Centro Histórico da Guarda (**)

Centro Histórico da Guarda (**)

“E é Penalva inteira, ó cidade escura, negra de Inverno e velhice”. (1)
Ao longo do tempo a cidade da Guarda tem sido menosprezada na sua beleza: não quero aqui escalpelizar com rigor a razão do erro, mas à desdita vou tentar convencer-vos do contrário; é o F de feia que deve ser substituído por F de formosa.

A Guarda é a urbe mais elevada do país, situada a cota de 1056 metros, nasceu sobre um esporão granítico na vertente nordeste da serra da Estrela.

O domínio da portela natural do planalto beirão, bem como das bacias fluviais do Mondego e do Côa, desde cedo ditaram o seu povoamento.
Sabemos que é cidade de uma beleza muito peculiar, porque para além da evidência da Sé da Guarda (**), esconde apontamentos de vária ordem que deleita quem gosta de arte e de história, mas que escapa aos olhares desatentos.
Um pouco de história da Cidade da Guarda
Da fundação da cidade sabe-se muito pouco. Certo é que a área do bairro de Castelos Velhos terá sido ocupada na Idade do Ferro, na época romana e no período visigótico. Os Castelos Velhos parecem articular-se com os importantes vestígios romanos da Póvoa do Mileu (*).
Na zona do centro histórico, anterior ao foral atribuído por D. Sancho I à Guarda, já deveria existir um povoado.
É a partir do foral atribuído em 1199 que a Guarda passa a ser povoação de alguma importância, sendo polo importante de toda a região. Deve esse privilégio real a Dom Sancho I (como lhe assenta bem o cognome de Povoador) que para aí transfere a diocese egitanense (que corresponde à atual aldeia histórica de Idanha à Velha (**).
Datam do século XIII o início da construção da cerca defensiva e do castelo da Guarda. O desenho da muralha, irregular, com planta oblonga, conformou-se a topografia acidentada, funcionando até ao século XIX como limite da cidade. Os eixos medievais, à maneira de cardus e decumanos de geomância romana (embora não tenha sido encontrado até à data qualquer vestígio romano no centro histórico), eram estruturantes e foram constituídos pela Rua Direita (atuais ruas Francisco de Passos e Rua Dom Miguel de Aragão), ligando as portas extremas, Porta Covilhã ou Porta Nova à Porta dos Curros (hoje inexistentes), e pela sua perpendicular, unindo à Porta d`El Rei, à Porta do Sol

A grande centralidade da cidade medieval situava-se em redor da Sé Catedral (**) (começada na última década do século XIV e finda quase dois séculos depois) com a magnífica Praça Velha ou Praça de Camões (*); outra centralidade menor situava-se na praça de  São Vicente (incluindo a judiaria concentrada na rua do Amparo; e Santa Maria da Vitória-igreja hoje desaparecida. Estes três núcleos tinham cada um o seu respetivo templo. Durante o século XIX (por razões várias que não vale a pena agora dissecar) foram demolidas as duas portas, parte do castelo e cerca de 40% da cerca medieval.

8 motivos para gostar do Centro Histórico da Guarda:
1-Tem um dos melhores e mais bem preservados centros medievais portugueses, parcialmente muralhado, com três entradas preservadas (com destaque para a Torre e tripla porta dos Ferreiros).
2-Tem ainda um rol de edifícios civis góticos,  renascentistas e maneiristas com destaque para a janela manuelina-renascentista, na Rua Francisco Passos.
3-Detêm uma Judiaria velha; ao todo são 89 os imóveis com marcas mágico religiosas nos umbrais das vetustas habitações dos séculos XIV, XV, XVI e XVII.
4-Tem uma grandiosa catedral (**) que incorpora elementos góticos, manuelinos, renascentistas e maneiristas.
5-A sobriedade do granito interligou-se bem com a parcimónia castrante do Concílio de Trento, tendo como exemplo máximo o antigo paço episcopal e seminário (hoje Museu Regional da Guarda) ou ainda o belo Paço dos Alarcões e em outros vários edifícios do século XVII.
6-Tem alguns edifícios barrocos com qualidade, com destaque para a Igreja da Misericórdia, a Igreja de São Vicente e para o espetacular chafariz de Santo André (*).
7-Associa o seu nome ao extraordinário homem que foi o Dr. Sousa Martins, que incentivou a construção do sanatório e o seu parque frondoso que tem o seu nome.
8-Tem ainda um excelente Teatro Municipal da Guarda com obra do arquitecto egitanense Carlos Veloso, de 2005.
A Guarda é urbe de singular beleza, com uma miríade de pormenores estéticos, talhados em duro granito pardo, que ensombram o mistério das suas ruelas – sombra e humidade; e com as suas vistas desafogadas por se situar em esporão terminal da Serra da Estrela – claridade e sol. Regeneremos a Guarda nos nossos corações.
“Mas eis que surge inexorável outro espaço de memória marcado a vento, a solidão e a saudade. Sentada no cimo da montanha, essa cidade Velha, de lentos fantasmas ferrugentos, há-de elevar-se para sempre perto da estrela polar. Reconstitui-se-me partícula a partícula na vertigem de uma adolescência rebelde, prenhe da brancura fria de uma neve frequente e fértil. Cidade branca e corroída dos séculos, abrigando-se à sombra pesada da velha Sé. Ruas apertadas nos muros obsidiantes do burgo medieval, canais estreitos de ventos gélidos estratificados na rama espessa das árvores da mata. Cidade que termina abruptamente, caindo no abismo das ladeiras íngremes subindo afogueadas para o infinito das gárgulas obscenas que o sagrado templo mostra irónico aos turistas acidentais. Cidade circular onde, na angústia das ruas, se espelha o labirinto do Ser que ciclicamente regressa sempre ao ponto de partida. Cidade mudada em Penalva, aninhada no cume da montanha e refratária a novas ideias.”
Referências adicionais: Estrela Polar, Vergílio Ferreira, 1962.

Visita guiada no blog por Rui Carvalhinho.

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