Dólmen da Capela do Senhor do Monte (Penedono) (**)-Os cultos entrelaçam-se em Terras do Demo

Quando vim ao Dólmen da Capela do Senhor do Monte o dia estava frio, cinzento e chuviscava. A desconsolação dominava o ermo. Estava pela segunda vez na necrópole da Nossa Senhora do Monte, local inóspito, retirado da humanidade corrente, por já pertencer às Terras do Demo, e que é um espaço singular na Lusitânia notável.
O sepulcrário é composto por seis monumentos de elevado valor científico; mas o que traz este viajante é apenas o valor simbólico e estético do Dólmen da Capela da Nossa Senhora do Monte… e também um momento íntimo.
O Dólmen da Capela do Senhor do Monte possui uma câmara poligonal e um longo corredor de acesso, cuja altura é decrescente no sentido Este-Oeste. A colocação de um pilar granítico, a meio do corredor e junto à entrada da câmara, bem como as reduzidas dimensões dos esteio da entrada do corredor, demonstram que houve a intenção de tornar difícil a entrada neste monumento. Talvez na câmara apenas pudessem estar alguns eleitos ou íntimos dos falecidos, observando o sol levante, à espera do seu ressurgimento.
Depósito de carácter votivo do Dólmen da Capela do Senhor do Monte
De grande importância para o estudo do megalitismo em Portugal, aqui foi exumado um depósito votivo de carácter colectivo, constituído por um recipiente cerâmico e uma caixa como provável receptáculo de oferendas. Nos rituais desenrolados no corredor foram acesas fogueiras cujos restos carbonizados, permitem datar o último momento de utilização desde sepulcro entre os 3260 a.C. e 2940 a.C. O sepulcro terá sido edificado, utilizado e selado num intervalo de tempo de 300 anos.

O sepulcro foi alvo de uma violação na Idade do Bronze. A eficácia das estruturas colocadas no corredor impediu o acesso dos violadores através do átrio. Estes preferiram então retirar parte do contraforte do lado Norte do corredor, utilizando o espaço como sepultura e onde depositaram cerca de quatro dezenas de recipientes cerâmicos.
Muitos séculos depois este espaço continuava a ser sagrado, com a edificação de uma capela de idade indeterminada (século XV?) a sublinhar o sentido místico e religioso que o monumento já possuía. É um dos casos raros de dólmenes cristianizados em Portugal e sem dúvida um dos mais notáveis a par da Anta das Alcobertas (Rio Maior) (**).
A decisão eclesiástica que conduziu a este reaproveitamento deverá ter provindo do desejo de cristianizar uma local de religiosidade pagã que, possivelmente ainda teria alguma importância no culto das crenças locais.
Já anteriormente descrevi no artigo sobre a Anta da Arcainha do Seixo da Beira (*), um possível significado para a sua existência
Avulsamente ainda posso dizer que a câmara da anta é a capela-mor do templo, que o corredor está estranhamente nas traseiras do templo, que no piso da igreja encontro uma estranha pia rectangular, que descubro dois pentagramas nas pedras derruídas, que a pouco mais de 20 metros de distância descortino outra anta do raro tipo vestibular, que este é enfim um local verdadeiramente enigmático…inesquecível!
Nota Pessoal- Da primeira vez e única vez que estive com ela numa anta, nos Fiais da Telha (Carregal do Sal), achou muita mercê a tudo aquilo, e desapareceu, com algum susto nosso; de repente surgiu num Buraco da Alma, a dizer que tinha regressado dos mortos. Da primeira vez que vim ao Dólmen da Senhora do Monte, estava tudo muito recente e chorei como nunca o fiz na vida, à procura dos seus sinais; nestas pedras nada encontrei, mas sou muito, devido à sua benfeitoria. Foi a minha última tentativa de  aproximação a uma bruma divina. A capela da Nossa Senhora do Monte foi definitivamente abandonada ao culto em 1914 o ano do seu nascimento.
Bibliografia -Carvalho, M.S. Pedro e Gomes F.C.L. Luís (1995)- A Necrópole Megalítica da Nossa Senhora do Monte (Penedono, Viseu), Revista Estudos pré-históricos 3. Centro de Estudos pré-históricos da beira Alta, pp. 243-248 
Outras 4 antas capelas em Portugal:
-Anta-capela das Alcobertas (Rio Maior) (**)
-Anta-capela de Pavia (Mora) (*)
-Anta-capela de São Brissos (Montemor-o-Novo) (*)
-Anta-capela da Lapa de São Fausto (Torrão- Alcácer do Sal)

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Um comentário Dólmen da Capela do Senhor do Monte (Penedono) (**)-Os cultos entrelaçam-se em Terras do Demo

  1. Dylan says:

    Parece que partilhamos a mesma paixão. Vou estar atento a este excelente blog.

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