Covão da Ametade (Parque Natural da Serra da Estrela) (Manteigas) (***): O miradouro invertido

Covão da Ametade (Parque Natural da Serra da Estrela) (Manteigas) (***): O miradouro invertido

Antes de leremos o bonito texto de Margarida Paes sobre o Covão da Ametade no Fugas do Jornal Público gostava de dar algumas notas geomorfológicas sobre este local espantoso.

O que é o Covão da Ametade?

O Covão da Ametade faz parte de um conjunto de 3 circos glaciários do que alimentavam a mais extensa língua glaciária da Serra da Estrela, e onde se instala hoje o rio Zêzere.
O Covão da Ametade faz parte deste primeiro grande circo alimentador da língua glaciária do Zêzere e que é hoje a nascente do rio com aquele nome. Este circo glaciário não tem apenas um covão glaciário, mas nada mais nada menos que 3. O Covão mais a montante chama-se Covão Cimeiro, o segundo é o nosso Covão da Ametade e o terceiro, mais pequeno é o Covão da Albergaria.
Esta sucessão de áreas deprimidas, mal drenadas e circulares é típica de áreas de montanhas sujeitas a glaciação, dando normalmente origem a pequenos lagoas. Estes covões eram zonas de acumulação de neve, que se transforma em nevado e em gelo e alimenta as línguas glaciárias dos vales. Estes covões glaciários tem em francês o nome de ombilic.

Covão da Ametade Serra da EstrelaO Covão da Ametade é uma área deprimida circular, em forma de anfiteatro, rodeado por vertentes muito abruptas monumentais e esmagadoras, reduzindo-nos a nossa pequenez e em cujo fundo se deu uma acumulação de sedimentos, que tornam possível o desenvolvimento de vegetação arbórea.
A montante do Covão da Ametade, para oeste, é possível identificar uma convexidade rochosa, que constitui o ferrolho glaciário (em francês, verrou), que quase fecha o Covão Cimeiro. O mesmo se verifica na entrada do Covão da Ametade, onde se dá o estrangulamento do vale para o Covão da Albergaria.
No caso da Serra da Estrela, os circos mais importantes não se individualizam claramente dos vales glaciários, pois constituem as cabeceiras destes vales. É o que acontece no vale do Zêzere. O imponente covão dominado pelo fabuloso Cântaro magro (***) e designado por covão Cimeiro, é um circo que constitui, ao mesmo tempo a cabeceira do vale e é o seu primeiro ombilic, enquanto o Covão da Ametade é já um ombilic de vale.
Temos que imaginar neves perpétuas com deslocação lenta a cerca de 20000 anos, em que o gelo da língua glaciária do Zêzere fluía então do Planalto da Torre, canalizando-se no Covão Cimeiro, Covão da Ametade e Vale da Candieira, como fazendo parte de algo tão gigantesco e telúrico moldador da erosão do grantio e do tempo.

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Texto de Ferreira de Castro, em a Lã e a Neve
“A bruma subia cada vez mais deixando a descoberto os medonhos contrafortes do berço do Zêzere. Uma rotunda imensa, grave, misteriosa, de contornos imprevisíveis, começava a aparecer, como se as névoas do princípio do Mundo a abandonassem de vez. Iam-se desvendando enormes moles de granito, ao fundo, à direita, à esquerda, pedras de todos os milénios, bastiões de um só bloco e rude traça, que se apresentava soberba, numa majestosa solenidade. Essa muralha ciclópica e irregular, cheia de arestas, de vincos, crescia rapidamente, através do nevoeiro que se retirava. Cada vez se apresentava mais alta, mais arrogante cada vez – e assim tapada nos cimos dir-se-ia não ter fim.
[…]
O anfiteatro colossal em que eles se encontravam exibia-se agora, em toda a sua imponência. Era de uma grandiosidade áspera, severa, essa rotunda propícia para um templo de mitos alpestres. Estava metida entre assombrosas florações de granito e terminava no Cântaro Magro que lembrava a carcassa de imensurável castelo de outrora, do qual se aproximassem fulminantes coriscos.
Dir-se-ia que a natureza quisera defender e impregnar o mistério da nascente do Zêzere – fechando-a como uma fortaleza. E, contudo, parecia que o rio fora apenas um pretexto. Era uma pobre, trémula fila de água, ora muito estreita, ora mais larga, ás vezes quase invisível, que se lançava lá do alto por um sulco ou diáclase da rocha negra, aberta para lhe dar melhor caminho. Ao seu lado, porém, tudo se agigantava”.

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Texto por Por Margarida Paes do Fugas do Público
Agradeço sempre ao arquiteto paisagista que inventou os parques naturais e a ideia de conservar a natureza. Eis o quinto miradouro desta viagem ao nosso património das vistas.
Que bela invenção! Não tocar nos processos naturais, só manter o que há e adaptar um mínimo a paisagem, lembrando aos homens que a beleza natural de alguns lugares deve ser preservada como uma catedral, porque desencadeia em nós emoções muito fortes, muito fundas. Assim é no Covão da Ametade, onde olhamos para cima e temos paredes de granito esculpidas por milénios de neve, de chuva e de vento, onde graças à beleza do lugar sentimos a nossa pequenez, a imensidão do nosso pensamento e a continuidade repetida da natureza.

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Entre vidoeiros de troncos brancos a paz é muita, mesmo com grelhadores e bicas necessárias ao campismo, porque há muito espaço organizado em clareiras rematadas por linhas de água que vão dar ao Zêzere nascente. São estes os seus pequenos e primeiros afluentes, de novo com margens acompanhadas de vidoeiros. O efeito de longe é de manchas de sol cortadas pelas silhuetas dos troncos, como um código de barras.
É ali que nasce o Zêzere e os serviços florestais, ainda antes do Serviço Nacional de Parques, fizeram este rio de montanha desacelerar a sua corrida para o vale de Manteigas, deter-se ali um pouco atrás de paredões de pedra, criando grandes superfícies onde o céu se espelha, seguindo depois num largo leito silencioso entre muretes, passando por baixo de uma ponte e dando água aos vidoeiros (Betula celtibérica) plantados nas suas margens.
Quando vêm as chuvas de Outono ou quando a neve cobre todo o chão, o Zêzere engrossa e manda em tudo, ouve-se bem a sua água em cascata lançando-se no vale, depois de servir de espelho aos vidoeiros que nesta estação se transformam em árvores de copa amarela e cobrem a superfície da água com uma camada de folhas. O leito do rio foi encaminhado entre muretes bordejados destas árvores de troncos brancos e o caminho sobre a ponte oferece-nos a magia misteriosa da simetria do reflexo e do murmúrio da água.
Este não é um jardim mas foi desenhado por alguém que o criou como que um miradouro invertido para vermos de baixo para cima. Vamos avançando entre árvores e grandes penhascos, e é preciso chegar ao fim de todas as clareiras, ao fundo deste covão, para descobrir o majestoso cântaro Magro, de onde, na Primavera, depois das neves, se lançam mil cascatas que se juntam para fazer nascer o Zêzere. O anfiteatro de pedra criado pelos cântaros Magro e Raso é tão majestoso e arrebatador visto de baixo que não podia ser esquecido nesta procura do nosso património de vistas.”

Nota adicional: Prometo ir em breve ao Covão da Ametade, local onde já fui dezenas de vezes e tirar fotografias. As que aqui publiquei foram retiradas deste sites:
Commons wikimedia
-http://www.fredconcha.com/covo-da-ametade
António Cruz

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