Convento de Santa Iria-Tomar (*)-o touro, o Mitraísmo e o Cristianismo

Convento de Santa Iria-Tomar (*)-o touro, o Mitraísmo e o Cristianismo

O Convento de Santa Iria ergue-se num lugar onde poderá ter existido um cenóbio muito antigo anterior à fundação do castelo de Tomar e onde vivia a mítica Santa Iria, mas obviamente que tudo estes factos são lendários, pois a peça mais antiga que existe é uma lápide romana com um touro, descoberta próxima do convento de santa Iria; será que a lápide ainda existe depois da restauração feita em 2014?Se tal não acontecer foi cometido mais um criem bárbaro contra o nosso património. Da fotografia que eu retirei não a consigo almejar. Terá sido um local de veneração cristã e anteriormente mitraica? Território este que iria ser escolhido pelos templários para o seu centro de geografia sagrada.
 A lenda de Santa Iria
Santa Iria é lembrada, nos dias da atualidade de duas maneiras: através de uma lenda escrita com a visão eclesiástica e, em segundo lugar, através da oralidade, no romanceiro tradicional ibérico.
Enquanto a versão eclesiástica escrita é conhecida sobretudo pelo registo de Almeida Garrett, a versão da oralidade está consciente coletivo do povo português. A lenda hagiológica tornou-se mais conhecida pela inserção que Almeida Garret promoveu no magnífico romance Viagens na minha terra.
Iria de Tomar (também conhecida como Santa Irene, é uma mártir lendária da cidade de Tomar (antiga Selium ou Nabância). Toda a estória que se segue é lendária e não tem qualquer registo científico, mas é muito bonita e importante para entender todo este território.
No tempo de domínio visigótico existiam vários templos na margem esquerda do rio, onde ficava a cidade de Sellium.
Onde está a igreja de Santa Maria do Olival ficava um mosteiro de frades. A poucos metros, onde está o cemitério, seria a pequena igreja de S. Pedro Fins. Ao lado da igrejinha ficava a casa do poderoso governador onde viva com o seu filho Britaldo. Mais abaixo, junto à ponte Velha, onde está o convento de Santa Iria, ficava o mosteiro feminino beneditino, sendo lá que Iria era freira.
Íria era muito bela, duma beleza tão maravilhosa como intocável, pois a jovem dedicava-se totalmente a Deus e à vida religiosa.
Britaldo estava apaixonado por ela. A paixão era arrasadora, porque aquele amor era alimentado pelo próprio Diabo, conta a lenda.

convento de santa iria tomar
Depois de tudo fazer para que Íria correspondesse à sua paixão, sem o conseguir, Britaldo ficou gravemente doente. Iria foi visitá-lo. Disse-lhe que o amava sim, mas como a um irmão. Se ele a amasse da mesma maneira, logo lhe passaria aquela grave doença para que nenhum médico encontrava cura.
Depois de a ouvir, Britaldo ficou tomado pelo ciúme e respondeu-lhe:
– Se deres a alguém o amor que me negas, eu ou alguém te matará. Depois disto, Iria voltou em paz ao seu mosteiro e Britaldo melhorou rapidamente.
Mas o Diabo não desistiu e arranjou outra vítima para cair nas suas tentações. Desta vez foi Remígio, o monge que Célio tinha escolhido, pela sua enorme cultura e bons princípios, para ser professor da sobrinha.  
O monge mudou completamente o seu comportamento respeitador e começou a incomodar a jovem religiosa com as suas propostas de paixão. Quando Iria lhe chamou a atenção para essa mudança, como o seu comportamento não era próprio de um homem que dedicava a vida a Deus, Remígio ficou furioso.

azulejo ponta de diamante
Sentindo-se rejeitado, o frade fingiu arrependimento e deu a beber à sua aluna uma poção feita de certas ervas. O resultado foi que a barriga de Iria começou a inchar, como se a jovem freira estivesse grávida. Enfim santas poções que engravidam mulheres, sem que estas inocentes coitadinhas, deem conta.
Remígio, não satisfeito com o que tinha feito, espalhou a mentira, levando todos a pensar que não seria tão fiel a Deus como se dizia. Pois se estava grávida!…
Britaldo ficou louco de fúria e mandou chamar Banão, o seu criado. As ordens que lhe deu cumpriam a ameaça que fizera a Iria:
«Se deres a alguém o amor que me negas, eu ou alguém te matará.»
E eis que estamos num episódio normal de violência possessiva do homem insano sobre o seu objeto mulher, e assim se faz a história da humanidade em que a mulher é dominada pelos maus homens, sem que se dê conta, até que acorda da sua ingenuidade e consegue a sua libertação, por vezes com a morte, outras vezes tendo que carregar toda a vida o peso da sua ingenuidade com imenso sofrimento; bem mas voltemos a Banão que montou vigia perto do rio e apercebeu-se que a jovem, logo ao nascer do dia, saía do claustro para rezar junto à margem. De espada em punho, foi aí que Banão a atacou, no dia 20 de Outubro de 653.
Uma última vez lhe propôs deixá-la viver, se prometesse o seu amor a Britaldo. Como sempre, Iria entregou-se a Deus e Banão logo ali a decapitou, lançando, depois, o seu corpo ao rio.
O corpo da virgem assassinada correu Nabão abaixo e foi dar ao rio Zêzere, seguiu daí para o Tejo e foi parar frente a Santarém. No Convento de Santa Iria ainda existe o pego no claustro onde está localizado simbolicamente o local da sua morte.
Em Sellium, todos pensaram que o súbito desaparecimento de Iria era devido à vergonha que ela sentia pela «gravidez». Só o tio, Célio não fazia julgamentos à pressa, nessa noite, depois das suas orações, foi deitar-se com muita tristeza. Mas o sono trouxe-lhe um sonho.
Na manhã seguinte, Célio fez acordar e reunir todos os religiosos e nobres de Sellium. Durante o seu sonho, tivera a visão de tudo o que se passara e logo os guiou até ao Tejo, frente a Santarém. Lá chegados, conta a lenda que as águas do rio se abriram até ao lugar onde estava o corpo da Santa.
Todos os anos, a 20 de Outubro, se realiza a procissão de Santa Iria, na mesma data em que foi morta por Banão nas margens do Nabão.A procissão inicia-se com o lindo ritual de deitar pétalas de rosas vermelhas no local da sua morte, junto ao convento de Santa Iria.
Para conservar a sua memória e milagre, a povoação de Escálabis construiu-lhe um sepulcro de mármore. A partir de então, a cidade passou a chamar-se de Santa Iria, mais tarde Santarém. Séculos depois, as águas do Tejo voltaram a abrir-se para revelar o túmulo à rainha D. Isabel ou o rei Dom Dinis, que mandou colocar o padrão que ainda hoje se encontra, mas este facto é simplesmente lenda que foi criada para dinamizar a canonização da Rainha Santa Isabel.

fachada convento de santa iria
Algumas considerações sobre a lenda de Santa Iria.
– Como é que as datas são tão precisas?
A lenda existia, sem data, tendo ocorrido algures na época visigótica, num mundo de transição entre os visigodos e os romanos. Não existe qualquer fonte de autor antigo sobre a lenda.
– A palavra grega Eirene significa paz, tal como o termo Jerusalém, conceito simbolizado pelo ramo da oliveira (Santa Maria do Olival), de cujo fruto se obtém a luz (física, porque alumia, e espiritual porque unge) e pela pomba do Espírito Santo, representada no interior da Capelo dos Vale no interior da capela de Santa Iria.
-Interessante é saber que Iria é filha dos nobres Hermígio e Eugénia, por outras palavras, de Hermes e da filha do Génio ou Espírito do Lugar;
-Iria é uma monga beneditina-alusão direta ao parentesco entre os monges de São Bento (cujo cenóbio originou Santa Maria do Olival)
– Iria é decapitada por Banão, que lembra desde logo a palavra Nabão.
-Padrão de Santa Iria, construído em 1775, tem uma história engraçada para contar pois costuma-se dizer que se o rio chegar ao pescoço da santa, então a Baixa de Lisboa está completamente alagada. Diz-se ainda que os anjos haviam construído um túmulo para ela que com o recuar das águas surgiu em terra. Como obra divina que era, tornou-se humanamente impossível abri-lo e D. Dinis ou Santa Isabel, a relembrar a lenda, mandou erguer naquele local uma estátua à santa, como já se disse é uma lenda a sobrepor-se a outra lenda.
O monumento que lá existe é já do século XVIII; como seria o monumento mais antigo?
– Quanto ao mundo visigótico em Tomar, quem for ver o muro do castelo encontrará uma rara lápide visigótica;
-Santa Iria faz parte do conjunto dos “Santos Mártires Decapitados” da especial devoção dos Templários, como expoente máximo existe a cabeça degolada de São João Batista, mas ainda temos Santa Catarina ou Santa Quitéria, esta associada a Coimbra, existindo mesmo em Pombeiro Beira (Arganil) um santuário com grande romaria. Uma belíssima representação da Degolação de São João Batista pode ser vista numa pintura de Gregório Lopes na Igreja matriz de Tomar.
– Já lhe vi chamar muita coisa ao milagre operado pelos homens, mas poção do Padre Remígio, é completamente novo…
Convento de Santa Iria começou por ser um recolhimento de senhoras devotas fixado junto à margem do Nabão. Foi em 1467 que uma nobre senhora, viúva do vedor da fazenda do Infante D. Henrique, comprou o “sítio” de Santa Iria, mandando construir no local uma casa e respetiva capela, onde se recolheu com as filhas. Em 1523, a pedido de uma das filhas da fundadora, o recolhimento passou a ser da ordem Santa Clara. Em 1536 a capela e a casa do recolhimento foram reconstruídas e ampliadas a expensas de Pedro Moniz da Silva, irmão de Frei António de Lisboa, comendador da Ordem de Cristo, reposteiro-mor de D. Manuel e mordomo-mor do Cardeal D. Henrique. Data pois desta época a estrutura do convento de Santa Iria que hoje vemos possivelmente uma obra da oficina de João de Castilho, que na época trabalhava nas obras do Convento de Cristo.

Retábulo Miguel dos Vales
O interior da igreja de pequenas dimensões é de planta retangular, composta pelos volumes da nave, da capela-mor, da sacristia e da capela dos Vales adossada lateralmente.
A Igreja de Santa Iria apresenta na fachada um portal renascentista decorado com relevos de motivos de grutesco e com medalhões, que ostenta no tímpano a data 1536, alusiva à reedificação do templo, e por uma janela edificada ao lado do portal, com moldura semelhante. O espaço interior é composto por uma única nave, sendo ornamentado por um programa decorativo totalmente executado no século XVII.
A nave é coberta por teto de caixotões pintados com ornamentos de brutesco pelo pintor tomarense Domingos Vieira Serrão (atribuição das pinturas decorativas do teto), sepultado no pavimento da nave; e as suas paredes são forradas com azulejos de tapete de “ponta de diamante”. O espaço da capela-mor é coberto por abóbada, também pintada, aqui com figuração em trompe l’oeil.
A CAPELA DOS VALES A Capela dos Vales, mandada edificar em meados do século XVI por D. Miguel do Vale é feita em calcário do Jurássico Médio, ou seja em “Pedra de Ançã”. Caro leitor, vamos conversar um bocadinho sobre a iconografia interessante da escultura desta capela?
Todas as figuras estão relacionadas com a paixão e a Ressurreição de Cristo. Cristo encontra-se crucificado num cruz em “T” ou em “Tau” raridade iconográfica de monta e caracteristicamente templária, acompanhada pelas personagens do calvário- a Virgem Maria, São Evangelista, Santa Maria Madalena, Marta e Maria Cleofas, com as figuras de um centurião, quatro cavaleiros, sete peões e um galgo. Esta dimensão é reforçada pelo laço do amor que cinge a túnica de Cristo, ou os dois anjos que ali enquadram o crucificado. O momento que ali se encontra representado corresponde à passagem- “Mulher eis o teu filho” e “João eis a tua mãe”

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O claustro quinhentista do convento, não visitável, é quadrangular, com arcada toscana encimada por galeria com capitéis da mesma ordem. Depois da extinção das ordens religiosas em 1834 e da última freira morta, um ano depois, o convento foi vendido em hasta pública, tendo tido desde então diferentes proprietários que utilizaram a estrutura edificada para os mais diversos fins. Agora apenas a igreja se encontra em bom estado de conservação, todos os outros anexos são uma ruina calamitosa que não é possível visitar. Atualmente existe um projeto para transformar o antigo convento numa unidade de alojamento turístico.

Muito interessante é o cunhal do lado externo, voltado para o rio Nabão e que se eleva sobre o pego de Santa Iria e exibe um nicho com a imagem da santa, logo abaixo foi reaproveitado e colocado na parede uma pedra com um touro em relevo que poderá estar relacionada com o culto mitraico. Esta pedra foi encontrada na abertura da estrada ligando a Igreja de Sant Maria do Olival.
Qual o significado desta peça? Que relação poderá ter com o ditado tomarense”: “Pela Santa Eireia, toma os bois e semeia? E com a configuração do castelo de Tomar que evoca a constelação do boeiro ou seja para o setentrião ou para os sete bois conduzidos por Arcturus? Ou ainda o culto do Divino Espírito Santo que aqui assume, características especiais, com a Festa Dos Tabuleiros, evento nacional em que os bois assumem uma função peculiar. Na sexta-feira Cortejo dos Tabuleiros tem lugar o Cortejo do Mordomo, o qual simboliza a entrada na cidade dos bois do sacrifício que, no passado, viriam a ser abatidos para distribuição da carne. Antigamente chamava-se Cortejo dos Bois do Espírito Santo; hoje é um importante cortejo de carruagens e cavaleiros, com as parelhas de bois à cabeça. Todos estes factos nos remetem para reminiscências do culto Mitraíco; será que ele foi praticado em Tomar?
O culto Mitraíco foi um dos mais importantes do Império Romano. Mitra é o deus do Sol, da sabedoria e da guerra na mitologia persa. Ao longo dos séculos, foi incorporado à mitologia romana. Representava também o Bem e a libertação da matéria. Era identificado com o sol, viajando todos os dias pelo céu com sua carruagem para espantar as forças das trevas. Era uma das mais populares divindades persas. Com sua adoção pelos romanos, tornou-se especialmente popular entre os soldados, que lhe ofereciam touros.
O símbolo de Mitra era o touro, usado nos sacrifícios à divindade. A morte do touro, que representaria a Lua, era característica desse mistério e que assim representaria a luz solar como vencedora. A partir do século II, o culto a Mitra era dos mais importantes no Império Romano e numerosos santuários (mitreus) foram construídos. A maior parte eram câmaras subterrâneas, com bancos em cada lado. Imagens do culto eram pintadas nas paredes, e, numa delas, aparecia, quase sempre, Mitra, que matava o touro sacrificial. O principal acontecimento do culto era o sacrifício de um touro, cujo sangue fazia brotar a vida alcançando-se a imortalidade; veja-se aqui o paralelismo entre o símbolo touro e a morte de Cristo.
Curiosamente o pego onde se diz que mataram Santa Iria é uma galeria abobadada banhada pelo rio Nabão.
Algumas peculiaridades do mitraísmo foram agregadas a outras religiões, como o cristianismo. Por exemplo, desde a antiguidade, o nascimento de Mitra era celebrado em 25 de dezembro (mesma data do Natal de Jesus adotado no calendário atual). O mitraísmo entrou em decadência a partir da adoção do cristianismo como religião oficial do Império Romano. A principal razão para a decadência do mitraísmo frente ao cristianismo foi o mitraísmo não ser tão inclusivo quanto a religião cristã. O culto a Mitra era apenas permitido aos homens iniciados em um ritual que acontecia somente em algumas épocas do ano.
O culto a Mitra perdeu, venceu o cristianismo mas durante vários séculos foram oponentes. Em Portugal o culto mitraico foi incorporado no culto cristão, existe ainda na cultura tauromaquia e como objetos arqueológicos, temos escassos achados: em Tróia, aqui com um friso de sarcófago em mármore e um importante relevo mitraico e em Beja uma placa de culto, de sodalício Realmente Tomar é um manancial de mistérios e especulações, fica aqui mais um no convento de Santa Iria.
Referências adicionais:
-http://lsiria.com.sapo.pt/
-http://pt.wikipedia.org/wiki/Mitra_(mitologia)
-http://www.altotejo.org/acafa/docsN2/O_Culto_de_Mitra_e_sepulturas_em_rocha.pdf
-http://www.ttt.ipt.pt/index.php?nivel=2&m=49
-http://www.deldebbio.com.br/2008/10/31/a-historia-de-mitra/

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2 comentários Convento de Santa Iria-Tomar (*)-o touro, o Mitraísmo e o Cristianismo

  1. Maria says:

    Difícil não pensar que em Tomar se cultuou a Deusa, cujo animal sagrado foi, além de outros, o touro. Que Deusa? Pois aquela mesma que ainda hoje lá está, que ainda ninguém esqueceu e que sobrevive na lembrança: Iria, que é Eriu, Erin, na Irlanda. Os romanos tê-la-ão assimilado a Minerva, que tinha um templo num monte com um nome muito semelhante a Sellium, antigo nome de Tomar, ou a Célio, o tio de Iria na lenda. Torna-se enfadonho no mínimo ler sempre as mesmas historinhas inventadas por aqueles que se apropriaram sem escrúpulos duma cultura viva e há séculos vêm trabalhando na sua fossilização…

  2. Maggie Santos says:

    What a God-awful, horrific translation this is! I’m in shock!
    It is utterly shameful that someone would resort to “Google Translate” in order to have Portugal’s beautiful history just totally massacred in this way!!
    As a professional translator and an English woman with Portuguese origins – I’m disgusted AND offended!

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