Chafariz de Santo André (Saraiva Refóios ou da Alameda) (Guarda) (*)

“…mas, antes que o seu corpo mergulhasse inteiramente, os golfinhos precipitaram-se e levantaram-no, enchendo-o de, de início de inquietação, incerteza e agitação. Mas a facilidade…o grande número…o ar benevolente, a rapidez dos golfinhos…fizessem com que ele sentisse, segundo disse, não o medo de morrer, mas o desejo de viver, a ambição de ser salvo, para aparecer como um favorito dos deuses e receber deles uma glória inalterável”.
Banquete dos Sete Sábios- Plutarco, algures entre 75 e 120 d.C. 
Este magnífico chafariz granítico (no estilo barroco é o mais belo da Beira Interior) encontra-se actualmente situado na Alameda de Santo André na cidade da Guarda; é também conhecido como chafariz da família Refoios Saraiva, uma vez que, originalmente, pertencia a uma quinta que esta família possuía na aldeia da Vela (Guarda), tendo sido transportado para o local onde se encontra em 1989; as armas da família são bem visíveis na zona superior do alçado, sobre uma concha e encimado pela figura de um anjo e ladeado por duas representações zoomórficas.
O tanque central, curvilíneo, exibe um mascarão como bica central, enquadrado por golfinhos- se não o são imagino-os com alguma boa vontade; se têm um ar feroz, fecho os olhos e imagino-os como delfins, com o seu ar bonacheirão e benevolente.
Três mascarões voltam a surgir no espaldar, alinhados horizontalmente, cada um prolongando-se com grande acentuação vertical das suas caudas. Os elementos decorativos que caracterizam este monumento de expressão barroca, articula representações religiosas e zoomórficas, numa dupla iconografia alusiva à família Refóios Saraiva e à água.
A simbologia dos golfinhos
Reparo novamente nestes cetáceos? animais que tanto gosto. Nas brumas da memória, encontro a seguinte lenda grega: um conjunto de corsários depois de agrilhoarem Dioniso ao mastro do seu navio, caíram ao mar e foram transformados em golfinhos. Este adorável animal é assim, desde a antiga Grécia, um forte símbolo ligado às águas e a regenerescência. É também sinal de adivinhação, da sabedoria, da bondade, da prudência, tendo ainda carga psicompômpica.
Plutarco- Os Sete Sábios
A magnífica narrativa de Plutarco- os Sete Sábios, que se arreigou em mim desde a infância tardia (imaginava-me Aríon na infância e Quixote na adolescência), indica a passagem da excitação e dos terrores imaginativos para a serenidade da luz espiritual e da contemplação, pela intervenção da bondade, por intermédio do mergulho salvador e do ar benfazejo dos delfins. Percebem-se aqui as três etapas da evolução espiritual: predominância da emotividade e da imaginação; intervenção da bondade, do amor ou da devoção; e por fim, a iluminação na glória da paz interior- capaz de nos fazer aquietar quando tudo (ou quase tudo) nos aniquila. Talvez com os monstros seja ingénuo, ou mesmo cego e neles consiga ver bondade e prudência.  

Desfaçamos este devaneio verborreico e voltemos ao chafariz: com o seu bom enquadramento urbanístico, o seu forte cariz cenográfico e alegórico; vejamos agora a finura dos degraus que antecedem o tanque, os bancos e as elegantes mesas laterais (aqui rascunho algumas notas que me vão servir para este post), bem como os muretes rematados por pináculos piramidais.
Curioso é saber que os meus amigos egitanenses, sabem da sua existência, mas ignoram a jóia barroca que aí tem…e aqui sinto o apelo do mar que nos reclama, tão longe nas duras serranias desta Beira amena e tristonha, afago os hipotéticos golfinhos ou monstros marinhos- decida o leitor quando aqui vier.

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9 comentários Chafariz de Santo André (Saraiva Refóios ou da Alameda) (Guarda) (*)

  1. Henrique de Noronha de Saraiva Lobo says:

    Fiquei contente por saber, que o chafariz de casa do meu avô Mendo Saraiva não se perdeu e que está bem visível na cidade da Guarda, tenho procurado bastante esta foto mas sempre com o nome do chafariz errado pois sei que a proveniência era de uma Quinta onde o meu Avô nasceu e viveu na Vela.
    Sei que quando foi vendida uma casa na Vila Da Vela foi nessa altura transformada em lar de Terceira Idade mas tenho tentado encontrar fotos na net e não consigo.
    Reconheço bem o brazão do chafariz pois herdei por morte do meu Pai uma Cadeira de Vestir ou Cátedra com o mesmo escudo gravado
    em pele com a seguinte inscrição”ESTA CATEDRA PERTENCE A PEDRO SARAIVA DA COSTA PEREIRA DE REFOYOS MORGADO DE VILLA GARCIA E PATRONO DESTA IGREJA”.

    • Rui Sérgio Pires de Oliveira says:

      Boa noite, alguém me ajuda?

      A minha avó materna chamáva-se Maria Ana Saraiva da Costa Refóios de Oliveira, feleceu à cinquenta e poucos anos e o que eu sei dela foi que fugiu com um marceneiro de Ponte de Lima(?), que o pai dela foi da marinha,
      almirante ou general, que era prima direita do general Craveiro Lopes, que teve 22 filhos e era uma mulher de fibra. São estas as minhas recordações de infancia e do que me contavam em miudo, me diziam ser ela baronesa de Refóios e ter sido deserdada pelo seu casamento sem a aprovação dos pais.
      Sempre tive coriosidade de saber mais sobre os meus antepassados mas apesar disso e dos meus quase setenta anos ainda não me decidi a ir à torre do tombo investigar. Como encontrei agora estes textos de familiares de Francisco Saraiva da Costa Refóios peço-vos o favor de caso saibam alguma coisa sobre ela me informem.
      Grato pela vossa atenção,
      RuiOliveira

      • Filipa Sousa de Macedo says:

        Rui Oliveira, boa tarde!

        Descendo do ramo que uniu os Refoios aos Craveiro Lopes, se chegar a ver esta minha resposta por favor diga-me.

        Muito Obrigada!

        Filipa Macedo

      • Filipa Sousa de Macedo says:

        O filho do primeiro e único Barão de Ruivós Francisco Saraiva de Refoios (que tinha o mesmo nome do pai), casou com Rita Ameno de Miranda, filha de Ana Isabel Craveiro Lopes,
        Tiveram pelo onze filhos, cujos registos de batismo encontrei na Torre do Tombo, uma delas a avó da minha avó materna.
        A sua avó provavelmente também descenderá deste ramo!

        Bem haja e obrigada!

        Filipa Macedo

  2. Nuno Refoyos says:

    Caro Henrique…o Chafariz de Saraiva Refoyos (ou, actualmente, Refóios) era da casa do seu Tio-Avô (meu Tetravô) Francisco Saraiva Refoyos, estando na quinta que foi herdada por seu (bisavô) e avô. Daí o nome que guardou.

    • Maria Duarte says:

      Meu avô paterno (falecido na década de 70) era neto de Dª Luísa Saraiva de Reffoios. Meu avô sempre me disse que este chafariz era proveniente da Vela de onde seriam originários os seus antepassados por parte de sua avó. Esta minha tetravó, Dª Maria Luísa Saraiva de Reffoios, viveu com uma pensão vitalícia em Santo Estêvão, freguesia de Sabugal. Foi sempre um mistério, para nós, a vida desta senhora que se veio isolar na aldeia e onde teve uma filha, Maria José Salzedas (porque casou com Joaquim Salzedas) que viria a ser mãe do meu avô materno.
      Sei que na Vela houve duas famílias desavindas e rivais: os Saraiva de Reffoios e os Póvoas. Estas famílias tomariam partidos diferentes por altura da guerra civil e nunca mais se entenderam…. Teria sido para fugir a estas disputas que minha tetravó se viria a “refugiar” em Santo Estêvão?! Não sabemos…

      • Filipa Sousa de Macedo says:

        Caro Nuno Refoyos,

        Já percebi que o “seu” Francisco não será o mesmo que o “meu” Francisco mas sim o descendente de um irmão seu, embora o Barão de Ruivós também tenha vivido no solar da Vela…

        Obrigada!

        Filipa Macedo

    • Filipa Sousa de Macedo says:

      Caro Nuno Refoyos,

      O Francisco Saraiva de Refoyos de que fala é o Barão de Ruivós, General das forças liberais?
      Se for ele é também o meu 5º avô. Pelo que consegui investigar teve apenas um filho, do mesmo nome, este com vasta descendência mas, para além de nós, ainda não tinha encontrado ninguém na atualidade…
      Figura apaixonante este meu antepassado!

      Obrigada

      Filipa Macedo

  3. Manuel da Cruz de Sousa says:

    Caro Henrique

    Na Sé da Guarda há uma sepultura de Mendo da Costa Saraiva. A pouca distância existe uma outra pertencente a Pedro da Costa. Tem uma ideia concreta de quem seja esse Pedro da Costa e em que ano teria falecido?

    Antecipadamente grato

    Manuel C. Sousa

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