Aldeia histórica de Linhares da Beira (Celorico da Beira) (***)

Aldeia histórica de Linhares da Beira (Celorico da Beira) (***)

Linhares da Beira obteve foral em 1169 concedido por D. Afonso Henriques e em 1855 perde este estatuto com a reforma administrativa liberal. Linhares da Beira situada na face noroeste do Parque Natural da Serra da Estrela  é uma das mais belas aldeias históricas  de Portugal. O castelo está implantado na encosta da Serra da Estrela a cerca de 820 m de altitude e domina todo o Vale do Mondego. A aldeia possui uma diversidade arquitetónica e artística notável, fruto do legado de várias épocas.

Toponímia

Linhares da Beira deve o seu nome ao Linho, que era muito cultivado nesta região.

Cronologia

Império Romano-Passava por Linhares da Beira uma estrada romana. Até meados do século XX a estrada ainda era percorrida por almocreves e por isso tem este nome.

900– Afonso III de Leão conquista Linhares aos mouros mas de imediato os muçulmanos a reconquistam.

1055/1064– Fernando Magno, aquando da sua Campanha das beiras, tê-la-á conquistado.

1169– D. Afonso Henriques atribui-lhe foral em que a localidade surge com o nome de Linares

1198 e 1217, forais sucessivamente de D. Sancho I e D. Afonso II.

Do século XIII, foram contruídas as duas igrejas que hoje ainda subsistem as (atuais igreja de santa Maria (atualmente igreja matriz) e a igreja de santo Isidoro (a atual igreja da Misericórdia) e a albergaria.

1291– D. Dinis reforma o castelo e em 1306 institui a feira. O castelo é hoje uma obra essencialmente construída no tempo do rei Lavrador.

Século XVI– No tempo do rei dom Manuel, que lhe outorga foral novo em 1510, a vila atravessa um período de desenvolvimento, ainda patente, no número elevado de edifícios desta época, alguns com janelas manuelinas belíssimas.

Dom João III promove-a a sede de condado e doa-a a dom António de Noronha, também alcaide-mor de Linhares da Beira que se manterá até ao 4º conde de Linhares.

1640-Este perde o título de conde de Linhares por ter seguido o partido de Filipe III.

1855-O concelho de Linhares de Beira é extinto.

1994– Linhares da Beira integra o Programa das Aldeias Históricas de Portugal.

O significado do brasão de Linhares da Beira
Em 1189 as tropas de Leão e Castela invadiram Portugal. Enquanto cercavam o Castelo de Celorico da Beira (*), o alcaide de Linhares da Beira aproveitou uma noite de Lua nova e marchou em socorro do seu irmão, o Alcaide de Celorico da Beira, evocando o auxílio de Nossa Senhora dos Açores. Uma batalha foi travada em Celorico da Beira com vitória lusa que obrigou o exercito leonês a recuar. Conta a tradição que este combate terá sido travado ainda de noite e ter-se-á dado na Lua Nova, mas a luz daquele astro subitamente recrudesceu de luminosidade sendo um poderoso aliado dos defensores do Castelo de Celorico da Beira (*). Por esta razão, as bandeiras de Linhares e Celorico da Beira exibem um crescente e seis estrelas. De aí ficou a tradicional romaria popular, a 3 de maio, à capela da Senhora dos Açores.

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Na fase das guerras Fernandinas. A povoação e seu castelo estiveram envolvidas na segunda guerra que o rei Dom Fernando moveu contra Henrique de Castela, tendo sido cercada e tomada pelas forças deste quando, invadindo Portugal pela Beira, no início de 1373, marcharam de Almeida para Viseu, Coimbra e daqui para Lisboa.

Com o falecimento de D. Fernando, na crise de 1383-1385, o alcaide de Linhares, Martim Afonso de Melo, tomou o partido de D. Beatriz e de João I de Castela. Vindo a cair sob o domínio do Mestre de Avis, este entregou o senhorio da vila de Linhares da Beira a Ega  Coelho, fidalgo de sua confiança (14 de Agosto de 1384), logo sucedido por Martim Vasques da Cunha que se iria destacar, à frente das gentes de Linhares, na batalha de São Marcos em Trancoso, na Primavera de 1385.
Linhares da Beira é uma das mais belas aldeias de Portugal
Ao vaguear pela povoação, de ruas labirínticas com o granito a dominar todas as construções, irá deparar-se com uma aldeia em que impera uma nobreza rústica de raro encanto. As habitações possuem características que rapidamente nos chamam a atenção: fachadas de granito, lápides com as datas referentes à sua construção, brasões e janelas manuelinas.
A estrutura da ocupação da antiga vila de Linhares da Beira conjuga o tipo de característica medieval (século XIII-XIV) com desenvolvimento significativo no século XVI. Neste século a vila terá atingido uma configuração próxima da atual.

Judeus em Linhares da Beira
Terá existido em Linhares, uma judiaria, tendo em conta os nomes que constam dos processos da Inquisição. Dadas as características prováveis das habitações que serviam para comércio e residência, a judiaria situar-se-ia próxima da casa do passadiço. As habitações têm sinais característicos mágico religiosos nos umbrais das portas.

A Casa do Judeu (do passadiço)
Por debaixo de um arco encontra-se a Casa do Judeu de estilo manuelino. Aqui poderá ter existido a sinagoga, que comunicava antigamente com as casas anexas, das quais permanecem agora apenas portas tapadas. No segundo piso existe um armário judaico. Nesta habitação é ainda possível observar um dos mais belos exemplos de janelas de estilo manuelino da povoação.

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O Castelo de Linhares da Beira (*)
O conjunto da aldeia é “coroado” pelo castelo que se situa a 800 metros de altitude.

Teve como função estratégica ser um baluarte avançado do sistema da Beira Alta durante os primeiros tempos da Nacionalidade, defendendo uma região onde a serra da Estrela, termina e que possibilitava um acesso rápido a Coimbra, Lisboa e restante litoral pela zona do rio Mondego. Por isso nesta linha de defesa temos os castelos da Guarda, Celorico da Beira, Marialva, Moreira do Rei, Trancoso, Linhares da Beira, tendo existido ainda outros castelos na região.

O castelo foi profundamente reconstruído no século XIII pelo rei dom Dinis.

Baluarte de defesa na época da reconquista e das guerras com Castela, o castelo ostenta duas fortes torres ameadas. A torre de menagem com balcões com matacães, abertos no último piso, de onde partem muralhas e a torre de relógio que tem no seu interior um relógio de pêndulo em funcionamento, segundo modelos do século XVII.

O acesso ao castelo faz-se por três portas, uma delas exígua, e por isso designada como porta da traição. No terreiro restos de cisterna.
O panorama das muralhas do castelo é notável, aberto para o vale do Mondego, e o planalto de Fornos de Algodres, onde se divisam a bonita aldeia de Algodres (*), o castro de Santiago (*) e o Castro da Fraga da Pena (*).

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Tábuas de pintura de Grão Vasco (*) em Linhares da Beira?
A Igreja matriz dedicada a Santa Maria, reconstruída no século XVII, mas de origem românica, guarda no seu interior três valiosas tábuas de pinturas quinhentistas, que poderão ser de um políptico perdido e que representam: A Adoração dos Magos, Descimento da Cruz e Anunciação.

O Fórum de Linhares da Beira

Numa praça de Linhares da beira, ergue-se outra preciosidade histórica, considerada exemplar único, falamos de uma rústica tribuna, ruína de um fórum medieval com as armas da vila, com um banco em redor, onde eram tomadas decisões comunitárias e se realizavam os julgamentos.

Mesmo ao lado defronte da antiga Casa da Câmara está o elegante pelourinho com esfera armilar de estilo manuelino em gaiola.

A Igreja da Misericórdia, a albergaria e a lenda da Dama Pé de Cabra
Existiam duas paróquias na aldeia, a de Nossa Senhora da Assunção (anteriormente de Santa Maria) e a de Santa Isidoro, que também sofreu transformações e onde em 1576, foi instituída a Misericórdia, tendo ao lado o seu hospital na Albergaria.
Este templo conhece profundas obras de remodelação em 1622, conforme data epigrafada no portal. No alçado lateral pode observar-se um vestígio da construção primitiva: a porta em arco quebrado, com as impostas salientes e o tímpano decorado com motivos geométricos. No interior deste monumento poderão ser apreciadas duas obras de pintores da Escola Grão Vasco, representando a Fuga do Egipto e Adoração e ainda uma bandeira de misericórdia com uma senhora da Misericórdia de da segunda metade do século XVI por um mestre desconhecido.
Em frente a albergaria, de origem românica funcionou como Hospital da Misericórdia, cujas gárgulas apresentam figuras zoomórficas que os habitantes ligam à lenda da Dama Pé de Cabra. Era nesse edifício, na janela baixa, junto à porta que funcionava a Roda. Linhares da Beira vai ter desde 1211 uma albergaria referida no testamento de Dom Sancho I, que ficou conhecida como albergaria do Mondego, que tinha como função socorrer os pobres e dar guarida aos peregrinos e viajantes que por aqui passavam. A velha albergaria a partir de 1576 passa a ficar sobre a administração da Misericórdia de Linhares da Beira. Na fachada podem observar-se um nicho com a imagem de S.to António e duas gárgulas relacionadas com a lenda da “Dama de pé de cabra”, uma representando o diabo e outra a cabra.

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A Lenda da Dama do Pé de Cabra

“Vivia D. Lopa numa casa em Linhares. Era muito boa. Tinha uma criada de quem gostava muito, mas era o Diabo, sem a ama o saber.
D. Lopa achou-se doente e precisava de se confessar. Por milagre de Deus, apareceu no povo um frade, que era Santo António, mas ninguém o sabia. D. Lopa quis confessar-se a ele, mas o frade disse-lhe que só a confessava se ela mandasse embora a criada.
— Isso não faço eu, que é a melhor criada que tenho tido.
— Venha cinza ou farinha.
Veio a cinza, a criada passou por cima e ficou assinada na cinza a forma do pé de cabra do Diabo. O santo fez-lhe os exorcismos e ele desapareceu e arrebentou lá fora, ao pé de uma figueira. Disse: APRA! («apre») e esta palavra ficou gravada numa pedra da calçada. Na tal casa está a imagem de Santo António num nicho, em alusão à lenda.”1

A história fantástica da dama com pé de Cabra, aparece-nos com versões distintas nos contos Lendas e Narrativas, elaborada por Alexandre Herculano, cuja lenda teria sido extraída do livro de Linhagens do Conde D. Pedro e em outra versão surge n aldeia Histórica de Marialva, em que a narração se desenrola num edifico que hoje esconde um templo romano dedicado a Júpiter ou em outra lenda de mouras com pés de cabra na Torre dona Chama (Mirandela).

Para além do interesse histórico e estético, Linhares da Beira é a par da Serra de Alvaiázere (*), um dos melhores locais para a prática do parapente no nosso país.
Linhares da Beira é uma das mais belas de todo o país e merece todo o nosso carinho e destaque.

1-VASCONCELLOS, J. Leite de Contos Populares e Lendas II Coimbra, por ordem da universidade, 1966 , p.655

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