Pedra Bolideira, um mistério de Chaves (*)

Pedra Bolideira, um mistério de Chaves (*)

Na aldeia da Bolideira, a 18Km de Chaves, na estrada Nacional 103, existe um insólito rochedo que atrai romarias curiosos e turistas. É um enorme penedo granítico, com cerca 30 toneladas que abana e pode ter um grande significado mágico/antropológico. Foi rachado ciclopicamente ao meio por causas, provavelmente naturais em passado recente (período histórico ou mesmo na pré-história), como atesta o seu tipo de fratura fresco. Ainda recentemente ouvi contar que um sismo a teria partido ao meio. Talvez, porque a Pedra Bolideira está no bordo Este da veiga de Chaves, que faz parte de um alinhamento tectónico importante que vai até Penacova, próximo de Coimbra, soerguendo as Montanhas Ocidentais, em Trás os Montes e no centro de Portugal, e por isso Chaves tem uma elevada sismicidade e águas termais a 76 graus celsius, mas isto são contas de outro rosário, que narrarei quando descrevermos as termas de Chaves.

pedra bolideira chaves

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A “Pedra Bolideira”, partida ao meio tem forma irregular e mais de 3 m de altura e cerca de 10 m de comprimento e largura, com a particularidade de pesando várias toneladas, uma das suas partes, ser capaz de se mover, em movimento oscilatório, com um empurrão de qualquer pessoa”. (3)
O seu nome quase tudo diz, porque bulir é agitar, mover, tocar levemente.
A Pedra Bolideira é uma “Pedras Baloiçante”, com valor para usar esta denominação com letra maiúscula. Estes afloramentos graníticos impactantes existentes na morfologia granítica foram criados na natureza pela erosão, mas será que é mesmo assim?
As pedras bulideiras são frequentes na paisagem granítica de Portugal, destacando-se, entre elas as de Alijó, Chaves, Macedo de Cavaleiros, Montalegre, Candoso (Vila Flor), Sezures e na Carrogozela em Tábua, aqui já no distrito de Coimbra.
Na literatura arqueológica de finais do século XIX e inícios do século XX encontraram-se referências às Pedras Baloiçantes como um testemunho pré-histórico ao mesmo nível dos menires ou antas.

Pedra Baloiçante em Chaves
Como se referiu “estas pedras são fruto da erosão natural, mas é provável que algumas delas, pese embora o equilíbrio precário que já deveriam ter tenham sido afeiçoadas pela mão humana de modo a produzirem um efeito oscilante”. (1)
Este facto não é difícil de provar uma vez que as formas graníticas tendem para o arredondamento e a existência em algumas fraturas angulosas e a face plana, como que cortada e pressupõe intervenção humana de modo a criar-se um equilibro instável que as leva a abanarem
“Embora baloicem, as pedras bulideiras não rolam e, portanto, não mudam de lugar e isso deve-se ao facto de os respetivos centros de gravidade se encontrarem abaixo dos centros geométricos dos respetivos blocos, como nos bonecos “sempre-em-pé”. (2)
Não se pode excluir a possibilidade de algumas destas pedras terem uma função mágico/religiosa, isto é, terem sido eleitas como lugar especial qualificado por causa da estranha propriedade oscilante.

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Antes da criação da Geologia profunda nos séculos XVIII e XIX, por James Hutton (1726-1797) ou Charles Lyell (1797-1875), o que significaria para um simples humano uma rocha com tão estranha e grandiosa forma, ponho-me a imaginar como não tendo qualquer conhecimento de geologia e as explicações para a sua existência seriam as mais fantasiosas.
Estas “Pedras mágicas” na paisagem não são Deuses, mas para os povos antigos e mesmo para algumas pessoas atuais, poderiam ser uma via eficaz para uma transcendência divina.
“Este facto nada tem de extraordinário, uma vez que outras pedras, estas sem qualquer propriedade dinâmica, suscitariam o estabelecimento de cultos e até de santuários, que atravessaram os tempos pré-históricos para chegar aos nossos dias como lugares onde se observam cultos litolátricos” (1), como são exemplo a Pedra dos Namorados em São Pedro do Corval (Reguengos de Monsaraz) ou a Pedra do Sino, em Celorico de Beira.

Muito existe a estudar nestas Pedras Baloiçantes, como por exemplo fazer trabalhos arqueológicos nas cercanias, investigar lendas associadas, procurar gravuras rupestres como fossetes ou mesmo inscrições mais elaboradas, estudar-se se as rochas são 100% por cento naturais ou tem a sobrepor-se afeiçoamento humano…
Voltando a Pedra Bolideira de Chaves, hoje esta atrai milhares de turistas por ano, que vão testar a sua capacidade de sujeitar a natureza; é imprescindível achar o local certo para ter a capacidade de a abanar, o sentido é dos mais significativos. O Ser Humano para se desenvolver como espécie teve a necessidade feérica de dominar a natureza e simbolicamente abanar um penedo com dezenas de toneladas, por mais franzino ou idoso que seja o simples mortal, este revela um enorme poder, o que faz de nós sentirmo-nos como semideuses.  Este poder traduz-se num estremecer emocional, ou seja um “friozinho no estômago” a quem se arrisca a tal gesta. Tal fascínio revela que dominamos o mundo da Pedra Bruta, tentamos afeiçoa-la para a dominar num jogo lúdico transcendental, que em algumas pedras pode apelar  ao oracular e a prece abonatória. Esta Pedra Bolideira é uma manifestação litolátrica do espírito do lugar, reinvestidos simbolicamente pelo Homem.
Eis a lenda da descoberta da Pedra Bolideira
“Conta que o fenómeno do bulimento da pedra foi descoberto um dia (em data imprecisa) quando um pastor apascentava os seus animais e reparou que um carneiro ao coçar os chifres na pedra a fazia mexer. Para confirmar o que seus olhos viam, o pastor resolveu colocar uma pequena vara de giesta entre o penedo movediço e um outro que estava fixo na base. Confirmou então que essa vara arqueava quando empurrava o penedo.
O facto é que a tal vara está sempre lá para que um fenómeno físico de equilíbrio se verifique e nos faça pasmar.” (2)
Também se dizia que uma das fendas rachadas apresenta a forma de uma planta do pé de um gigante, mas estórias de gigantes pantagruélicos empurram-nos para outros mundos mágicos que para aqui, por enquanto não são chamados.
Referências adicionais:
(1)-Paulo Pereira-Lugares Mágicos de Portugal – Espírito da Terra-Círculo de leitores, 2005
Neste sétimo título da coleção Lugares Mágicos de Portugal, obra que perdura como uma referência, ficará a conhecer todo o fascínio dos calendários sagrados e das festas e peregrinações de Portugal: dos cruzeiros aos caminhos de Santiago; das pedras baloiçantes às grutas e mouras encantadas; das aparições aos cultos dos santos.
(2)-Ótimo blog sobre Chaves, a ler com deleite. (aqui)

3- https://chavesandaround.wordpress.com/2015/02/25/paragem-pela-pedra-bolideira/
As fotografias também foram retiradas deste blog, uma vez que em abril de 2018 aqui estive e a chuva era torrencial, não conseguindo descortinar onde se empurrava o “raio” da Pedra. Um dia lá irei e as fotografias já serão das minhas.

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2 comentários Pedra Bolideira, um mistério de Chaves (*)

  1. Antonio Gabriel says:

    Excelente abordagem ao tema, pela relevancia locar, mas também no contexto nacional da mesma. A informação técnica e enquadramento histórico, fazem desta leitura uma aula muito importante, seja na óptica de quem já conhece como eu, ou de quem a pretende visitar.
    Obrigado!

  2. maria cecilia says:

    Esta e outras pedras podem-se ter partifo pela acção de um raio

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