Monday, October 20, 2014

Paisagem em Bogalhal Velho (Pinhel) (*)- Local de esquecimento ou reencontro?

Existem locais belíssimos em Portugal e completamente alheados dos roteiros turísticos, estão perdidos algures na bruma dos tempos e caíram no esquecimento. É o caso deste cenário grandiloquente de Bogalhal Velho.
Um exemplo é a aldeia medieval abandonada de Santa Maria de Porto de Vide, vulgarmente conhecido por Bogalhal Velho. É um sítio solene de imensa beleza paisagística.
Ao chegar deparamo-nos com as ruínas poéticas de uma povoação, que teve alguma importância medieval, rodeada de matagal, tendo apenas em pé o esqueleto gótico da igreja (típico dos templos medievais na região), vestígios de habitações e muros.

bogalhal velho porto de vide 300x210 Paisagem em Bogalhal Velho (Pinhel) (*)  Local de esquecimento ou reencontro?A localidade deverá ter sido abandonada no final da idade média, à semelhança do que sucedeu com a povoação vizinha do Castelo de Monforte (Figueira de Castelo Rodrigo); e poderá ter sido um ponto estratégico na defesa do Reino antes de Alcanices. No tempo histórico a zona da raia beirã, devido a sua periferia, ao seu clima extremado e às desavindas com o reino vizinho, sempre foi repulsiva à ocupação humana durante a nossa nacionalidade.
No entanto a beleza do lugar e a existência de uma igreja, possibilitou que o sítio continuasse a ser frequentado por procissões anuais durante mais algum tempo- que são sempre o último estertor de uma povoação que morre. Depois até aquelas cessaram e o local foi esquecido, até que o edil de Pinhel, em boa hora, e já no século XXI, tornou possível a sua acessibilidade.
A aldeia está assente num cabeço granítico, com 500 m de cota, e poderia ter sido um crasto fortificado. Tem como limite Este uma intransponível escarpa granítica, escavada pela Ribeira das Cabras, no restante perímetro, provavelmente seria rodeada por muralha.
A Ribeira das Cabras e o Côa em Bogalhal Velho
É notável o vale encaixado da Ribeira das Cabras, que tem aqui a sua foz no rio Côa. O desnível altimétrico chega a atingir os vertiginosos 110 m.
A norte deambula o mágico rio Côa, alojado no sopé da Serra da Marofa, preparado para romper a forte muralha quartzítica e mais tarde romper pelo canhão fluvial em Cidadelhe (***) (esta aldeia é um dos locais mais belos de toda a Beira Interior). A serra, que é a bússola da região, surge com o todo o seu esplendor, desde Santo Antão até ao alto da Marofa (**).
Aqui sente-se o ambiente bravio mediterrâneo e pensa-se na complexidade geológica; vêm-se agitadas aves crocitantes (estamos em área da Rede Natura 2000) que cortam os céus e ouve-se o ruído da água ao fundo em enlace com a rocha… e o abismo, para sempre em atracção perpétua. É um local obrigatório para quem faz turismo em Pinhel.

Aldeia Velha de Azevo (Pinhel) – Terá alguma vez José Saramago reparado nesta colina?

Dezembro 28, 2010 Por  
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Nas três vezes que José Saramago se deslocou a Cidadelhe (***), deve ter observado de relance, ao longe e sem parar, a aldeia de Azevo Velho. Desaproveitou, porque às vezes a prontidão impede-nos por vezes de ver o óbvio. Não é o autor que diz: “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.” (Ensaio sobre a Cegueira)?
Aldeia é um local fantasmagórico, desabitado, mas com encanto. Quem a vê ao longe, avista ruínas pardacentas, rodeadas por muros toscos e, no topo, uma estranha casa circular que é um moinho adaptado por um emigrante.
O local situa-se no flanco oeste da crista quartzítica da Marofa, à cota de 667 metros. Nesta pequena serra guia, apenas se instalaram na sua cumeada, duas pequenas localidades e em flancos opostos: a que estamos a descrever e a Aldeia Histórica de Castelo Rodrigo (**).
São por isso “manas”, de uma beleza dissemelhante; mas uma lembrada e visitada e a outra completamente abandonada e esquecida mas que também deveria ser recuperada e posta ao serviço do turismo.
É certo que Azêvo Velho, não tem o património erudito de Castelo Rodrigo, mas ao invés tem  outros interesses, como as humildes ruínas vernaculares, as habitações circulares que são francos resquícios castrejos…ou simplesmente a sua paisagem.

aldeia azevo 300x218 Aldeia Velha de Azevo (Pinhel)   Terá alguma vez José Saramago reparado nesta colina?Aldeia foi muralhada por rudes mãos temerárias que construíram um “Castelo rural”. Como apenas foi abandonada recentemente, pergunto-me qual seria a razão para os moradores habitarem local tão ermo, sujeito às intempéries de uma Beira climaticamente extremada.
O saque dos Marialvas no concelho de Pinhel
Lembrei-me agora, e peço desculpa porque os viajantes não eruditos têm o direito de especular, que talvez seja lembrança genética do “saque dos Marialvas. Este atingiu quase todo o concelho de Pinhel, e relacionado com ele, existe uma sentença dada por D. Afonso V, em 21 de Julho de 1481 “contra ho Marichall de nossos reynos, e senhor da dita villa de Pinhell, Dom Fernando Coutinho”. Tudo começou com a expedição punitiva que o seu filho, D. Henrique Coutinho, reunindo gente armada, resolveu atacar Azevo, pelo facto de os habitantes do lugar se recusarem a efectuar vigias no castelo de Pinhel. Inebriados pelo sangue e pela sobranceria da sua condição, alastraram a punição ao resto das localidades do concelho de Pinhel e aos gritos de Marialva! Marialva! Roubaram, mataram, destruíram e violaram.
È belo o seu panorama. Para se sentir a sua abrangência repare-se no que diz o Padre Luís Cardoso  no “Dicionário Geográfico” publicado em 1758,“…Aldea, fundada sobre um alto cabeço, donde está a igreja, e se descobrem terras de sete bispados: do de Viseu, da Guarda, de Coimbra, de Miranda, de Braga, de Lamego e do de Ciudad Rodrigo no Reyno de Castela. Avistão-se várias povoações, como a praça de Almeida, Pinhel, Trancoso, Marialva, Meda, Longroiva, Villa Nova de Foz Côa, e outras muitas povoações da Província de Trás-os-Montes”.
Ao redor, nos socalcos de olivais, vinhas e amendoais, coexistem, possantes camadas quartzíticas com a flora local: zimbro, carrascos, azevinhos e giestas.
O topo da aldeia tem sido desfigurado por uma família que adquiriu uma área considerável e que transformou o moinho altaneiro em habitação.
Quase todos os edifícios estão em desmoronamento e, no silêncio da serra e da ruína, consigo evocar a labuta diária, martirizada, dos seus antigos habitantes. O Aldeia Velha de Azêvo constitui com o Bogalhal Velho (*), Cidadelhe (***) e Marialva (****) um belo percurso turístico.

Praça Central de Pinhel (*)

Outubro 29, 2010 Por  
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Esta praça central de Pinhel esconde a sua real beleza aos viajantes incautos. Para quem a desconhece, saiba que tem um monumento nacional: o pelourinho em Gaiola manuelino; três imóveis de Interesse  Público: a Igreja da Misericórdia com um belo portal manuelino, a Igreja de São Luís (em que se destaca a capela-mor maneirista, com artísticos azulejos de camélia, tecto em caixotões e duas  belas pequenas tábuas de pintura quinhentista portuguesa que representam o Baptismo de Cristo e a Decapitação de São João) e os antigos Paços do Concelho, que acolhe o museu municipal. Os belos solares brasonados da Casa dos Mena Falcões (onde se alojou a Rainha Catarina de Bragança) e a  Casa Grande estão classificados como Valor Concelhio. Os restantes edifícios do(s) largo (s) também têm interesse patrimonial. No total seis edifícios classificados numa mesma praça.
Todo o conjunto de planta irregular, se encontra desnivelado em três patamares, caoticamente ajardinados, o que não permite perscrutar a monumentalidade do largo.
Felizmente, que o conjunto constituído pela Casa Grande e pelos antigos Paços do concelho será no futuro transformado num espaço cultural. Também existem projectos para converter a Casa dos Mena Falcões para servir a Câmara Municipal.

praca central de pinhel 300x223 Praça Central de Pinhel (*)Em 2005 foi apresentado um projecto de requalificação que tornaria a praça de Pinhel em uma das mais belas do País. Em relação ao projecto, considero o estacionamento subterrâneo secundário e discordo da eliminação total das árvores. Aquilo que faria sentido, seria trasladar algumas delas e criar um micro espaço verde, encostado ao muro a Norte, criando uma estância intimista, aromática e acolhedora dos refrigérios do estio que aqui se faz sentir intensamente. Acrescentaria ainda uma estátua de um autor conceituado, da histórica Rainha Dona Catarina, que após trinta anos de reinado em Inglaterra (e que depois da morte do rei Dom Carlos II foi regente daquele poderoso império). Entrou na cidade no dia 31 de dezembro de 1682 e esteve alojada no Solar dos Mena Falcão.
Se todas estas intervenções fossem realizadas- e como diz o senhor António, barbeiro da praça, tornaria este espaço, semelhante as belas praças maiores espanholas.

Torre Norte do Castelo de Pinhel (*)-é uma das mais belas torres medievais de Portugal

A estrutura da velha cerca medieval de Pinhel encontra-se bem preservada, tendo 800 metros de perímetro. Apenas falta um pequeno troço que dá para o Largo Engenheiro Duarte Pacheco. A muralha ora se esconde ora se descobre entre o casario velho e quintais, abrindo nas portas de São Tiago, São João, Porta de Marrocos, Porta de Marialva e  Porta de Alcavar. Entre a porta de Alcavar e a antiga Porta da Vila (não existente), ergue-se  formosa, a torre do relógio do século XIX. Todo este conjunto foi erguido entre o século XIII e XVI. Do castelo sobrevivem ainda duas poderosas torres quadrangulares medievais que merecem algumas palavras.
A torre Norte ou torre de menagem do Castelo de Pinhel (*)
A torre Norte (*) tem cerca de trinta metros de altura, em três registos e porta de entrada alta, ao nível do primeiro andar, a que se acedia através de uma escada retráctil. Tem dois balcões com mata-cães  e duas gárgulas góticas a exibirem o seu traseiro para o antigo reino de Castela e Leão, um siglamento bonito, e a mais bela janela manuelina da beira interior; esta de sacada, duplo vão, com três colunelos quatrocentistas, com arquivoltas naturalistas das ramagens; tem no parapeito uma seteira cruciforme.
A torre Norte foi Infelizmente aviltada pelo IPPAR que em 1990 abriu uma porta  na base da torre.
A torre Sul do Castelo de Pinhel e a Ydreams
O mesmo Instituto com a conivência da população local, deixou que construíssem um execrável edifício junto a medieva Torre Sul. Esta tem como pormenor exterior digno de nota, a datar a primitiva edificação (século XIV) uma janela românica, com almofada arcaica de descarga.
A torre tem três registos com planta quadradada rematada com merlões. A torre que funcionou como prisão, tem no seu interior a esbelta escada helicoidal de acesso ao terraço de onde se desfruta um vasto cenário.

castelo de pinhel 214x300 Torre Norte do Castelo de Pinhel (*) é uma das mais belas torres medievais de PortugalEsta torre recebeu em 2005, o primeiro miradouro virtual da Europa, com projecto e implantação a cargo da Ydreams.
O panorama é agradável e vasto. O perfil da Serra da Marofa desenha-se com nitidez.
A serra quartzítica é uma verdadeira bússola na região encravada entre montes sucessivos boleados, pobres, tristonhos, cheios de olivais e vinhedo.
Dignos ainda de registo são ainda a cisterna do castelo e a enorme bombarda (símbolo das gentes de Pinhel).
Sabe bem passear ao longo de todo o adarve do perímetro da cerca, envolvidos nesta luz vibrante, em terras que necessitam da ajuda de todos nós.

7 Locais Notáveis do Turismo de Pinhel

O concelho de Pinhel, para além da sua paisagem interessante têm um património que mereceria a vossa visita obrigatória, no entanto tem estado arredado das rotas turistas, e a culpa é de todos os interessados que não têm sabido potenciar as suas potencialidades, em que destaco Cidadelhe e o Centro Histórico de Pinhel. Mas nós aqui no Portugal Notável não desistimos de o divulgar a todos os interessados.  
Locais Notáveis de Pinhel
-Centro Histórico de Pinhel (MN) (*)
-Praça Central de Pinhel (Largos Engenheiro Duarte Pacheco e Sacadura Cabral(*)
-Torre Norte com janela manuelina do Castelo de Pinhel(*)

Pinhel 300x241 7 Locais Notáveis do Turismo de Pinhel
Arredores da cidade

-Paço dos Távoras em Souropires(*)
-Paisagem e aldeia medieval abandonada de Porto de Vide (Bogalhal-Velho)(*)
-Ruínas arqueológicas e paisagem da Aldeia (Azêvo) (*)
-Conjunto patrimonial e paisagístico de Cidadelhe (***)
Com destaque para o panorama do Poio do Gato e Castelo dos Mouros (**), a Aldeia de”Baixo” de Cidadelhe (*) e as gravuras e pinturas rupestres da Faia (***) (Património Mundial da Humanidade-UNESCO).

Outros locais com algum interesse turístico:
-Paisagem da Estrada Nacional 324 entre Vale Verde e Pinhel
-Paisagem da Estrada Nacional 221 entre o vale do Côa e Pinhel
-Águas medicinais fluoretadas e paisagem no vale do Côa na Quinta da Sinchela e Abelhão
-Ponte Medieval sobre a Ribeira do Porquinho em Valbom
-Museu de Pinhel
-Ruínas da villa Romana na Quinta do Prado Galego
-Barragem do Vascoeiro
-Paço Episcopal de Pinhel
-Parque da Trincheira em Pinhel
-Conjunto religioso e arqueológica da Ermida da Senhora da Torre em Pinhel

Cidadelhe (Pinhel) (***)- O Calcanhar do Mundo é uma das mais belas aldeias de Portugal

Não sei quem me disse que Cidadelhe era uma aldeia única. Também ainda antes de a visitar li na “Viagem a Portugal”, de Saramago, que debita um extenso rol de elogios ao sítio.
Numa tarde invernosa de 2005 parto então em sua demanda. A estrada, que parte de Pinhel, é tortuosa depois de Azevo, passamos por um amplo descampado de fragões graníticos, sabemos nós de antemão que a existência de tal rocha obriga o rio Côa a fluir em desfiladeiro, o que é para nós prenuncio de panorama distinto.
E finalmente chego. Decepção. Mas então é isto o “calcanhar do mundo“? Uma aldeia banal, igual a todas as outras comezinhas!
Logo ali em conversa fiquei a saber que Cidadelhe se divide em dois, é o “Povo de Cima”, as Eiras, mais recente, e o “Povo de Baixo”, mais antigo.
A Ermida de São Sebastião
As Eiras têm de interessante a Ermida de São Sebastião, com alpendre, que protege uma pintura maneirista provincial representando o Calvário. Tem no seu interior um São Sebastião patusco, referido por Saramago, com seus enormes “abanos”, e que é uma composição menor de um santeiro de Castelo de Paiva (a senhora Rosário manda dizer ao senhor escritor que ficou desgostosa por este ter brincado com o santinho).
Está quase a chover, mas este viandante intrépido, vai ainda olhar de soslaio a “Aldeia de Baixo” e agora sim, aquieto a frustração de aqui ter vindo.
A Aldeia de Baixo
Diz o nosso Nobel, “a Aldeia é toda pedra. Pedra são as casas, pedra as ruas. Muitas destas moradas estão vazias, há paredes derruídas. Onde viveram pessoas, bravejam ervas.
O viajante maravilha-se diante de algumas padieiras insculpidas ou com baixos-relevos decorativos: uma ave pousada sobre uma cabeça de anjo alada, entre dois animais que podem ser leões, cães ou grifos sem asas, uma árvore cobrindo dois castelos, sobre uma composição esquemáticas de lises e festões”.

cidadelhe12 300x178 Cidadelhe (Pinhel) (***)  O Calcanhar do Mundo é uma das mais belas aldeias de Portugal
A humilde povoação cristalizou no tempo, por toda a banda, abundam artefactos rústicos e arqueológicos que já não existem nas aldeias portuguesas e que um citadino pouco versado em ruralismo não ousa entender e designar. Este conjunto ancestral está em estado de abandono e declínio, mas mesmo assim tem imensa beleza poética.
São as habitações rurais arcaicas, algumas redondas de apelo castrejo, os pombais colocados estrategicamente, as manjedouras (tantas como eu nunca vi), os arados, as charruas, as sepulturas antropomórficas transformadas em lagaretas (uma rara lageada) e que servem as galinhas, é a igreja com belos caixotões hagiológios do século XVII, são as inúmeras marcas de religiosidade… e é o “cidadão”.
A propósito deste voltemos a José Saramago. “O viajante medita no singular amor que liga um povo tão carecido de bens materiais a uma simples pedra, mal talhada, roída pelo tempo, uma tosca figura humana em que já mal distinguimos os braços, e confundem-se os pensamentos, vendo como é tão fácil entender tudo se nos deixarmos ir pelos caminhos essências, esta pedra, este homem, esta paisagem duríssima. «Que se sabe da história do Cidadão?», perguntou o viajante. «Pouco. Foi encontrado não se sabe quando, numas pedras de além» (faz um gesto para a invisível margem do rio Côa)”.
Eu também encontro o “além”; é um outeiro arredondado, num nível inferior ao “povo de baixo”. É o “Castelo dos Mouros”. Daqui a pouco escurece e chuvisca, tudo em meu redor está triste, não se vê vivalma. Ficou a promessa para mim mesmo de ir ao “além”.
Voltei a Cidadelhe quando a aldeia reverdescia na força da Primavera.
A Aldeia de Baixo, que é habitada é magnífica com esta luz, e conheço a dona Laura, referida no livro de Saramago, que passa a ser a minha cicerone.

cidadelhe 3 300x229 Cidadelhe (Pinhel) (***)  O Calcanhar do Mundo é uma das mais belas aldeias de Portugal
Castelo dos Mouros e o Poio do Gato
Agora chegou a vez de ir ao Castelo dos Mouros. Olho a colina do alto da aldeia sem tempo e sinto-me acometido dessa plenitude de quem olha o oceano da falésia. Antes de partir as senhoras pedem-me que não vá, os homens não podem estar no “Castelo” de noite. Mas ainda tenho mais umas duas horas de Sol, que estranho medo se apossou das minhas amigas?
A viagem dista até ao “além” cerca de 15 minutos, passo por um pombal gigantesco, deambulo por entre carvalhos, sobreiros, azinheiras, carrascos, tomilhos, oregãos, estevas, azedas… A natureza aqui é deslumbrante na sua biodiversidade mediterrânica.
As placas indicam-me o “Centro do Castelo”, a “ Forca dos Lusitanos” e o “Poio do Gato (**)”; é para aqui que me dirijo.
Eis o rio Côa abismal! Estou perante um profundo vale encaixado que atinge os 250 metros a pique. O “rio mágico”, bramidor e enfurecido, peleja contra as ciclópicas escarpas graníticas. Em Santa Comba o granito da lugar ao xisto e então o rio das “pedras mágicas” serena ao lidar com margens menos declivosas devido à maior brandura litológica. É um dos desfiladeiros mais impressivos que vi (e saibam os leitores que sou um geólogo com alguma experiência). Penso, contemplo e não esqueço. Um grifo-dourado voa à minha frente, contrasta com o tom cinza do granito, subitamente, dá duas voltas em círculo fechado e desaparece na curva do rio.
Volto para atrás e ignorando a “Forca dos Lusitanos”, embrenho-me no “Centro do Castelo”- a experiência é excepcional.
É um raro bosquete mediterrâneo; e ao baque dos meus passos, estou à espera de ver surgir  por detrás de um “barroco” algum druida celta com a sua foice mágica. É uma miríade de pormenores sensoriais neste túnel de vegetação. É também uma viagem solitária dentro de mim.
São pedras almofadadas, colunas romanas, lintéis, frisos, moinhos… e numa clareira tropeço e descubro a minha primeira gravura rupestre num granito fragmentado; um antropomorfo com o seu arco retesado e que poderá ser da Idade do Bronze ou do Ferro. Lembro aos leitores que nos encontramos no extremo sul do Parque Arqueológico do Vale do Côa (*****), classificado como Património Mundial da UNESCO em Dezembro de 1998 e estou próximo das importantes Gravuras e pinturas rupestres da Faia que estão instaladas no fundo do rio.

cidadelhe dona laura 300x251 Cidadelhe (Pinhel) (***)  O Calcanhar do Mundo é uma das mais belas aldeias de Portugal
O “Castro” teve muralha, que ainda existe em alguns panos e foi habitada desde a idade do Bronze (entre XIII a X  a c.). Foi também povoado romanizado e fazia parte do território da civitas de Aravos (actual Marialva).
O “Castelo dos Mouros” é um local transcendente e mágico, de grande riqueza arqueológica, paisagística e natural. É a entrada meridional do mais belo museu ao ar livre da Humanidade
Sentimento semelhante, do tipo mistérico, é possível ter, por exemplo, em São Pedro de Vir-a-Corça (**) em Monsanto (***).
Cidadelhe também é Património Mundial da Humanidade
As Gravuras e pinturas Rupestres da Faia datam entre o Paleolítico e a idade do Ferro. Estas são caso único no contexto do vale do Côa, uma vez que, em alguns casos, coexistem motivos gravados com pinturas paleolíticas em suporte granítico. As pinturas estão normalmente resguardadas dos agentes erosivos em cavidades.
Cidadelhe é importante, porque foi aqui que se iniciou a descoberta do “Vale Sagrado”: As gravuras e pinturas da Faia foram identificadas pela primeira vez por Francisco Sande Lemos quando procedia ao estudo de impacte ambiental encomendado pela EDP, estudo que precederia as obras de construção da barragem para aproveitamento hidroeléctrico do rio Côa. Na sequência das recomendações desse estudo, foi constituído pelo IPPAR o Projecto Arqueológico do Côa, coordenado por Nelson Rebanda, que veio a identificar as primeiras gravuras paleolíticas da Canada do Inferno. Já fui a Cidadelhe várias vezes e nunca pude visitar as gravuras devido a sua inacessibilidade.

cidadelhe saramago 225x300 Cidadelhe (Pinhel) (***)  O Calcanhar do Mundo é uma das mais belas aldeias de Portugal
Cidadelhe e o Pálio Veneziano
Cidadelhe tem um pálio famoso, bordado a ouro e seda, em veludo carmesim típico de Veneza, que é carinhosamente guardado numa casa particular, em absoluto segredo e apenas no Domingo de Páscoa, durante a Procissão do Santíssimo, pode sair à rua. É uma das relíquias da terra; talvez eu ainda não mereça a sua contemplação, mas o viajante não entristece, porque Cidadelhe tem muito para reparar, sentir e pensar.
Uma curiosa lenda refere que os homens não podem estar no Castelo dos Mouros depois de anoitecer, porque serão atraídos para infindáveis prazeres sensuais pelas mouras e desaparecerão para sempre. Eu confesso que nunca me aventurei pelos caminhos do castelo dos Mouros de noite porque depois de morto, nem vinha nem horto. Provavelmente na lenda está presente a reminiscência de um qualquer culto pagão.
Sempre que posso vou até a Cidadelhe, com companhia para ser cicerone, ou sozinho para me sentar no Poio do Gato, para olhar para aquela paisagem assombrosa e pensar nos pontos de referência que me moldaram e pensar nos biliões e biliões de acasos que permitem que eu esteja aqui, e pensar nos milhares de homens que habitaram esta remota aldeia do mundo, desde o Paleolítico até a actualidade, nas suas alegrias, dores, projectos, crimes, remorsos, aventuras, religiões, batalhas, e dialogar ainda com os suicidas que se sentam ao meu lado e que ao longo dos séculos aqui desapareceram, eles narram-me as suas angustias e eu tento decifra-lhes o quanto a vida é bela e que o Inferno somos em parte nós.
Cidadelhe tem das mais belas gravuras de Arte rupestre ao ar livre, declaradas Património Mundial da Humanidade; possui um castro riquíssimo em evocações arqueológicas e mágicas; contem um mirante colossal para as escarpas verticais do rio Côa; tem uma pequena aldeia rústica, histórica e literária, verdadeiramente rara e imortalizada por Saramago; e tudo isto rodeado por um belíssimo ambiente natural. Infelizmente são raros os portugueses que a conhecem. Cidadelhe e o seu ambiente envolvente, é a par de  Marialva (***), Monsanto (***), Linhares da Beira (***), Sortelha (***) e Monsarraz (***), uma das mais belas aldeias de Portugal. Cidadelhe é a Aldeia da nossa vida – tirando a natal, de quase todos os visitantes que a descobrem e eu como citadino original aceito esta dádiva.


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Centro Histórico de Pinhel (*)- Porque é que os portugueses não sabem que existes?

Numa tarde primaveril do ano de 2002 visitamos a histórica e isolada cidade de Pinhel e ficamos surpreendidos com a sua beleza. Rapidamente entendemos a importância deste pequeno burgo sereno e abandonado a sua sorte e mal sabíamos nós que iria ser nossa residência durante um ano.
Um pouco da história de Pinhel
A povoação teve 5 forais, o primeiro em 1179 de D. Afonso Henrique, e o último, em 1510, a mando do rei D. Manuel I. Pinhel situa-se na margem esquerda do rio, embora este se situe a alguma distancia, fazia frente à antiga comarca de Riba Côa que Portugal apenas integrou em 1297 no tratado de Alcanices. Foi Dom Dinis quem mandou reedificar o Castelo de Pinhel e a construção da vetusta muralha, das melhores conservadas no País e que rodeia actualmente o seu centro Histórico.
Desempenhou um importante papel como praça de armas fronteiriça e até ao século XIX. Tornou-se sede de diocese e cidade em 1770, por mando do Marques de Pombal, por desanexação da Diocese de Lamego, mas em 1881 a Diocese de Pinhel foi extinta e incorporada na diocese da Guarda. Por via disso a cidade teve algum desenvolvimento nos séculos XVIII e XIX. Mas a desanexação da diocese, a estação de caminho de ferro, construída muito longe e os maus acessos rodoviários ao longo do século XX declinaram Pinhel.  

pinhel 300x188 Centro Histórico de Pinhel (*)  Porque é que os portugueses não sabem que existes? Pinhel está ainda esquecida dos roteiros turísticos
Em relação ao turismo está quase totalmente esquecida, quando confrontada com os centros históricos dos concelhos limítrofes – Trancoso(**), Castelo Rodrigo(*), Almeida(***), Castelo Mendo(**), Castelo Bom(*), Sortelha(**) e Marialva(***) – e a sua monumentalidade não é de forma alguma inferior as localidades referidas!
Como é que um dos centros históricos mais interessantes de Portugal se encontra tão degradado ?
O viajante há três anos e que recentemente residiu alguns meses em Pinhel, não deixa de se interrogar qual a causa de tão desdita? Como é que um dos centros históricos mais interessantes de Portugal se encontra tão degradado?
A resposta parece-me simples. A locomotiva dos fundos de coesão da União Europeia não passou por aqui, por incúria, desmazelo e incompetência dos autarcas que aqui vegetaram.

A pequena  cidade é muito rica em solares castiços e igrejas, mas o que de imediato nos prende a nossa atenção são as muralhas que a defendiam, e que ainda subsistem na sua quase totalidade, com adarve, cubelos,  cinco portas medievais e no ponto mais alto duas torres robustas, altaneiras, sendo a Torre Norte (*) de uma grande beleza.
Acrescentamos ainda que a Praça central de Pinhel (*) (junção de três Praças), poderia ser uma das mais belas de Portugal se fosse requalificada.
A guisa de conclusão, referimos alguns belos monumentos da cidade, para além do castelo que o visitante deve conhecer: a igreja da Trindade, a capela da Senhora dos Montes, os antigos Paços do concelho/Museu Municipal, o Paço Episcopal, igreja de Santa Maria do Castelo, a igreja da Misericórdia, o pelourinho, a Casa dos Metelos e Nápoles, solar dos Corte Reais, o convento de Santo António, galerias subterrâneas, a ponte românica sobre a ribeira das Cabras…
Sem dúvida que esta cidade merece que se ganhe uma tarde, a deambular calmamente, no seu casco histórico.  
Bom turismo em Pinhel!

Solar dos Távoras em Souro Pires (Pinhel) (*)-Um dos mais belos paços portugueses da centúria de quinhentos

Solar dos Távoras

O belo Solar dos Távoras que se encontra arruínado, foi construído entre os finais do século XV e o início do século XVI, a mando da família Távora que está ligada à história da localidade de Souro Pires desde o seu começo, sendo atribuída a sua fundação a Soeiro Peres de Távora.
O Solar dos Távoras possui planta rectangular, com fachadas dispostas simetricamente, e o conjunto integra ainda uma capela autónoma, de planta quadrada. A fachada principal é delimitada lateralmente por duas torres, sendo o corpo central mais pequeno com dois pisos e o sector das torres com três.
Solar dos Távoras é uma mistura estilística arquitectónica com elementos feudais e do renascimento
A arquitectura militar medieval conduziu para as moradas senhoriais a torre, como elemento simultaneamente de defesa e de habitação, que com os avanços da pirobalística no século XVI perdeu as suas funções primitivas, passando a ser um sinal de importância, linhagem nobre e poder da família possuidora.

solar dos tavoras pinhel 300x237 Solar dos Távoras em Souro Pires (Pinhel) (*) Um dos mais belos paços portugueses da centúria de quinhentos
Solar dos Távoras

Os princípios da arquitectura sábia do Renascimento chegam aos solares a partir do século XVI baseados nos trabalhos de Andrea Palladio e Sebastiano Serlio, que no solar dos Távoras está materializado nas suas quatro janelas, trabalhadas em lindas volutas com motivos vegetalistas e maineis em mármore.

As grandes e regulares paredes e o número escasso de aberturas são características da idade média, mas o tratamento dessas aberturas é já tipicamente renascentista. Por isso o solar dos Távoras em Souro Pires é um caso raro de hibridismo estilístico de transição do estilo feudal guerreiro para o erudito renascimento.
No alçado lateral esquerdo, existe ainda um portal em arco perfeito, de acesso ao pátio interno da casa, e o edifício da capela da Nossa Senhora da Esperança, o templo privativo do solar possui planta quadrada e portal de arco pleno. Todo o solar está despojado.
Apesar da sua sobriedade e da ruína, é um dos mais belos paços portugueses da centúria de quinhentos.
O edifício é também evocador da tragédia dos Távoras, porque lhes pertencia e muito provavelmente a partir daquela data entrou em declínio.
SOS Património para o belo Solar dos Távoras
O edifício merece ser recuperado com bastante urgência porque está em estado calamitoso. Já falta o pavimento no segundo piso e o sobrado superior perdeu o pavimento e a maior parte da cobertura. O que fazer para salvar este monumento?
E que tal se começassem por retirar o ecoponto encostado a fachada?
Fotografia retirado do síte dos Monumentos Nacionais, porque o ecoponto não nos deixou tirar uma fotografia minimamente aceitável, mas que aborrecimento!