Janela manuelina da Casa da Torre em Gouveia (*)

A Casa da Torre no concelho de Gouveia foi construída no século XVI e estava integrada num solar, que entretanto foi sendo desmantelado. Tem como destaque uma admirável janela manuelina geminada.
O solar pertenceu primeiro ao Conde de Gouveia, depois Marquês, título concedido por Filipe III de Portugal. O último dos marqueses de Gouveia, o Duque de Aveiro- Dom José de Mascarenhas, foi julgado e executado com os seus familiares, pelo Marquês de Pombal em 1759, em sequência do chamado processo dos Távoras. Após aquela data foi sendo sucessivamente ocupado por famílias particulares e no início do Século XX foi a primeira sede do Futebol Club Os Gouvenses, grémio já extinto. Em 1928 o edifício foi classificado como Monumento Nacional e sofreu grande remodelação. Foi novamente restaurado no início do século XXI. Actualmente é uma delegação do Parque Natural da Serra da Estrela.
Descrição do Edifício da casa da Torre
Apresenta planta rectangular irregular com três pisos, em cantaria granítica com muitas pedras sigladas pelo mesmo canteiro. Na fachada principal voltada a Oeste destaca-se uma janela manuelina polilobada, com a inscrição em caracteres góticos “Avé Maria Gratia”, que se sobrepõe a um lintel com um coelho e um canídeo separados por folhas, debaixo está um balcão segurado por três carrancas antropomórficas.
Na fachada Norte, no primeiro piso, temos duas portas; uma em aduelas regulares com arestas chanfradas e arco em volta perfeita e outra gótica. Na parte superior encontram-se duas formosas janelas manuelinas; uma tem caracteres góticos, IHS e XPS, que significa Jesus Cristo e flores-de-lis. A outra é do mesmo tipo, mas mais bonita, com um lintel decorado com, 6 quadrofóilios, 2 flores-de-lis uma tartaruga e um peixe- a primeira é um dos símbolos de cosmo e o segundo com significado cristão. Este flanco estava adossado a um edifício, também ele antigo. A fachada apenas ficou exposta a partir de 1952, data em que se efectuou a sua requalificação. O interior de três pisos tem algumas mísulas com motivos vegetalistas e uma com esfera armilar.

Janela Manuelina da Casa da Torre (Gouveia)

A notável janela manuelina da casa da Torre em Gouveia
Mas a grande surpresa está no entanto reservada na sua parte posterior, na estreita rua Direita. Por cima das três portas rectas, duas com arestas biseladas, uma delas com marcas simbólicas religiosas com cruzes, existe uma monumental janela manuelina geminada com três arquivoltas, todas distintas, com belos desenhos e finos entrançados encordoados, terminando a primeira arquivolta numa pinha invertida embelezada com bolas e listas espiraladas.
Os símbolos manuelinos
A designação corresponde ao estilo artístico, que foi desenvolvida entre 1480, no reinado de Dom João II até ao desencadeamento da expressão renascentista no tempo de Dom João III, cerca de 1540. A denominação é um neologismo inventado no século XIX para designar as edificações no reinado de Dom Manuel I, que revelassem uma unidade de estilo. Tem grande acervo simbólico e heráldico- a omnipresente esfera armilar, o tema da corda, a condensação ornamental nos vãos (portas e janelas) e o hipernaturalismo do desenho. No Manuelino está presente a ideia da realização, através do império português (Dom Manuel como novo César, novo Salomão ou novo David), de um mundo evangelizado, católico, perfeito e paradisíaco (mais tarde a ideia seria adoptada, e já Portugal estava em declínio, no mito do Quinto Império)- ou seja na (re)fundação de uma nova Ordem.
A pinha e a corda
Na janela manuelina da casa da Torre na base do encordoamento, encontramos uma pinha ou “maçaroca”. O pinheiro é desde a pré-história, em quase todas as religiões um símbolo da imortalidade devido a perseverança da folha e pela incorruptibilidade da resina. A pinha está muitas vezes na mão de Dionísio, como se fosse um ceptro exprimindo a consistência da vida vegetativa (eternidade) e a elevação de Deus sobre a natureza. Na arte manuelina a pinha surge assim como um símbolo da força vital, persistentemente e eterna, ligada a Deus, fundamental para almejar o paraíso terreal eterno que o Rei Venturoso desejou. As pinhas também simbolizam o amor perpétuo ao Deus Cristão, materializado humanamente em Cristo. A corda está ligada, de uma maneira geral, ao simbolismo da ascensão e de união; neste caso a Humanidade deve ascender à Graça Divina onde alcança a perpetuidade; este é talvez o desejo mais poderoso que emana da nossa mente- colectiva e individual, desde o Paleolítico -, e é fonte criadora de arte, e uma das cinco causas da religiosidade (para além da eternidade, temos a explicação do mundo, o sentimento de superioridade intelectual na biosfera, a necessidade de ética e alívio/eliminação de sofrimento). A ascensão ao Paraíso deve ser efectuada com espírito – aqui simbolizado pelos frutos da coluna do meio.


A Janela representa, desta maneira, que o Homem, através do espírito e na sua ligação a Cristo, pode almejar a uma vida além-túmulo edénica.
O pelourinho manuelino e a fonte
Nas imediações da Casa da Torre está o pelourinho manuelino reconstituído em 1951 depois de achadas algumas peças dispersas em vários locais. Repara-se perto da base um conjunto de cinco anéis sobrepostos, o primeiro decorado com em meia esferas e o último com elegante entrançado; o capitel está muito gasto decorado com motivos vegetalistas e antropomórficos.
Por detrás, com um toque romântico, encontra-se a fonte do Assento, em estilo barroco com concheado, volutas e quatro painéis de azulejos de valor artístico mediano da fábrica Viúva de Lamego assinados pelo autor. Num pequeno quadro está a Cabeça do Preto nas Penhas Douradas (***) ao lado dele uma cena de Santo António com o ingénuo milagre da bilha.
Santo António e o milagre da bilha

Reza a lenda que uma jovem ia a caminho de uma fonte com a bilha para buscar água, porém partiu -a junto da fonte; tamanha a tristeza da jovem pelo que aconteceu que se pôs a chorar. Nesse momento aparece-lhe Santo António que, ao vê-la tão abalada, perguntou qual o motivo de tanta aflição. Ela explicou-lhe o sucedido e o santo, por milagre, consertou a bilha. Não é milagre de grande monta, mas é comovente; e por vezes é preciso tão pouco para fazermos alguém sentir-se bem, mas o oposto também é um facto.
Outro quadro representa uma cena de pastorícia, a que não faltam ovelhas, o pastor e o cão Serra da Estrela, a percorrerem um caminho em terra batida, junto à Cabeça do Velho, e que corresponde a actual estrada nacional 232 (**). A poucas dezenas de metros na Rua Direita deparamo-nos com outra maravilha de Gouveia- o Museu de Arte Moderna Abel Manta (*).
Nota: Eis a minha interpretação, do que é um bom exemplo da arte simbólica Manuelina. Qual é a sua?
Post dedicado ao colega e amigo Mário César Figueiredo e restante família que se podem delongar como poucos com a “Casa da Torre. Foi uma coincidência notável!
Boa Viagem!

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