Cruzeiro de São Domingos e Sé de Aveiro (*)-Catarina, Natércia, Isabel e Maria

Cruzeiro de São Domingos e Sé de Aveiro (*)-Catarina, Natércia, Isabel e Maria

Paredes meias, encontramos as ordens dominicanas, masculina e feminina, nesta bonita cidade de Aveiro. A Sé de Aveiro, era antiga igreja do convento masculino e do outro lado onde está o magnífico Museu Regional de Aveiro que é também a igreja e Convento de Jesus (***), está a parte feminina.

Antes de entrar na igreja de São Domingos, repare a sua entrada na réplica de um cruzeiro, pois se quiser passe por esse como cão passa por vinha vindimada e desloque-se para o átrio da igreja, pois é ai que se encontra o verdadeiro cruzeiro de São Domingos, em Pedra de Ançã protegido das borrascas e da dissolução química.

O Cruzeiro de São Domingos, em gótico flamejante é uma boa obra escultórica do século XV de que restam dois elementos, a base e a cruz. A coluna que os sustenta nada tem a ver com a primitiva. A base divide-se em duas partes. A inferior apresenta molduras nas extremidades e escavados símbolos dos Evangelistas. A parte superior é decorada com baixos-relevos que representam as cenas da Paixão de Cristo – Cristo no Horto, a Prisão, Cristo coroado de espinhos, a Flagelação e Cristo a caminho do Calvário- em registos contínuos.

Por cima, a cruz com a imagem do crucificado num bom trabalho, é decorada com rendilhados e as hastes horizontais são rematadas por flores-de-lís.

cruzeiro de São Domingos

cruzeiro de São Domingos

A Sé de Aveiro

Deve também entrar para visitar a atual Sé de Aveiro foi, outrora, a igreja do Convento de São Domingos. Fundado em 1423, em consequência da aparição da Virgem a Afonso Domingos, o Velho (leia aqui esta história curiosa), esta instituição de religiosos dominicanos recebeu desde logo a aprovação do Infante D. Pedro, então Duque de Aveiro e futuro regente do reino. Já no século XIX, o convento desapareceu quase por inteiro, depois de sofrer vários incêndios, um dos quais, em 1843, de maiores proporções sobrevivendo apenas a igreja como testemunho desta casa conventual. O que existe é essencialmente resultando da campanha arquitetónica dos séculos XVI e XVII, unificada pela intervenção decorativa barroca do século XVIII, responsável ainda pela abertura das janelas e da reestruturação do coro alto.

O traçado do templo, apresenta planta de cruz latina, com nave única e capelas laterais que comunicam entre si, sendo antecedida por uma galilé. O transepto e a capela-mor foram alvo de uma intervenção no século XX que unificou este espaço, deixando visíveis testemunhos da construção original do século XV.

A fachada, maneirista, deverá ter sido remodelada no século XVIII, dado que o portal, com a data de 1719, apresenta uma linguagem barroca. Desta composição sobressai a dupla colunata pseudosalomónica que ladeia o portal, o brasão da Ordem Dominicana, e ainda as figuras da Fé, Esperança e Caridade, sobre o referido pórtico. A torre sineira, onde se conserva o sino foi construída em 1860.

Por quem Camões se perdeu de amores?

No interior começando no século XVI, temos o túmulo de D. Catarina de Ataíde falecida em 1551, saída das mãos da oficina de João de Ruão, ou a capela funerária instituída em 1559 por João de Albuquerque, Senhor de Angeja, e cujo túmulo se encontra atualmente no Museu de Aveiro.

A dona Catarina de Ataíde deveria ser realmente uma “boazona”. Segundo a opinião da generalidade dos historiadores, era ela a Natércia (anagrama) da lírica de Luís de Camões. Os amores do poeta descobriram-se talvez por melindres de outras duas damas de igual nome, uma filha de D. Álvaro de Sousa, e outra filha do segundo almirante D. Francisco da Gama, neta de Vasco da Gama. Camões foi então vítima de muitas intrigas, tanto em Lisboa, como em Sintra, onde se reunia a corte, sendo os seus versos sempre escutados com verdadeiro interesse pelas damas, que os preferiam aos dos outros poetas. A paixão que a dama lhe inspirara, e que não pudera totalmente dissimular, a sua querida Natércia, como ele lhe chamava nos seus versos, as torturas que sofria pelas intrigas que lhe forjavam, para o desprestigiarem e afastá-lo da corte, tudo o obrigou a desterrar-se, indo viver sem destino para o Alentejo, depois Ceuta finalmente, para a Índia, de onde voltou pobre já depois do falecimento da sua amada. Muito deve a nossa poesia a linda Catarina.

“Bendita és tu entre as mulheres, e bendito é o fruto do teu ventre”

Uma das capelas laterais tem um retábulo em calcário, do século de 1559 de fabrico coimbrão, que representa a Visitação, que envolve Zacarias, a prima Isabel, Maria e José, pais de Jesus. Maria, que acabara de ser informada de forma invulgar de que daria à luz o Filho de Deus, ficou sabendo também que a prima enfim engravidara, após muitos anos de pedidos e espera, e para sua casa se dirigiu, para contar-lhe a novidade. Ao chegar lá, foi homenageada por Isabel. Maria saiu de Nazaré até chegar a Judá, a quinze quilômetros de Jerusalém, onde vivia Isabel. Lá chegando, a prima viu-se tomada pelo Espírito Santo depois que a criança estremeceu dentro de si, e pronunciou as conhecidas palavras: “Bendita és tu entre as mulheres, e bendito é o fruto do teu ventre”.
Os tetos com pinturas de gosto renascentista que ainda se observam nas capelas absidais, ou algumas imagens maneiristas, como a de Nossa Senhora do Rosário. Todavia, muitos dos retábulos são barrocos, da à campanha do século XVIII.
Na nave da igreja existem dois púlpitos, de 1699 e 1745, em pedra de Ançã, bem como diversos painéis de azulejo setecentista.
Por fim, o retábulo-mor de talha policromada rococó provém da igreja de Vera Cruz.
Ainda neste espaço inscreve-se o duplo cadeiral do século XVIII, com telas representativas de santos dominicanos nos espaldares.
A Sé de Aveiro é um monumento interessante, mas diga-se que Aveiro tem mais três templos notáveis que deve visitar. A igreja de Jesus, mesmo ao lado, a igreja da Misericórdia e a capela das Barrocas.

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