Loggia da Igreja da Misericórdia de Beja (*)-Um bocadinho da Praça de São Marcos de Florença no Baixo Alentejo?

A loggia da igreja da Misericórdia de Beja é única em Portugal e é um óptimo exemplar da arquitectura maneirista, inspirada na famosa loggia da Praça de São Marcos em Florença (*****).
Foi inicialmente projectada para açougue municipal (local onde se vende carne), contudo a sua beleza e finura era tanta que rapidamente se considerou ser demasiado nobre para funcionar como mercado, adaptando-se o edifício a sede da Santa Casa da Misericórdia, sendo depois adaptado a igreja.
Foi por meados do século XVI, que o Infante D. Luís (filho de Dom Manuel I) ordenou a construção de um faustoso edifício em Beja, no intuito de aí instalar os açougues municipais. No entanto, depois de já iniciada a edificação do espaço, cuja traça se atribui ao arquitecto Diogo de Torralva o duque decidiu alterar o destino do novo espaço, determinando que “o grande edifício de pedra que mandei fazer para o matadouro na praça, o qual Deus parece ter desejado tão belo quanto mal aproveitado era para tão baixa função” deveria ser a nova igreja da irmandade da Misericórdia local.
A adaptação constou do entaipamento com alvenaria das arcadas e o acrescento que viria ser a zona da capela-mor e onde se encontra a actual casa do artesanato.
A igreja é profanada, passando a funcionar como oficina municipal, em 1927 é construído um depósito de água de abastecimento à cidade e o mesmo instalado na cobertura da igreja.
A loggia de Beja volta ao seu aspecto inicial
Em 1946 a DGEMN, após se ter retirado o pouco recheio decorativo, procede ao desentaipamento das arcadas de modo a recriar, 400 anos depois, as linhas renascentistas iniciais da loggia de Beja. Do seu recheio realça-se o púlpito e quatro tábuas com cenas da vida de Cristo pertencentes ao retábulo-mor, executadas em 1564 pelo pintor eborense António Nogueira, que se encontram no Convento da Nossa Senhora da Conceição (Museu Regional de Beja) (**). Na capela mor temos hoje um posto de artesanato local de boa qualidade.
O edifício é composto pela loggia, quadrangular, pela capela-mor e dependências de planta rectangular.
A fachada é composta pela imponente loggia com três arcos, uma loggia de aparelho rusticado inspirada, na gravura de Serlio que reproduzia o piso médio do anfiteatro de Verona e que também influenciou a já referida loggia de Florença.
“As suas arcadas, que bem ao gosto maneirista se apresentam profundamente marcadas na sua verticalidade, criam um conjunto de nervuras (fazendo ainda lembrar a linguagem manuelina) apoiadas em colunas coríntias de nítido gosto clássico” 1.
De planta quadrada aberta por arcos, o interior é muito belo, constituído por um conjunto de 9 lanços de abóbadas sustentadas por colunas muito esbeltas com capitéis coríntios, jónicos e compósitos ricamente decorados. O fecho das abóbadas com nervuras provindas das colunas é feito de elementos naturalistas.
Na parede de fundo, antecedido por escadas, murete e gradeamento, está um portal, com linhas clássicas muito simples, que anteriormente estava colocado no início da igreja. Um silhar de azulejos seiscentistas foi colocado nesta parede, bem como no murete que separa a última arcada das duas primeiras da galilé.

Apesar de todas as vicissitudes que sofreu, e das quais reassumiu no século XX, o açougue de Beja é um emblemático e belo exemplar da arquitectura de transição entre o Renascimento e o Maneirismo em Portugal.

Conjunto urbano da Praça da República (antiga Praça Dom Manuel I)
A monumental loggia fecha num dos topos a Praça da República de Beja, que começou por se chamar Praça Nova para depois ser conhecida pelo nome do responsável da sua existência, o rei dom Manuel l. Este rei elevou Beja a categoria de cidade e dotou este espaço, quando ainda não era rei e sim duque de Beja, de um novo chafariz, de pousadas e de um pelourinho, que hoje existe em réplica de boa qualidade do original. Grande parte do casario que rodeava a praça foi rasgada por arcaria contínua. A Praça tornou-se o principal espaço público externo da cidade. As arcadas foram em parte demolidas ou entaipadas e recentemente procedeu-se a obras de restauro que permitiram recuperar alguns arcos. Também na praça estão portadas manuelinas, desde duas com simples arcos canopiais, até uma outra de vão duplo debruada por um cordão e dotada de volumosos capitéis. A marcar a importância da Praça está hoje aqui instalado os Paços do Concelho. Todo o espaço tem muito carácter e está bem recuperado, mas precisa de ressuscitar sob o ponto de vista humano.
Junto ao logradouro do Conservatório Regional do Baixo Alentejo encontrou-se muito recentemente o maior Templo Romano da Península Ibérica. O fórum romano situava-se entre a Praça da República a rua da Moeda e a rua dos Escudeiros.
A descoberta apenas foi possível devido ao incêndio, derrocada e posterior demolição do edifício dos Serviços Técnicos da Câmara Municipal de Beja, situados na Rua da Moeda rua que colocaram a nu vestígios do que pode ser um grande e importante Templo Romano. Bem razão tem o povo quando diz que por vezes “há males que vêm por bem”.
1) Texto ligeiramente adaptado de Catarina Oliveira no site do IPPAR.

You may also like...

(3) Comments

  1. Joana

    Adorei estava demais!!!!!!!!!!!

  2. leonel borrela

    Antes de mais, quero dar-lhe os parabéns pela tentativa de valorização da cidade de Beja através de um dos seus monumentos mais originais: a extinta igreja da misericórdia que o mesmo é dizer “loggia” renascentista.Contudo, como não basta copiar ou ter como base os textos bastante imprecisos, no que a Beja diz respeito, do antigo IPPAR/DGEMN, permita-me algumas correcções.
    O espaço original da loggia é perfeitamente identificavel. Sobre planta rectangular, possuia três arcos no alçado principal e dois em cada alçado lateral. É a reforma, já maneirista, que aumenta o volume do edificio,com mais um tramo, para o adaptar a igreja (mesmo esta teve dois períodos distintos de obras, um primeiro, no início da segunda metade do século XVI e, um segundo, no segundo quartel do século XVII. Cf. BORRELA, Leonel – “A igreja da Misericórdia I,II e III” in Diário do Alentejo de 17, 24 e 31 de Janeiro de 1997).
    Considera, devido a erros de pontuação,D. Manuel I,[não foi] Prior do Crato (compreendemos que se refere a D. Luis, mas, entre parentesis curvo, o que vem no texto diz respeito a D. Manuel). O edificio, apesar das alterações que sofreu, tem o aspecto civil de uma loggia do renascimento, como a de Florença,seguindo a influência das construções romanas, algumas estudadas por Sérlio, por que razão se lhe há-de chamar galilé se o espaço, como templo, nem é sagrado? Quanto aos capitéis há coríntios, jónicos e compósitos, sendo estes, com atlantes a suportar os ábacos, nas colunas centrais que irradiam as nervuras em leque,os mais espectaculares.
    Os filhos de D.ManuelI (D. Fernando, D. Luis e D. João III)foram das personalidades mais cultas na Europa do século XVI. As suas encomendas e os cuidados postos nelas pelos seus executantes, revelam, além do grande poder económico, a sua cultura, como se pode atestar pela extraordinária “História iluminada do infante D. Fernando”, desenhada por António de Hollanda e pintada por Simão Bening, pela “igreja” renscentista da Conceição, na encosta de Tomar, construída para mausoléu de D. João III,e pela singular loggia de Beja, entre outras obras muito menos conhecidas.
    Cumprimentos LB

  3. LEONEL BORRELA

    Vê-se que o texto foi corrigido, conforme dissemos, pois já não constam as imprecisões que lá figuravam. Contudo, julgamos que seria de boa índole, o agradecimento aqui, nos comentários, e o aconselhamento à leitura do nosso reparo. Já que a Catarina refere a fonte do IPPAR, tb deve referir as outras fontes. Cumprimentos e obrigado LBorrela

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *