Miradouro Bandeira (Figueira da Foz) (*) – Um dos mais belos miradouros da finisterra portuguesa

Miradouro Bandeira (Figueira da Foz) (*) – Um dos mais belos miradouros da finisterra portuguesa

O Miradouro da Bandeira é um dos mais dos mais belos miradouros da finisterra portuguesa.

Desde Espinho até a São Pedro Muel, com ínfima interrupção na praia de Pedrogão, a faixa litoral é baixa, larga e arenosa, interrompendo-se com monumentalidade na serra da Boa Viagem, Cabo Mondego, onde a costa se torna alta, escarpada, talhada nos calcários, margas e grés Mesozóicos e com o topónimo significativo de boa viagem, para quem em alto mar avistava aquele imenso “cetáceo” geológico.

Situada a norte da Figueira da Foz a serra, que chegou a ser um promontório ainda mais saliente, com o mar a norte e a sul deste acidente orográfico a penetrar mais, teve uma ocupação pré-histórica intensa e tem uma geologia jurássica importante, de tal forma que se criou em 2007 o Monumento Natural do Cabo Mondego (ver aqui). A Serra da Boa Viagem apresenta-se assimétrica, ou seja, mais larga a Oeste e torna-se mais estreito para Este ao mesmo tempo que vai diminuindo de altura neste sentido.

A serra da Boa Viagem deveria constituir um lugar sagrado, conforme parecem atestar diversos megálitos subsistentes na serra e que se encontram muito degradados com a exceção do Dólmen das Carniçosas, pois seria um dos limites da terra para quem praticasse o rumo de nascente para poente acompanhando o sol. Topónimos como o alto da Vela remete-nos para um posto de vigia (vela para velar), mas não é despiciente, mas de remota hipótese, ser um lugar onde se cultuava Baal e os seus avatares (o Deus supremo fenício) ou um dos seus derivados proto-históricos (Bel), nome depois corrompido para Vela.

Serra da boa viagem-miradouro da bandeira

O miradouro da Bandeira situa-se a noroeste da serra da Boa Viagem, forma uma fraga com 250 m de altura, quase vertical, sobre o mar e a costa formando a “escarpa da Bandeira” em que há uma quebra morfológica da vertente norte da Serra da Boa Viagem.

No miradouro da Bandeira, verifica-se que nos calcários e margas (mais ricas em argila) ocorreu erosão diferencial, devido à erosão mais fácil das margas que dos calcários, o que originou o aspeto “de degraus” da escarpa. Encontramo-nos em rochas calcárias Batoniano (167,7 -164,7 milhões de anos) formados em ambientes marinhos e levantada devido aos movimentos alpinos.

Neste ponto elevado com a costa a espalhar-se para sul e para norte, a função de vigia foi naturalmente escolhida e mal se viam barcos duvidosos, talvez de pirataria, na parte norte era hasteada uma bandeira, que avisava a parte sul no local do miradouro da Vela, sendo aqui hasteada outra bandeira para avisar a população de Buarcos e da Figueira da Foz. Também provavelmente ocorria o oposto para indicar os perigos a população de Quiaios.

O sítio passou a chamar-se Miradouro da Bandeira e dali se avista toda a planície costeira que parece desenhada em arco de areia e espuma do mar em linha branca, seguida de um denso pinhal, que tem sido fustigado pelos incêndios para o interior, formando a região da Gândara, território literário de um dos maiores escritores portugueses do século XX, Carlos de Oliveira. Vê-se ainda Quiaios e as praias da Tocha e de Mira e as serras do Buçaco e do Caramulo. Vale a pena caminhar mais um pouco e ir mais próximo da arriba ao vértice da Bandeira, ver uma maior amplitude panorâmica.

miradouro da Bandeira

“Associado a este miradouro temos a figura de um empenhado regente florestal de Leiria, Manoel Alberto Rei (1872-1943), que, por iniciativa própria, propõe transformar a serra da Boa Viagem numa zona turística e consegue motivar quem decide.

A florestação inicia-se há 100 anos (1913), é aberta a estrada entre Buarcos e é construído o abrigo de montanha que hoje é um restaurante.

Não admira que tenha pertencido à Comissão de Estética da Câmara da Figueira da Foz e vale a pena ler a sua clara intenção e a sua sabedoria em relação a este sonho de tornar a costa mais bonita através das árvores, dos percursos e apoios turísticos. Um visionário inspirador para o nosso conturbado tempo pós-industrial.

“Eu sabia, tanto como agora, que a semente uma vez lançada à terra, jamais deixará de, pelo menos em esforço coletivo, fazer brotar mananciais de riqueza que o homem inteligente pode fazer canalizar em proveito da melhoria das suas condições de vida.

E assim foi que, iniciando em 1913 os trabalhos de arborização, se fizeram as estradas que hoje atravessam a Serra em todas as direções e se cobriu de verdes pinheiros os montes e as planícies que para norte e para sul, não passavam de extensos e estéreis areais.”  (Rei, Manuel A., Sexta reunião Magna de Rotários Portugueses, Figueira da Foz, 1941).” (1)

O miradouro da Bandeira e a restante serra da Boa Viagem é uma das mais grandiosas finisterras portuguesas e deveria merecer um outro carinho por todos os portugueses de modo a ser requalificada.

 Referências adicionais- Em vários artigos publicados no jornal Público, na secção do Fugas, são apresentados alguns dos mais belos miradouros de Portugal, onde se inclui o miradouro da Bandeira (ver aqui).

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