Jardim da Manga (Coimbra) (**)

Jardim da Manga (Coimbra) (**)

O Jardim da Manga é um monumento único em Portugal, que simboliza a fonte da vida eterna, com Deus a espalhar a sua palavra pelo mundo. As palavras são simbolizadas pela água-Fonte da Vida. É uma das mais belas Fons Vitae da Europa.

O Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra era constituído, em meados do século XVI, por um um grande conjunto edificado, do qual faziam parte três claustros, que serviam para várias finalidades da vida comunitária dos cónegos regrantes de Santo Agostinho: o claustro do Silêncio (***), o claustro da portaria, desaparecido (onde hoje se encontra o edifício da Câmara Municipal de Coimbra) e o claustro da Manga.

Claustro da MangaEm 1527, por iniciativa de dom João III, foi começada uma reforma da instituição. A frente do mosteiro ficou frei Brás de Barros (de Braga), homem de vasta cultura renascentista,  a quem se deve a construção do claustro da Manga. Hoje apenas está intacto o corpo central conhecido por Jardim da Manga ou Fonte da Manga. Relembro que a data que fixou a universidade portuguesa a Coimbra foi a de 1537, sete anos mais tarde todas as suas Faculdades instalam-se no Paço Real da Alcáçova, que a rua da Sofia se começou a construir-se em 1535 ao mesmo tempo que que o Jardim da Manga,  e que o Concílio de Trento decorreu entre 1545 e 1565. Estes dados são indicados para quem quiser estudar melhor toda esta temática e entender como se vai do fausto renascentista para o rigor severo tridentino e como todo isto afetou as construções quinhentistas em causa, mas também para dar pistas de como a religiosidade da Contra Reforma, foi uma das causas da decadência do Reino de Portugal.

claustro da manga papagaioO Claustro da Manga foi construído na década de 30 do século XVI, e como obra da renascença o seu jardim, que ainda existe é magnífico com o simbolismo que encerra, sendo por isso, uma das mais importante Fontes da Vida da arquitectura europeia, sendo baseada nas casas de fresco renascentistas italianas.
O arquitecto foi João de Ruão, que morava um pouco acima e que controlaria muito facilmente a sua obra. Com a sua equipa executou as partes escultóricas e os retábulos no inteiro dos cubelos, que actualmente se encontram deteriorados.

Conta ainda a lenda que o plano de arquitetura para construção do Jardim da Manga terá sido guisado na manga do próprio rei dom João III.

Jardim da Manga-Fonte da VidaO conjunto é composto por um templete circular, com um lanternim simbolizando o Universo ou Firmamento, a cúpula apoia-se em oito colunas. Peço desde já ao meu estimado leitor para fixar este número.

No centro está uma taça de onde jorra a água que alimentava todo o sistema, hoje está no chão, ao inicio estava em pé alto. Representa a palavra de Deus, um libelo para ação usando a alegoria da Água.

Formando um X, há quatro capelas tipo guarita, que ficam isoladas, a que se acede por uma ponte em tempos de madeira. As quatro capelas cilíndricas também aludem aos quatro evangelhos e cada uma é dedicada a um santo eremita: São João Baptista que ao retirar-se para o deserto se tornou no primeiro dos eremitas; Santo Antão, São Paulo-o-Eremita e São Jerónimo, infelizmente os retábulos estão muito desgastados.

Jardim-da-mangaAs escadas de acesso ao templete têm seis degraus. Número que simboliza a representa união, equilíbrio, perfeição, harmonia, aqui entre Deus e o mundo terreno. Os oito tanques unidos dois a dois, formam os quatro rios do Paraíso, referidos no Génesis: Nilo, Ganges, Tigre e Eufrates; os quatro rios correm para os quatro pontos cardeais. As quatro ruas que dão acesso ao templete significam a Terra, o mundo material, e que representam os 4 continentes conhecidos na Terra no século XVI. Os jardins que envolviam o conjunto simbolizavam o Paraíso.

As gárgulas no friso do templete representam as forças do Mal e o sofrimento, ao todo são 16. Duas em cada cubelo e outras 8 ba continuação da cada coluna. Os oito animais, aos pares, cão e papagaio no cimo das escadas, parecem vigiar todo aquele cenário, o primeiro simboliza a fidelidade e o segundo a eloquência.

17929779_o3bEpTemos que entender que estamos em presença de uma ordem de Santo Agostinho e que este na sua obra a “Doutrina Cristã” o quatro era um número importante. “A ignorância dos números também impede compreender quantidade de expressões empregadas nas Escrituras sob forma figurada e simbólica. Certamente, um espírito bem nascido sente-se levado a perguntar o significado do facto de Moisés, Elias e o Senhor terem jejuado por quarenta dias (Ex 24, 18; I Rs 19,8; Mt 4, 2). Ora, esse acontecimento propõe um problema simbólico que só é resolvido por exame atento do número 4. Compreende o número 40 quatro vezes 10. É num ritmo quaternário que prossegue o curso do dia e do ano. Divide-se o dia em espaços horários da manhã, do meio-dia, da tarde e da noite. O ano estende-se nos meses da primavera, do verão, do outono e do inverno”.3

manga coimbraQuanto ao número das colunas, 8 ele é o símbolo da ressurreição, da transfiguração: anuncia a futura era eterna: comporta não só a ressurreição de Cristo, como também a do Homem o número 8 (oito) é, universalmente, considerado o símbolo do equilíbrio cósmico. É um número que possui um valor de mediação entre a terra e o céu, e por isso está relacionado com o mundo intermediário e que tão bem se enquadra neste notável monumento.
Todo o conjunto desenha uma cruz, a que se sobrepõe uma outra como já se disse em X, cujos braços conduzem às capelas. “A grande Cruz é o símbolo de Cristo e do seu Martírio; a mais pequena representa a humildade no sofrimento e refere-se ao martírio de Santo André”.2
Actualmente são milhares de pessoas que passam diariamente ao lado do Jardim da Manga e é raro o transeunte que admira aquela obra de arte e que é uma das primeiras obras arquitectónicas inteiramente renascentistas feitas em Portugal.  Defronte ficava a famosa Torre de Santa Cruz (**) que foi demolida.

claustro manga 2

Referências adicionais:

1-Dicionário dos Símbolos de J. Chevalier e A. Gheerbrant .Editor: Editorial Teorema. Edição ou reimpressão: abril de 1994
2- História da Arte Portuguesa; Direcção de Paulo Pereira. Volume II, página 412.

3- A Doutrina Cristã de Santo Agostinho. Ligação para o livro.

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2 comentários Jardim da Manga (Coimbra) (**)

  1. F. Dias says:

    Sou de Coimbra e conclusão que chego, conheço pouco da nossa História. Ouvia falar na Torre de Santa Cruz, só agora vejo as suas dimensões. Parabéns pelo trabalho apresentado. Gostava de copiar imagens e texto.

  2. vinguyen says:

    Castela, thanks a lot for the article post.Much thanks again. Fantastic.

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