aí transfere a diocese egitanense (que corresponde à actual aldeia histórica de Idanha à Velha (**).
Datam do século XIII o início da construção da cerca defensiva e do castelo da Guarda. O desenho da muralha, irregular, com planta oblonga, conformou-se a topografia acidentada, funcionando até ao século XIX como limite norte, oeste e, parcialmente, sul da cidade. Os eixos medievais, à maneira de cardus e decumanos de geomância romana (embora não tenha sido encontrado até à data qualquer vestígio romano no centro histórico), eram estruturantes e foram constituídos pela Rua Direita (actuais ruas Francisco de Passos e Rua Dom Miguel de Aragão), ligando as portas extremas, Porta Covilhã ou Porta Nova à Porta dos Curros (hoje inexistentes), e pela sua perpendicular, unindo à Porta d`El Rei, à Porta de São Vicente.

guarda 300x195 Centro Histórico da Guarda (**)A grande centralidade da cidade medieval situava-se em redor da Sé Catedral (**) (começada na última década do século XIV e finda quase dois séculos depois) com a magnífica Praça Velha ou Praça de Camões (*); de São Vicente (incluindo a judiaria a mais bem preservada de Portugal- apesar da sua ruína evidente, concentrada na rua do Amparo; e Santa Maria da Vitória-igreja hoje desaparecida. Estes três núcleos tinham cada um o seu respectivo templo. Durante o século XIX (por razões várias que não vale a pena agora dissecar) foram demolidas as duas portas, parte do castelo e cerca de 40% da cerca medieval.
7 motivos para gostar do Centro Histórico da Guarda:
Tem um dos melhores e mais bem preservados centros medievais portugueses, parcialmente muralhado, com três entradas preservadas (com destaque para a Torre e tripla porta dos Ferreiros). Tem ainda um rol de edifícios civis com apontamentos renascentistas e maneiristas com destaque para a janela manuelina-renascentista, na Rua Francisco Passos.
Detêm uma magnífica Judiaria velha; ao todo são 89 os imóveis com marcas mágico religiosas nos umbrais das vetustas habitações dos séculos XIV, XV, XVI e XVII.

Tem uma grandiosa catedral (**) que incorpora elementos góticos, manuelinos, renascentistas e maneiristas.
A sobriedade do granito interligou-se bem com a parcimónia castrante do Concílio de Trento, tendo como exemplo máximo o antigo paço episcopal e seminário (hoje Museu Regional da Guarda) ou ainda o belo Paço dos Alarcões.
Tem alguns edifícios barrocos com qualidade, com destaque para a Igreja da Misericórdia, a Igreja de São Vicente e para o espectacular chafariz de Santo André (*).
Associa o seu nome ao extraordinário homem que foi o Dr. Sousa Martins, que incentivou a construção do sanatório e o seu parque frondoso que tem o seu nome.
E ainda recentemente, em 2005, viu inaugurar o excelente Teatro Municipal da Guarda pelo arquitecto egitanense Carlos Veloso.
A Guarda é urbe de singular beleza, com uma miríade de pormenores estéticos, talhados em duro granito pardo, que ensombram o mistério das suas ruelas – sombra e humidade; e com as suas vistas desafogadas por se situar em esporão terminal da Serra da Estrela – claridade e sol. Regeneremos a Guarda nos nossos corações- passeemos.

Chafariz de Santo André (Saraiva Refóios ou da Alameda) (Guarda) (*)

“…mas, antes que o seu corpo mergulhasse inteiramente, os golfinhos precipitaram-se e levantaram-no, enchendo-o de, de início de inquietação, incerteza e agitação. Mas a facilidade…o grande número…o ar benevolente, a rapidez dos golfinhos…fizessem com que ele sentisse, segundo disse, não o medo de morrer, mas o desejo de viver, a ambição de ser salvo, para aparecer como um favorito dos deuses e receber deles uma glória inalterável”.
Banquete dos Sete Sábios- Plutarco, algures entre 75 e 120 d.C. 
Este magnífico chafariz granítico (no estilo barroco é o mais belo da Beira Interior) encontra-se actualmente situado na Alameda de Santo André na cidade da Guarda; é também conhecido como chafariz da família Refoios Saraiva, uma vez que, originalmente, pertencia a uma quinta que esta família possuía na aldeia da Vela (Guarda), tendo sido transportado para o local onde se encontra em 1989; as armas da família são bem visíveis na zona superior do alçado, sobre uma concha e encimado pela figura de um anjo e ladeado por duas representações zoomórficas.
O tanque central, curvilíneo, exibe um mascarão como bica central, enquadrado por golfinhos- se não o são imagino-os com alguma boa vontade; se têm um ar feroz, fecho os olhos e imagino-os como delfins, com o seu ar bonacheirão e benevolente.
Três mascarões voltam a surgir no espaldar, alinhados horizontalmente, cada um prolongando-se com grande acentuação vertical das suas caudas. Os elementos decorativos que caracterizam este monumento de expressão barroca, articula representações religiosas e zoomórficas, numa dupla iconografia alusiva à família Refóios Saraiva e à água.
A simbologia dos golfinhos
Reparo novamente nestes cetáceos? animais que tanto gosto. Nas brumas da memória, encontro a seguinte lenda grega: um conjunto de corsários depois de agrilhoarem Dioniso ao mastro do seu navio, caíram ao mar e foram transformados em golfinhos. Este adorável animal é assim, desde a antiga Grécia, um forte símbolo ligado às águas e a regenerescência. É também sinal de adivinhação, da sabedoria, da bondade, da prudência, tendo ainda carga psicompômpica.
Plutarco- Os Sete Sábios
A magnífica narrativa de Plutarco- os Sete Sábios, que se arreigou em mim desde a infância tardia (imaginava-me Aríon na infância e Quixote na adolescência), indica a passagem da excitação e dos terrores imaginativos para a serenidade da luz espiritual e da contemplação, pela intervenção da bondade, por intermédio do mergulho salvador e do ar benfazejo dos delfins. Percebem-se aqui as três etapas da evolução espiritual: predominância da emotividade e da imaginação; intervenção da bondade, do amor ou da devoção; e por fim, a iluminação na glória da paz interior- capaz de nos fazer aquietar quando tudo (ou quase tudo) nos aniquila. Talvez com os monstros seja ingénuo, ou mesmo cego e neles consiga ver bondade e prudência.  

chafariz de santo andre11 Chafariz de Santo André (Saraiva Refóios ou da Alameda) (Guarda) (*)Desfaçamos este devaneio verborreico e voltemos ao chafariz: com o seu bom enquadramento urbanístico, o seu forte cariz cenográfico e alegórico; vejamos agora a finura dos degraus que antecedem o tanque, os bancos e as elegantes mesas laterais (aqui rascunho algumas notas que me vão servir para este post), bem como os muretes rematados por pináculos piramidais.
Curioso é saber que os meus amigos egitanenses, sabem da sua existência, mas ignoram a jóia barroca que aí tem…e aqui sinto o apelo do mar que nos reclama, tão longe nas duras serranias desta Beira amena e tristonha, afago os hipotéticos golfinhos ou monstros marinhos- decida o leitor quando aqui vier.