Museu Arqueológico do Fundão (*)

5 Razões porque deve visitar o Museu Arqueológico do Fundão

1-Por ser um espaço de defesa e salvaguarda da arqueologia da Cova de Beira
2- Pelo seu rico património arqueológico de uma maneira geral,mas em que destacamos:
3- A Estela do Telhado;
4- A Estela-Menir das Corgas
5-A Ara de Trebaruna

O Museu Arqueológico do Fundão (Municipal José Monteiro) localiza-se no seu centro histórico, no solar Falcão d’Elvas e a estrutura é originária do século XVI. As obras de maior monta foram feitas nos séculos XVIII e XXI que permitiram a abertura do Museu em 2007.
Penso sempre que um espaço onde se vive é aquele que nos protege contra os elementos naturais e humanos que de forma consciente ou inadvertida nos tentam danificar-isto quando os inimigos não estão no seu interior. Se assim se passa com as pessoas o mesmo se passa com os objetos de arte que oriundos de uma região devem ter a sua “casa” nesse mesmo território.
Depois de estudados devidamente e se tiverem valor museológico devem ser protegidos e exibidos ao público em espaços adequados. É um erro muitos objetos patrimoniais com valor turístico serem movidos para outros museus (principalmente para o Museu Nacional de Arqueologia) onde ficam, por vezes encaixotados, em esconsas catacumbas no fundo de reservas, quando no seu concelho de origem poderiam ser uma mais-valia económica para o turismo local.
Talvez por essa razão decidiu o concelho do Fundão construir o Museu Arqueológico do Fundão para albergar o rico espólio que tem sido descoberto.
O Museu Arqueológico do Fundão para além de ser um sítio de exposição arqueológica, é também um pólo de dinamização cultural, científico e pedagógico.
“Dispõe de várias valências, sala de exposição permanente (que reúne peças arqueológicas que vão desde a Pré-história ao final do Período Romano) até ao espaço de exposições temporárias, passando pelo auditório, laboratório de conservação e restauro, biblioteca especializada em História e Arqueologia, um espaço Internet e cafetaria. “1
Museu Arqueológico do Fundão dispõe de uma sala de exposição permanente que reúne peças que permitem uma investida cronológica por três grandes períodos: Pré-história (Paleolítico, Mesolítico, Neolítico e Calcolítico), Proto-história (Idade do Bronze e Ferro) e Período Romano (povoamento, quotidiano e epigrafia).

Duas das mais importantes descobertas da arqueologia portuguesa no século XXI no museu arqueológico do Fundão

Entre o rico espólio do museu arqueológico destacamos 3 peças. Muito recentemente foi descoberta em maio de 2012 uma estela da idade do Bronze, com 2,70 metros de altura num terreno agrícola da freguesia do Telhado; é o maior monumento deste género descoberto até hoje na Península Ibérica. Pode aqui ver o vídeo sobre a estela do Telhado.
A descoberta desta estela a e do Mosaico com cenas da Eneida, em Alter do Chão, são das mais importantes da arqueologia portuguesa do século XXI sob o ponto de vista estético e turístico. Tão recente é a descoberta que ainda não tive o aprazimento de a visitar.
Estátua-menir no sítio de Corgas
Um outra achado recente, e este sim já vimos, foi a estátua-menir de Corgas, proveniente da aldeia de Chãos, freguesia de Donas.
A espetacular estátua do menir das Corgas, Identificada em 2008, corresponde a um reaproveitamento de um menir de cronologia neo-calcolítica em época posterior (Idade do Bronze).
Aconselho-o a reler alguns artigos já publicados no Portugal Notável sobre menires e o seu significado.
-Menir da Meada (Castelo de Vide)
-Menir do Vale Maria Pais (Penedono)
A estátua-menir de Corgas foi talhada num grande bloco de granito de cor bege e esculpida em duas faces, frontal e lateral. Apresenta forma ovóide com um comprimento de 2,80 m e uma largura máxima de 0,65 m. Possui uma longa fratura antiga na face não decorada. Trata-se assim de um menir fálico reaproveitado em época posterior, ao qual se procurou dar um aspeto antropomórfico, nomeadamente delimitando a zona da cabeça por uma “gola”.
Apresenta decoração em duas faces lateral e frontal. Fazem parte dos motivos representados uma figura bi-ancoriforme, uma espada, correias de suspensão e uma fossete.
Pela iconografia apresentada, podemos enquadrar este monumento no grupo das chamadas estelas alentejanas ou de tipo I da Idade do Bronze, uma cronologia atribuível a meados do II milénio a.C; ou seja depois da construção de um menir Neolítico, alguns milhares de anos mais tarde os homens reutilizaram-no e talharam um símbolo do poder da idade do Bronze. Esta civilização já era detentora do domínio da metalurgia, embora a posse de armas nessa altura fosse provavelmente uma exceção, se não mesmo um luxo, revelador do estatuto do seu detentor. A par destes elementos bélicos surgem os enigmáticos ancoriformes, talvez símbolos de poder.
A função deste tipo de monumentos não é ainda hoje pacifica entre os autores que os tem estudado. Para alguns têm uma função claramente funerária funcionando como tampas de sepultura ou segundo M. Varela Gomes como verdadeiras estelas, “estelas e não tampas” (2006, p. 50) colocadas na vertical junto à sepultura de indivíduos com um estatuto diferenciado, identificando assim os restos mortais de chefes-guerreiros.

Museu Arqueológico do Fundão com a Estela menir das Corgas
Estela do Telhado

Outros autores defendem para as estelas decoradas ou de guerreiro uma função de marcos de referência, visíveis na paisagem, assinalando recursos, vias de passagem ou limites territoriais de um grupo determinado.
Segundo estes autores poderão estar relacionadas com o mundo funerário, não no sentido apenas da indicação da sepultura, mas antes no sentido de comemoração ou heroificação do defunto, sendo referências visíveis na paisagem para aqueles que se deslocam por um território.
Às vinte cinco estelas completas ou fragmentadas conhecidas como estelas alentejanas enquadráveis na Idade do Bronze Médio do Sul de Portugal, junta-se agora este monumento encontrado no concelho do Fundão. E que pela sua localização e estado de conservação é um dos melhores originais de Portugal que merece por si só uma viagem ao museu arqueológico do Fundão.
Trebaruna- A Casa dos Segredos
Um outro do objeto marcante do museu arqeuológico do Fundão é a ara dedicada a Trebaruna que no século XIX foi descoberta na sua área urbana  conjuntamente com outra ara, a da Deusa Vitória. Trebaruna seria uma Deusa lusitana da idade do ferro que, com a chegada da religião romana, foi relacionada à Deusa Vitória, passando os dois cultos a serem celebrados em paralelo. Certo é que as duas aras são muito semelhantes e até foram encomendadas por um soldado chamado Tongio da aldeia histórica de Idanha-a-Velha (***). A ara da Trebaruna é mais antiga do que a ara da vitória. Como sabemos isto, pergunta o atento leitor? Este soldado foi à guerra e voltou e mandou fazer outra lápide. Agora  ele é um signifer, que é o porta estandarte, o homem que vai  intrepidamente à frente no combate. O valente Tonguius,  volta assim ao Fundão, depois de ter encontrado o êxito, a promoção e glória e ergue uma ara a Deusa Vitória.
A ara da Trebaruna tem a seguinte inscrição.
“Tongio, filho de Tongétamo, Igeditano, (natural da cidade romana que se encontra sob a aldeia histórica de Idanha-a-Velha) soldado, dedicou esta ara a Trebaruna, cumprindo de bom grado o voto que lhe tinha feito”
Segundo Leite de Vasconcelos, o genial autor de “Religiões da Lusitânia”, o significado do nome dessa Divindade seria “Segredo da Casa” ( do celta “Trebo” = casa; “Run = segredo, mistério”).
Ainda segundo o sábio da Ucanha, esta Deusa começou por ser um génio doméstico que habitava uma casa e que protegia os seus moradores, passando mais tarde a ser uma Deusa guerreira e evoluindo do de Guardiã do Lar para Deusa da Guerra ambas as funções poderiam ser concomitantes na mesma Divindade.

Provavelmente Trebaruna seria uma das principais deusas do panteão romano da idade dos Metais da Lusitânia. Relembro aqui uma solitária ascensão ao Cabeço das Fráguas (Guarda) (*), em que existe uma inscrição que para além de referênciar outros deuses, associa o sacrifício de uma ovelha com a  “Trebaruna”.
Qual a relação entre a Nike e o Museu Arqueológico do Fundão?
Já estávamos a tomar um cafezinho, quando voltei atrás porque não vi a ara vitória e quase jurei a pé juntos que ela estava no museu; ainda bem que a inquisição já não existe, porque a jura tinha sido falsa e assim não sei que sevícias é que não me fariam! Porque a ara soube depois, está no museu Nacional de Arqueologia.
Sou aficionado por basquetebol e ao longo destes anos tenho tido sempre umas sapatilhas com a marca Nike. Mas quantos saberão aquilo que calçam? Tenho que dar uma explicação aos compinchas que costumam jogar comigo, bem mas o leitor amigo como não prática tal desporto também tem aqui a oportunidade de saber da relação entre uma marca de vestuário desportivo e as vetustas pedras instaladas no museu arqueológico do Fundão
Pois Nike era uma deusa grega que personificava a vitória, representada por uma mulher alada (eis o símbolo da marca). Os romanos designaram o nome de Victória para Nice, daqui também nasce o nome da importante cidade francesa.
A marca Nike foi assim criada por inspiração e alusão direta à Deusa greco-romana, primeiro Nice e depois Vitória (esta  uma transposição romana da grega), obtendo dela o seu nome e o símbolo que é alusivo às asas dessa mesma divindade. Já agora mais uma nota, também era comum na antiguidade utilizar como saudação ou gesto de vitória um sinal que se fazia com a mão aberta unindo todos dedos à exceção do polegar, formando uma espécie de V assimétrico que ainda fazemos.
Para terminar não me posso esquecer de dizer que a ara da Vitória diz o seguinte:
Tôngio, filho de Tongetano, soldado veterano, poria-bandeira da coorte segunda dos Lusitanos, cumpriu de boa mente o voto à Vitória. Arduno, filho de Cominio, fez {este monumento)»
Enfim, o museu arqueológico do Fundão está de parabéns, porque ao trabalhar desta forma veio enriquecer e ampliar o património cultural notável de Portugal. Só falta mesmo é a Trebaruna estar junto à Vitória.
Referências adicionais:
GOMES, M. V. (2006). Estelas funerárias da Idade do Bronze Médio do Sudoeste Peninsular – A iconografia do poder. In Actas do VIII Congresso Internacional de Estelas Funerárias. Lisboa: Museu Nacional de Arqueologia (O Arqueólogo Português; suplemento 3), p. 47-62.
Banha, Carlos…-A estátua de Corgas (Donas, Fundão), contributo para o estudo da Idade do Bronze na Beira Interior (2009). Nota: temos este trabalho em PDF se desejar podemos envia-lo.
Contactos do Museu Arqueológico do Fundão:
Rua do Serrão 13-15 – Fundão
Tel: 275 774 581
geral@museuarqueologicofundao.com Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.
www.museuarqueologicofundao.com

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