Mosteiro de Santa Cruz -Coimbra(***)(I)-O que ainda existe!

Mosteiro de Santa Cruz -Coimbra(***)(I)-O que ainda existe!

O Mosteiro de Santa Cruz, pertencente a Ordem dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho-da Igreja Católica Romana, seguia uma regra instituída a partir dos ensinamentos do filósofo Santo Agostinho. Os seus membros são chamados cónegos pretos numa referência à cor do hábito de manto que usam, ou Crúzios devido à sua casa principal em Portugal ter sido no Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra.
Começou a fazer-se em 29 de Junho de 1131, no exterior da cerca de Coimbra, no sítio dos Banho Régios, pelo arcediago D. Telo.
O altar-mor do primitivo edifício monástico foi sagrado, cerca de 1150, pelo bispo D. João Peculiar (este corou dom Afonso Henriques como Rei de Portugal. S. Teotónio foi o primeiro Prior do Mosteiro (e primeiro Santo de Portugal) e com outros religiosos da ordem,foram os verdadeiros guias espirituais e conselheiros do nosso primeiro rei e com isto tiveram papel primordial na génese do reino de Portugal. A instituição recebeu muitos privilégios papais e doações dos primeiros Reis de Portugal tornando-se a mais importante casa monástica do reino a par do Mosteiro de Alcobaça, esta pertencente aos monges de Cister.
Obteve diversos privilégios régios, entre os quais o de estar isento da jurisdição episcopal. A paróquia de Santa Cruz foi criada ao redor do edifício monástico, com sede na sua igreja, estando sob a alçada do mosteiro.

Mosteiro de Santa Cruz Grão_Vasco,_Pentecostes_da_capela_da_portaria_do_mosteiro_de_Santa_Cruz_de_Coimbra,_1534-35,_assinada_Velasco

Mosteiro de Santa Cruz-Pentecostes

Em 1185 o rei dom Afonso Henriques escolhe-o para seu descanso eterno conferindo-lhe o estatuto de primeiro Panteão Real, onde também se encontra o túmulo de dom Sancho I.
Entre a sua fundação (1131) e a sua extinção (1834), mediaram 700 anos, o mosteiro protagonizou uma história de enorme relevância na afirmação de política, religiosa e cultural de Portugal e na produção e irradiação de conhecimento e que esteve na génese no século XVI, no estabelecimento em definitivo da Universidade em Coimbra.

A extinção das ordens religiosas, decretadas em 1834, pelo regime liberal, e a apropriação dos seus bens pelo estado, foi o maior crime cometido contra o Património Nacional, até ao final do século XX. Agora o triunfo da importância do lucro, tem sido causa de terríveis maleitas à estética e ao património natural e cultural de Portugal.
Desta extinção, no Mosteiro de Santa Cruz, muito foi destruído, algo foi transformado, mas felizmente muito ainda existe, que merece ser conhecido, defendido e divulgado.

Políptico_do_Mosteiro_de_Santa_Cruz_(Cristóvão_de_Figueiredo)

Políptico_do_Mosteiro_de_Santa_Cruz_

Património edificado ainda existente:
-Igreja de Santa Cruz (***)
Com destaque aqui para o cadeiral Manuelino (***), o Claustro da igreja (***), os túmulos de Dom Afonso Henriques e Dom Sancho I (***), o púlpito (***), painéis de azulejos da igreja (*) e a capela de São Teotónio (**)
-Claustro da igreja (***)
-Parte central do claustro do Jardim da Manga (*)
-Refeitório (atual sala de exposições).
-Celeiro (atual PSP)
-Enfermaria (atual Liceu Jaime Cortesão).
– Jardim da Sereia (**)
-Colégio de Santo Agostinho (ou Colégio Novo ou Colégio da Sapiência) onde agora se encontra a Misericórdia de Coimbra e a Faculdade de Psicologia. (**)

-Algumas das obras de arte mais notáveis de Coimbra e Portugal e que se encontram espalhados um pouco por todo o País, mas principalmente no Museu Machado de Castro pertenciam ao mosteiro. São exemplos a escultura o Cristo Negro (***), A última Ceia de Hodart (***), e a famosa Deposição do túmulo (**) a do escultor João de Ruão.
Ainda no mosteiro existem o quadro do Pentecostes de Grão Vasco (**), o Braço-Relicário (*), dalmáticas (*), livro encadernado do século XVIII com a história dos Mártires de Marrocos. Também espalhados por Coimbra e Lisboa, estão quadros do políptico, feito em 1525 por Cristóvão de Figueiredo (***), para o retábulo-mor da Igreja de Santa Cruz de Coimbra. Outra obra extraordinária é a Cruz de dom Sancho I, também no Museu Nacional de Arte Antiga .
Parece-nos que o Mosteiro de Santa cruz deveria interligar-se com outras instituições, para de algum modo ter acesso e divulgação das suas obras de arte espalhadas por Coimbra e Portugal. Parece-nos que uma visita ao Mosteiro de Santa Cruz terá que se interligar com o Museu Machado de Castro e o Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa, para ficar completa.
Impressionante é saber que no Mosteiro de Santa Cruz foi um imenso estaleiro onde trabalharam mestres de obras, escultores, pintores, entalhadores, ourives, prateiros e alfaiates nacionais e estrangeiros – Ali conviveram os grandes mestres nacionais, muitos deles forasteiros, do gótico final, da Renascença e do maneirismo passaram por Santa Cruz Nicolau Chanterene, Machim, Hodart, Boitaca, Diogo de Castilho, Diogo Pires-o-Novo, Vasco Fernandes, Garcia Fernandes e Cristóvão de Figueiredo, Carlos Seixas ou Luís de Camões.

O seu scriptorium foi o mais notável de Portugal, sobretudo no século XII e dele saíram valiosos manuscritos, muitos dos quais se encontram hoje na Biblioteca Municipal do Porto, para onde foram levados por Alexandre Herculano e outros recolhidos por Costa Bastos no Arquivo Nacional da Torre do Tombo. Entre os códices saídos do seu scriptorium conta-se, por exemplo, uma versão do «Livro das Aves» (hoje localizada na Biblioteca Municipal do Porto). Possuiu uma escola monástica, onde se concediam graus, à semelhança do que era feito na Universidade de Coimbra.
Mas nem tudo são rosas porque muito desapareceu tanto em património edificado, como no património artístico, espiritual e filosófico, sendo o caso de:
-Edifício da receção do Mosteiro, que continha um claustro e onde agora está instalada o edifico da Câmara Municipal.
-Todo o horto que ia desde a Cruz de Celas, descendo as avenidas até culminar no local da igreja.
-Quase toda a cerca do mosteiro que inclui a monumental torre românica de Santa Cruz, demolida em 1935 (ler aqui).
– O edifício de entrada, de receção e que continha mais um claustro.
O domínio do mosteiro de Santa Cruz, não se ficava apenas por Coimbra, pois ainda perto da cidade, onde hoje existe a universidade privada Vasco da Gama, ficava o Mosteiro de São Jorge de Milreu e no concelho de Montemor o Velho o convento de Almiara, que se encontra abandonado e degradado, e ainda na semana, em Melgaço estive no mosteiro românico de Paderne (**), também ele património do Mosteiro de Santa Cruz.
– E não me posso esquecer que a génese da rua da Sofia também está intimamente ligado os Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra.
Se queres verdadeiramente amar algo, tens de o conhecer, sendo por isso a minha obrigação, escrever para todos sobre este verdadeiro tesouro europeu que deveria fazer parte da lista Património Mundial da Humanidade.

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