Retábulo da Capela-mor da Igreja matriz de Escalhão (Figueira de Castelo Rodrigo) (*)-Sabia que…aqui um insólito Cristo observa o seu irmão gémeo a caminho do calvário?

O concelho de Figueira de Castelo Rodrigo tem três igrejas notáveis: a igreja do mosteiro de Santa Maria de Aguiar (**), a igreja de Escarigo, com a sua capela-mor (*) e a igreja matriz de Escalhão ou igreja da Nossa Senhora dos Anjos (*) que passaremos a descrever.
Da igreja medieval já nada resta, em sua substituição construiu-se no século XVI e XVII esta monumental igreja maneirista, aproveitando algumas pedras do castelo já desaparecido.

Foi no reinado de D. Dinis que se edificou o castelo de Escalhão, que tal como todos os outros castelos raianos tinha como objectivo reforçar a defesa da de Portugal face a possíveis investidas castelhanas. Terá sido nesta época que se edificou a igreja matriz da vila, havendo já no ano de 1320 notícia da sua existência.
No entanto, deste templo medieval pouco ou nada restará, uma vez que a sua estrutura foi totalmente reconstruída no século XVI. O templo quinhentista é composta pelo rectângulo da nave e pelo corpo quadrangular da capela-mor, ao qual se adossaram as dependências da igreja.
A fachada e o templo exteriomenente são austeros. Esta igreja quinhentista de tipo fortaleza apresenta um portal clássico com simples elementos decorativos. Possui na capela-mor, abóbada artesoada e talha dourada barroca notáveis.
No interior, a nave de cinco tramos é coberta por abóbada estucada e pintada. Nas paredes laterais foram dispostos retábulos de talha seiscentistas, estando do lado do Evangelho a Capela do Senhor dos Passos.
Um episódio da Guerra da Restauração
No exterior a ornamentação é simples e de grande sobriedade, apresentando nas paredes, sinais dos danos provocados pela artilharia espanhola durante a guerra da restauração.
Em 1642 o Duque de Alba reentra na Beira com um exército poderoso, destruindo várias aldeias.
“Em 17 de Outubro desse ano entrou em Portugal um exército espanhol comandado pelo renegado português João Soares de Alarcão, com 4500 soldados e 400 cavaleiros. As povoações por onde passaram foram mergulhadas no sofrimento, destruição e ruína.
Esta força militar prosseguiu o seu caminho destruidor pelo concelho indo quedar-se frente às paredes fortificadas da igreja de Escalhão que tinha dois revelins, já desaparecidos, a defende-la. A população, auxiliada por um pequeno destacamento de 35 soldados, sob o comando de João da Silva Freio, preparou-se para enfrentar o inimigo. Julgando que a presa era fácil, o invasor acometeu contra o reduto defensivo. Porém os escalhonenses defenderam-se heroicamente dizimando com fogo cerrado os soldados espanhóis. No segundo assalto, protegendo-se com todo o tipo de materiais que encontravam, o inimigo atacou de novo. A igreja era o principal alvo das granadas de artilharia. As mulheres com mantas encharcadas num poço existente na igreja extinguiam os incêndios provocados pelas bombas. Com tecidos vários faziam ligaduras que usavam para socorrer os feridos. Dentro do templo os mortos e feridos atestavam a dureza do combate.

Conta a tradição que um homem de nome Janeirinho matou o capitão dos castelhanos na entrada da porta falsa. O capitão de Zamora investiu contra a porta gritando: “ Viva o capitão de Zamora”. De dentro respondeu-lhe Janeirinho: “ Viva o Janeiro com a sua porra”, ao mesmo tempo que enfiava o badalo do sino sobre a cabeça do capitão. As tropas inimigas, já bastante enfraquecidas e surpreendidas pela resistência, entraram em pânico ao verem um dos seus chefes morto. Aproveitando este momento de hesitação os portugueses saíram do templo e investiram contra os espanhóis que começaram a recuar abandonando as suas posições. Num local denominado “A Veiga dos Mortos” o inimigo parou e, reorganizando-se, tentou tomar a ofensiva, mas de nada valeu o seu esforço. Os portugueses apontaram sobre eles as peças de artilharia que capturaram e quase os dizimaram” 1.
O notável retábulo da capela-mor (*) da igreja de Escalhão
O interior da igreja é amplo, acolhedor e harmonioso. Mas o que prende o nosso olhar, é ao fundo o notável retábulo principal (*), seiscentista, revestido a talha dourada maravilhosamente trabalhada, com colunas salomónicas e uma composição onde se inserem belas edículas com imagens de santo.

O altar-mor de talha edificado na campanha quinhentista foi executado cerca de 1525 por Henrique Fernandes e Arnao de Carvalho Deste conjunto subsistem dois painéis esculpidos em alto relevo, representando o Calvário e a Deposição no túmulo . Este retábulo foi substituído no século XVII por um altar de talha barroca edificado no século XVIII, que integra trono e esculturas de vulto.

“O altar-mor, com rico retábulo de dois andares em talha dourada apoiados e enquadrados por colunas salomónicas de seis espirais cada, sendo do “estilo nacional” dos fins do século XVII e início do seguinte, como revelam os seus elementos maneiristas juntos a outros tantos barrocos. Sobre o entablamento domina a imagem do Orago, Nossa Senhora dos Anjos. No patamar superior, próximos do Divino, enfileiram-se as imagens dos 4 Profetas (Isaías, Jeremias, Ezequiel e Daniel) assinalando a Escritura Velha ou Antiga Tradição (Patriarcas). No patamar inferior, próximos da Humanidade, apresentam-se os 4 Evangelistas (Mateus, João, Lucas e Marcos) representado a Escritura Nova ou Nova Revelação (Apóstolos). Mas o mais interessante e insólito de tudo quanto há nesta igreja, são os dois baixos-relevos laterais, retábulos do estilo flamengo do século XVI, representando Jesus a caminho do Calvário e a deposição de Jesus no sepulcro, que remetem sem delongas para interpretações abertamente heterodoxas do Hermetismo cristão, e claramente heréticas para o Catolicismo confessional, opondo as duas maneira de visionar a mesma coisa.

O que faz aqui Jesus Cristo e o seu irmão gémeo nesta comenda da Ordem de Cristo?

Como se disse estão aqui dois interessantes painéis quinhentistas em alto-relevo de inspiração flamenga que representam a deposição no túmulo e Jesus a caminho do Calvário. Este último, para além de belo, remete-nos para uma provável heterodoxia, pois um Cristo observa o seu irmão gémeo a caminho do calvário!
Uma outra heterodoxia encontra-se no interior da sacristia num fresco parietal de má qualidade, onde é visível a Virgem Maria a amamentar dois meninos; estamos de novo remetidos para o carácter dual e alternativo das diferentes correntes do cristianismo.
Sendo esta igreja uma comenda lucrativa da Ordem de Cristo e devido à proximidade da capela templária de Mata de Lobos, estariam estas marcas relacionadas com resquícios esotéricos da Ordem Templária?

“A presença aqui desse figurino hierático deixa o subentendido que os censores de Trento não chegaram a Escalhão, ou talvez fossem impedidos de chegar por alguma autoridade eclesiástica, possivelmente o próprio arcebispo de Riba Côa, António Pinheiro da Fonseca, familiar dos Pinheiro da Fonseca que construíram este templo e cujo brasão d´armas encima a sua entrada principal. Isso poderá explicar o contrato estabelecido pela Fábrica da Igreja, mas sob chancela da Ordem de Cristo donatária desta comenda velha, com o luso-flamengo Arnao ou Arnão de Carvalho (1506-1533), que foi o mestre entalhador do altar-maior desta igreja em 1524, pareando com o mestre dourador Henrique Fernandes, reputado artista de Viseu. Arnao de Carvalho, tal como muitos flamengos vindos para Portugal, certamente não seria alheio às “heresias” correntes na época que enfileiravam o chamado Hermetismo Renascentista. Ele viera para aqui depois dos trabalhos de entalhamento que realizara na igreja de Freixo da Torre e antes na Sé Catedral de Lamego, e daqui seguiu para Santiago de Compostela onde realizaria outros trabalhos em igrejas da capital da Galiza. Depois, ainda nesta igreja escalhense, dando sequência ao programa ilustrativo de mestre Arnao, foram realizados os frescos da sacristia em 1761″.

Uma estória bonita de desejo de uma boa hora no parto
Aqui em Escalhão, existe uma peculiar, espiritual e poética forma de implorar uma boa hora para a mãe expectante quando as condições aparentes indiquem possíveis dificuldades para dar á luz. Sete jovens virgens, todas marias de seus nomes, sobem à torre sineira da igreja matriz e a espaços que dêem tempo, cada uma faz soar uma badalada. E cada toque é sinal a quantos escutem para rezarem uma Ave-maria a pedir a Nossa Senhora que interceda pela felicidade do parto. É sem dúvida, uma lindíssima prece eclesial. Se já caiu em desuso, rezemos por seu retorno. Embora saibamos que agora os partos são realizados na Covilhã! Outro problema será provavelmente a existência  de sete jovens Marias virgens em Escalhão…porque o estado português tudo tem feito para que todo este belo interior de Portugal fique desertificado.

“Essa tradição popular terá origem medieval e se inspirado no poema épico Psychomachia, de Prudêncio (348-410), poeta latino cristão, que foi dos mais difundidos na Alta e Baixa Idade Média, inclusive encenado como a batalha moral da Alma (psicomaquia) dividida entre virtudes e vícios[22]. As sete virgens escalhenses representarão as sete virtudes que, por graus ou degraus, vão se acercando do elevado Céu até ao derradeiro toque viril do badalo que faz vibrar os Portais do Paraíso e as fará plena de graça. É um momento presente expectante de uma feliz realização futura. As sete virtudes (virtus) tradicionais, são: castidade (castitas) oposta à luxúria; generosidade (liberalitas) oposta à avareza; temperança (temperantia) oposta à gula; diligência (diligentia) oposta à preguiça; paciência (patientia) oposta à ira; caridade (humanitas) oposta à inveja; humildade (humilitas) oposta à soberba. Tais virtudes tomaram forma nas mulheres profetisas reconhecidas Sibilas pela Igreja, prenunciantes do Advento às quais a hermenêutica heterodoxa – inclusive dando-as como expressões humanas das siderais sete MamasKrittikas ou Plêiades, estrelas desta constelação configuradas como progenitoras de Kartikeya, o Paladino ou Guerreiro Celeste tanto associado a Kalki como a Maitreya pelos orientais, no Ocidente reconhecido Cristo Pantocrator, “Todo-Poderoso” – dispõe no plano da mais profunda ou esotérica Tradição Espiritual, também elas sendo expectantes de um Tempo futuro de Deus e Ideia, ou Ideia Divina saída do parto de uma nova e mais ampla consciência no Género Humano”.1

Adaptado do http://cardoso.com.sapo.pt

1- Vitor Manuel Adrião

2 comentários Retábulo da Capela-mor da Igreja matriz de Escalhão (Figueira de Castelo Rodrigo) (*)-Sabia que…aqui um insólito Cristo observa o seu irmão gémeo a caminho do calvário?

  1. Luciano says:

    Igreja de ouro

  2. Pedro Pinto says:

    Na parte exteriora junto à capela existe uma pedra tumular antiga com inscrições romanas, por acaso sabe dizer algo sobre isso? Quem jaz naquele local?

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