Saturday, November 1, 2014

Rota do Românico dos Vales do Tâmega, Sousa e Douro

“Rota do Românico começou em 1998, envolvendo os seis municípios do Vale do e compreendendo 21 monumentos.

Em 2010, a rota foi estendida aos municípios do Baixo Tâmega e do Douro Sul, o que permitiu alargar o conjunto para 58 monumentos, a maioria dos quais classificados.

A rota é já um caso de sucesso, sendo visitada por milhares de viajantes por ano e que consta de conjuntos monásticos, igrejas, capelas, memoriais, pontes, castelos e torres.

Em terras dos vales do Tâmega, Sousa e Douro no coração do Norte de Portugal, ergue-se um singular património arquitetónico de origem românica. Este legado excecional, expresso em 58 monumentos, transporta-o para a fundação da Nacionalidade e testemunha o papel relevante desta região na história da nobreza e das ordens religiosas em Portugal”.

O românico é o primeiro estilo que parece unificar toda a cristandade europeia num estilo único.

Sendo uma arquitetura predominantemente religiosa, o românico está relacionado com a organização das eclesiástica diocesana e paroquial, e com os mosteiros das várias ordens monásticas, fundados ou reconstruídos nos séculos XII e XIII.

Em Portugal a arquitetura românica concentra-se, essencialmente, no Noroeste de Portugal (Minho e Douro Litoral), diminuindo a sua densidade a medida que nos afastamos dali, adensando-se nas margens dos grandes rios, Minha, lima, Tâmega, Sousa e Douro.

A edificação de tantos monumentos românicos no noroeste de Portugal, relaciona-se com a estruturação do território paroquial (como já se disse), mas também com a domesticação de um território com sua densidade populacional e elevada, com alguns receios do pecado (revelado na estrutura) e na potencial reconquista muçulmana; as também e aqui eis que surge um tom muito pessoal e subjetivo, a carecer de provas, pela necessidade de culto e cristinanização decorrentes de uma região carregadas do ponto de vista pagão.

A arquitetura românica portuguesa nada tem que destaque de outras regiões europeias; tem no uma diversa e rica gama de soluções na sua escultura, que constitui um mundo fascinante do imaginário da mentalidade do Homem medieval. É este mundo fascinante que esta rota está a mostrar. Parabéns a todos os envolvidos.

Eis os 58 monumentos românicos dos Vales do Tâmega, Sousa e Douro com testos dos monumentos que eu julgo serem notáveis, retirados do site da rota do românico.

-Mosteiro de Santa Maria de Pombeiro, Felgueiras (***)

Santa Maria de Pombeiro foi um dos mais importantes mosteiros beneditinos do Entre-Douro-e-Minho. Fundado em 1102, teve origem numa antiga comunidade monástica. Apesar das extensas obras de que foi alvo nos séculos XVII e XVIII, conserva ainda a planta, os absidíolos e o portal principal da sua fundação medieval. Os capitéis do portal principal são um notável exemplo de escultura românica.

-Igreja de São Vicente de Sousa, Felgueiras (**) A Igreja de Sousa fazia parte de um conjunto conventual, cuja construção se concluiu no século XIII, como atesta a inscrição ao lado do portal norte, referindo a sua sagração solene no ano de 1214. O portal principal apresenta três pares de colunas e quatro arquivoltas, desenvolvidas em profundidade, com bases bolbiformes e em que um dos pares de colunas é octogonal. O tímpano possui, como decoração, uma cruz da Ordem de Malta perfurada.

-Igreja do Salvador de Unhão, Felgueiras (*) Sagrada em 1165 pelo arcebispo de Braga, D. João Peculiar, só seria concluída no século XIII, sendo muito remodelada no século XVIII. É um estimável testemunho da arquitetura românica portuguesa. O portal principal apresenta um conjunto de capitéis vegetalistas considerados entre os melhores esculpidos de todo o românico do norte de Portugal.

-Ponte da Veiga, Lousada -Igreja de Santa Maria de Airães, Felgueiras (*) A Igreja de Airães é um significativo exemplar da longa permanência do modelo construtivo da época românica no Vale do Sousa. Data do final do século XIII, embora esteja documentada desde 1091. Apesar de apresentar três naves, da construção românica, originalmente de uma só nave, conservam-se a cabeceira e a parte central da fachada ocidental. O portal principal revela capitéis vegetalistas e um friso com um padrão de laços.

-Igreja de São Mamede de Vila Verde, Felgueiras (*) A referência documental mais antiga respeitante à Igreja de São Mamede de Vila Verde data de 1220. Integrava então o padroado do Mosteiro de Santa Maria de Pombeiro (Felgueiras). É constituída por uma única nave e cabeceira retangulares. Os vestígios da pintura mural mostram que a parede da cabeceira foi pintada à maneira de um altar, onde são identificadas as representações de S. Bento e provavelmente de S. Bernardo. A paisagem é redor é muito bela.

-Torre de Vilar, Lousada (*)

A Torre de Vilar, mais do que uma construção militar, é um símbolo do poder senhorial sobre o território. Testemunha a existência da domus fortis (ou casa forte), a residência senhorial fortificada, no Vale do Sousa. Terá sido construída entre a segunda metade do século XIII e o início do século XIV.

igreja de paços de sousa 300x225 Rota do Românico dos Vales do Tâmega, Sousa e Douro

-Igreja do Salvador de Aveleda, Lousada

-Ponte de Vilela, Lousada -Igreja de Santa Maria de Meinedo, Lousada (*) Edifício de construção tardia, a Igreja de Santa Maria de Meinedo poderá corresponder à reedificação de um antigo mosteiro que se teria erguido no mesmo local no século XI, reformando uma antiga construção do século VII. O edifício atual datará do século XIII, facto atestado pela inscrição datada de 1262 existente à entrada da Igreja.

-Ponte de Espindo, Lousada A Ponte de Espindo é formada por um só arco de volta perfeita apoiado em sólidos pilares que arrancam diretamente das margens. As paredes revelam os sucessivos arranjos a que foram submetidas, com pedras de regularidade diversa. Ponte medieval de transição, mais tardia que a de Vilela, apresenta um tabuleiro em cavalete ou dorso-de-burro que atesta o seu caráter mais gótico que românico.

-Mosteiro de São Pedro de Ferreira, Paços de Ferreira (***)

A Igreja do Mosteiro de São Pedro de Ferreira é um dos mais singulares monumentos do românico português. Para além da excelência da sua arquitetura, nesta Igreja conjugam-se em harmonia fachadas e motivos ornamentais provenientes de diversas regiões e oficinas: Zamora-Compostela, Coimbra-Porto e Braga-Unhão. Junto à fachada principal, conserva-se a ruína de uma galilé de função funerária, excelente testemunho deste tipo de construção.

-Torre dos Alcoforados, Paredes. Estes elementos permitem-nos datar a estrutura do século XIV.

-Capela da Senhora da Piedade da Quintã, Paredes (*) Capela, ou ermida, como é referida em 1758, este pequeno templo comunitário próximo à velha estrada Porto-Penafiel foi dedicado nos tempos modernos à Virgem da Piedade. Da medievalidade (séculos XIII-XIV) subsiste a pequena capela-mor, primorosamente decorada ao nível da cornija sustentada por cachorros. No interior destaca-se o talhe cuidado das pedras, nomeadamente as que compõem o arco triunfal e que refletem a intervenção da época moderna que lhe acrescentou uma nave.

-Mosteiro de São Pedro de Cête, Paredes (***)

 A fundação do Mosteiro de Cête, que a tradição atribui a D. Gonçalo Oveques, remonta ao século X. Apesar da reforma da época gótica, esta Igreja é um testemunho da longa aceitação dos padrões românicos. Se o portal lateral norte deve ser considerado como gótico, já o portal principal retoma aspetos do românico tardio. Nos claustros merecem destaque algumas bem conservadas arcas tumulares de cavaleiros nobres.

-Torre do Castelo de Aguiar de Sousa, Paredes (*) Este Castelo situava-se na rede defensiva do território, a que os reis das Astúrias deram muita atenção. Em 995, foi atacado por Almançor no seu avanço para Braga e Compostela, no contexto da Reconquista. Encabeçou uma “Terra” na reorganização do território do século XI e um importante “Julgado”, já no século XIII. Nos finais deste século o Castelo de Aguiar de Sousa terá sido abandonado. As ruínas revelam um castelo com uma torre descentrada face à muralha de planta oval.

-Ermida da Nossa Senhora do Vale, Paredes A Ermida do Vale é composta por nave retangular e cabeceira quadrangular, com cobertura de madeira. O arranjo do portal principal e a escultura que apresenta mostram como a resistência dos motivos românicos se prolongou no tempo. O edifício é precedido por uma galilé de sabor clássico. Esta Ermida conserva vestígios de pintura mural, atribuída ao mestre Arnaus, com representações de Anjos Músicos.

-Mosteiro do Salvador de Paço de Sousa, Penafiel (***)

Está ligado à família dos Ribadouros da qual provém Egas Moniz, famoso tutor do rei D. Afonso Henriques. Em 1106, Egas Moniz lega ao Mosteiro metade da sua fortuna, com a indicação de ali ser sepultado. A sua arca tumular constitui uma das mais belas peças da escultura românica nacional. Nela estão esculpidas cenas da vida do aio, como o episódio da prestação de vassalagem em Toledo, a sua morte e cerimónias fúnebres.

-Memorial da Ermida, Penafiel (*) O Memorial da Ermida corresponde a um tipo de monumentos de que restam apenas seis exemplares em todo o território nacional. Estes monumentos deverão relacionar-se tanto com a colocação de túmulos, como com a evocação da memória de alguém, como ainda com a passagem de cortejos fúnebres. Segundo a lenda, terá sido um ponto de paragem no transporte do corpo de D. Mafalda, filha de D. Sancho I, para o Mosteiro de Arouca.

 -Igreja de São Pedro de Abragão, Penafiel (*) A Igreja de Abragão conserva a cabeceira da época românica, testemunho significativo da arquitetura românica do Vale do Sousa. No exterior, o friso composto por motivos geométricos recorda o modo de decorar as igrejas das épocas visigótica e moçárabe. Esta Igreja está documentada desde 1105. No entanto, a cabeceira, que a tradição atribui à iniciativa de D. Mafalda, filha do rei D. Sancho I, data do segundo quartel do século XIII.

 -Igreja de São Gens de Boelhe, Penafiel (***) A Igreja de Boelhe, edificada entre os meados e o final do século XIII, caracteriza-se por ser uma das mais conseguidas expressões decorativas do românico rural. Na fachada norte, os cachorros apresentam uma assinalável variedade de motivos que vão desde cabeças de touro até homens que transportam pedra. É de realçar a qualidade patente na construção dos muros, nos quais é visível uma apreciável quantidade de siglas geométricas e alfabéticas.

 -Igreja do Salvador de Cabeça Santa, Penafiel (*)

O nome da Igreja de Cabeça Santa está ligado a uma devoção de D. Mafalda, filha do rei D. Sancho I, à relíquia de um personagem consagrado que aí se guardaria, a Cabeça Santa. Esta Igreja é um excelente exemplar para compreender a arquitetura românica portuguesa. O portal principal apresenta um tímpano com cabeças de bovídeos destinadas a proteger, simbolicamente, a entrada da Igreja. O portal sul possui um curioso saltimbanco, numa posição acrobática.

 -Mosteiro de Santa Maria de Vila Boa do Bispo, Marco de Canaveses (*)

Cabeça de um importante património histórico, a sua fundação é associada à linhagem dos Gascos (ou Ribadouros), cujo poder senhorial se centrou nesta região após a Reconquista. É provável que a igreja românica, da qual só restam alguns testemunhos, tivesse sido edificada entre os seculos XII e XIII.

 -Igreja de Santo André de Vila Boa de Quires, Marco de Canaveses (**) Esta Igreja, ligada na sua origem a um mosteiro, foi construída no segundo quartel do século XIII. Destaca-se a sua fachada principal composta por portal e janelão que ostentam capitéis com motivos simétricos de sabor vegetalista. Na fachada sul encontra-se um portal ricamente ornamentado, estilisticamente inspirado no românico irradiado de Paço de Sousa (Penafiel). No interior são notáveis as intervenções dos séculos XVIII e XIX, nomeadamente ao nível dos altares e das pinturas da abóbada da capela-mor.

 -Igreja de Santo Isidoro de Canaveses, Marco de Canaveses (*) Igreja românica cuja construção remonta à segunda metade do século XIII, inscreve-se num cruzamento de influências estilísticas provenientes de três áreas principais do românico português: Porto, Braga-Rates e bacia do Sousa. Destaca-se, no exterior, o seu elaborado portal principal e, no interior, o bem preservado conjunto de pintura a fresco que preenche parte da parede fundeira da capela-mor, com várias representações de santos, obra datada de 1536 e autografada por um pintor de nome Moraes.

 -Igreja de Santa Maria de Sobretâmega, Marco de Canaveses (*) Igreja que se enquadra na categoria de românico de resistência (tardio), edificada posteriormente a 1320, conforme atesta o arranjo dos seus portais, sem colunas e capitéis. No portal principal, mísulas ornadas com meias esferas (pérolas), um motivo românico com grande acolhimento nas bacias do Tâmega e Douro. Relaciona-se esta Igreja, desde a sua origem, com a Igreja de São Nicolau na outra margem do rio Tâmega e estas com a submersa ponte medieval de Canaveses.

 -Igreja de São Nicolau de Canaveses, Marco de Canaveses
-Igreja de São Martinho de Soalhães, Marco de Canaveses (**) Soalhães foi um território muito importante e cobiçado pela nobreza medieval. O interior da Igreja de Soalhães espanta pelo investimento que no século XVIII a ornamentou com painéis de azulejos, painéis em madeira relevada e talha que se estende além dos próprios altares. Dessa época persistem o portal principal, a moldura com pérolas do interior do óculo que o encima e o túmulo guardado por arcossólio na capela-mor.

 -Igreja do Salvador de Tabuado, Marco de Canaveses (**) Edifício enquadrado na categoria de românico de resistência, a Igreja do Salvador de Tabuado impressiona pela robustez da sua construção, acentuada pela torre sineira e pelos contrafortes que sustentam as paredes laterais. Da sua estrutura destaca-se o portal principal ornamentado com elementos comuns ao românico do Tâmega e Sousa, como as cabeças de bois. No interior destaca-se a pintura mural que representa uma sagrada conversação entre Cristo juiz, São João Batista e São Tiago.

 Enquadramento paisagístico da Ponte do Arco, Marco de Canaveses (*) Ponte de um só arco de volta perfeita, que sustenta um tabuleiro em cavalete, sobre o rio Ovelha. Os mestres pedreiros instalaram os seus alicerces em dois maciços rochosos das margens, formulando assim uma estrutura mais robusta e segura. Parte de uma rede municipal e paroquial de caminhos no antigo concelho de Gouveia, a Ponte do Arco é uma boa representante do modelo de travessias locais que se difundiu ao longo da época moderna.

 -Igreja de Santa Maria de Jazente, Amarante

-Ponte de Fundo de Rua, Amarante (*) Num dos dois canais de trânsito derivados de Amarante na direção do interior transmontano e do Alto Douro, a Ponte de Fundo de Rua, sobre o rio Ovelha, é uma robusta estrutura de pedra construída talvez no século XVII para substituição de travessia anterior. Constituída por quatro arcos desiguais, sobre os quais se sustenta um tabuleiro ligeiramente inclinado, assume-se na paisagem como importante obra de engenharia, por onde se escoavam pessoas e bens neste território da Península Ibérica.

 -Igreja de Santa Maria de Gondar, Amarante
-Igreja do Salvador de Lufrei, Amarante (*) Outrora igreja monástica, Lufrei passou a secular em 1455, à semelhança de Gondar. Aqui existiu uma comunidade feminina da ordem de São Bento da qual não restam vestígios. Implantada num vale, próximo do local de junção de dois pequenos cursos de água, a Igreja de Lufrei inscreve-se no chamado românico de resistência (tardio), testemunho da sua popularidade entre as comunidades rurais do norte de Portugal. No interior destaca-se a decoração com pinturas murais a fresco.

 -Igreja do Salvador de Real, Amarante

-Mosteiro do Salvador de Travanca, Amarante (***)

Igreja monástica que se distingue, no contexto do património românico português, pelas invulgares dimensões e pela importância da sua ornamentação escultórica (ao nível dos capitéis) e pela extraordinária torre, onde se destaca o belo portal com um Agnus Dei (Cordeiro de Deus). Fundado na esfera de influência dos Gascos (tal como Vila Boa do Bispo, no Marco de Canaveses), Travanca constituiu, na Idade Média e muito além, um dos principais mosteiros masculinos do Entre-Douro-e-Minho.

 -Mosteiro de São Martinho de Mancelos, Amarante (*) Reformado em 1540, quando passou aos religiosos dominicanos do Convento de São Gonçalo de Amarante, Mancelos constituiu–se como um instituto monástico afeto aos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho desde o século XII. Pelos vestígios da estrutura românica é provável que a sua edificação se tenha concluído no século seguinte. No interior, destacam-se as pinturas, no conjunto das quais uma, exposta na capela-mor, poderá representar o bispo frei Bartolomeu dos Mártires.

 -Mosteiro do Salvador de Freixo de Baixo, Amarante (*) Complexo monástico, implantado em fértil vale, composto por igreja, torre sineira, vestígios do primitivo claustro e da primitiva galilé. Da construção românica subsiste a fachada da igreja. Composto por três arquivoltas, o portal principal evidencia capitéis finamente esculpidos com animais e motivos vegetalistas. No interior, despojado e singelo, merece observação atenta a pintura a fresco que representa a cena da Adoração dos Reis Magos (ou Epifania), atribuída à oficina de Bravães I.

 -Igreja de Santo André de Telões, Amarante (*) Outrora igreja monástica, Telões era já no século XVI espaço secularizado para onde convergiam as atenções da Colegiada de Guimarães que aqui detinha o direito de padroado. Talvez assim se possa compreender a campanha artística que levou ao preenchimento das paredes da nave e capela-mor com pintura a fresco, de que resta hoje, apenas, um fragmento representando o nascimento de Jesus Cristo (Natividade). Edificada do século XII para o XIII, foi profundamente intervencionada nos séculos seguintes.

 -Igreja de São João Batista de Gatão, Amarante
-Castelo de Arnoia, Celorico de Basto (**)

Castelo românico, situado no topo da antiga Terra de Basto. Impõe-se na paisagem como fortaleza de origem roqueira, sendo de destacar a sua torre de menagem, o torreão quadrangular e a cisterna. Em baixo, a antiga vila de Basto (hoje conhecida como aldeia do Castelo), com o seu pelourinho, casa das audiências e botica (farmácia), lembra a época de maior movimento, quando por aqui passava importante estrada a ligar o Sousa ao Tâmega.

 -Igreja de Santa Maria de Veade, Celorico de Basto
-Igreja do Salvador de Ribas, Celorico de Basto

-Igreja do Salvador de Fervença, Celorico de Basto

 -Igreja de São Miguel de Entre-os-Rios, Penafiel

 -Marmoiral de Sobrado, Castelo de Paiva (*)

O Marmoiral de Sobrado é um monumento funerário formado por duas cabeceiras verticais com cruzes gravadas, onde se apoiam duas lajes horizontais. A superior é retangular e a inferior, correspondente a uma tampa sepulcral, apresenta formato arredondado na superfície. Tal como os Memoriais da Ermida (Penafiel) e de Alpendorada (Marco de Canaveses), terá sido um ponto de paragem, segundo a lenda, no transporte do corpo de D. Mafalda, filha de D. Sancho I, para o Mosteiro de Arouca.

 -Igreja de Nossa Senhora da Natividade de Escamarão, Cinfães

-Igreja de Santa Maria Maior de Tarouquela, Cinfães (**)

Do mosteiro de monjas beneditinas apenas resta a velha Igreja, edificada no século XIII, onde a influência do românico está bem presente ao nível da decoração: as beak-heads do arco triunfal, dois homens com uma só cabeça, serpentes e sereias. Mosteiro rico, foi cobiçado por muitos que esperavam através dele obter prestígio e poder. Da linhagem dos Resendes à dos Pintos, o seu valioso património é testemunho desse percurso que terminou no século XVI.

 -Igreja de São Cristóvão de Nogueira, Cinfães (**) Igreja implantada a meia encosta, que parece ter sido erguida ou reconstruída sobre estrutura anterior (dos séculos XII–XIII), dando assim expressão à lenda que refere a mudança da velha Igreja, numa noite, por mouros robustos. O atual edifício pertence à categoria de igrejas constituídas por diversidades estéticas, entre as quais se destacam as intervenções dos séculos XVII e XVIII que redefiniram o interior, nomeadamente através da edificação de altares laterais e do teto com caixotões decorados.

 -Ponte da Panchorra, Resende

-Mosteiro de Santa Maria de Cárquere, Resende (**)

Panteão da linhagem dos Resendes, Cárquere possui alguns elementos da sua estrutura inicial românica: a torre e uma fresta do referido panteão. Aqui surge um dos temas mais peculiares do românico português, as beak-heads. O interior da igreja, embora tenha crescido sobre a estrutura medieval, é fruto das intervenções gótica e maneirista, de que são testemunhos a abóbada de nervuras da capela-mor e os portais principal e lateral norte.

 -Igreja de São Martinho de Mouros, Resende (***) Monumento que se destaca no românico português, a Igreja de São Martinho de Mouros impressiona pela robustez da sua torre-fachada. Porém, não obstante a sua aparência militar, nunca cumpriu funções que não fossem as religiosas. A sua edificação pode ter-se arrastado por vários anos, resultando na cessação do projeto original, que se pensa de três naves e cujo início corresponde ao interior da torre-fachada. No interior destaca-se a capela-mor profundamente alterada na época moderna.

 -Igreja de Santa Maria de Barrô, Resende (*) Igreja de matriz românica, mas cuja estrutura e ornamentação anunciam já a chegada do gótico, é no interior que encontramos importantes testemunhos da construção medieval, de que se destaca o conjunto de capitéis do arco triunfal narrando cenas de caça. No seguimento da profunda remodelação barroca, a imagem da Virgem da Assunção, o retábulo maior e o Calvário de invulgares dimensões dominam e marcam o presente espaço.

 -Igreja de São Tiago de Valadares, Baião (*) Igreja que se inscreve no românico de resistência, foi edificada em finais do século XIII, talvez sobre edifício anterior. Implantada num viçoso vale, incorpora a linguagem medieval dos paramentos exteriormente lisos com a gramática barroca que no interior marca toda a espacialidade. Entre ambas as cronologias, marcam presença as pinturas murais aplicadas nas paredes laterais e na parede do fundo da capela-mor no século XV, provavelmente encomendadas por um dos abades desta Igreja.

 -Ponte de Esmoriz, Baião

-Mosteiro de Santo André de Ancede, Baião (*)

Igreja e Mosteiro de Cónegos Regrantes, depois dos Dominicanos, Ancede é testemunho de um importante centro económico e cultural. Tendo sido coutado em 1141, da velha igreja românica sobraram apenas a rosácea e parte das paredes laterais da capela-mor. No adro, a Capela do Senhor do Bom Despacho é um notável teatro onde pequenos palcos narram a vida de Cristo, exemplo da importância deste Mosteiro no período barroco.

-Capela da Senhora da Livração de Fandinhães, Marco de Canaveses (*) A atual Capela dedicada à Virgem da Livração já foi a igreja principal da paróquia de São Martinho de Fandinhães. A sua implantação, longe das vias de comunicação e das áreas povoadas junto ao vale do Douro, ocasionou a transferência e criação de uma nova sede paroquial, em Paços de Gaiolo. Permanece, assim, a memória desta estrutura românica, que, desmantelada ou projetada, alberga curiosos pormenores do trabalho artístico dos canteiros medievais.

-Memorial de Alpendorada, Marco de Canaveses (*) Integrando um conjunto de monumentos memorativos, tipicamente portugueses e datáveis do século XIII, de que restam apenas seis exemplares, o Memorial de Alpendorada distingue-se pelo seu bom estado de conservação. Embora não nos mostre qualquer inscrição, sabemos que este monumento funerário, dotado de dupla cavidade mortuária, foi edificado para homenagear um cavaleiro, conforme nos indica a espada gravada no plinto que serve de base ao seu arco.

Referências adicionais: Rota do Românico

Domus Municipalis (Bragança) (***)- uma eloquente homenagem a água

Domus Municipalis

Pensa-se na vetusta Bragança e vem logo à lembrança este monumento magnífico que é a Domus Municipalis, quiçá o ex-libris turístico da cidade.
O que atrai tanta a gente a vista-lo é por ser um singular e misterioso monumento na Península Ibérica que homenageia esse bem agora tão raro-a água e ainda o poder municipal. O nome de Domus Municipalis terá surgido no século XIX, e significa “Casa Municipal” em latim.
Está inserida na cidadela de Bragança a onde se incluem outros monumentos notáveis como a Torre de Menagem (***) ou a ursa do pelourinho (*).
Esta Domus Municipalis integra um roteiro do românico do Nordeste Transmontano de que já descrevemos os seguintes monumentos:

É muito rara a existência de edifícios românicos civis em Portugal, no entanto esta obra para além da sua singularidade atinge dimensão monumental e é nas suas linhas arquitetónicas um espaço perfeito. Em alvenaria de granito muito bem aparelhado. Exteriormente tem a forma de um pentágono desigual. A face mais extensa tem 14 metros e a mais pequena com pouco mais de três.

Domus Municipalis Bragança 300x236 Domus Municipalis (Bragança) (***)  uma eloquente homenagem a água A data da sua edificação é enigmática. Podia ser ter sido construído nos séculos XII ou XIII em pleno período do estilo românico ou então ser coetâneo da edificação da Torre de Menagem (***) no primeiro terço de quatrocentos; deste modo a construção seria efetuada em “românico” embora o estilo já estivesse muito em desuso.
Todos nós cremos no Abade de Abaçal e este refere a existência de um sinete heráldico, de dom Sancho I, num dos cachorros internos do edifício, o que permite concluir que a sua construção talvez tenha sido levada a efeito na primeira metade do século XIII. Mas onde é que estará tão furtivo sinal? Confiemos no magnífico Abade, senhores, pois toda a região deveria ter o seu.
Domus Municipalis água 300x157 Domus Municipalis (Bragança) (***)  uma eloquente homenagem a água A iluminação da Domus Municipalis é efetuada por uma enfiada ininterrupta de janelas de arco de volta perfeita, ao longo de todas as faces da construção. Todas as janelas têm moldura lisa, expecto as sete colocadas a este, que possuem, interiormente, uma arquivolta com ornatos estrelados.

O Domus Municipalis tinha uma dupla função

A parte subterrânea da Domus Municipalis forma uma cisterna e mostram que os objetivos que presidiram a sua construção teriam sido de ordem utilitária. Esta cisterna recolhia águas pluviais e de nascentes. Ao longo da cornija corre uma caleira, destinada a acolher a água da chuva, conduzida até à cisterna.
Relembro que a água na Idade Média era um bem parco e essencial, nomeadamente nos tempos de guerra, quando Bragança tinha que ser um baluarte de defesa auto-suficiente em transes de assédio.
Existem outras cisternas com alguma similitude a Domus Municipalis em alguns castelos da Baixa Idade Média como Algoso, Lamego ou Marvão, mas o facto de sobre a cisterna abobadada ter sido construído um segundo piso coberto destinado a acolher o conselho municipal, confere-lhe o especto e as características de espécime único.

Domus Municipalis cachorro 300x253 Domus Municipalis (Bragança) (***)  uma eloquente homenagem a água O extra-dorso da abóbada de berço, que cobre a cisterna, forma o pavimento lajeado do salão, no qual se encontram três aberturas quadrangulares, que fazem a ligação entre os dois pisos que foram tapados com grades para a sua proteção.
Este é um espaço magnífico constituído por um salão único fenestrado com uma bancada corrida ao longo de todas as paredes, em pedra, para assento dos membros do conselho municipal.
A cornija exterior assenta em 64 cachorros e a cornija interior tem 53, alguns dos quais historiados que prendem a nossa atenção e que deveriam ser minuciosamente estudados.
“‘Para aprender não basta só ouvir por fora, é necessário entender por dentro”, assim dizia sabiamente o nosso padre António Vieira porque aqui entrando o amigo sentirá algo solene a apelar ao medievalismo com o seu espaço interior amplo, unificado, fresco, mesmo sob a canícula transmontana de verão com as suas ventanas a amestrarem jogos de luzes no pavimento da Domus Municipalis.
O leitor já visitou este fantástico monumento?

Cabeceira românica da igreja de Castro de Avelãs (Bragança) (*) – Singular românico de ladrilho em Portugal

Igreja de Castro de Avelãs

A Igreja de Castro de Avelãs é um outro local que deve conhecer no seu roteiro do românico do Nordeste Transmontano. Recordo ao leitor, que às coisas singulares não é alheio, que o itinerário consta dos seguintes monumentos. Pode aqui ler sobre o que foi escrito por nós em relação aos monumentos românicos.

  • Domus Muncipalis (Bragança) (***)

Em dois dias pode visitar com serenidade este rico património onde também se integram alguns castelos e suas torres de menagem como (Algoso, Ansiães e Penas Róias) e ainda a igreja românica das Malhadas em Miranda do Douro e a igreja de São facundo em Vinhais. Sem dúvida que aqui temos um magnífico conjunto que mereceria ser englobado num pacote turístico singular.
O Mosteiro de Castro de Avelã foi um grandioso monumento que o tempo e a incúria dos homens aos poucos foram desmantelando. O cenóbio beneditino que já existia no século XII e era uma farta instituição, desfrutadora de múltiplas rendas. Quiçá esta fosse a instituição religiosa mais poderosa de Trá-os-Montes durante o período medieval.

Em Março de 1387 o mosteiro recebeu como hóspede o duque de Lencastre, com a sua comitiva, na antevéspera do seu encontro com D. João I, no planalto de Babe, no âmbito do casamento da sua filha -D. Filipa de Lencastre – com o rei português. O duque inglês fazia-se escoltar de um milhar de guerreiros, alguns deles experimentados na célebre batalha de Crécy.
igreja castro de avelãs 300x216 Cabeceira românica da igreja de Castro de Avelãs (Bragança) (*)   Singular românico de ladrilho em Portugal O mosteiro foi extinto por uma bula do papa Paulo III, datada de 1543, e vinculado à recém-criada diocese de Miranda do Douro. A mudança dos bens fez-se no ano seguinte, ficando a sua administração entregue aos frades do mosteiro, com a obrigação de enviarem para a Sé mirandesa o quinhão das rendas estipulado. As dependências do mosteiro foram derribadas e alguns dos materiais reaproveitaram-se em empreitadas de carácter religioso que sucediam na cidade de Bragança.
Com o suceder do tempo, o mosteiro e a igreja de Castro de Avelã foram votados ao abandono e praticamente desapareceram, exceção feita à notável cabeceira românica da igreja.

A Cabeceira românica da Igreja de Castro de Avelãs é singular em Portugal

A cabeceira da igreja do Castro de Avelãs é composta por três capelas redondas -uma ábside e dois absidíolos – em estilo românico-mudéjar. A singular cabeceira é revestida a tijolo ladrilhado, e rematada por fiadas de tijolos em ziguezague. A capela-mor apresenta três registos de arcadas cegas, com duas frestas nas arcadas inferiores. Os absidíolos apresentam dois registos de arcadas cegas. A utilização exclusiva do tijolo no crescimento das paredes e o continuado preenchimento das superfícies curvas das paredes com arcadas cegas, três registos na capela-mor e dois nas colaterais, relacionam esta construção com outras de estilo mudéjar que se ergueram em terras de Leão e Castela, especialmente no importante foco de Sahagun com destaque para a Igreja de S. Lorenzo de Sahagum e em geral, na região compreendida entre Toro e Segóvia. A igreja de Castro de Avelãs foi gizada para ter naves de três naves que, provavelmente, não chegou a alcançar.

igreja castro de avelas 1 225x300 Cabeceira românica da igreja de Castro de Avelãs (Bragança) (*)   Singular românico de ladrilho em Portugal Posteriormente, já no século XVIII, foi-lhe acrescentada uma nave retangular, com a sacristia adossada ao absidíolo esquerdo.

O misterioso túmulo do Conde de Ariães

No interior de um dos absidí­olos, agora aberto no exterior, abriga-se em interessante arcaz tumular granítico, com tampa de formato prismático onde se inscreve uma data trecentista e que se crê ser o de dom Nuno Martins de Chacim, um homens poderosos de Trás-os-Montes e até mesmo do reino de Portugal no século XIII. Por exemplo Foi um Rico-homem e aio do Rei D. Dinis, teve a tenência de Bragança entre 1265 e 1284. Exerceu em 1261 e 1276 o cargo de Meirinho-mor e entre 1279 e 1284 foi Mordomo-mor da casa de D. Afonso III de Portugal.
São ainda lendárias as suas usurpações forçadas e em sangue para conquistar o séquito e poderio que alcançou em vida. Dom Nuno também era conhecido como o Conde de Ariães. (ler aqui).

igreja castro de avelas 2 212x300 Cabeceira românica da igreja de Castro de Avelãs (Bragança) (*)   Singular românico de ladrilho em Portugal

Antes de terminarmos o nosso périplo pela igreja de Castro de Avelãs, quero deixar-lhe apenas mais algumas anotações:
-Repare leitor amigo, numa estranha torre gótica quadrangular com cerca de uma dezena de metros de altura, em alvenaria de granito, rematada por um campanário com um sino, que faria parte das instalações monacais. A torre era mais alta e, na parte terminal do século XVIII e começos do século XIX, diminuiu-se-lhe a altura e adaptou-se-lhe um modesto campanário. Adjacente a esta construção está a residência paroquial que dada ao desleixo, preserva nos seus baixos vestígios românicos

Os Guardiões do Mosteiro de Castro de Avelãs

-O adro é murado e acedido frontalmente por portão férreo, rematado por cruz latina, flanqueado por pilares de cantaria de granito, encimados por duas figuras zoomórficas, deitadas, talvez leões que parecem guardar todo aquele conjunto. Os Leões estão associados à força e nobreza. É comum encontrá-los nas entradas principais de templos religiosos exercendo a função de guardiões do templo, como se alertassem o observador que aquele local é sagrado e restrito. Na bíblia, pode assumir um caráter positivo (como o leão de Judá, os leões do trono de Salomão ou o leão de São Marcos) ou ter uma imagem negativa, como os leões que Daniel tem de enfrentar. Estranho é todos os roteiros turísticos que li não fazerem referência a tal facto.
Em escavações arqueológicas recentes num terreno agrícola contíguo à Igreja de Castro de Avelãs, foram descobertos o claustro, as alas conventuais e algumas salas do antigo Mosteiro Beneditino, que terá sido erguido na aldeia durante o século XIII. Os arqueólogos também encontraram espólio da Época Romana, que estariam relacionados a via que ligava Braga a Astorga e que passaria próximo desta zona onde, posteriormente, foi construído mosteiro. Entre os vestígios encontrados destaca-se objetos de cerâmica, moedas e uma lápide funerária que remontam à época entre os séculos I e V.

Estas escavações podem agora ser observadas com alguma minúcia no lugar. Todo este espaço deveria ser transformado num espaço museológico para ativar a aldeia através do turismo cultural.
- Um conselho que lhe dou amigo viajante é que quando visita um lugar destes deve reparar em redor, nos montes, porque em alguns deles podem existir os chamados castros, com valor para a sua imaginação e mais ainda para estima dos cientistas. É o caso deste lugar.

Castro de Avelãs seria a capital dos Zoelas?

Também um morro aqui perto designado por “Cabeço do Castro (ou “Torre Velha”, microtopónimo que desde logo alertará para antiga e desaparecida construção defensiva de certa imponência) tem vindo a surgir, desde o último quartel do século passado numerosos e valiosos testemunhos arqueológicos de época proto-histórica (Idade do Ferro, sobretudo) o do domínio romano, abrindo-se ainda a possibilidade de o local manter uma continuidade ocupacional ao longa da Alta Idade Média. São particularmente numerosos e interessantes os achados epigráficos de época romana, respeitantes ao antigo povoado fortificado castrejo e suas imediações: umas sete ou oito estrelas funerárias (ou fragmentos das mesmas), três marcos miliários e outras tantas aras votivas (materiais depositados, em grande maioria, no Museu Abade de Baçal, embora uma ou outra peça se exponha em Guimarães, no Museu da Sociedade Martins Sarmento).
Numa das aras surge o nome do povo dos Zoelas, se assim esta importante povoação poderia ser a capital dos Zoelas, grande povo fazedor de linho, já referido por Plínio, povo que nos deixou estelas funerárias decoradas com suásticas circulares, simbolizando o Sol, e com desenhos de animais como o porco e o veado. (Ler aqui no Portugal Romano notícia mais desenvolvida sobre este tema e respetivo acervo epigráfico do castro de Avelãs).

Castelo de Ansiães, Igreja de São Salvador e panorama (Carrazeda de Ansiães) – História e paisagem num espaço singular (II parte) (***)

Ansiães

A antiga vila medieval de Ansiães de que restam muros e ruínas românticas tem uma dupla estrutura defensiva grandiosa de pedra granítica.
A muralha exterior de Ansiães
A muralha mais externa da vila de Ansiães tem uma extensão superior a 600 metros e três torres quadrangulares. em traçado algo sinuoso dando origem a um espaço interno de grande dimensão mas com um perímetro bastante irregular.
Desta planta geral emerge uma organização urbana assente em dois eixos estruturantes que acompanham a rota dos pontos cardinais. Um primeiro eixo de ligação interna arranca a Norte, junto da porta de S. Francisco e dirige-se para Sul, culminando na porta de Fonte de Vedra.
O segundo, parte da Porta da Vila, a Oriente, e vem culminar no outro extremo Ocidental, junto da porta de São João Baptista. A partir destas linhas estruturantes partem depois pequenas ruas, vielas e arruamentos que organizam o intrincado da malha urbana.

igreja de s%C3%A3o salvador de ansi%C3%A3es 300x260 Castelo de Ansiães, Igreja de São Salvador e panorama (Carrazeda de Ansiães)   História e paisagem num espaço singular (II parte) (***)
Nesta organização espacial, ressalta em posição destacada a igreja de S. Salvador de Ansiães que é um dos mais belos templos românicos de Trás-os-Montes e quiçá de Portugal e que se ergue imponentemente na zona mais alta da área habitacional- mas lá iremos senhores. O templo é rodeado por um largo que integra a antiga necrópole medieval.
A muralha Interna de Ansiães
A sudeste abre-se a porta de S. Salvador junto a igreja com o mesmo nome que permite o acesso ao interior deste recinto através de um caminho que liga diretamente à torre de menagem. Esta porta, com arco de volta perfeita, é flanqueada por dois dos torreões que integram o complexo estrutural desta primeira muralha, constituindo o único ponto de acesso ao interior do reduto onde se centra a “infra-estrutura” vital do povoado, como é o caso de uma profunda cisterna com grande capacidade para o armazenamento de água.
Na cota mais elevada desse morro organiza-se uma primeira plataforma de configuração aproximadamente oval, que é definida a partir do traçado de uma pequena muralha que se reforça por cinco torreões quadrangulares.
A igreja de São Salvador de Ansiães (**)
Mas mais fantástica é esta igreja românica de São Salvador de Ansiães com uma escultura românica excepcional pelo seu simbolismo iconográfico.
Outros edifícios românicos subsistem no distrito de Bragança que são notáveis e que merecem o respeito e a visita de todos os amantes do românico europeu e que são:
-Igreja românica de Santa Maria Azinhoso (Mogadouro) (**)
-Igreja românica de Algosinho (Mogadouro) (**)
-Igreja românica de Adeganha (Torre de Moncorvo) (**)
-Cabeceira da Igreja de Castro de Avelães (Bragança) (*)
-Domus Municipalis de Bragança (***)
“A igreja de invocação a S. Salvador, em Carrazeda de Ansiães, é um testemunho de valor excecional do Românico nordestino. Destaca-se pelas suas proporções, harmonia e decoração escultórica. A arquitetura da igreja denota uma grande qualidade conceptual, desconhecendo-se, no entanto, o responsável do risco e realização da obra. A igreja, de pedra granítica aparelhada, ergue-se junto à porta do castelo, não se sabendo, em rigor, a data da sua fundação. A filiação estilística do templo na arte românica não significa que não seja posterior, dado o apego que persistiu no Norte de Portugal a esta corrente estilística. Pelas lápides que se encontram no terreiro, como letras e armas gravadas de ordens militares, é plausível aceitar que aqui se encontram enterrados os cavaleiros que lutaram contra Castela, numa batalha desenrolada num ribeiro próximo, e que para a vitória muito contribuíram os Sampaio, senhores da vila de Ansiães. A fachada da igreja é marcada por dependência medieval em ruínas, possivelmente a casa do padre, que se encosta ao alçado no ângulo direito.”1
O Leitor sabe o que é um Pantocrator?
A igreja de São Salvador de Ansiães tem no seu portal principal, ou seja no seu tímpano, um objeto único, um “Pantocrator do Juízo Final” ou seja um  “Cristo em Majestade” que é um dos mais bonitos no país.
Um Pantocrator normalmente é colocado no tímpano de um templo românico, acolitado por evangelistas, profetas, santos e com frequentes figurações alusivas ao castigo e a salvação da alma com frequência barbado, justo mas atemorizador, que domina claramente-pela escala central majestática- as cenas enquadradas, procurando levar pelo bom caminho os crentes que a contemplam-pelo exemplo do verbo revelado através do programa iconográfico mas também pelo temor que a sua visão suscita.
Em substituição de Cristo surge, por vezes com o mesmo sentido teofânico-de manifestação de Deus- o Agnus Dei ou Cordeiro Místico simbolizando cristo da Paixão, morto para salvação dos homens.
Conhecemos 5 Pantocratores em Portugal: Igreja de São Pedro de Rates (Póvoa do Varzim) (***), Igreja de São Salvador de Bravães (Ponte da barca) (***), igreja de São Cristovão de rio Mau (***) (Vila do Conde), igreja de São pedro de Rubiães (Paredes de Coura) (**) e este Pantocrator de Ansiães
O Pantocrator de Ansiães está rodeado pelo tetramorfo com os símbolos dos evangelistas nas posições hierarquicamente corretas, com o anjo de São Mateus e a aguia de acima do touro de São Lucas e do leão de São Marcos, ou seja as entidades aladas sobre as terrestres.
Um raro Cristo imberbe encontra-se sentado com a mão esquerda segurando um livro sobre a perna esquerda e a mão direita em bênção.
Na última aduela do lado sul onde se esculpiu, numa escala consideravelmente maior que as restantes figuras, a figura de Moisés com as tábuas da Lei o primeiro passo para a salvação da humanidade.
Pela sua ornamentação, é considerado um portal de excepção. Envolvem as arquivoltas variadíssimas temáticas decorativas: fitomórficas, de perfis salientes, simbólicas, figuras antropomórficas, zoomórficas, etc.
No segundo arco interior, aparecem-nos representados S. Pedro, S. Paulo e mais sete figuras: umas ostentando livros e uma outra um pequeno macaco. As arquivoltas seguintes mostram-nos vários tipos de animais e distorcidas cabeças humanas, uma sereia…
Para tornar ainda mais misterioso o portal, aparece gravado neste um grande número de siglas. Estas repetem-se pelas paredes da igreja, sendo algumas de grande beleza.
A magnífica a igreja com os seus em capitéis profusamente decorados com a imaginária simbólica medieval é realmente admirável e poderíamos aqui construir várias páginas a meditar sobre o significado de todo aquele conjunto.
As fachadas laterais são animadas pelos singelos modilhões dos beirais e por duas portas também excelentemente ornamentadas.
Mas o românico não se fica por aqui, pois antes de chegarmos a linha de muralhas pode encontrar aqui a singela igreja de São João Baptista, cuja origem se perde no tempo e com um portal que estranhamente não se volta Ocidente, porventura devido a uma reestruturação posterior.

trans Castelo de Ansiães, Igreja de São Salvador e panorama (Carrazeda de Ansiães)   História e paisagem num espaço singular (II parte) (***)

O Panorama do Castelo de Ansiães (*)

A vista que se colhe do cimo das muralhas sobre definida largueza circundante impressiona.
Com a planalto Transmontano aqui a ceder para os escavados vales do rio Douro e do Tua vêem-se as velhas aldeias de Selores e Lavadeira. Para Norte do rio Douro, descobrem-se as linhas de relevo que permitem avistar territórios de São João da Pesqueira, de Penedono e ainda consegue-se avistar o castelo de Numão (**), o Povoado do castelo Velho de Freixo de Numão (**) e parece-me descortinar a Aldeia Histórica de Marialva (***). Todo este conjunto é um assombramento e um dos locais mais notáveis do Reino Maravilhoso Transmontano.
1-Texto retirado da Infopedia.
2-Recomendo vivamente e a leitura do site dedicado ao conjunto patrimonial de  Ansiães

Claustro do Mosteiro de Celas (Coimbra) (**) (1ªparte) -A História

Claustro do Mosteiro de Celas (Coimbra) (**) -A História

Sabia que…o Mosteiro de Celas era feminino e pertencente a da Ordem de Cister, foi fundado, por vontade expressa da Infante D. Sancha, filha de D. Sancho I, Rei de Portugal?
Em redor da infanta Sancha e das suas duas irmãs gerou-se um culto popular que as levaria a sua beatificação. As princesas Teresa, Mafalda e Sancha criaram assim 3 notáveis mosteiros cistercenses femininos: Mosteiro de Lorvão (**), Mosteiro de Arouca (***) e o Mosteiro de Celas com o seu claustro (**). Teresa e Sancha seriam beatificadas em 1705 e Mafalda em 1792.

mosteiro de celas 300x283 Claustro do Mosteiro de Celas (Coimbra) (**) (1ªparte)  A HistóriaO rei Dom Afonso II, Apesar de ser um homem exaurido fisicamente devido a lepra, reinou de uma forma bastante inovadora para a época, centralizando em si os destinos do país, nessa compita travou uma guerra civil contra as suas irmãs.
Quando o seu pai morreu, deixou em testamento às suas irmãs Mafalda, Teresa e Sancha alguns castelos no centro do país (Montemor-o-Velho, Seia e Alenquer) e as respectivas vilas, termos, acaidarias e rendimentos, designando-as rainhas dessas terras. As infantas lutaram pelo reconhecimento, posse e independência das suas terras, reunindo também tropas que se aliaram às suas causas gerando uma guerra civil com o rei, seu irmão, que pretendeu centralizar o reino (ler aqui).
Em relação ao Mosteiro de Celas, saiba o viajante que Dona Sancha o mandou fazer em 1213, , na sua antiga quinta de Guimarães (Vimarannes, Vimarães ou Valmeão), nos arredores da cidade de Coimbra.
A Alenquer, que lhe havia sido doada por D. Sancho I, foi buscar um conjunto de “enceladas” ou “emparedadas” – conjunto de mulheres piedosas que viviam isoladas em celas e pequenas ermidas – que tomou por sua conta. Feito o voto de castidade e tomado o hábito de Cister, a princesa Sancha haveria de viver em Lorvão, até que as primeiras “enceladas” e monjas de Lorvão se transferissem, em 1219, para o Mosteiro de Santa Maria de Celas
Na Clausura de Celas haveria de viver até ao dia 13 de Março de 1229, depois de morta, seria transladada para o Mosteiro de Lorvão (**), segundo a instrução da sua irmã Teresa, que passaria a administrar os dois conventos.

O cenóbio cisterciense do Mosteiro de Celas era constituído por uma igreja com um pequeno claustro rodeado de pequenas celas. Assim surgiu o seu nome.
mosteiro de celas 1 300x175 Claustro do Mosteiro de Celas (Coimbra) (**) (1ªparte)  A História Pode aqui ler a impressiva história de Sancha, a silenciosa (ler).
A evolução da comunidade religiosa andou a par com a expansão das dependências conventuais, conhecendo estes vários períodos de restauro, especialmente nos séculos XVI e XVIII. Extintas as ordens religiosas em 1834, foi permitido às monjas bernardas a sua continuação, até à morte da última, que ocorreu em finais do século XIX.
Já no século XIX, extintas as ordens religiosas, parte do Mosteiro foi demolido dando lugar a diferentes tipos de ocupações: asilo para cegos e aleijados do distrito, Sanatório Feminino de Celas e Hospital Pediátrico de Coimbra. (Continua).

Igreja Românica de Santa Maria do Azinhoso (Mogadouro) (**)- Jóia medieval no Distrito de Bragança

A igreja de Santa Maria de Azinhoso é um dos mais importantes templos românicos transmontanos a par das igrejas românicas da Adeganha (Torre de Moncorvo) (**), de Algosinho (Mogadouro) (**) já aqui descritas ou ainda da magnífica igreja de São Salvador no castelo de Ansiães (**).
Nas quatro igrejas subsiste a dúvida em relação à cronologia da edificação.
O nosso Guia de Portugal (3ªed., 1995, p.1026), companheiro inseparável das nossas viagens, viu no campanário a inscrição de 1196, sendo assim poderia ter sido construída por cavaleiros templários porque a Ordem mantinha os territórios de Mogadouro e de Penas Róias (*). O Abade de Baçal considerou a inscrição duvidosa e que agora não se encontra, certo é que foram encontradas recentemente, sepulturas escavadas na rocha, o que sugere uma relativa antiguidade de ocupação religiosa deste local, provavelmente nos séculos X-XI.
Estilisticamente, o templo devido aos seus arcos ogivais, mas ainda decorados com motivos românicos, terá sido construído entre os séculos XIII e/ou XIV.
A igreja de Azinhoso apresenta monumentalidade
A sua fachada, apesar de arcaica, é de dimensão assinalável, alta e rematada por campanário de dupla sineira e o amplo interior, embora de nave única.
A igreja contém 3 portais com arcos góticos. A porta sul, por exemplo, é elegante, composta por um conjunto de três arquivoltas ornadas por uma plástica marcadamente românica.
Interessante é a abertura cruciforme, no lugar da usual abertura ocular ou rosácea.

azinhoso 1 300x224 Igreja Românica de Santa Maria do Azinhoso (Mogadouro) (**)  Jóia medieval no Distrito de BragançaEm finais do século XIV, D. João I passou pela povoação e terá visitado e concedido vários privilégios. Aqui orou, pela mesma altura, D. Nuno Álvares Pereira.
No século XV, a igreja de Azinhoso teve grande importância regional, instituindo-se como verdadeiro centro de romaria. Datará dessa altura o alpendre existente do lado Norte e que, de acordo com os vestígios nas restantes fachadas, rodearia toda a frontaria do templo, ligando os três portais, restam ainda algumas colunas, mísulas e depressões para suporte da estrutura.
Na igreja, no século XV, fez-se sepultar um vigário-geral arcebispo de Braga, conforme consta de inscrição numa rocha exterior.
A Igreja românica de Azinhoso sofreu, como quase sempre as inevitáveis alterações, quando se realizaram os retábulos laterais e o retábulo-mor, este ainda do século XVII, e a edificação da Casa da Misericórdia (1647), anexa ao lado Norte da capela-mor.
Em meados do século XX, perante evidente estado de ruína, a igreja sofreu obras de restauro como refere a epígrafe gravada num dos blocos de cantaria no exterior do monumento.
A espectacular cachorrada da Igreja de Azinhoso
Ao longo das cornijas laterais, a semelhança do que sucede com próxima igreja de Algosinho prende a atenção uma fiada de modilhões esculpidos, contam-se 120 (tal contagem não fizemos), alguns deles muito corroídos com múltiplos e crípticos sentidos, como era próprio da hermética românica.
De um lado e outro se sucedem as mais variadas representações: cabeças de bichos e homens em atitudes disformes, máscaras, a par de motivos certamente apenas lúdicos ou decorativos.
Como é habitual em edifícios medievais possui pedras sigladas pelos canteiros quando se efectuou a construção.

Próximo da igreja também pode observar o monumental pelourinho seiscentista de Azinhoso.
Continuamos a insistir que percorrer a rota do românico do Nordeste Transmontano é uma magnífica forma de conhecer o belíssimo e ainda arcaico distrito de Bragança.
Agradecimentos: O Portugal Notável esteve alojado no Solar dos Marcos (Bemposta-Mogadouro) e visitou a igreja românica de Azinhoso a convite deste ótimo Hotel Rural que apoia o turismo cultural.
Guia de Portugal editado pela Fundação Calouste Gulbeinken-(3ªed., de 1995, quem sabe o ano da primeira edição?)

Igreja românica de Santo André de Algosinho (Mogadouro)(**)- Quem construiu tão belo templo?

A igreja românica de Algosinho (Mogadouro) é uma preciosidade afastada dos roteiros turísticos, no entanto devido a sua pureza estilística e as paisagens que a envolvem são motivos suficientes para merecerem o nosso destaque. Somos grandes admiradores do estilo românico, essencialmente pela sua simbologia assombrosa e que dão azo a muita imaginação mas que para o homem medieval teria um significado coerente.
No distrito de Bragança são 6 os locais de arquitectura românica notáveis, religiosos e civis, que constituem uma rota patrimonial ainda por explorar. São eles:
-Igreja de Algosinho (Mogadouro) (**);
- Igreja de Azinhoso ((Mogadouro) (*);
- Igreja de São Salvador de Ansiães (Carrazeda de Ansiães) (**);
- Igreja da Adeganha (Torre de Moncorvo) (**) (ler aqui o texto);
- Cabeceira da igreja do Mosteiro de Castro de Avelães (Bragança) (*)
- Domus Municipalis (Bragança) (***).
Nos confins do nordeste português, próximo do rio Douro encontra-se igreja românica de Algozinho.
É tão velho como a igreja de Algosinho
Como se depreende do portal principal, com o seu arco ogival a igreja já pertence a um românico tardio, provavelmente do século XIII, senão mesmo do seguinte. O bom povo de Algosinho sempre disse que o templo tem fundação antiquíssima, mas confessa a sua incerteza no anexim mil vezes repetido “É tão velho como a igreja de Algosinho”.
Na fachada sob o arco sineiro está representada uma estrela de 6 pontas com o selo de salomão (que neste caso poderá estar relacionada com a presença judaica na região)? Sob ela estão 3 enigmáticas aberturas circulares, a lembrarem olhos. Certo é, que cumprem pelo menos a função de deixar trespassar alguma luz para o interior da igreja.
A capela-mor original infelizmente perdeu-se, sendo substituída pela actual abside, datada de 1797, de planta rectangular e ampla iluminação lateral e que tem um retábulo maneirista com pinturas ao gosto quinhentista.

igreja romanica algosinho 300x204 Igreja românica de Santo André de Algosinho (Mogadouro)(**)  Quem construiu tão belo templo?É bastante interessante a cachorrada instalada na cornija da igreja românica de Algosinho, com a sua habitual simbologia, num discurso apocalíptico com figuras humanas deformadas, figuras grotescas de animais, desenhos geométricos, pipas, membros sexuais ou ainda uma lua um touro e o sol, estes consecutivos. Fascinante. Alguns destes modilhões foram repostos no século XX fruto da intervenção efetuada pela Direcção-geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, em meados do século XX.
Mas melhor que a nossa descrição é a do Abade de Baçal, que nestes textos sobre Trás-os-Montes será companhia assídua deste nosso Portugal Notável. Assim diz o sábio, “…rudes e grotescos alguns, satíricos, obscenos, animalescos e artísticos outros. Caras de homens, cães, porcos, falus e nádegas traduzem no jogo fisionómico o naturalismo sarcástico da arte medieva”.
Ao longo das fachadas laterais são visíveis diversas siglas, as marcas dos pedreiros que construíram a igreja de Algosinho na época medieval.
A frontaria deverá ter possuído um alpendre, restando dele somente quatro mísulas de suporte da cobertura.
O Interior da Igreja de Algozinho
O interior de uma só nave é uma impressionante, essencialmente pela amplidão (com 9 metros de largura e 24 de comprimento), pelo acentuado declive (que começa logo pela escadaria), pela força da pedra presente nas paredes nas lajes e nos afloramentos graníticos do primeiro piso, pela frescura e pelos arcaicos mas bem lançados três arcos torais. E sempre com a imaginosa dúvida; quem construi tal maravilha?

igreja romanica de algosinho 300x156 Igreja românica de Santo André de Algosinho (Mogadouro)(**)  Quem construiu tão belo templo?As principais obras decorativas do interior datam do século XVI. Aquando do início dos trabalhos de restauro, o arco triunfal era ladeado e encimado por três painéis murais; o superior apresentava-se já em muito mau estado e foi destruído, mas os dois laterais (longamente protegidos por retábulos barrocos entretanto suprimidos) puderam ser destacados e restaurados. Neles se pintaram duas imagens de Santa Catarina e de São Bartolomeu, retratados como “figuras-estátuas” inseridas em nichos. Posterior, da época maneirista, é o retábulo-mor, de secção tripartida e conservando as tábuas originais obra ao gosto da segunda metade de Quinhentos. O primeiro registo mostra a Fuga para o Egipto e a Adoração dos Reis Magos enquanto no segundo registo se reconhece a Anunciação, a Visitação de Santa Isabel e a Adoração do Menino.
Saindo de novo para o exterior, repara-se na paisagem campestre muito bela virada para o planalto mirandês e advinha-se o fosso que construiu o canhão granítico do rio Douro.
Para rematar colocamos a questão, de quem terá sido o responsável pela edificação do templo. Alguns autores relacionam a Igreja de Algosinho aos Templários, mas a sua construção ocorreu na centúria seguinte à entrega do território à Coroa portuguesa. Ficando assim por responder a quem se deve a construção da igreja de Algosinho.
Agradecimentos: O Portugal Notável esteve alojado no Solar dos Marcos (Bemposta-Mogadouro) e visitou a igreja românica de Algozinho a convite deste ótimo Hotel Rural que apoia o turismo cultural.
Acesso: EN 221,7 km depois de Mogadouro, vira-se para EM na direcção de Peredo de Bemposta.

Igreja de São Tiago matriz da Adeganha (Torre de Moncorvo) (**)

«Esta estrada vai dar à aldeia de Estevais, depois a Cardanha e Adeganha. O viajante não pode parar em todo o lado, não pode bater a todas as portas a fazer perguntas e a curar das vidas de quem lá mora. Mas como não sabe nem quer despegar-se dos seus gostos e tem a fascinação do trabalho das mãos dos homens, vai até Adeganha onde lhe disseram que há uma preciosa igrejinha românica, assim deste tamanho. Vai e pergunta, mas antes pasma diante da grande e única laje granítica que faz da praça, eira e cama de luar no meio da povoação ».
José Saramago « Viagem a Portugal »
Adeganha no concelho de Torre de Moncorvo, é uma aldeia típica transmontana (perdida no tempo, mas não na geografia da “alma portuguesa”), situada no frio e árido Planalto Transmontano espreita a poente a vasta extensão do Vale da Vilariça (**). Em redor, as leiras do centeio, os olivais cobrindo os montes, a penedia encrespada. Em pequenas construções toscas de pedra acautelam-se as ovelhas e os cereais, e o granito é aproveitado para paredes ou para eiras onde se fazem as malhadas.
Para além das relíquias da coeva arquitectura transmontana, ainda possui a segunda mais bela igreja românica transmontana (a primeira é para mim a igreja de São Salvador Anciães (***)- e basta nesta um portal e uma paisagem).
A igreja de São Tiago da Adeganha foi edificada no século XIII, segundos uns, ou no século XII, conforme afirma o Abade de Baçal. Dedicada ao Apóstolo referido e originalmente dotada de um alpendre exterior para albergar os peregrinos, ela situava-se num dos caminhos de Santiago de Compostela. O seu portal pertence à transição entre o românico e o gótico.
Igreja adeganha 203x300 Igreja de São Tiago matriz da Adeganha (Torre de Moncorvo) (**)

Igreja da Adeganha

O bestiário da cachorrada é de grande qualidade escultural e com olhar arguto, culto e imaginoso é possível passarmos algum tempo a tentar descortinar o seu significado.
A fachada principal da Igreja matriz da Adeganha, virada a poente, ergue-se altaneira, de dupla ventana. O portal principal de arco-quebrado prenuncia o estilo gótico. Possui duas arquivoltas com decoração fitomórfica assente em peanhas com cabeças antropomórficas, por cima a Cruz Templária. Três estranhas figuras femininas em baixo relevo -as Três-Marias (Três Irmãs, Três Comadres) quebram a frugalidade ornamental da fachada, estas foram imortalizadas em estranha lenda. A do meio está a parir, coadjuvado por uma comadre? Será um símbolo de fertilidade e camaradagem? Se assim for como estamos longe das labaredas proclamadas na lenda (umas linhas mais a frente e a lenda será narrada, paciência). O outro grupo escultórico é mais pequeno e representa um homem com dois objectos na mão que lembram dois pergaminhos. Significará um convite à contemplação e à oração? Mas…e com os testículos salientes?
Na fachada Sul existe também um Homem com um joelho flectido, levantando-se. Tem os braços abertos e em cada mão prende um objecto. Ao nível do seu peito uma figura feminina, deitada? Será a vida, o sol, o prazer, a primavera, ou será antes a morte, a lua, o sofrimento e a invernia da alma?
Também a fachada Norte tem um frade olhando de frente e segurando um livro – a Bíblia? Ao lado suportando uma peanha, como se fosse o peso do mundo, uma estranha figura feminina com esgar de sofrimento, de boca e olhos fechados, como dando à luz. Será um apelo a penitência e ao sacrifício, exigido aos indivíduos do mundo medieval?  
Debaixo dois túmulos de arcossólios a relembrarem a inevitabilidade da finitude da existência.
Elementos interessantes são as cachorradas que se apresentam nas fachadas laterais representando signos tão díspares como, canídeos, triângulos, rostos de homem e mulher, aves, bovídeos…
Todos estes símbolos enigmáticos foram criados e entendidos pela mentalidade do Homem medieval. É por essa e por outras que eu gosto do românico, o mais telúrico estilo arquitectónico e para mim um verdadeiro estado de sublimação.  
O interior da Igreja de São Tiago matriz da Adeganha de uma só nave, conserva bons frescos quinhentistas, a relembrar de certo modo, a próxima capela da Nossa Senhora de Teixeira (Açoreira) ou a distante Igreja de Santo Isidoro em Marco de Canavezes (*), alguns deles foram descobertos e restaurados recentemente.
É de grande beleza o enorme São Tiago, envolto por moldura de losangos denteados e frisos de motivos geométricos e vegetalistas estilizados; quem terá sido tão bom artista?
A temática é obviamente hagiográfica, surgindo, na nave, temas cristológicos, terminando em Calvário sobre o arco triunfal, este encoberto por razões de conservação, também se vê Santo António, os Reis Magos, os objectos de suplício de Cristo… São valiosos estes murais quinhentistas.
O retábulo-mor, de linguagem barroca, integra duas pinturas sobre madeira, quinhentistas, representando São Lourenço e São Martinho, que terão pertencido a um retábulo anterior e do qual, durante o desmonte, foram encontradas peças que teriam sido recicladas para o retábulo actual.No retábulo-mor encontramos às tábuas de “São Martinho” e “São Lourenço”, pinturas a óleo sobre madeira de castanho atribuídos a Manuel Vicente e Vicente Gil, respectivamente pai e filho, denominados como mestres do Sardoal (porque foi aqui que primeiro se estudaram e identificaram). Pintores que foram activos nos reinados de Dom João II e D. Manuel I e são os principais representantes da pintura manuelina Coimbrã. No interior em penumbra, sem rosáceas ou frestas alumiantes, não se vislumbram sinais das “Três-Marias”. Vamos então à sua lenda.

[nggallery id=2]
“Reza a história que as Três-Marias eram irmãs e pastoras. Iam para o monte de Frei Vivas, monte de zimbros, carrascos, sobreiros e giestas, apascentar o gado. Enquanto o gado pastava, elas entretinham-se a jogar às cartas. Mas uma das três irmãs ganhava sempre e não havia maneira de a fazerem perder, as outras duas ficavam roídas de inveja e intrigadas – Seria ela bruxa? Ou aquilo seria obra do Céu? Nem uma coisa nem outra. Ela ganhava sempre porque jogava com manha.
Finalmente as outras duas descobriram e combinaram desforrar-se. Fizeram uma grande fogueira, com muita lenha, e empurraram para a fogueira a irmã batoteira que lá ficou a arder em grandes chamas. Se tentava sair as outras duas não deixavam e com os dedos em “figas”diziam: Arde e ganha! Arde e ganha! E assim ficou o nome de Arde e Ganha, Adeganha”1.
Estranha lenda, a relembrar tempos de intolerância, materializados durante 3 séculos na inquisição portuguesa e que foi uma das páginas mais negras da nossa história -a instituição ainda hoje se repercute na nossa maneira atávica de ser e fazer.
Para não terminar a visita à igrejinha de um modo triste, e não levar os leitores para sentimentos de culpa congénitos, voltemos para rematar, a um autor que nos orgulha e que também aqui esteve.    
“Enfim, a igreja é esta. Não caiu em exagero quem a gabou. Cá nestas alturas, com os ventos varredores, sob o cinzel do frio e da soalheira, o templozinho resiste heroicamente aos séculos. Quebraram-se-lhe as arestas, perderam a feição as figuras representadas na cachorrada a toda a volta, mas será difícil encontrar maior pureza, beleza mais transfigurada. A igreja de Adeganha é coisa para ter no coração, como a pedra amarela de Miranda”.(José Saramago, “Viagem a Portugal” )
Nota pessoal: Aqui estive pela primeira vez no início da década de 90, estava então numa viagem de estudo de geologia, orientada sempre com muita sabedoria e alegria pelo Dr. Luís Nabais Conde. Obrigado pelos velhos tempos.
Fontes de Informação: Sites www.adeganha.com e www.monumento.pt. “A Igreja Matriz de Adeganha”, A lenda foi retirada da Terra Quente (artigo de 15-3-2005)

Algumas fotografias que se encontram no slideshow foram retiradas do Descobrir Moncorvo .