Domus Municipalis (Bragança) (***)- uma eloquente homenagem a água

Domus Municipalis (Bragança) (***)- uma eloquente homenagem a água

Domus Municipalis

Pensa-se na vetusta Bragança e vem logo à lembrança este monumento magnífico que é a Domus Municipalis, quiçá o ex-libris turístico da cidade.
O que atrai tanta a gente a vista-lo é por ser um singular e misterioso monumento na Península Ibérica que homenageia esse bem agora tão raro-a água e ainda o poder municipal. O nome de Domus Municipalis terá surgido no século XIX, e significa “Casa Municipal” em latim.
Está inserida na cidadela de Bragança a onde se incluem outros monumentos notáveis como a Torre de Menagem (***) ou a ursa do pelourinho (*).
Esta Domus Municipalis integra um roteiro do românico do Nordeste Transmontano de que já descrevemos os seguintes monumentos:

É muito rara a existência de edifícios românicos civis em Portugal, no entanto esta obra para além da sua singularidade atinge dimensão monumental e é nas suas linhas arquitetónicas um espaço perfeito. Em alvenaria de granito muito bem aparelhado. Exteriormente tem a forma de um pentágono desigual. A face mais extensa tem 14 metros e a mais pequena com pouco mais de três.

A data da sua edificação é enigmática. Podia ser ter sido construído nos séculos XII ou XIII em pleno período do estilo românico ou então ser coetâneo da edificação da Torre de Menagem (***) no primeiro terço de quatrocentos; deste modo a construção seria efetuada em “românico” embora o estilo já estivesse muito em desuso.
Todos nós cremos no Abade de Abaçal e este refere a existência de um sinete heráldico, de dom Sancho I, num dos cachorros internos do edifício, o que permite concluir que a sua construção talvez tenha sido levada a efeito na primeira metade do século XIII. Mas onde é que estará tão furtivo sinal? Confiemos no magnífico Abade, senhores, pois toda a região deveria ter o seu.
A iluminação da Domus Municipalis é efetuada por uma enfiada ininterrupta de janelas de arco de volta perfeita, ao longo de todas as faces da construção. Todas as janelas têm moldura lisa, expecto as sete colocadas a este, que possuem, interiormente, uma arquivolta com ornatos estrelados.

O Domus Municipalis tinha uma dupla função

A parte subterrânea da Domus Municipalis forma uma cisterna e mostram que os objetivos que presidiram a sua construção teriam sido de ordem utilitária. Esta cisterna recolhia águas pluviais e de nascentes. Ao longo da cornija corre uma caleira, destinada a acolher a água da chuva, conduzida até à cisterna.
Relembro que a água na Idade Média era um bem parco e essencial, nomeadamente nos tempos de guerra, quando Bragança tinha que ser um baluarte de defesa auto-suficiente em transes de assédio.
Existem outras cisternas com alguma similitude a Domus Municipalis em alguns castelos da Baixa Idade Média como Algoso, Lamego ou Marvão, mas o facto de sobre a cisterna abobadada ter sido construído um segundo piso coberto destinado a acolher o conselho municipal, confere-lhe o especto e as características de espécime único.

O extra-dorso da abóbada de berço, que cobre a cisterna, forma o pavimento lajeado do salão, no qual se encontram três aberturas quadrangulares, que fazem a ligação entre os dois pisos que foram tapados com grades para a sua proteção.
Este é um espaço magnífico constituído por um salão único fenestrado com uma bancada corrida ao longo de todas as paredes, em pedra, para assento dos membros do conselho municipal.
A cornija exterior assenta em 64 cachorros e a cornija interior tem 53, alguns dos quais historiados que prendem a nossa atenção e que deveriam ser minuciosamente estudados.
“‘Para aprender não basta só ouvir por fora, é necessário entender por dentro”, assim dizia sabiamente o nosso padre António Vieira porque aqui entrando o amigo sentirá algo solene a apelar ao medievalismo com o seu espaço interior amplo, unificado, fresco, mesmo sob a canícula transmontana de verão com as suas ventanas a amestrarem jogos de luzes no pavimento da Domus Municipalis.
O leitor já visitou este fantástico monumento?

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