Panorama da Igreja Matriz de Olhão (*)

Olhão talvez já não seja a ilha “Cubista” que encantou Aquilino Ribeiro quando a descreveu no livro do Guia de Portugal (1927). Mas se subir a a torre da igreja matriz de Olhão verá que esta ainda tem os atractivos. 
A valentia do povo de Olhão marcou a história de Portugal
Uma vez lá chegado, saiba que o sino- e até o pode afagar- entrou na história, porque esteve associado a uma grande epopeia de Olhão, a primeira sublevação bem sucedida no território português contra os franceses e a viagem ao Brasil para informar a família real da expulsão dos invasores.
A insurreição deu-se quando o escrivão do Compromisso Marítimo, no dia 12 de Junho de 1808 destapou, na Matriz, as armas reais que os invasores haviam mandado ocultar.
A revolta desabrochou no dia 16, quando o Coronel José Sousa, ao ver o povo ler os editais a que apelavam aos portugueses para ajudarem os franceses contra os espanhóis, reagiu rasgando o edital, acto aplaudido pela população que a seguir hasteou a bandeira nacional e tocou os sinos a rebate, convidando a todos a tomarem parte na luta.
Estava iniciada a revolta que se materializou no dia 18 de Junho, quando o povo comandado pelo Capitão Sebastião Mestre, derrotou as forças francesas, num primeiro confronto por mar e depois por terra, na ponte de Quelfes e na Meia Légua.

Só após a constatação da vitória, resultante da decisão inabalável dos olhanenses é que os poderosos, sempre parasitando outros ainda mais fortes, que constituíam o poder administrativo regional, se uniu a populaça vencedora, estendendo a revolução a toda a província e juntos, pequenos e grandes, expulsaram os invasores do então Reino dos Algarves.
Mas o feito não se ficou por aqui, porque novamente, os pescadores de Olhão num pequeno barco de nome Bom Sucesso, capitaneado pelo mestre Garruncho atravessaram o oceano Atlântico, demandando ao Brasil, para informar a família real feito. Por tal feito a pequena aldeia de pescadores foi elevada a Vila.
Aquilino Ribeiro e o que se vê da torre da Igreja Matriz de Olhão
Lá do alto, o panorama é muito belo. Aqui pode ver da esquerda para a direita, a magnífica Quinta do Marim (**), sede do Parque Natural da Ria Formosa (****), o porto comercial e ao longe a ria Formosa, com duas ilhas barreira: a ilha da Culatra-Farol (**) e a paradisíaca ilha Deserta (***).
Na paisagem urbana fazemos sobressair o novo viaduto rodoviário, as salinas com as suas pirâmides níveas ofuscadas ao brilho do sol. E depois da elegante fachada da Casa do Compromisso com os seus telhados de tesoura (antiga confraria e associação de socorros mútuos dos pescadores e mareantes), o bairro dos pescadores, já alterado e cercado por construções descaracterizadoras, mas que ainda mantém a sugestão cubista e marroquina que arrebatou o gigante Aquilino.
“Dum prédio para o outro, as açoteias e fachadas imbricam-se, acavalam-se, sobrepõem-se, desarticulam-se, anuladas pela brancura e pela miragem as leis da perspectiva e do volume. São milhares de cubos em equilíbrio instável, paradoxal, absurdo, como cantarias de Babel juncando um campo raso. E todavia, deste mar revolto de planos e desta fanfarra endiabrada do branco, filtra-se uma sensação de pureza, de banho auroral, como reascende o perfume dum canteiro de açucenas. E dá vontade ficar li, à vista da ria, dum azul ideal de iluminura, entre o céu de uma diafanidade vaporosa, onde mal se aguentem nuvens brancas, e aquele tablado branco, escapo à imaginação mais desmedida”.
Perante tais palavras, não sei mais o que dizer, ah, não me posso esquecer de dizer que Raul Brandão também escreveu belas palavras nos “Pescadores” sobre a faina dos olhanenses; e que depois de ler, ou melhor ver o bairro dos pescadores de cima, vá lá para baixo e deambule por ruas quase magrebinas, com casas rematadas de açoteias, que engendram um labirinto de ruas e becos. E repare que segundo as palavras de Raul Brandão “este homem é um homem à parte no Algarve”, porque será?

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