Vila medieval e Judiaria de Castelo de Vide (**)

Castelo de Vide é composto por um Burgo e Judiaria medievais, de ruelas e calçadas sinuosas, cercados por 2,5 km de muralhas a partir das quais se revelam magníficas paisagens principalmente a partir do seu castelo medieval; é sem dúvida um local de peregrinação obrigatória no Turismo de Portugal.
Do passado remoto de Castelo de Vide pouco se sabe, a excepção de que foi conquistada aos mouros e que em 1273, Dom Afonso III doa a localidade ao infante D. Afonso. Cioso de uma fronteira bem guarnecida e completamente inserida no Reino, Dom Dinis obriga o seu irmão a dar-lhe a localidade. É aquele rei que vai construir o Castelo que ainda existe e dá foral a vila. Mas as fortificações apenas se concluíram no ano 1237 segundo reza a placa que encima a porta da vila…e foi assim que Vide passou a Castelo de Vide.
Da história de Castelo de Vide ainda há a realçar que foi nela que Dom Dinis recebeu os embaixadores aragoneses que vieram ratificar o seu casamento com a Rainha Santa Isabel de Aragão.
Apenas nos séculos XVII e XVIII a vila será novamente rodeada de fortificações abaluartadas, incluindo a construção do Forte de São Roque (que actualmente tão desmazelado se encontra). As fortificações medievais passam a estar inseridas na cidadela e recebem quartéis, paóis e armarias.
As figuras históricas de Castelo de Vide
Castelo de Vide é localidade pequena, mas mesmo assim derivaram dela alguns dos principais vultos da história de Portugal: Gonçalo Anes, da Ala dos Namorados de Aljubarrota, e o primeiro que investiu contra as hostes castelhanas, Dom Diogo de Azambuja, um dos mais fieis a Dom João II e que se encontra sepultado em notável túmulo (*) no Convento dos Anjos (**) em Montemor-o-Velho, o estadista Mouzinho da Silveira, Salgueiro Maia, o principal herói do 25 de Abril de 1974. Foi também ai que Garcia da Orta começou a exercer medicina.
A Judiaria de Castelo de Vide
Castelo de Vide teve desde há muito uma importante comunidade judaica, mas após a expulsão dos judeus do país vizinho em 1492 (o estabelecimento da Inquisição e a publicação do Édito de Expulsão dos judeus dos reinos de Espanha por Fernando e Isabel) a sua população terá aumentado que aqui desenvolveram os seus afazeres típicos: o comércio, as artes e os ofícios e a medicina. Destes tempos permanecem vestígios indeléveis: na toponímia (rua da Judiaria, ruinha da Judiaria, rua do Mestre Jorge e rua Nova, na sinagoga, nas celebrações pascais, um dos cartazes turísticos da vila e nas marcas mágico-religiosas inscritas nas ombreiras das portas góticas.

A Sinagoga de Castelo de Vide
Vulgarmente chamada “Sinagoga”, mas com o nome apropriado de “BEIT-HA – MIDRASCH-SEFARDIN”. No compartimento destinado ao culto, no seu interior, tem instalado o tabernáculo, com as respectivas cavidades destinadas às lamparinas dos “Santos Óleos” e ao lado direito desta peça, uma apoiaria as sagradas escrituras, em que na base estão implantadas sete bolas indicadoras dos seis dias em que Deus criou o mundo e do último dia, o sétimo, descanso da obra.
Uma porta de acesso ao primeiro piso apresenta uma pequena concavidade que se chama a marca da MEZUZAH, que é uma ombreira na porta. Esta concavidade destinava-se a guardar um estojo que continha um pequeno pergaminho em que se escreviam algumas das palavras do SHEMA, oração fundamental do culto judaico.
Todas as portas são em ogiva que arranca de impostas com arestas vivas, toros e canelura.
Castelo de Vide tem o maior número de portas góticas de Portugal
Na parte moderna e mais baixa de Castelo de Vide os motivos de interesse são muitos como casas dos séculos XVII até ao XIX, com janelas de aventais lavrados e guardas de ferro elegantemente recortado enquanto nas ruas íngremes e tortuosas da parte alta da vila e do castelo se observa o mais importante conjunto de portas ogivais hoje existentes em Portugal.
As portas medievais encontram-se em quase todas as ruas no interior da cidadela do castelo e no arrabalde, sendo o maior número na Judiaria e Rua de Santa Maria. Se algumas são simples portas ogivais, sem qualquer decoração, muitas apresentam-se decoradas tanto ao nível das ogivas, como das impostas e ombreiras.

Como elementos decorativos são empregues as esferas, toros e caneluras, conjuntamente com arestas vivas e motivos vegetais. O peixe aparece numa única porta do séc. XVI (Rua Nova), mas também há estilizações do Sol e das estrelas (Penedo). A maioria dos arcos em ogiva pertence ao séc. XIV e XV e o seu número total de sessenta e três.
Castelo e restantes fortificações de Castelo de Vide
O castelo a Norte constituindo as suas muralhas o prolongamento das da cerca urbana.
Os muros desenham um polígono ligeiramente trapezoidal que apresenta a Torre de Menagem, de secção rectangular, e um cubelo que flanqueava o ângulo N do primitivo pátio.
Desaparecida a antiga muralha do tramo NE do pátio, a que agora o conforma por esse lado corresponde à da antiga barbacã nesse sector, apresentado ainda o poço que aparece desenhado na planta de Duarte D´Armas.
A Torre de Menagem, maciça até ao nível do adarve, apresenta uma sala, que surge como uma magnífica sala de visitas, de planta octogonal, grandes janelas rectangulares e oito pilares, com base e capitel, de que arrancam as nervuras, de secção rectangular chanfrada, que fecham o tecto em arcos redondos. A Torre de Menagem apresentou-se esventrada durante muitos anos em resultado da explosão que a mutilou no ano de 1705, quando os espanhóis a ocuparam. Mais tarde com o terramoto de 1755 voltou a sofrer danos.
Deve-se subir ao adarve do castelo para apreciar um magnífico panorama.
“Dos adarves nascentes a vila, desdobra-se em leque nos flancos da colina, com as gateiras dos telhados resplandecendo ao sol como diamantes luminosos. Sobranceira a vila vai correndo a serra, formando uma colina ladeada por um vale verdejante, ensombrado por soutos de castanheiros, matizado de hortas e manchado aqui e além pelo verde-negro dos pinhais. Coroando um dos penhascos da serrania, vê-se a ermida da Nossa Senhora da Penha (*), cuja lâmpada, que piedosamente se faz arder todas as noites, é como um farol acesso na montanha. A Este, finalmente descortina-se, dependurado a enorme altura, o “ninho de águias” de Marvão (***).
Mas é do lado poente que a vista é mais extensa: mete-se pela Espanha dentro por léguas de distância, e , em terras de Portugal, vai até a mancha azulina da Serra da Estrela (***). Lá está Castelo Branco, além do Tejo, cujo leito se advinha. Do lado de cá, na planura, Nisa; à direita encimando um pequeno outeiro Montalvão; e ao fundo da estrada Póvoa e Meadas com o seu famoso menir (**)”.1

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A cerca urbana desenha um polígono grosseiramente pentagonal com inflexões da muralha na zona O. As Portas da Vila, desalinhadas e em arcos quebrados, situam-se a SE, dando acesso à Rua Direita absolutamente intacta desde a idade média. Esta atravessa o velho burgo para sair no tramo oposto pelas Portas de São Pedro, também desalinhadas mas em arcos redondos. Aqui sentimo-nos em ambiente genuinamente medieval.
Para quando o renascimento das Termas de Castelo de Vide?
Na zona da Judiaria as ruas confluem a fonte quinhentista da vila. Trabalhada em mármore, contem as armas de castelo de Vide e de Portugal apresentadas por dois petizes. Anteriormente a fonte recebia esta excelente água medicinal recomendada para: Diabetes, afecções hepatovesiculares, hipertensão, doenças da pele tópicas, colites, litíase renal, anemias hipocrónicas, afecções ginecológicas (cf. Anuário 1963).
Depois a água mineral foi desviada para um edifício balneário construído por Ernesto e Camilo Corrodi, ao gosto de uma casa portuguesa alentejana, e que hoje infelizmente, se encontra ao abandono. Ainda hoje se conserva resistente, correndo a água nas hortas do outro lado da rua que delimita a vila. O edifício não servirá para as funções termais de lazer e medicinais mas com certeza daria para um restaurante alentejano ou bar de águas. A câmara tem projectado, a muito tempo, a construção de um novo centro termal, em terrenos anexos à Fonte da Mealhada. Sem dúvida que a par do seu património medieval, Castelo de Vide tem na água outra fonte de riqueza.
O carácter romântico da vila de Castelo de Vide, que é uma vila dos séculos XIV, XV e XVI perfeitamente conservada num conjunto único no País; associado ao seu castelo, a sua cerca muralhada, a sua judiaria com sinagoga, aos seus jardins, abastança de vegetação, clima ameno e proximidade da serra de São Mamede, tornou-a conhecida por “Sintra do Alentejo” (esta designação é atribuída ao rei D. Pedro V.
6 Locais a não perder na notável vila de Castelo de Vide:
-Castelo com o respectivo panorama de Castelo de Vide
-Judiaria com a sinagoga
-Fonte da Vila e balneário termal de Corrodi
-Cidadela medieval
-Praça Dom Pedro V
-Panorama da Nossa Senhora da Penha (*)

1- Fonte: Texto ligeirmanente adaptado do  Guia de Portugal-Estremadura, Alentejo, Algarve. 1927- Reedição da Fundação Calouste Gulbenkian

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