Wednesday, September 17, 2014

Núcleo da Penascosa -Parque Arqueológico do Vale do Côa (Património Mundial da Humanidade) (Vila Nova de Foz Côa) (****)

No Parque Arqueológico do Vale do Côa pode visitar:

-Núcleo de Arte Rupestre da Penascosa (qu está em destaque neste artigo):

- Núcleo de Arte Rupestre da Canada do Inferno

-Núcleo de Arte Rupestre da RiBeira dos Piscos

-Museu do Côa

-A paisagem magnífica de toda a região.

Visitar as gravuras rupestres do núcleo arqueológico da Penascosa do Parque Arqueológico do Vale do Côa, no concelho de Vila Nova de Foz Côa ao luar é um momento singular. Envolvidos por brisa deleitosa, sentindo o murmúrio da rio a correr em leito xistoso em bela praia fluvial, com aquele coaxar de rãs insuperável…
Quando se acendeu a iluminação artificial do primeiro painel da Penascosa, ouviram-se fragores de estupefacção; o que se viu adquiriu uma transcendência encantatória e compreendemos de imediato a importância daquele santuário ao ar livre.
Como diz Martinho Baptista, director do Centro Nacional de Arte Rupestre (CNART), “…à noite, com a incidência da luz rasante, até as figuras saltam das pedras…”, porque é então que todas as subtilezas da rocha e da gravura adquirem forma e textura.
Sente-se um ambiente ambíguo, entre o alquímico e o científico, porque estamos a descortinar a aurora artística e religiosa da humanidade, quando esta dá os seus primeiros passos para se afastar da bestialidade do nosso parente Neandertal.
As questões surgiam em catapultas impulsionadas pelo meu irmão em estado de lucubração forçada: por que razão as gravuras eram sobrepostas deixando o resto do painel vago? Qual o motivo destes homens? Porque se repetem sempre os mesmos animais (cabras montesas, auroques e cavalos), escasseando os peixes, as aves e os felinos? …

parque arqueologico de vila nova de foz coa 243x300 Núcleo da Penascosa  Parque Arqueológico do Vale do Côa (Património Mundial da Humanidade) (Vila Nova de Foz Côa) (****)

Penascosa-Parque Arqueológico do Vale do Côa

A nossa amiga Emer (arqueóloga e irlandesa, especializada em cultos druídicos) defendia que devemos deixar tudo ao sabor da nossa imaginação. O meu espírito científico rebatia que não! Num próximo post prometemos que explicaremos algumas das teorias mais verosímeis do vale do Côa. A algaraviada tornou-se grata e fraterna, com o guia, com grande profissionalismo e mérito, a tentar por alguma ordem na expressividade efabulatória, dos quatro viajantes ao mundo paleolítico
A luz iluminou subitamente um palimpseto com 14 figuras, todas elas maravilhosamente gravadas. Este painel é dos mais conhecidos, mas de noite, ao luar, a nitidez é tal que nos faltariam sempre palavras para descrever esta maravilha artística provinda dos confins da Humanidade. Ficou-me na retina, a visão de um dos auroques do topo, cuja cabeça original se perdeu provavelmente por fractura da rocha, o animal foi posteriormente “corrigido” com uma cabeça a olhar para trás.
Noutro painel, encontramos um registo semelhante ao anterior, mas escavou-se na base do afloramento em aluvião e encontrou-se um verdadeiro coito animado: uma égua e um cavalo a acasalarem, mostrando este a cabeça em três posições diferentes e as patas dianteiras em duas posições, simulando assim movimento. A égua, mais antiga está perfeitinha e o corcel nem por isso. Na mesma rocha, outra raríssima representação de cabra a olhar de frente, técnica que só foi empregue no final do Paleolítico Superior.
Noutra rocha um equídeo à escala natural e um peixe, este aproveitando uma convexidade da própria rocha, para dar a sensação de volume: tudo é maravilhosamente nítido, a boca, os olhos, as guelras, as barbatanas…e até o imaginei (truta?) a saltitar na água.

Peixe Penascosa Parque Arqueológico Vale do Côa 300x181 Núcleo da Penascosa  Parque Arqueológico do Vale do Côa (Património Mundial da Humanidade) (Vila Nova de Foz Côa) (****)

Peixe Penascosa Parque Arqueológico Vale do Côa

Aqui estamos em presença de outro exemplo curioso em que numa rocha grande com imenso espaço vago as figuras foram sobrepostas umas às outras, no topo do painel, como se aquela fosse a zona por excelência para marcar as figuras.[nggallery id=3]
Perante o espectáculo fazíamos por vezes um enorme ruído de exaltação, entrecortados por momentos de profundo silêncio, respeitador, do momento inolvidável porque estávamos a passar; tentava então ajeitar a máquina fotográfica no solo, num ponto mais sobrelevado, para tentar captar digitalmente a perpetuidade demiurga daquelas figuras (recomendo aos leitores que levem um tripé, para não sofrerem as minhas agruras).
Não posso esquecer que de dia a experiência também é excelente; aprofundamos para além da impressão da hidrolatria, também a da litoratia e de biolatria, do rio Côa e pode também ficar a conhecer a paisagem de Castelo Melhor-miradouro de São Gabriel (*); que em Fevereiro é o mais belo espectáculo de amendoeiras em flor no nosso país; mas quem observa as gravuras à claridade do sol, apenas fica com uma pálida imagem da sonata paleolítica ao luar…e ao gerador (quando este funciona).
Outras notas acerca do núcleo arqueológico da Penascosa
De dia visitei o núcleo da Penascosa por duas vezes, a última no dia dos meus anos em 2006, guiado pela loquaz e alegre Ângela, partindo do núcleo de Castelo Melhor, observamos ao longe a grandiosa Quinta da Erva Moira (pela sua beleza, os seus achados, musealização arqueológica e pelos seus divinos néctares). Por razões de segurança, o único ponto visitável durante a noite, são as diversas gravuras nas rochas do núcleo arqueológico da Penascosa. Terá que marcar a visita com antecedência, porque apenas se realiza ao luar e em boas condições climatéricas e não se esqueça do repelente de insectos.


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Cavalo Paleolítico de Mazouco (*) (Freixo de Espada a Cinta)

Sabia que…o Cavalo de Mazouco foi o primeiro painel Paleolítico a ser descoberto na região do Douro-Vale do Côa?
Na foz de uma pequena ribeira que desagua no rio Douro num painel de xisto ao ar livre, encontramos esta figura pertencente ao Paleolítico Superior. Aqui o nível de água está artificializado e sobrelevado devido ao efeito da Barragem espanhola de Saucelhe.
Descoberto em 1981 por Nelson Rebanda, ainda estudante, veio a revelar-se a primeira peça de um vasto conjunto patrimonial que incluiria o Vale do Côa (****) cuja descoberta oficial ocorrerá 10 anos mais tarde e Siega Verde (***) no vizinho rio Águeda, já em território espanhol, mas ambos classificados como Património da Humanidade.
Originalmente, compreendia ao todo quatro figuras, das quais ainda uma está muito bem preservada. É o célebre “Cavalo de Mazouco”.
Com cerca de 62 cm de comprimento que obedece aos critérios de representação característicos de arte rupestre glaciar, com o pescoço curvo e pronunciado o focinho simplificado- danificado embora, as patas dianteiras ligeiramente afrontadas e um amplo ventre, de acordo com a anatomia dos equídeos que naqueles tempos, habitavam esta remota região. Devido à representação do ventre e do seu grande volume, alguns autores julgam tratar-se de uma égua grávida; outros defendem que se tratará de um cavalo no Verão, após acumulação de gordura.

cavalo de mazouco 300x213 Cavalo Paleolítico de Mazouco (*) (Freixo de Espada a Cinta)É um equídeo do tipo Przewalsky, espécie retractada em várias figuras do Parque Arqueológico do Vale do Côa (*****). Pequeno, ágil e indomesticável, com a sua crina espetada, ainda hoje cavalga livremente nas remotas planícies desérticas da Mongólia. E em Portugal pode ver alguns na Coudelaria Real de Alter do Chão (**).
Quando observo este cavalinho, tenho a sensação que ele se agita; o dinamismo é transmitido pela representação da crina bem erguida, a cauda levantada, a inclinação das patas traseiras e o pescoço está bem destacado do corpo.
A técnica de incisão da gravura foi a picotagem, verificando-se no entanto o seu sucessivo reavivamento por abrasão em datas superiores, inclusive recentemente. Até já se entrevêem pequenos grafitos criminosos. Peço contundentemente a quem de direito, que coloquem uma protecção gradeada e já agora um painel explicativo. A operação não sairia onerosa e este valioso património estaria melhor defendido.
Medita o viajante acerca dos tesouros que ainda poderão estar submersos naquele lençol de água artificial! Nesta margem o xisto, na outra, o granito que da azo a “geomorfologias” muito díspares, como se observa em grande escala no belíssimo miradouro do Colaço (Mazouco) (*).
Deitado confortavelmente em laje amornada; com o rio indulgente, de refulgência áureas apaziguadoras, muito perto a sussurrar sonâncias calmas e com as aves de rapina a olharem desconfiadas para a carne que sou eu, quase que esvaeço. Não penso, envolto numa calmaria mitigadora das minhas fragilidades; é a solidão ditosa. Mesmo a levitar (não sei se dormitei) é tempo de lembrar que estou sozinho na fundura de vale inóspito e que é tempo de voltar ao mundo dos homens recentes.

Parque Arqueológico do Vale do Côa (Vila Nova de Foz Côa) (2ª Parte) (*****)

A idade das gravuras mais antigas do Parque Arqueológico do Côa
Para determinar a idade das gravuras, com sendo pertencentes ao Paleolítico, recorreu-se à datação estilística, que se faz comparando técnicas, traços e motivos com pinturas coevas executadas com pigmentos múltiplos, em grutas e abrigos, que foram datadas. Também a paleofaunística deu uma ajuda: sabe-se que algumas espécies representadas, entre cavalos, auroques e veados gigantes das turfeiras, desapareceram da Península Ibérica com o termo da última glaciação, isto é, há 11 mil anos atrás. A idade das gravuras veio também a ser indirectamente confirmada pela descoberta de alguns acampamentos de caçadores recoletores na região ao longo do Côa e do Douro. Com estes dados foi possível determinar, que as gravuras paleolíticas foram executadas entre 26 ou 25 000 e 12 a 10 000 a. C. Estão também representados outras pinturas e gravuras de outras épocas, inclusivamente do século XX.

nucleo da penascosa parque arqueologico do vale do coa 300x189 Parque Arqueológico do Vale do Côa (Vila Nova de Foz Côa) (2ª Parte) (*****)Alguns números ajudam aperceber a colossal dimensão deste achado, que surpreendeu o mundo inteiro: ao longo de 17km de extensão do Parque Arqueológico, até 1999, estavam inventariados 28 núcleos de rochas gravadas, 90% dos quais com representações paleolíticas, o que corresponde a mais de 190 painéis com cerca de 1200 zoomorfos, o que representa uma quantidade única e extraordinária. Com o decorrer das campanhas de levantamento diurno e nocturno, que prosseguem, este acervo pode vir a crescer bastante. As margens do Douro, do Côa, da Ribeira de Piscos e do Águeda, parcialmente submergidas pela barragem do Pocinho, certamente que escondem ainda um número indeterminado de painéis decorados.
A sua interpretação é um problema de grande complexidade. Como disse António Martinho Baptista, o arqueólogo que dirige o CNART (Centro Nacional de Arte Rupestre), “a revelação do significado destas gravuras é um momento tão importante para a História da Arte como a descoberta da gruta de Altamira”.

A sua boa conservação tem sido atribuída a diversos factores, entre os quais a fraca densidade habitacional e o microclima mediterrânico que se faz sentir nos vales do Douro e Côa.
O que exibem as gravuras do Vale do Côa
As gravuras propriamente ditas são impressionantes, e comprovam que a arte Paleolítica é essencialmente naturalista. Os animais representam só por si mais de 99% dos motivos figurados. Encontram-se ainda alguns guerreiros isolados, ou montados e armados, datando da idade dos metais ou do Neolítico. A única excepção de antropomorfo (figura humana) do Paleolítico é o Homem da Ribeira de Piscos.
Entre os zoomorfos, há auroques (bois selvagens), os mais numerosos, logo seguidos de cavalos, cabras-montesas ou pirináicas, veados, peixes e até um quadrúpede ainda não identificado.
Os animais estão representados de ventre protuberante, convenção usada para simbolizar a fertilidade, muitas vezes aproveitando a textura e os relevos naturais da própria rocha, realçando volumetrias. E há-os de todos os tamanhos, desde pequenos animais com 3cm até aos grandes, em escala natural, com 2 metros. O mesmo sucedendo a sua qualidade, desde a existência de obras menores, até a existência de verdadeiras obras-primas paleolíticas. Os motivos do Paleolítico Superior repetem-se em relação aos encontrados nas manifestações encontradas no Sudoeste da Europa, em grutas ou abrigos: o mesmo tipo de animais, na maioria seguindo as convenções de representação típicas, e a ausência de plantas, astros ou cenas com humanos (excepto a do Homem de Piscos). Entre as particularidades destas gravuras, nota-se a ausência de animais de climas frios (bisontes, rinocerontes lanígeros, renas e mamutes), que não deviam existir na região.
Obviamente que os factores erosivos, a par do tempo, este grande escultor, e da actividade antrópica, deverão ter sido responsáveis pelo desaparecimento da esmagadora maioria das gravuras, no entanto, o que existe, descoberto e por descobrir, é um acervo artístico e cultural Paleolítico, único no mundo.
Para além do museu podem ser visitados três núcleos de gravuras rupestres:
1-Penascosa (*****), a partir do Centro de Recepção de Castelo Melhor (*);
2-Canada do Inferno (**), a partir da sede do Parque em Vila Nova de Foz Côa;
3-Ribeira dos Piscos (****) a partir do Centro de Recepção de Muxagata

Parque Arqueológico do Vale do Côa (Vila Nova de Foz Côa) (1ª Parte) (*****)

O rio Côa rio esculpiu uma paisagem natural de rara beleza natural, forte e vigorosa. A localização remota e o clima da região, agreste e seco, salvaram o vale da acção destruidora do Homem e da erosão e conserva uma verdadeira paisagem cultural, polvilhada de vestígios arqueológicos Ao longo de 17 km a partir da sua foz, até Cidadelhe (***), o Parque Arqueológico do Vale do Côa é um santuário de arte rupestre deixado pelos homens do Paleolítico por isso adquiriu estatuto de Monumento Nacional e Património Mundial da Humanidade.
O ano de 2010 foi um marco na evolução do Parque Arqueológico do Vale do Côa porque foi inaugurado o seu museu e as vizinhas gravuras rupestres em Siega Verde, no rio Águeda (Ciudad Rodrigo), foram também classificadas Património Mundial da Humanidade unindo-se assim ao território arqueológico do Côa.


O Parque Arqueológico do Vale do Côa é Património Mundial da Humanidade
Os vários sítios de arte rupestre foram elevados a Monumento Nacional em 1997 e logo no mês seguinte, antes mesmo da sua publicação oficial em Diário de Republica, propostos à UNESCO para classificação como Património Mundial, o que viria a suceder na reunião de Quioto, no Japão no primeiro de Dezembro de 1998, naquele que foi considerado um dos mais expeditos processo de classificação de sempre, consagrando definitivamente o vale do Côa como “a mais importante descoberta arqueológica da Europa nos últimos cinquenta anos”, como tão bem definiu o delegado britânico presente na reunião de Quioto.
A candidatura foi apoiada publicamente pelo director-geral da UNESCO que pessoalmente visitou as gravuras em Junho de 1997 com o Presidente da República e o Rei de Espanha. O ICOMOS propôs a inscrição deste complexo com base nos critérios 1 e 3. O primeiro lembra-nos que datam do Paleolítico Superior as primeiras manifestações de arte da humanidade, e diz concretamente que a arte rupestre do Paleolítico Superior de vale do Côa “é uma ilustração excepcional de súbito desabrochar do génio criador, na aurora do desenvolvimento cultural da Humanidade”; o critério nº 3 diz que esta arte revela, “ de forma realmente extraordinária, a vida social, económica e espiritual do período mais antigo da história do homo sapiens sapiens”.

parque arqueologico de vila nova de foz coa1 243x300 Parque Arqueológico do Vale do Côa (Vila Nova de Foz Côa) (1ª Parte) (*****)O silêncio, a imponência geológica xistosa, a biodiversidade mediterrânica e a beleza meândrica do rio contribuem para um ambiente mágico de descoberta.
Descoberta e o processo mediático do Parque Arqueológico do Vale do Côa
Embora o povo local, sobretudo barqueiros e pastores, tivessem há muito conhecimento das gravuras, a sua descoberta pública só se viria a concretizar em 1994.
Tudo começou em 1989, quando a EDP decidiu fazer uma barragem no Côa. Entre os obrigatórios estudos de Impacte Ambiental, logo nesse ano o arqueólogo Francisco Sande Lemos identificou as primeiras gravuras rupestres, e delas avisou o IPPAR e a EDP, embora num estudo superficial que não mencionava o Paleolítico. Segue-se a avaliação dos relatórios, que recomendavam estudos aprofundados. Em 1993, a EDP, contrata o arqueólogo Nelson Rebanda do IPPAR (que ainda estudante em 1981 descobriu o célebre Cavalo de Mazouco (*) no vale do Douro, que já com as obras a decorrer fez prospecções no local e descobre quatro abrigos de pinturas pré-históricas e, na Canada do Inferno, diversos testemunhos de arte rupestre do Paleolítico.
O IPPAR, revelando total incompetência e insensibilidade, manteve secreta a descoberta para não provocar uma guerrilha com o governo, e colaborou na ocultação do achado à comunidade científica, contrariando as suas atribuições estatuárias de divulgação e preservação.
Durante os anos em que se manteve o achado oculto, as obras da barragem prosseguiram a ritmo acelerado, almejando uma situação de facto consumado que só uma forte vontade política conseguiu parar.
No Outono de 1994, o arqueólogo leva ao local uma colega, Mila Simões de Abreu, e a polémica estala, porque esta denunciou a lei de silêncio imposta. Em Novembro de 1994, nos meios de comunicação social a descoberta foi tornada pública, e nessa altura já a barragem ia em adiantado estado de construção.
Conheciam-se então 4 ou 5 painéis na Canada do Inferno; mas ao virar do ano e até Fevereiro de 1995, assistiu-se a explosão de descobertas, quer por arqueólogos quer por habitantes locais. Em Abril de 1995, já se tinha praticamente chegado à extensão actual dos achados, com mais de 17 quilómetros abrangendo o vale do Côa e seus afluentes, desde um pouco a montante da foz do Côa, até à Faia em Cidadelhe (***), no extremo sul. E desses 17 quilómetros, quinze seriam inundados pela albufeira que ali iria nascer em 1998, se fosse para a frente a opção da barragem.
Após a denúncia pública, seguiu-se uma apaixonante polémica (gravura ou barragem?), nacional e internacional, com fortes defensores dos dois lados (colocando-me eu na defesa das gravuras). E porque “as gravuras não sabem nadar”, a mudança de governo em Outubro de 1995 veio terminar com esta questão, decidindo logo no mês seguinte a suspensão das obras da barragem, apesar do enorme prejuízo económico imediato que tal decisão acarretou. O nosso bem-haja aos decisores políticos responsáveis pela salvação das gravuras.


O ano de 2010 foi um marco na evolução do Parque Arqueológico do Vale do Côa porque foi inaugurado o seu museu e as vizinhas gravuras rupestres em Siega Verde, no rio Águeda (Ciudad Rodrigo), foram também classificadas Património Mundial da Humanidade unindo-se assim ao território arqueológico do Côa (Continua).

Parque Arqueológico do Vale do Côa-Artigo do Diário de Notícias, por Maria José Margarido

 “O vale do Côa seria, no Paleolítico Superior, um paraíso na terra, um local com um microclima tão mágico que, por aqui, a Primavera não resistiria a espraiar-se até Setembro – e com ela a época de acasalamento entre animais. O ambiente peace and love levou as gravuras rupestres de Foz Côa a excluir qualquer representação de cenas bélicas entre auroques – antepassados dos actuais bois -, cabras, corços, veados e cavalos, e do homem com estes. Num período datado entre 30 a 10 mil anos atrás, os caçadores-recolectores do vale gravaram quadros solitários ou amorosos do quotidiano numa pedra que não estalou com o degelo dos glaciares da serra da Estrela (****).
A remota tradição pictórica só terminou no ano passado, quando morreu o último artista do Côa. Anónimo como os seus antepassados, só se sabe que era moleiro ou pastor e gostava de desenhar, nestas telas de xisto e granito, o castelo de Guimarães (*) e o comboio a atravessar a ponte.
Estamos na Canada do Inferno (o nome não podia ser menos condicente com o relato anterior), a zona que concentra 90% das gravuras do maior parque arqueológico de arte rupestre ao ar livre do mundo, perto de Vila Nova de Foz Côa e um pouco acima da margem do rio que baptizou a povoação. O caminho para este núcleo de gravuras, apenas um dos três visitáveis, faz-se de jipe, oito pessoas de cada vez. O fantasma da barragem que António Guterres foi convencido a embargar, em 1996, acompanha-nos durante todo o caminho, um fantasma feito de cimento em alguns locais e de marcas improvisadas do nível a que as águas subiriam noutros – e eram mais de 200 metros. “Isto não foi só uma luta pelas gravuras, também foi uma luta pela arqueologia portuguesa”, há-de dizer Helena Garrido, anfitriã deste santuário de 200 metros quadrados há dez anos.
Parque arqueologico do vale do coa1 300x203 Parque Arqueológico do Vale do Côa Artigo do Diário de Notícias, por Maria José MargaridoA guia não é formada em Arqueologia mas fez bom uso do curso proporcionado pelo parque e ombreia agora num diálogo mano a mano com um jovem investigador belga, que duvida da tese flower power acerca do vale. “É a interpretação do Centro Nacional de Arte Rupestre, mas, sendo arte, é sempre discutível e subjectiva”, responde num francês perfeito quando o arqueólogo belga, com look à Che Guevara, opina que os dois cavalos que parecem estar a acasalar são sobreposições de diferentes épocas. Na vereda surge um segurança, que olha atentamente para um emigrante português em França, demasiado entusiasmado a apontar com uma cana a figura que conseguiu finalmente decifrar, tocando na pedra de forma audível. Há onze securitas neste parque, a trabalhar 24 horas por dia, para que os onze guias não fiquem sozinhos na defesa das gravuras.

O entusiasmo e anterior frustração deste emigrante na leitura das gravações paleolíticas – feitas através de incisões filiformes, picotagem ou abrasão – é compreensível: para o olho pouco treinado do comum mortal, as representações não são evidentes, com algumas excepções. É preciso ver as fichas de interpretação que Helena estende, dar asas à imaginação e não deixar que os veios naturais da rocha, que correm sempre numa determinada direcção, nos distraiam. Feitos com quartzos e sílicos por estes homens que viviam em tendas, à beira de um rio que começava mais abaixo e com neve no pico do que agora são suaves colinas, os riscos têm uma arbitrariedade estranha na sua firmeza. “Tem a ver com a força aplicada e a superfície mais ou menos afiada do objecto.”Só os invisuais podem agora tocar-lhes, e essas são as visitas que Helena prefere.
Entrar nesta espécie de máquina do tempo, ver as gravuras no local em que foram feitas, é inestimável – mas também tem os seus custos. Está um calor insuportável no vale do Côa. Ao visitante que quer distinguir todos os animais já descritos – e ainda peixes, simples signos de origem oculta e uma rara figuração humana, o Homem de Piscos – pede-se tempo, disponibilidade e resistência a temperaturas que podem chegar aos 55 graus, devido ao microclima próprio da zona. Uma italiana de saltos altos desespera, já duvida dos riscos e começa a derreter a maquilhagem. Helena Garrido revela que já perdeu quatro quilos este Verão. A mulher do emigrante começa a sentir-se mal e tem de se sentar. “Não sabia que o bilhete incluía sauna.”
A queda de 20 mil para 12 mil visitantes em 2005 explica-se por tudo isto: os números nunca poderão ser comparáveis aos de um museu. Talvez por isso a população,os guias, toda a gente aguardem ansiosos pelo cumprimento da promessa da ministra da Cultura: um museu em 2008. Faltam infra-estruturas hoteleiras e acessos, dizem; e a verdade é que quem vem de Torre de Moncorvo, do interior, nem sequer tem placas para o parque e para a vila. A mais antiga forma de arte do mundo sabe compensar, no entanto, quem a aprecia: a turista italiana já esfregou os olhos esborratados e dá gritinhos de alegria quando distingue um veado estilizado, feito apenas de três incisões certeiras, há 30 mil anos atrás. Artigo do DN, por Maria José Margarido (24-8-2006)

Núcleo de gravuras rupestres da Ribeira de Piscos-Parque Arqueológico do Vale do Côa (Património Mundial da Humanidade) (Vila Nova de Foz Côa) (****)

Depois do primeiro artigo sobra o Núcleo da Canada do Inferno (**), segue-se o extraordinário núcleo da Ribeira dos Piscos (****), não apenas pelo valor arqueológico, mas também pela paisagem excepcional, principalmente na épocas das “amendoeiras em flor” ou na Primavera.
Primeiro viajamos em “todo o terreno”, e depois a pé, por entre uma paisagem de sonho; o núcleo da Ribeira dos Piscos é em si uma experiência inolvidável a aurora da humanidade.
A primeira vez que visitamos o núcleo foi em companhia de estudantes de arqueologia da nossa cidade de Coimbra, em que nós seriamos cicerones para a geologia da região e com a nossa guia do Parque Arqueológico do Vale do Côa (*****), experimentada e loquaz, douta em plantas locais, estabeleceu-se um diálogo profícuo. Se as dúvidas, ao “Como” e “Quando”, estão mais ou menos respondidas, os “Porquês” ficam ao sabor da ciência especulativa e do sonho.

ribeira dos piscos 1 300x199 Núcleo de gravuras rupestres da Ribeira de Piscos Parque Arqueológico do Vale do Côa (Património Mundial da Humanidade) (Vila Nova de Foz Côa) (****)

Ribeira dos Piscos

Os núcleos encontram-se na da foz da ribeira dos Piscos, na margem esquerda (linha de água tectónica associada a montante a mega fractura da Vilariça). A caminhada é primorosa, rodeados que estamos, por um caleidoscópio colorido de flores silvestres de aromas francos e subtis.
Numa das rochas é possível descortinar os mais bem desenhados animais de todo o complexo: uns cavalos executados em filiforme com grande pormenor (notam-se os olhos, a crina, os cascos) e uma maravilhosa noção de perspectiva, mostrando muito bem posicionadas e proporcionadas todas as patas.
O Homem de Piscos e seu gigante falo
Noutro painel observamos, uma raríssima representação paleolítica de uma figura antropomórfica, a do “Homem de Piscos” (no mundo inteiro deve haver no máximo uma dezena). Gravado e revestido pela técnica filiforme, com 63 cm de altura e 22 cm de largura, com cerca de 10000 a.C.,  com crânio de nuca saliente, boca aberta extasiada e um sexo desmesurado em ejaculação. A relembrar aos vindouros que a sexualidade é uma necessidade vital prazenteiro, um acto transcendental, sendo em algumas sociedades também um acto religioso. O que desejaria o nosso coevo artista comunicar?
O “Homem de Piscos” sobrepõe-se a várias figuras (cavalo e auroques).

Nucleo da Ribeira dos Piscos 156x300 Núcleo de gravuras rupestres da Ribeira de Piscos Parque Arqueológico do Vale do Côa (Património Mundial da Humanidade) (Vila Nova de Foz Côa) (****)
A “sensualidade” paleolítica prossegue com a observação em outro painel de uma das mais belas e conhecidas representações até agora encontradas: são dois equídeos a namorarem, acariciando-se com os focinhos, figuras que aproveitam uma zona mais bojuda da rocha para darem uma sensação de volume.


Já no extenso lençol de água calmo do rio Côa, a 6Km da sua foz, e depois de passarmos por um moinho parcialmente submerso e arruinado, encontramos três grandes auroques com dois metros. A sua gravação exigiu a construção de andaimes, e a sua grande dimensão sugere que foram feitos para serem vistos de longe, reforçando a teoria dos painéis como sinalizadores de fronteiras ou marcadores territoriais.  
A conversa continuo interessante, o que é de todo lógico, com a cicerone, de nome Helena Garrido; habituado como estávamos a olhar para as rochas, descortinei uma pequena figura pintada a ocre; tratava-se de um orante Neolítico. Segundo a Helena esta figura já está catalogada e muitas mais existem distribuídas neste sector. A história deste vale não terminou no Paleolítico…

Ribeira dos Piscos 300x199 Núcleo de gravuras rupestres da Ribeira de Piscos Parque Arqueológico do Vale do Côa (Património Mundial da Humanidade) (Vila Nova de Foz Côa) (****)
Á volta, paramos na ruinosa Quinta das Olgas, mas ainda com boa cantaria. Peço para parar a viatura para colher uma fotografia. É mais um momento que guardo na memória porque a vida tem momentos muito belos.

Créditos fotográficos: As fotografias são do ótpimo blog de fotografia arqueológica do Ricardo Soares.

Núcleo de Arte Rupestre da Canada do Inferno-Parque Arqueológico do Vale do Côa (Património Mundial da Humanidade) (Vila Nova de Foz Côa) (**)

Núcleo de Arte Rupestre da Canada do Inferno

Para vistar este núcleo temos de partir da sede do Parque Arqueológico do Vale do Côa, em Vila Nova de Foz Côa. A paisagem até ao local está distante da beleza dos núcleos da Ribeira dos Piscos (****) ou da Penascosa (****). Por vezes visionamos o grandioso Douro, um ou outro pombal, por vezes algumas amendoeiras, mas a sensação que fica, é a da aridez e monotonia desta paisagem xistenta, boleada e retentora de calor. Xisto, este, e desculpai-me amigo leitor o tom geológico, que foi formado em mares profundos, de escassa actividade orgânica, algures entre o período Câmbrico e a Era Pré-câmbrica. Aqui o vale é muito encaixado com temperaturas extremas, uma verdadeira “Canada do Inferno”. No pino do Verão chega-se aqui por vezes aos 47 graus.
Descemos então, por jipe conduzido por um guia experiente, que alia os seus conhecimentos da arte rupestre a uma condução em condições difíceis em pisos agrestes e muito declivosos.

Canada do Inferno 300x220 Núcleo de Arte Rupestre da Canada do Inferno Parque Arqueológico do Vale do Côa (Património Mundial da Humanidade) (Vila Nova de Foz Côa) (**)

Núcleo da Canada do Inferno

O que se vê é monumental, mas a paisagem maravilhosa foi brutalmente agredida. Estamos na zona do estaleiro abandonado da barragem. Nesta paisagem lunar de escombros de pedra, podemos imaginar o vaivém incessante de camiões, o ruído ensurdecedor. De quando em quando, uma sirene visava o rebentamento de mais uma carga de gilamonite, que ia esventrando a fogo ambas as margens.

No Núcleo da Canada do Inferno, está o primeiro painel a ser descoberto no Parque Arqueológico do Vale do Côa
A rocha 1 é especialmente importante porque foi a primeira a ser descoberta, por Nelson Rebanda, em 1993; mostra no topo um painel com sobreposição de gravuras de muita qualidade, deixando imenso espaço vago no restante painel; Custa-nos, de facto, a perceber a mentalidade do Homem Paleolítico. Outra curiosidade é um cavalo representado com duas cabeças, dando a sensação de movimento descendente.
Na rocha 3, entre os vários animais representados, aparece à esquerda um raro quadrúpede, que poderá ser um felino.
Em várias rochas encontramos gravuras modernas (um peixe, corações, cruzeiros, calvários e até o Castelo de Guimarães, com Dom Afonso Henriques a combater um mouro!).
Noutra rocha uma curiosa manada de auroques caminha em fila indiana na direcção do rio.
E em outro painel está um óptimo cavalo picotado e uma pequena cabra com 10cm gravada com incisão filiforme e que pela sua qualidade foi escolhida como símbolo do parque.
Todos estes painéis se encontram pouco acima do nível do rio Côa, e tendo em conta, que aqui este se encontra muito acima do seu nível original, devido ao efeito da barragem do Pocinho, é de crer que os painéis submersos contenham um tesouro inexcedível de gravuras rupestres ainda por desvendar.