Cavalo Paleolítico de Mazouco (*) (Freixo de Espada a Cinta)

Sabia que…o Cavalo de Mazouco foi o primeiro painel Paleolítico a ser descoberto na região do Douro-Vale do Côa?
Na foz de uma pequena ribeira que desagua no rio Douro num painel de xisto ao ar livre, encontramos esta figura pertencente ao Paleolítico Superior. Aqui o nível de água está artificializado e sobrelevado devido ao efeito da Barragem espanhola de Saucelhe.
Descoberto em 1981 por Nelson Rebanda, ainda estudante, veio a revelar-se a primeira peça de um vasto conjunto patrimonial que incluiria o Vale do Côa (****) cuja descoberta oficial ocorrerá 10 anos mais tarde e Siega Verde (***) no vizinho rio Águeda, já em território espanhol, mas ambos classificados como Património da Humanidade.
Originalmente, compreendia ao todo quatro figuras, das quais ainda uma está muito bem preservada. É o célebre “Cavalo de Mazouco”.
Com cerca de 62 cm de comprimento que obedece aos critérios de representação característicos de arte rupestre glaciar, com o pescoço curvo e pronunciado o focinho simplificado- danificado embora, as patas dianteiras ligeiramente afrontadas e um amplo ventre, de acordo com a anatomia dos equídeos que naqueles tempos, habitavam esta remota região. Devido à representação do ventre e do seu grande volume, alguns autores julgam tratar-se de uma égua grávida; outros defendem que se tratará de um cavalo no Verão, após acumulação de gordura.

É um equídeo do tipo Przewalsky, espécie retractada em várias figuras do Parque Arqueológico do Vale do Côa (*****). Pequeno, ágil e indomesticável, com a sua crina espetada, ainda hoje cavalga livremente nas remotas planícies desérticas da Mongólia. E em Portugal pode ver alguns na Coudelaria Real de Alter do Chão (**).
Quando observo este cavalinho, tenho a sensação que ele se agita; o dinamismo é transmitido pela representação da crina bem erguida, a cauda levantada, a inclinação das patas traseiras e o pescoço está bem destacado do corpo.
A técnica de incisão da gravura foi a picotagem, verificando-se no entanto o seu sucessivo reavivamento por abrasão em datas superiores, inclusive recentemente. Até já se entrevêem pequenos grafitos criminosos. Peço contundentemente a quem de direito, que coloquem uma protecção gradeada e já agora um painel explicativo. A operação não sairia onerosa e este valioso património estaria melhor defendido.
Medita o viajante acerca dos tesouros que ainda poderão estar submersos naquele lençol de água artificial! Nesta margem o xisto, na outra, o granito que da azo a “geomorfologias” muito díspares, como se observa em grande escala no belíssimo miradouro do Colaço (Mazouco) (*).
Deitado confortavelmente em laje amornada; com o rio indulgente, de refulgência áureas apaziguadoras, muito perto a sussurrar sonâncias calmas e com as aves de rapina a olharem desconfiadas para a carne que sou eu, quase que esvaeço. Não penso, envolto numa calmaria mitigadora das minhas fragilidades; é a solidão ditosa. Mesmo a levitar (não sei se dormitei) é tempo de lembrar que estou sozinho na fundura de vale inóspito e que é tempo de voltar ao mundo dos homens recentes.

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