Igespar autoriza parque de estacionamento sobre vestígios de convento medieval (centro histórico de Coimbra)

Foi um dos primeiros grandes conventos da Ordem Dominicana em Portugal mas a sua localização exacta em Coimbra só foi confirmada há cerca de um ano, com o início da construção de um estacionamento subterrâneo. A obra teve que parar mas agora, depois de vários meses de escavações arqueológicas, o Igespar decidiu que os achados não têm condições para ser preservados e deu luz verde ao desmantelamento. A decisão é, porém, questionada por professores universitários e investigadores.
Decisão é contestada por professores e investigadores
O valor da descoberta arqueológica é reconhecido pelo próprio Igespar (o Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Arqueológico), não só por causa da relevância patrimonial dos vestígios mas também pelo que podem dizer sobre a história da cidade no período medieval. O problema, sustenta o subdirector do Igespar, João Cunha Ribeiro, são as “condições e o contexto” em que os vestígios do antigo Convento de S. Domingos, datado do séc. XIII, se encontram: a “oito metros de profundidade”, “abaixo do nível freático do rio Mondego” e numa zona central da cidade com “diversos edifícios já construídos”.
“Chegou-se a um ponto em que não era possível continuar. Uma intervenção de preservação daqueles vestígios seria despropositada pelos riscos e custos que implicaria. E, portanto, face a estas condições, entendemos que era necessário tomar uma decisão. Deu-se autorização para a obra continuar”, afirma o responsável pela área de arqueologia do Igespar.

Convento de São Domingos

Por ordem deste instituto, os vestígios arqueológicos serão alvo de um registo científico antes de serem desmantelados e várias amostras dos sedimentos que envolvem os achados vão ser preservadas para análises laboratoriais. Medidas “insuficientes”, na opinião de Maria de Lurdes Craveiro, professora do Instituto de História da Arte da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (UC), que defende que “uma parte da cidade e da sua história vai-se perder por causa de um parque de estacionamento”. “Lamento profundamente esta decisão. Estes achados são importantes não apenas por que se trata de um convento medieval mas pelo facto de contarem uma parte importante da história de Coimbra”, diz.
Maria Conceição Lopes, docente no Instituto de Arqueologia da UC, reconhece que a escavação arqueológica exigiria “meios logísticos e financeiros muito grandes” que precisam de ser “bem avaliados”, mas sustenta que o “debate prévio” que deveria existir é se a cidade precisa de “mais um parque de estacionamento numa zona em que já existem vários”. Devido à “importância dos achados”, João Cunha Ribeiro revela que, no decorrer do processo, foi avaliada a possibilidade de os vestígios serem classificados, uma hipótese que não mereceu concordância da Direcção Regional de Cultura do Centro e que o próprio Igespar considerou “despropositada” pelos riscos e custos que implicaria.
Contudo, defende Walter Rossa, docente no departamento de arquitectura da UC, a classificação dos vestígios “não era a única opção possível”. Para este arquitecto, com uma tese de doutoramento sobre a evolução do espaço urbano de Coimbra, “valia a pena parar a obra durante mais tempo” para que os achados fossem “verdadeiramente estudados”. Porém, para João Cunha Ribeiro, “não seria possível continuar a exploração arqueológica sem provocar impactos extraordinários na zona envolvente”. “Provavelmente seria necessário abrir uma cratera no centro da cidade e demolir edifícios para pôr a descoberto estruturas como o claustro ou a igreja. Seria do domínio do absurdo.”


Notícia do Jornal Público a 23.02.2009 -André Jegundo
Outro texto de A.J. retirado deste
sítio
“Situado debaixo da Avenida Fernão Magalhães e dos edifícios ali construídos nos sécs. XIX e XX, o estado de conservação do Convento de S. Domingos é uma incógnita. Mas quanto à relevância do conjunto, Saul Gomes, historiador na Universidade de Coimbra, que publicou uma planta do convento datada do séc. XVI, garante que se está perante um “exemplo maior da presença dominicana em Portugal”.
“Não só pela sua dimensão física mas também pelo dinamismo cultural. Foi o lugar onde, durante muitos anos, era feita a formação da elite dominicana em Portugal.”
Maria de Lurdes Craveiro, docente do Instituto de História da Arte, em Coimbra, já visitou o local e diz que as estruturas visíveis parecem constituir “uma das alas contíguas ao claustro do convento”. De acordo com as plantas conhecidas, a igreja estará alguns metros a sul, debaixo de vários edifícios e, porventura, da Avenida Fernão Magalhães. “Mas nada foi ainda identificado com clareza”, lamenta.
Devido à proximidade do Mondego e à invasão das águas, o convento foi abandonado no séc. XVI, tendo sido transferido para a Rua da Sofia (**), também no centro de Coimbra (****), onde hoje funciona um centro comercial.
S. Domingos não foi o único convento em Coimbra a ser invadido pelas águas do Mondego. Também o Convento de Santa Clara-a-Velha (***) foi resgatado ao rio depois de uma intervenção iniciada em 1994 que durou vários anos e custou 7,5 milhões de euros”.

Notas do Portugal Notável:
1-O Mosteiro Dominicano foi fundado em 1227 no sítio chamado da Figueira-Velha, pelo afamado e aguerrido Freire Soeiro Gomes, que para este fim veio a Coimbra, chamado pelas filhas de Dom Sancho I, Dona Branca e Dona Teresa. O local escolhido foi pela proximidade do rio Mondego. Arranjado o terreno junto ao rio, o Convento de S. Domingos é fundado em 1227.
Dada a sua localização, este mosteiro era muito danificado pelas cheias do Mondego. Esta situação leva a que D. Manuel I obtenha autorização do Papa Júlio II para que se realize a construção de um novo mosteiro. É só em 1546 que os religiosos mudam para a Rua da Sofia (**).
2-Sinceramente começo a ficar farto desta gente depois do cataclismo da Alta, que arrasou a parte mais nobre da cidade, igrejas, colégios, castelo, edifícios medievos e renascentista, e que deveria ter servido de lição, e Coimbra era tão pequena em meados do século XX que o campus Universitário poderia ter sido feito em tantos lugares (Norton de Matos, Montes Claros…), eis que surge agora no século XXI novo cataclismo inesperado, vejamos: destruição de habitações históricas e de parte da rua Direita para a passagem do Metro que nunca acontecerá, Choupal (*), destruição do raro e importante vestígio hospitalar dos Lázaros, vandalização do Jardim da Sereia (*), mais por incúria da Câmara, do que por acto condenatório de jovens delinquentes, a (re)descoberta do importante Mosteiro de São Domingos que está em perigo e ainda há poucas semanas o Paço manuelino do Botão.
Por vezes tenho vergonha de ser conimbricense!

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Um comentário Igespar autoriza parque de estacionamento sobre vestígios de convento medieval (centro histórico de Coimbra)

  1. Coloquei no meu blogue o desastre que aqui anuncia. Obrigado.

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